Palácio do Planalto, 18 de janeiro de 2006
Senhores ministros de Estado e autoridades integrantes da delegação Argentina e da delegação brasileira,
Meus amigos, minhas amigas,
Jornalistas presentes,
É com grande satisfação que recebemos hoje, em Brasília, o presidente da nação argentina, meu amigo e companheiro Kirchner. Sua visita de Estado ao Brasil é, acima de tudo, uma oportunidade de celebrarmos uma parceria fundamental e que alcançou a maturidade.
Sempre acreditei que nossos países estavam destinados, pela própria geografia, a serem parceiros. Achava que, apenas no futebol, nossa antiga rivalidade persistiria. Mas vejo que até nisso eu estava enganado. A escolha de um argentino, Carlitos Tevez, como melhor jogador do Campeonato Brasileiro de 2005 prova que, também no esporte, nossos países se ajudam e se complementam.
Esta visita de Estado, ao Brasil, do presidente Kirchner é mais do que uma retribuição pela viagem que fiz a Buenos Aires, em 2003. O encontro de hoje é também a celebração de uma parceria que ganhou maturidade e se consolida cada vez mais. Foi essa a mensagem de nosso encontro em Puerto Iguazú, novembro passado, no Dia da Amizade Argentina-Brasil.
O êxito de nossa parceria requer consultas cada vez mais estreitas. Não basta assinar acordos, é preciso garantir que eles sejam postos em prática. Por essa razão, decidimos estabelecer um mecanismo regular de encontros semestrais entre os presidentes. Por isso, também, estamos constituindo grupos de coordenação para acelerar a nossa colaboração estratégica em setores como transportes, agricultura e energia.
Estreitamos os nossos laços em temas como ciência e tecnologia, coordenação de políticas industriais, trabalho, saúde, intercâmbio militar, cultura, esporte, comunidades fronteiriças e migrantes.
Esses avanços não seriam possíveis sem uma parceria econômica cada vez mais sólida. Em 2005, o comércio bilateral já ultrapassou os 16 bilhões de dólares, um recorde histórico. É um comércio de qualidade dos dois lados, com forte presença de produtos manufaturados, contribuindo para a industrialização de nossas economias.
O Brasil é hoje o principal destino para as exportações de manufaturados argentinos, num valor aproximado de 5 bilhões de dólares.
As exportações brasileiras para a Argentina se concentram em bens intermediários e de capital, que são fundamentais para sustentar o forte crescimento argentino.
Temos consciência, no entanto, de que precisamos trabalhar para que nossas relações econômicas sejam sempre mutuamente benéficas. Desequilíbrios ocasionais em uma relação tão intensa são normais, mas não é do interesse nem do Brasil nem da Argentina que essas assimetrias se tornem estruturais.
Por isso, reiterei ao presidente Kirchner a disposição brasileira de colaborar na identificação de medidas que ajudem a acelerar a reindustrialização já em curso na Argentina. Estamos abertos a propostas para aperfeiçoar os acordos setoriais que temos em áreas prioritárias, como a automobilística.
A melhor resposta está na aceleração do processo de integração de nossas cadeias produtivas. Dessa forma, em conjunto com nossos parceiros do Mercosul, poderemos explorar as potencialidades de um mercado de mais de 200 milhões de consumidores.
Quando estive em Buenos Aires, em 2003, disse que precisávamos convencer empresários brasileiros a investir mais na Argentina. Vejo com satisfação que isso hoje é uma realidade. O Brasil tornou-se o quarto maior investidor na Argentina e seu primeiro parceiro comercial.
A Petrobrás está investindo na Argentina. A integração da infra-estrutura é essencial ao nosso progresso. Reiterei ao presidente Kirchner a decisão brasileira de disponibilizar recursos do BNDES e do Proex para o financiamento de exportações de bens e serviços para obras que formam a espinha dorsal de nossa integração.
A construção do gasoduto Uruguaiana - Porto Alegre, cujos detalhes estamos discutindo, ajudará a viabilizar o anel energético continental que decidimos construir durante a Cúpula da Comunidade Sul-Americana de Nações, em maio de 2005.
Concordamos que nossa relação bilateral é a pedra de toque para o fortalecimento do Mercosul e a consolidação da Comunidade Sul-Americana de Nações. Temos consciência de nossas responsabilidades na integração regional. Queremos que nossos parceiros do bloco estejam ativamente engajados nesses projetos.
Por isso, discutimos proposta de constituir consórcios em setores de ponta, por exemplo o de construção naval, onde os sócios do Mercosul possam juntar forças e complementaridades. Queremos que essa integração produtiva ocorra igualmente na indústria bélica, aeronáutica e no domínio espacial, entre outras.
Argentina e Brasil têm compromisso com a consolidação de uma área de paz e prosperidade na América do Sul.
Na seqüência das visitas que o presidente-eleito da Bolívia, Evo Morales, acaba de fazer a Brasília e Buenos Aires, Argentina e Brasil estão examinando formas de ajudar esse país irmão, contribuindo para sua integração plena na região e, sobretudo, o bem-estar do povo boliviano.
