Declaração à imprensa do presidente Lula após cerimônia de assinatura de atos Abuja, Nigéria

 

Abuja-Nigéria, 12 de abril de 2005

Eu gostaria, primeiro, de agradecer ao presidente Obasanjo, antes da assinatura do protocolo, pelo carinho com que fomos recebidos na Nigéria.

Dizer a vocês que pela manhã me reuni com o secretário-geral da Comunidade Econômica da África Ocidental, o secretário-geral Chambas, para discutirmos um pouco a relação da África com o Mercosul e a relação da África com a América do Sul.

Vocês ouviram, ontem, o presidente Obasanjo dizendo que vai consultar a Comunidade Africana para saber do interesse de fazer uma reunião entre América do Sul e Comunidade Africana. E nós ficamos de consultar a Comunidade Sul-Americana de Nações para saber da disposição de realizarmos essa reunião com a União Africana.

Nós ainda temos três países africanos para visitar: Guiné Bissau, Gana e Senegal. Eu penso que esta viagem para a Nigéria obriga o Brasil a pensar o mundo africano com mais ênfase. A Nigéria, como maior país de comunidade negra do mundo e um país com quase 150 milhões de habitantes, já é um extraordinário parceiro comercial do Brasil. O Brasil importa da Nigéria 3 bilhões, 499 milhões de dólares. E o Brasil exporta aproximadamente 500 milhões de dólares.

Primeiro, é da responsabilidade do Brasil, entendendo que política de comércio é uma via de duas mãos, em que você compra e vende e precisa haver um equilíbrio nessa relação, e entendendo que essa relação pode crescer muito mais do que é hoje, cabe a nós desafiarmos os nossos empresários para que visitem a Nigéria, para que descubram que tipo de parceria os nossos empresários podem fazer com os nigerianos, que tipo de produtos podemos comprar além do petróleo, e que tipo de produtos podemos vender além dos que já vendemos hoje.

Certamente o Brasil pode ter uma relação comercial infinitamente maior com a Nigéria, o Brasil pode exportar serviços, ciência e tecnologia, pode fazer com que a sua indústria de implementos agrícolas tenha uma participação mais ativa na Nigéria.

Eu espero que o encontro da Comissão Mista Nigéria-Brasil, que vai ser em junho aqui na Nigéria, possa fazer essas descobertas que tanto a Nigéria quanto o Brasil precisam, e que quando o presidente Obasanjo visitar o Brasil em setembro, nós já tenhamos uma realidade mais concreta das possibilidades comerciais, políticas e culturais entre Nigéria e Brasil.

Eu, particularmente, estou convencido de que essa relação do Brasil com o continente africano vai permitir que a nossa relação comercial continue crescendo, que os países em desenvolvimento tenham uma participação ainda maior na balança comercial brasileira, e que o Brasil possa ter uma participação maior na balança comercial da Nigéria e de outros países africanos.

Por isso, eu acredito que esta política do Brasil para a África seja uma política sem volta. O Brasil está definitivamente decidido a contribuir para que essa relação se aprimore, a cooperar com o fortalecimento da democracia e da paz no continente africano.

Da mesma forma que tivemos uma grande cooperação para a paz em São Tomé e Príncipe, vamos trabalhar para a manutenção da paz e o fortalecimento da democracia na Guiné-Bissau. Estaremos dispostos a trabalhar junto com todos os países africanos, coordenado pela União Africana e orientado pelas Nações Unidas, para cooperar numa consolidação da democracia do continente africano.

Por fim, eu acredito que o desenvolvimento da Nigéria, o desenvolvimento do Brasil, o crescimento da nossa relação comercial, pode gerar mais riquezas, pode gerar mais empregos e pode contribuir, decisivamente, para que possamos ter uma melhor distribuição de renda nos dois países. Era isso.

