Ciudad Guayana-Venezuela, 13 de novembro de 2006
Senhor Hugo Chávez, presidente da República Bolivariana da Venezuela. Senhores ministros de Estado da Venezuela, Nicolás Maduro, das Relações Exteriores; José Khan, da Indústria Básica e Mineração; José Davi Cabello, da Infra-Estrutura. Rafael Ramírez, de Energia e Petróleo e presidente da PDVSA. Senhores governadores da Venezuela. Senhores governadores brasileiros. Ministros Celso Amorim, das Relações Exteriores; Silas Rondeau, de Minas e Energia. Meus amigos governadores Blairo Maggi, e Eduardo Campos, do estado de Pernambuco. Senador Marcelo Crivella. Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras. Meu caro Emílio Odebrecht, presidente da Odebrecht. Meus amigos deputados. Embaixadores. Governador da China. Homens e mulheres da Venezuela. Meus amigos da imprensa. Meu companheiro Chávez.
Eu vou dispensar o meu discurso por escrito e vou falar um pouco do meu sentimento. Há pouco eu vinha no carro e o meu ministro Celso Amorim me chamava a atenção para a coisa fantástica da semelhança entre o povo da Venezuela e o povo do Brasil, estampada na beleza das pessoas, na cor das pessoas e, sobretudo, na alegria estampada no rosto de cada homem e de cada mulher.
Eu estava pensando que faz 10 dias que terminaram as eleições no Brasil e, graças à generosidade do povo brasileiro, fomos reeleitos com 61% dos votos do povo brasileiro. E isso aumenta a minha responsabilidade, não apenas com o povo brasileiro, sobretudo com o povo mais pobre do meu País, porque eu quero governar para todos, para ricos e pobres, mas os pobres terão que ter preferência nas ações do nosso governo. E por que eu estou dizendo isso aqui na Venezuela? É porque eu conheço um pouco a história deste País, porque conheço um pouco a trajetória política do presidente Chávez e porque sei que aqui, como no Brasil, muitas vezes somos vítimas de incompreensões, de preconceitos de pessoas que governaram os nosso países durante séculos e séculos e que não aceitam que alguém que pense diferente, que alguém que queira cuidar do povo, seja governante. Eles se habituaram a governar o país para 30% ou 35% da população. Para muita gente na América do Sul e na América Latina, pobre é apenas um número estatístico, pobre não é levado em consideração na divisão da riqueza do país. Para nós, pobre não é um número estatístico, é um ser humano com alma, com consciência e com coração e que não reivindica nada que não possa ser atendido. Os pobres, presidente Chávez, querem ter o direito de trabalhar, querem ter o direito de estudar, querem ter o direito de acesso à saúde, querem ter o direito de acesso à habitação. Ou seja, eles querem apenas conquistar o elementar, que é a cidadania de homens e mulheres do nosso continente.
Durante séculos isso foi negado. Milhares de pessoas já morreram neste continente porque acreditaram na liberdade, porque acreditaram na independência e porque queriam fazer justiça social. Agora, quis Deus, que nós tivéssemos uma América Latina e uma América do Sul um pouco diferenciadas. Já não é apenas o companheiro Chávez, presidente da Venezuela, já não é apenas o presidente Lula, presidente do Brasil, outros presidentes foram eleitos democraticamente. Poderia citar a nossa querida Michelle Bachelet, no Chile, poderia citar o nosso querido companheiro Kirchner, na Argentina, poderia citar Tabaré Vázquez, no Uruguai, poderia citar Nicanor, no Paraguai, poderia citar Evo Morales, na Bolívia, poderíamos citar tantos e tantos companheiros que vão sendo eleitos. E a mais recente eleição é a recondução da Frente Sandinista no governo da Nicarágua. Lógico que a democracia que nos elege para presidente nos impõe muita responsabilidade e exige muito de nós, porque quanto mais responsabilidade tem o povo, quanto mais democracia vive um povo, mais ele será exigente. Esteja certo, companheiro Chávez, que este povo que gosta muito de ti será muito mais exigente no segundo mandato do que foi no primeiro.
Eu tenho consciência de que o povo brasileiro, que me deu a segunda chance, será também muito mais exigente e nós teremos que fazer muito mais por ele do que fizemos no primeiro mandato. Uma coisa eu quero que o povo da Venezuela compreenda, quero que os meus companheiros do Brasil compreendam e quero que o meu querido companheiro Chávez compreenda: não há saída para um país da América Latina sozinho. Ou nós acreditamos na integração de fato e de direito e trabalhamos para que essa integração aconteça no âmbito da política, no âmbito da cultura, no âmbito do desenvolvimento tecnológico e científico... porque todos vocês adoram a palavra integração, mas nada fala mais alto do que a gente olhar a imagem extraordinária de uma ponte que significa desenvolvimento para a Venezuela, significa melhoria da qualidade de vida para o povo da Venezuela e significa muito mais esperança para o futuro.
