Discurso do Presidente Lula: encerramento da reunião de Chefes de Estado da Comunidade Sul-Americana de Nações - CASA

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Palácio Itamaraty, 30 de setembro de 2005

Bem, meus amigos, poderia chamá-los de meus companheiros e companheiras aqui presentes.

No final desta reunião, eu não poderia deixar de agradecer, primeiro, a presença de todos vocês, segundo, a crença de que é possível construir um mundo melhor, e que trouxe vocês a este Encontro. Terceiro, agradecer ao presidente Toledo pelo trabalho primoroso que fez, enquanto Presidente Pró-Tempore da Comunidade.

Segundo, agradecer ao companheiro Duhalde, pela dedicação, esse tempo todo, na Direção do Mercosul. Eu não sei se o Duhalde sempre foi assim, porque eu o conheci muito pouco quando era presidente da Argentina, mas eu poucas vezes vi um dirigente político despojado, com vontade de fazer as coisas, sem perguntar para quem e para quê, como o Duhalde se comportou nesse período em que eu o conheço. Portanto, Duhalde, os meus mais sinceros parabéns pelos serviços prestados à Argentina, ao Mercosul, e eu penso que há um pouco de todos nós aqui.

Dizer aos meus amigos que nós estamos iniciando um processo, que não é uma tarefa fácil construir e consolidar uma Comunidade, respeitando assimetrias, levando em conta a cultura de cada Nação, as dificuldades. Exige de nós muito mais disposição de trabalhar e muito mais paciência, para que a gente possa conviver, muitas vezes com coisas com que nós não concordamos.

Dizia Toledo: "a Europa levou quase meio século para chegar onde chegou e, faz pouco tempo, nós vimos a França e a Holanda recusarem, através do voto direto do seu povo, a construção de uma Constituição única para a Europa". Já tinha havido outros momentos em que alguns países não votaram na aceitação de uma única moeda. E isso é assim mesmo. Nós não temos que ficar nervosos, nós não temos que perder a paciência, porque isso é um processo de maturação, é um processo de aprendizado.

Eu, pelo que ouvi alguns amigos falarem aqui, esse Projeto da IIRSA começou em 2000 a ser debatido. Eu me lembro que na primeira reunião que fizemos, no Paraguai, logo depois da posse do Presidente Nicanor, eu propus que nós fizéssemos uma reunião específica para discutirmos os principais projetos de interesse dos países. Somente hoje é que nós fizemos essa discussão. Porque antes passou pelos técnicos da Capes, pelos técnicos do BNDES, pelos Ministros de Infra-Estrutura de alguns países. E quase três anos depois é que os Presidentes da República se depararam diante do conjunto de obras que foram definidas como prioridade.

Agora, se nós olharmos no tempo em que começamos a trabalhar, efetivamente, com o espírito de construir uma coisa na América do Sul e na América Latina, nós vamos perceber, e eu concordo contigo, Duhalde, nós avançamos de forma extraordinária.

Eu me lembro que quando ganhei a Presidência da República, a minha primeira conversa com o Duhalde era se o Mercosul iria sobreviver ou não, porque os presidentes anteriores já tinham colocado o Mercosul como uma coisa praticamente terminada.

Se nós analisarmos o que avançamos nesses três anos na relação entre os países, mesmo na relação comercial, nós vamos perceber quanto tempo nós perdemos e o que poderíamos ter avançados se há 30 anos atrás tivéssemos feito o que fizemos nesses poucos anos. O que nós esperamos?

Muitos de nós, aqui, tem mais um ano de mandato. Uns, serão candidatos. Outros, não podem ser candidatos. Uns, irão ganhar. Outros, irão perder. Ora, nós não podemos permitir que em função de um ano eleitoral em que um candidato não vai ser candidato, porque não pode ser candidato, que diminua a sua disposição política de trabalhar para consolidar o que estamos fazendo. Esse, possivelmente, será o legado que deixaremos para as novas gerações e tem que ser muito bem consolidado, porque muitas vezes não sabemos o que vem depois de um governo, não sabemos a disposição política do outro. Por isso, é importante a participação da sociedade na discussão das coisas que fazemos aqui, para que não seja uma coisa de um presidente, mas para que seja uma coisa definida pela vontade da maioria dos povos que nós representamos.