Respostas do presidente Lula a perguntas dos jornalistas Eduardo Scolesi (Folha de São Paulo), Sérgio Léo (Valor Econômico) e Celso Motta Teixeira (TV Rercord)

OBS: As perguntas não foram incluídas por estarem inaudíveis

Presidente: Primeiro, eu acho que o Brasil ganhou uma importância muito maior na relação com os países em desenvolvimento. E eu penso que a importância que o Brasil tem hoje obriga não apenas o Presidente a viajar, mas obriga, sobretudo, os ministros brasileiros das Relações Exteriores, Indústria e Comércio e, sobretudo, da Agricultura e da Cultura a viajarem o máximo que puderem viajar, porque política não se faz via fax, não se faz via telefone e não se faz via internet. Política é olho no olho é, como diria um bom brasileiro: tête-à-tête. As relações humanas são insubstituíveis, nada pode substituir. Eu posso mandar 500 e-mails para o presidente Obasanjo, mas, certamente, nenhum deles valerá por um aperto de mão entre dois políticos.

Presidente: Eu não tenho nenhuma dúvida de que não tem controvérsia que não tenha solução. Há, ainda, a herança de uma dívida contraída num determinado momento da história da relação Nigéria-Brasil, as empresas eram públicas e foram privatizadas, a dívida não é grande. E eu não tenho dúvida nenhuma de que logo, logo, nós teremos um acordo. Eu não tenho dúvida nenhuma de que haverá um acordo satisfatório entre Nigéria e Brasil.

O mais importante de tudo isso é que há disposição política da Nigéria e disposição política do Brasil e, quando os dois países têm vontade, as coisas se resolvem com muita facilidade.

Segundo, o Brasil é um país que tem, dentro das suas possibilidades, contribuído muito para financiar as nossas exportações, seja, por exemplo, o comércio de aviões, seja serviços, ora via BNDES, ora CAMEX.

Nós temos, dentro das nossas possibilidades, feito aquilo que é possível fazer. Não fazemos tudo o que queríamos fazer porque não temos todos os recursos que gostaríamos de ter, mas estamos fazendo mais do que habitualmente fazíamos.

Os resultados, nós estamos colhendo. Não é à toa que eu sou o Presidente que inaugura a primeira ponte entre Brasil e Bolívia, depois de 500 anos; não é à toa que eu vou inaugurar a primeira ponte, em 500 anos, entre Brasil e Peru; não é à toa que estamos financiando, via BNDES, vários projetos de integração da América do Sul. E, certamente, isso vale para os países da África.

Eu só quero lembrar que o comércio entre Nigéria e Brasil não é pequeno. Possivelmente, vocês não tenham recordado dos números que eu falei. Tem uma balança comercial de 4 bilhões de dólares.

Veja, a Nigéria é um parceiro comercial do Brasil, e o Brasil é o terceiro da Nigéria. E daqui para a frente, isso só tende a melhorar.

Presidente: Este ano eu tenho, agora em maio, viagens à Coréia e ao Japão, duas viagens extremamente importantes e promissoras para o crescimento da relação comercial do Brasil; eu tenho viagem à Escócia, para participar do G-8, no dia 8 de julho; tenho, no dia 14 de julho, viagem a Paris, no ano Brasil-França, que culmina com a queda da Bastilha, em 14 de julho. Nós ainda vamos ter que visitar a Rússia, a Itália, que nós não visitamos enquanto Estado brasileiro, (inaudível) comércio. E, depois disso, eu pretendo me dedicar a viajar mais pelo Brasil.

Um dado muito objetivo, nos dias de hoje, é que o mundo globalizado já não depende mais da relação dos países ricos com os países pobres. A relação comercial com os Estados Unidos e com a União Européia, embora seja extremamente importante, não tem o selo que tinha dez anos atrás. Hoje a nossa relação é mais plural, ela se dá fortemente com os países em desenvolvimento como, por exemplo, a China, a América do Sul, a África, o Oriente Médio. Vocês estão lembrados que, durante a campanha, eu dizia que ia criar uma Secretaria Especial de Comércio Exterior. Eu queria um mascate. Nós temos feito isso através do Ministério. Temos participado de todas as feiras, de todos os encontros, temos convencido os nossos empresários a viajar, temos participado de vários encontros. Vamos continuar fazendo isso porque o Brasil já foi descoberto; agora, nós precisamos descobrir os outros, não podemos ficar esperando que as pessoas apareçam no Brasil para comprar. Nós temos que viajar o mundo para vender, e é isso que estamos fazendo.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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