Palácio do Planalto, 26 de janeiro de 2006
Eu confesso a vocês que não sei se nós temos culpa, todos nós, mas eu nunca fiz uma reunião, na minha vida, em que no final da reunião não tivesse uma pauta de reivindicações pedindo um pouco mais.
E você sabe que ao invés de ficar chateado, nervoso, eu fico imaginando: se não fosse a capacidade de reivindicação das pessoas, o que seria do Brasil? Acho que todos nós temos um pouco de responsabilidade nisso porque, aqui, pelas pessoas que eu conheço, todos passaram a vida inteira reivindicando e até na hora de agradecer as coisas reivindicam um pouco mais. Isso termina sendo uma coisa gratificante.
Eu acho que qualquer coisa que eu pudesse falar aqui, já estaria superada pelo pronunciamento do Fernando Haddad, do Eliezer e do Sérgio Gaudêncio. Estaria já superado porque as informações foram todas dadas a vocês.
Mas eu queria, primeiro, agradecer. Agradecer o trabalho que o Ministério da Educação tem feito. Quero dizer para vocês que não é pouca coisa. O que esses meninos têm trabalhado, têm entrado em conflito com outras áreas de governo e, depois, levam para que a gente decida, é muito grande.
E eu acho que isso é um pouco o momento que estamos vivendo, não apenas na área do Ministério, que eu quero começar agradecendo ao nosso companheiro Fernando Haddad, já agradeci ao companheiro Tarso Genro, na sua despedida, porque efetivamente inovaram na visão sobre educação no Brasil.
Quero dizer, tanto para o Eliezer quanto para o Sérgio, que eu disse, numa reunião ministerial, disse aqui num ato, outro dia, que está proibido, quando se tratar de dinheiro para educação, qualquer ministro falar que vai aumentar os gastos. Ou seja, nós precisamos reeducar, porque senão nós ficamos assistindo na televisão os mentores dos programas de gestão dizendo que a boa gestão é aquela que não gasta com ninguém, é aquela que não gasta com pobre, aquela que não gasta com educação, aquela que não gasta com saúde, aquela, enfim, que não cumpre com a função social do Estado.
Ou seja, quando você chegar no final do ano, você mostrar que gasto zero e ter dinheiro em caixa é boa gestão, na nossa concepção não é. Na nossa concepção, responsabilidade não significa que deixemos de fazer aquilo que precisa ser feito para recuperar o tempo perdido na educação brasileira. Houve muito tempo perdido.
Se vocês pegarem a história da criação das universidades brasileiras, vocês vão perceber que ela teve momento de crescimento e teve momentos em que, em quatro, cinco, seis, sete anos se criou apenas uma universidade no Brasil, porque se viesse uma meta de crescimento nós teríamos hoje o dobro do que nós tínhamos na década de 70. Lamentavelmente, parou.
E as escolas técnicas, a mesma coisa. Quero dizer para vocês que me assustou quando veio para mim a proposta, na mesa, de que nós precisaríamos mudar uma lei para o governo federal apostar no crescimento do ensino técnico. Era um negócio, assim, inimaginável, num país que precisa de formação profissional e num momento em que a globalização mundial exige que cada vez mais nós tenhamos mão-de-obra cada vez mais especializada, para que a gente seja cada vez mais competitivo.
E é engraçado, porque essas coisas foram feitas pelos mentores do Estado moderno. No conceito deles, o Estado moderno era um pouco isso. Então foi com muita tristeza que eu soube da notícia de que nós precisaríamos mandar um projeto de lei porque a lei proibia.
Quero agradecer aos deputados. Eu vou até fazer questão de citar os nomes aqui das nossas senadoras Ideli Salvatti e Fátima Cleide,
Quero cumprimentar o deputado Paulo Delgado, presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados,
Deputado Alex Canziani, presidente da Frente Parlamentar de Defesa da Educação Profissional,
Deputadas Alice Portugal, Fátima Bezerra e Maria do Rosário,
Quero cumprimentar os deputados Ariosto Holanda, Átila Lira,
Deputado Colombo,
Deputado Daniel Almeida,
Deputado Eduardo Seabra,
Deputado Fernando Ferro,
Deputado Francisco Gonçalves,
Deputado Paulo Rubem,
Deputado Vicentinho,
Quero cumprimentar os diretores da Rede Federal de Educação Profissional e as diretoras,
Quero cumprimentar secretários, secretárias e dirigentes do MEC que estão aqui presentes, e dizer para vocês que eu acho que o Congresso Nacional, neste começo de ano, fez algumas coisas extremamente importantes. Eu, há algum tempo, venho colocando o Fundeb em todos os meus discursos, pedindo para os deputados, nos atos públicos, aprovarem o Fundeb, porque nós precisamos, agora, adequar ao orçamento, o que nós vamos colocar mais no Fundeb. E fiquei extremamente feliz com o comportamento do Congresso Nacional, da Câmara dos Deputados, no primeiro momento, mas certamente se repetirá no Senado, essa votação extraordinária que teve o Fundeb.
E dizer ao ministro Fernando Haddad que em poucos momentos o Congresso Nacional se recusou a votar leis importantes para a educação. Eu me lembro que na questão do Fundeb já tinham sido votadas coisas extremamente importantes e que foram vetadas no governo anterior. Coisas extremamente importantes, porque sempre prevaleceu, no Brasil, a idéia de que era preciso conter despesas, portanto, vamos conter gastos. Vamos conter gastos aonde? Na educação. Não tem nenhum sentido, o país não andaria para frente, gastando dinheiro na... evitando de pôr dinheiro na educação. E eu acho que nós devemos isso à compreensão de vocês.