Reafirmamos também nossa determinação em cumprir a missão que as Nações Unidas nos delegaram no Haiti. Estamos desempenhando nosso papel. Graças à presença de forças sul-americanas constatamos que, apesar das dificuldades, estão dadas as condições para a realização das eleições naquele país.
Haiti e Bolívia são dois exemplos de como a estreita cooperação entre Brasil e Argentina pode ser benéfica para o progresso e a paz em nossa região. Nossa união potencializa ações entre países irmãos. Separados, o que podemos fazer é relativamente pouco. Juntos podemos levar adiante o sonho de uma integração sul-americana e latino-americana, baseada na paz, na justiça social e na democracia.
Nossos países alcançaram a estabilidade macroeconômica e superaram vulnerabilidades históricas. A decisão de nossos governos de liquidar suas dívidas com o FMI, em particular, reforça a determinação de Argentina e Brasil de redefinirem, de modo coordenado, seu lugar no mundo.
Vamos reforçar nossa colaboração em organismos financeiros multilaterais. Vamos juntar esforços para dotar o Mercosul e a Comunidade Sul-americana de Nações de instrumentos financeiros à altura do desafio da integração.
Nossa cooperação nas negociações comerciais tem sido exemplar: nas discussões da ALCA, na busca de um acordo entre o Mercosul e a União Européia e, sobretudo, na OMC.
Assim como fizemos durante a Conferência Ministerial de Hong Kong, vamos continuar a trabalhar juntos pelo fim dos subsídios e pela redução das barreiras dos países ricos aos produtos agrícolas do mundo em desenvolvimento.
Em tempos marcados por rivalidades e ódios irracionais, continuamos a dar demonstração de transparência e confiança mútua, que é modelo para mundo.
Estamos aperfeiçoando nossa colaboração nuclear no âmbito da Agência Brasileira-Argentina de Contabilidade e Controle. Queremos ampliar nossa cooperação nos domínios nuclear e espacial.
No plano político, nossas convergências em relação aos grandes temas internacionais são cada vez mais evidentes. Onde houver recuos ou percepções distintas, continuaremos a conversar com espírito aberto, dispostos a falar, mas, sobretudo, a ouvir.
A presença de diplomata brasileiro na delegação da Argentina no Conselho de Segurança, em reciprocidade à participação argentina na delegação brasileira em 2004, é altamente simbólica e representa fato inédito na história da diplomacia multilateral.
É este o espírito de diálogo aberto e cooperativo que prevaleceu durante todos nossos encontros. Não poderia haver sinal mais positivo para o futuro das relações entre argentinos e brasileiros.
Meus amigos e minhas amigas,
Quero prestar uma homenagem especial à liderança do presidente Kirchner.
Sob sua segura direção, a Argentina deixou para trás anos de ceticismo e submissão para encontrar definitivamente seu destino.
Seu governo superou a mais grave crise econômica da história argentina, recuperando o nível de renda e de empregos. Reestruturou uma dívida externa asfixiante e quitou as obrigações financeiras do país, restaurando a presença da Argentina em seu tradicional lugar de destaque na comunidade internacional. Mais do que isso, devolveu o orgulho e a esperança a uma nação rica em história e potencialidades.
Por isso, meu caro companheiro, presidente Kirchner, é motivo de muito orgulho, muito orgulho mesmo, esta sua visita ao Brasil, esta visita de Estado, porque aqui viemos apenas reconhecer que temos muito por fazer, mas que já fizemos, nesse pouco tempo, muito mais do que os céticos esperavam que nós fizéssemos. Sei que muitas vezes Vossa Excelência é criticado por essas relações, por acreditar nesses acordos, muitas vezes sou criticado por essa relação e por esse acordo. Nós dois ganhamos as eleições e existimos, politicamente, exatamente para resolver os desafios que outros não ousaram resolver.
Certamente, o povo argentino vive momentos de euforia, muito mais do que isso, o povo argentino recuperou a auto-estima de um povo que tem consciência de que a Argentina definitivamente resolveu ser dona das suas decisões. Como dizemos aqui no Brasil, resolveu ser dona do seu próprio nariz, fazer aquilo de interesse do povo argentino, agir democraticamente nas suas relações internacionais, mas sem submissão.
A Argentina e o Brasil, agindo do jeito que estamos agindo até agora, certamente poderemos contribuir muito para consolidar a integração da América do Sul, para consolidar o Mercosul. E sempre de coração aberto para entender que por sermos as maiores economias do nosso continente, nós precisamos ser generosos com os nossos irmãos mais pequenos em quantidade de pessoas ou em desenvolvimento econômico.
Eu não tenho dúvida nenhuma de que ainda, até o final deste ano, muitos avanços, muitos avanços mesmo, serão colocados em prática na relação Argentina, Brasil; Argentina, Brasil e Mercosul; Argentina, Brasil, Mercosul e toda a América do Sul.
Meus parabéns e boa sorte, companheiro.
fonte: www.info.planalto.gov.br