Quero dizer ao meu companheiro Chávez que eu sei que tem eleições no dia 3. Eu não sou venezuelano, não posso dar palpite na política da Venezuela. Eu me lembro do discurso que você fez em Pernambuco, dizendo que não podia falar de política e falou, mas eu não vou falar. Eu não vou falar por uma questão muito simples: aqui neste país acontece exatamente o mesmo que acontece no Brasil. Eu conheço o tipo de crítica que fazem a você. É a mesma crítica que faziam a mim. Os banqueiros ganharam muito dinheiro no Brasil e, certamente, ganham muito dinheiro aqui na Venezuela. Alguns empresários ganham muito dinheiro aqui, como ganharam muito dinheiro lá. Mas, se tiverem que fazer uma opção entre você e um outro que seja mais próximo deles, não tenha dúvida de que o preconceito fará com que eles estejam do lado de lá. A nossa garantia é que o povo trabalhador, os estudantes e os empresários sérios de cada país sabem que, há muitos anos, o Brasil não tinha um governo para fazer as políticas sociais que nós fizemos. E eu não tenho dúvida de que aqui, na Venezuela, havia muitos e muitos anos que não tinha um governo que se preocupasse com a gente pobre como tu tens te preocupado.
Eu vim aqui em 2003, estive aqui junto com Chávez, com Emílio Odebrecht, com Celso Amorim, há três anos esta ponte estava apenas começando. Depois eu fui a Caracas, vi a televisão, e voltei para o Brasil dizendo a mim mesmo que jamais eu tinha visto um tipo de comportamento de um tipo de meio de comunicação, agredindo um presidente da República, como tu fostes agredido. Eu jamais imaginei que isso pudesse acontecer no Brasil, e aconteceu o mesmo, querido companheiro. A coisa que mais consolidou a minha consciência, de que nós estávamos certos, é que o povo reagiu no momento certo. E o mesmo povo que elegeu a mim, que elegeu a Kirchner, que elegeu Daniel Ortega, que elegeu a Evo Morales, certamente irá te eleger presidente da República da Venezuela.
E, no segundo mandato, todos nós, presidentes dos países da América do Sul e da América Latina, precisamos trabalhar a integração como jamais trabalhamos. Nós temos que fazer uma interligação entre as nossas estradas, temos que construir as ferrovias que precisam ser construídas, as empresas de petróleo de nossos países precisam trabalhar juntas. O Brasil precisa da Venezuela e a Venezuela precisa do Brasil. Os nossos empresários, Emílio, podem ajudar na transferência de tecnologia para a Venezuela, a Venezuela não pode ser eternamente um país exportador de petróleo e de gás, tem que ter indústria aqui, tem que ter conhecimento científico e tecnológico para que essa juventude tenha onde trabalhar e possa ter na Venezuela um paradigma de um modelo de desenvolvimento que dê oportunidade a todo mundo.
Saio hoje da Venezuela mais convencido do que quando vim aqui há alguns anos atrás de que valeu a pena. Valeu a pena acreditar na aliança Brasil e Venezuela; valeu a pena acreditar na integração da América do Sul; valeu a pena fazer parcerias. E não se incomode, presidente Chávez, de vez em quando tentam fazer intrigas entre Chávez e Lula, tentam criar divergências entre nós. Eu aprendi, desde pequeno, a conhecer as pessoas boas, não apenas pelas palavras, mas pelos olhos e pelo coração. E eu acho que você, Chávez, demonstrou ao povo da Venezuela que é possível crescer economicamente fazendo justiça social, de que é possível desenvolver a economia de forma justa para que todos participem.
Quero que saiba que o Brasil terá mais quatro anos de governo com os meus companheiros e que irei trabalhar com mais força, com muito mais ousadia para que a integração possa se consolidar e um dia um sonho daqueles que lutaram por liberdade na América Latina, que acreditaram em construir uma grande nação na América Latina, possa ser concretizado. Mesmo que tu e eu não consigamos viver esse momento, dormiremos com a consciência tranqüila porque fizemos a nossa parte e os nossos filhos e os nossos netos poderão viver na América Latina, sonhada por tanta gente que lutou.
Meu querido irmão, hoje o dia é teu, afinal de contas, a ponte é tua e a Venezuela não é tua, mas tu és da Venezuela.
Um grande abraço e boa sorte, companheiro Chávez.
fonte: www.info.planalto.gov.br
