Palácio do Planalto, 10 de novembro de 2006
Não sei se vocês perceberam que eu vim ecologicamente correto no meu traje de mistura da Amazônia.
Bem, eu quero cumprimentar a companheira Marina. O companheiro Celso Amorim. Quero cumprimentar o senhor Paulo Passos, que está aqui, o nosso ministro dos Transportes. A nossa Eva Maria, companheira secretária interina das Relações Institucionais. O nosso querido companheiro Pinguelli, secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. O nosso empresário Geraldo Moura, representante do setor empresarial no Fórum. Paulo Moutinho, representante das ONGs. Senhor Luiz Gilvan Meira Filho, representante do setor acadêmico. O nosso querido Capobianco, que fez a exposição. Meu caro vice-governador do Rio de Janeiro, Luiz Paulo Conde. Secretários de estados aqui presentes. Meus amigos e minhas amigas.
Eu acredito que o Brasil atingiu um grau de maturidade política e um grau de responsabilidade social que, hoje, pode comparecer a qualquer fórum internacional, não apenas para dizer o que está fazendo, mas para cobrar, daqueles que também cobram de nós, o que eles não estão fazendo.
Aqui está o nosso companheiro José Machado, representante da ANA, que apresentou um dos documentos mais extraordinários de como preservar aquilo que nós temos de extraordinário, que são as nossas águas. Nós provamos que é possível, com responsabilidade, sem evitar o desenvolvimento de nenhuma região, aprovar uma política de desmatamento, sem tirar do povo da Amazônia a idéia de que isso vai deixá-lo vivendo a vida inteira como se fosse um cidadão de segunda ou terceira categoria, sem ter acesso ao desenvolvimento. Até porque a contrapartida que nós precisamos dar, a parte brasileira que mais temos que preservar, não é apenas ficar pedindo que os ricos dêem a parte de dinheiro que eles estão nos dando para continuar poluindo lá. É pensar os modelos de desenvolvimento para cada região do País, levando em conta as compensações do tipo de indústria e do tipo de desenvolvimento que nós queremos para as regiões que nós queremos preservar para o bem da Humanidade.
E quando eu digo que o Brasil, hoje, pode entrar de cabeça erguida em qualquer debate, e mesmo sabendo que ainda estamos longe de atingir os objetivos finais a que nos propusemos atingir... Hoje há um amadurecimento, por exemplo, nas empresas de papel e celulose no Brasil. Já não tem mais aquele empresário que pensa em plantar 500 mil hectares de florestamento contínuo, que fica até uma coisa feia. Hoje, a maturidade dos empresários está fazendo com que eles contratem uma parte do florestamento de pequenos e médios proprietários, que podem partilhar uma parte da sua terra com a produção agrícola e outra parte com a produção de madeira. Essa é uma evolução, tanto junto aos pequenos e médios proprietários brasileiros, quanto junto aos grandes empresários da área de papel e celulose.
O mesmo tem acontecido com o Programa de Biodiesel que, na medida em que cresçam as necessidades e a produção em escala, cresça muito, nós não podemos, em nenhum momento, substituir o objetivo principal do biodiesel, que é desenvolver as regiões mais pobres do Brasil, plantando oleaginosas que possam contribuir, não apenas com o combate ao esquentamento do Planeta, o que vocês chamam de efeito estufa, mas também para a geração de riqueza e de renda para milhares e milhares de pessoas que estavam vivendo sem esperança. O biodiesel, com os leilões que nós fizemos este ano, nós garantimos, em apenas dois anos, 205 mil famílias plantando ou dendê, ou girassol, ou soja, ou algodão, ou mamona, e essas pessoas estão vivendo com muito mais dignidade do que viviam há três ou quatro anos.
Pois bem, se nós temos uma matriz energética que, grande parte dela pode... Ela é utilizada pelos nossos rios, estamos evoluindo muito na questão da energia produzida pela biomassa, estamos evoluindo na energia eólica e poderemos evoluir em tantos quantos tipos de energia renováveis nós pudermos. Recentemente, nós retomamos Candiota, no Rio Grande do Sul, que é uma energia que não é das mais saudáveis e não é das mais recomendáveis, mas é a necessidade de ativar uma região que estava ficando empobrecida por falta de incentivos econômicos.
Acho que nós temos que compatibilizar, de forma correta e serena, o combate aos desmatamentos com a cobrança política - em todos os fóruns - do compromisso dos países ricos, já que não basta os países ricos oferecerem o crédito de carbono para que nos dêem um pouco de dinheiro e continuarem poluindo o Planeta. O compromisso deles não é apenas nos dar dinheiro, o compromisso deles é diminuir a poluição no Planeta, no seu país.
Os Estados Unidos ainda não assinaram o Protocolo de Quioto, tem outros países importantes que não assinaram, e nós não podemos fazer vista grossa, porque criaram mecanismos alternativos de compensação para os países emergentes. É preciso que a gente utilize esses recursos que estão disponibilizados - que eu não sei quando vão sair -, mas é importante que a gente cobre responsabilidade deles, porque são os países ricos responsáveis por mais de 70% da poluição do Planeta e, portanto, eles têm que ter compromisso. Porque senão, fica a política do esperto, ou seja, eu já desmatei, eu já poluí o rio, eu já acabei com tudo, agora eu vou criar uma política de compensação para os países pobres, eles não fazem mais nada e continuam pobres a vida inteira e nós vamos nos desenvolver cada vez mais.
Esse debate tem que ficar claro e vai ficar muito mais claro e com muito mais autoridade para nós se a gente estiver cumprindo os nossos compromissos, porque nós não temos que pensar apenas em nós que estamos vivendo o século XXI. Nós temos que pensar naqueles que virão no século XXII, nós temos que pensar nas novas gerações que irão habitar o Planeta daqui a 100 anos, daqui a 150 anos. O que eu vejo, na verdade, é muita gente fazendo exposições sobre o efeito estufa, sobre o esquentamento do Planeta, o que eu vejo é muita gente, alguns até fazendo muito terrorismo, mas o que eu vejo é pouca gente dos países ricos cumprindo as suas obrigações. Os carros continuam poluindo, continuam consumindo mais petróleo do que deveriam, continuam fazendo o que não é preciso fazer. E se quiserem evitar que os carros emitam muitos gases, é só começar a utilizar o biocombustível, que nós produzimos aqui, e poderemos vender para eles com muita facilidade, a um preço muito barato.
Eu quero, Pinguelli, dizer para você o seguinte: da minha alegria de saber do trabalho que vocês fizeram, a quantidade de reuniões que fizeram nesses dois anos significa que vocês levaram muito a sério a tarefa que receberam. O fato de envolvermos 13 ministros para participarem disso é a demonstração de que não é um discurso eleitoral, de que não é um discurso para a televisão, de que não é um show de pirotecnia. É uma política de Estado e nós queremos criar as bases para que ela seja definitiva e, por isso, é importante envolver a sociedade brasileira, envolver as entidades da sociedade brasileira.
Eu não poderia terminar sem dar os parabéns a vocês. Espero que a nossa Delegação possa, em Nairobi, conseguir convencer a todos os delegados que lá estarão de que a nossa proposta é boa, porque se vocês conseguiram me convencer, certamente vocês conseguirão convencer tantos outros habitantes do Planeta.
Meus parabéns e muito obrigado pelo trabalho apresentado.
fonte: www.info.planalto.gov.br