Eu quero dizer de coração para vocês, eu, às vezes, Chávez, fico pensando se devo fazer mais uma viagem. Às vezes fico pensando se não seria melhor eu ficar no Brasil resolvendo os meus problemas do que fazer uma viagem. Entretanto, como eu acredito que a arte da política é a arte do diálogo, é a arte da conversa, é a arte da convivência, é o olhar, é o pegar na mão, é a divergência, é a convergência, eu, mesmo contrariado, tenho feito muitas viagens. E podem ficar certos que, até o final do meu mandato, vou fazer tantas quantas viagens eu entender que podem ajudar na construção da unidade Sul-Sul, da unidade da América do Sul, da unidade da América do Sul a América Latina, da unidade da América do Sul e África, porque eu acho que nós já fizemos coisas que muitos estudiosos não acreditavam que pudessem ser feitos, muitos.

Não era qualquer estudioso que acreditava que nós pudéssemos, em três anos, chegar onde nós chegamos. Não era qualquer estudioso que acreditava que nós pudéssemos, através do G-20, chegar a ter a participação que nós temos na Organização Mundial do Comércio. Não era qualquer estudioso que entenderia o debate que está tendo na ONU, agora, sobre a reforma das Nações Unidas, do seu Conselho de Segurança. Isso só foi possível porque nós ganhamos força. Isso só foi possível porque nós estamos deixando de ser coadjuvantes da história política mundial para sermos artistas principais nessa história. E ainda vamos ter muitas divergências.

Mas quando nós estivermos na maior divergência possível, o que me deixa tranqüilo é que sempre haverá, dentre nós, alguém que vai encontrar o denominador comum para que essa divergência se transforme numa convergência.

Eu sempre digo aos meus companheiros do Brasil que o que nós fizemos em três anos outros tentaram fazer em muitos anos. E Deus me deu a oportunidade de ser Presidente no mesmo momento em que muitos Presidentes da América do Sul já não faziam mais o discurso da integração. Acreditavam que era preciso criar gestos práticos, coisas práticas para que essa integração pudesse acontecer.

Eu, certamente, acredito que nós crescemos, em três anos, mais do que a Europa nos seus primeiros cinco ou dez anos de integração. E crescemos porque aprendemos algumas coisas com eles.

Portanto, nós já temos referência. Nós ainda estamos longe do ideal, muito longe. Tem países com situações muito diferenciadas, e nós temos que respeitar as dificuldades que cada um tem.

Mas eu quero terminar dizendo a todos vocês, do fundo do meu coração: obrigado por acreditarem, como eu acredito, querendo mais ou querendo menos, mas obrigado por acreditarem, como eu acredito, que não haverá outro caminho para nós fora da nossa integração.

Individualmente, cada um de nós pode pensar que tem solução. Aliás, no século XX inteiro, cada país tentou encontrar a solução sozinho. Cada um achava que poderia ser mais amigo de uma grande potência. Cada um achava que tinha que ser mais amigo ou da União Européia, ou do Japão, ou dos Estados Unidos, porque a partir dessa amizade teria solucionado os seus problemas.

Os indicadores mostram que não houve evolução. E como já foi dito aqui, quem era rico ficou mais rico e quem era pobre ficou mais pobre. Se essa lição valer para o nosso comportamento daqui para a frente, eu quero terminar dizendo aos companheiros presidentes, chanceleres, embaixadores, altos funcionários dos países da América do Sul: não haverá saída individual para nenhum país.

Ou nós entendemos que o trabalho conjunto, que a criação de mecanismos mais eficazes... Aqui não foi muito discutido mas, por exemplo, nós precisamos definir uma forma de financiamento, regras que possam atender a todos os países, porque cada um de nós tem uma norma, cada um de nós tem uma regra. Se nós não definirmos um procedimento é, muitas vezes, difícil acontecer aquilo que nós discutimos nas reuniões.

Portanto, como eu sou mais otimista que a média dos seres humanos, eu quero dizer para vocês: Viva a Comunidade Sul-Americana de Nações. E muito obrigado pela presença de vocês.

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