Eu acho que o Congresso Nacional... sempre a crítica ao Congresso é coletiva, desde quando era Constituinte, a minha mágoa era que, quando queriam mostrar que os deputados não trabalhavam, não se nominava quem veio e quem não veio. Fica tudo muito generalizado, então, quem se matou de trabalhar, quem veio para votar, aparece como se não tivesse aparecido e não é criticado individualmente. Nós fomos indicados individualmente, mas o Congresso não. E eu espero que essas coisas boas que foram feitas, com o que vocês aprovaram nestes últimos dias sobre educação, sejam reconhecidas pela opinião pública através de boas informações dadas pela imprensa brasileira.
Portanto, Fernando, está provado que, quando o governo quer, quando o governo tem proposta e o governo está com a sua mente flexibilizada para não coibir os avanços que a sociedade clama, as coisas acontecem. Quando se trata das escolas técnicas, eu tenho uma paixão especial. Eu tenho uma paixão especial porque devo tudo o que sou a um curso profissional que eu fiz. E durante as minhas viagens a muitos lugares do Brasil eu encontrei escolas técnicas abandonadas, escolas que poderiam estar formando centenas ou milhares de jovens para o mercado de trabalho, totalmente fechadas, mal cuidadas, professores desmotivados, e nós estamos recuperando.
Acho que também não podemos fazer tudo em um curto espaço de tempo porque é humanamente impossível, mas o que vocês do C-7 podem ter consciência é que vão acontecer todos os avanços que precisam acontecer. Até porque não estamos fazendo isso para nós, porque nenhum aqui mais vai entrar em uma escola técnica. Nenhum mais. Depois de velho, o mais que a gente quer aprender é a cozinhar.
Mas certamente o povo brasileiro, sobretudo o povo da periferia e o povo dos lugares mais pobres, precisa. Muitas vezes as pessoas que conseguiram chegar à universidade não dão importância a um curso profissional. Muitas vezes, as pessoas... Eu quando dizia o seguinte: minha mãe, quando me levou para fazer um teste no Senai, o orgulho dela deve ter sido o mesmo de quando o Fernando Haddad comunicou para a mãe dele que tinha passado no vestibular da USP, ou qualquer um de vocês tinha passado para o curso de Medicina, que talvez seja o orgulho, porque sempre o estudante de Medicina que passa é o mais estudante, o que vocês chamam de CDF, não é? São os mais estudiosos, são os mais... A verdade é que são os mais estudiosos, porque conseguem chegar em primeiro lugar. Então, o mesmo orgulho eu tive.
Vocês imaginam para a periferia do Brasil o que é um jovem ter acesso a um curso profissionalizante de uma escola técnica. É uma revolução na família, é uma revolução na vida dele. Eu digo todo dia para ninguém esquecer: por conta do meu curso, eu fui o primeiro a ter uma casa, o primeiro a ter um carro, o primeiro a ter uma geladeira, o primeiro a ter uma televisão, de uma família de oito. Isso, certamente, acontece em todos os lares deste país que o jovem consegue ter acesso a uma formação.
Ora, se eu fui um beneficiário de um ensino técnico, porque nós vamos coibir que tantos outros, tão ou mais pobres do que eu, mais necessitados, tenham acesso a esse curso?
Portanto, não é um compromisso verbal, não. É um compromisso de vida, de que nós precisamos dar à escola técnica, neste país, a dimensão que ela tem, em função da dimensão das necessidades que a sociedade brasileira tem da escola técnica.
Possivelmente, quem já esteve inscrito para fazer um curso de pós-graduação na Sorbonne, não tenha essa dimensão. Eu tenho. Eu tenho a exata dimensão do que vale um curso profissional, por mais simples que ele seja: Proeja, ProJovem, Escola Cidadã.
Eu tinha uma escola de supletivo no Sindicato, chegou um momento que eu descobri que estava ficando meio ruim para a categoria, para o meu corporativismo, porque eu estava tirando os trabalhadores da fábrica e formando eles para a universidade, e eu queria formá-los para ficarem dentro da fábrica. Nós terminamos fechando a escola, que era um curso de Madureza, com 1.900 alunos, montamos uma escola profissional. Nós dávamos curso de desenho, curso de matemática, curso de eletricidade, curso de mecânica.
Ou seja, o fato de um cidadão vir a um sindicato fazer um cursinho de matemática, ele deixava de ser ajudante e virava operador de máquina numa fábrica, ou seja, ele praticamente dobrava o salário dele.
Então, como é que nós vamos ficar fazendo o Orçamento e analisando essas necessidades do país como se fossem gastos? Não é possível.
Então, estejam certos que não só nós vamos continuar fazendo mais para a educação, mais e cada vez mais, até que a gente chegue no nível que o país precisa que nós cheguemos, até porque ficamos muitos anos atrasados. E por isso eu fiz questão de vir a esse ato. Quero agradecer a todos vocês, mas sobretudo eu quero reiterar meus agradecimentos aos deputados, aos senadores - senadores ainda vão votar - mas eu estou convencido de que todo e qualquer elogio que vier ao Ministro da Educação, que vier aos funcionários do MEC, que vier ao Presidente da República, estejam certos que nós temos a obrigação política de dividir com os deputados e senadores que acreditaram que é esse o caminho do Brasil.
Muito obrigado a vocês e parabéns.
