Discurso do presidente Lula no lançamento da campanha "Cresce Nordeste" do Banco do Nordeste

 

Fortaleza,CE, 17 de março de 2004

Meu caro Lúcio Alcântara, governador do estado do Ceará,

Meu caro Humberto Costa, ministro da Saúde,

Meu caro Eunício de Oliveira, ministro das Comunicações,

Meu caro Walfrido Mares Guia, ministro do Turismo,

Meu caro Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional,

Meu caro Olívio Dutra, ministro das Cidades,

Meu caro Cássio Cunha Lima, governador do estado da Paraíba,

Meu caro Wellington Dias, governador do estado do Piauí,

Meu caro Antonio Jácome de Lima Júnior, vice-governador do Rio Grande do Norte,

Meu caro Ronaldo Lessa, governador do estado de Alagoas,

Meu caro Marcos Cals, presidente da Assembléia Legislativa do estado do Ceará,

Senhores embaixadores,

Meu caro Roberto Smith, presidente do Banco do Nordeste,

Minha cara senadora Patrícia Gomes, senadora da República, vice-líder do governo,

Meu caro João Alfredo, deputado federal,

Meu caro Roberto Pessoa, deputado federal,

Meu caro Leônidas Cristino, deputado federal,

Meu caro Marcelino Fraga, deputado federal,

Meu caro José Pimentel, deputado federal,

Caro deputado José Guimarães, em cujo nome saúdo os demais deputados estaduais,

Prefeitos,

Meu caro Juraci, prefeito de Fortaleza,

Senhores prefeitos, prefeitas,

Meu caro Oséas, eu pensei que iam citar o seu nome aqui, não citaram,

Meus companheiros do Banco do Nordeste,

Empresários, sindicalistas,

Cantadores do Piauí,

Eu já tinha ouvido o Hino Nacional de todo tipo, mas nunca tinha visto o Hino Nacional cantado por vaqueiros típicos do Nordeste e do Piauí.

O programa "Cresce Nordeste", que estamos lançando hoje, aqui, vai permitir investimentos de mais de 3 bilhões de reais, o que, teoricamente, poderá gerar quase 1 milhão de novos empregos em uma das regiões mais carentes e de maior potencial de riqueza do nosso país.

O Fundo Constitucional do Nordeste vinha de uma trajetória já citada pelo ministro Ciro Gomes. Só para vocês terem idéia da situação, enquanto no ano passado, aqui no nordeste, nós não conseguimos os projetos para liberar os recursos disponíveis, fomos obrigados a tirar 1 bilhão de reais do FAT para emprestar para os estados do Centro-Oeste, tal era a quantidade de projetos de desenvolvimento que tinha a Região Centro-Oeste do país. Por isso, apenas 254 milhões foram financiados aqui. É quase que uma vergonha, só 15% dos recursos disponíveis, numa região pobre, numa região onde poderia faltar até dinheiro, mas o que não deveria faltar era projeto para discutir financiamentos, com uma taxa de 46% de inadimplência.

O Banco do Nordeste, na prática, não cobrava as dívidas e, a cada ano, emprestava menos. Eu me lembro quando tive a primeira conversa com o Roberto Smith, ele me contava a situação do Banco do Nordeste, onde tinha gente que havia tomado dinheiro emprestado, que não tinha sequer assinatura de contrato. E ao tentar cobrar, as pessoas diziam que não deviam porque não tinham assinado. Ou seja, porque muitas vezes a coisa pública foi tratada, no Brasil, como se fosse uma coisa de amigos, como se fosse um clube de amigos e não uma coisa pública de verdade.

E esse trabalho para mudar a situação do banco não foi uma tarefa fácil. Uma determinação do Governo com a ousadia do ministro Ciro Gomes e com a competência do Roberto Smith e a direção do Banco do Nordeste, vocês haverão de, no final da gestão de vocês - quem sabe lá para o final de 2006 - numa plenária como esta, ter o orgulho de virem se sentar aqui, convidarem todos os cearenses e nordestinos que puderem, e prestar contas do que era o banco quando vocês tomaram posse e o banco que vocês deixarão para o futuro Governo.

O Ciro também disse aqui que, em 2003, o volume de recursos aplicados já chegou a 1 bilhão de reais, ou seja, quatro vezes mais do que no ano anterior e, eu diria, o maior dos últimos 10 anos.

Veja que o Banco do Nordeste, em 10 anos, não conseguiu aplicar o que foi aplicado apenas o ano passado, numa demonstração inequívoca de que faltou seriedade no trato do dinheiro público no nosso país. Ou faltou seriedade ou, quem sabe, teve aqueles que sempre acham que são mais espertos do que os outros, que tentam se aproveitar da coisa pública para si próprio ao invés de pensar no conjunto das pessoas que deveriam ter acesso ao dinheiro público.

O final evidente é que o Banco do Nordeste, sob a orientação do ministério da Fazenda, retomou sua missão central como banco de desenvolvimento regional, e o resultado desses investimentos foi a criação de mais de 726 mil empregos diretos e indiretos no ano passado.

Só em janeiro deste ano, o Banco já aplicou três vezes mais do que o aplicado no mesmo período do ano passado,numa demonstração de que eu quero desafiar vocês aqui. Quero dizer para vocês que dinheiro para investimento e financiamento não é problema, há 300 projetos e se os projetos tiverem em condições legais de serem aprovados, não faltará dinheiro.

Eu tenho dito desde o dia da posse: o que faz o dinheiro é o bom projeto, ou seja, não é o dinheiro que faz o projeto, é o projeto que faz o dinheiro. Portanto, se tiver dinheiro, podem apresentar projetos, pois o limite do banco, hoje, é de 3 bilhões, mas pode crescer se houver projetos que justifiquem a necessidade dos investimentos, a criação de empregos para o Nordeste e a melhoria da qualidade de vida do pessoal do Nordeste.

Os governos estaduais e municipais e as entidades representativas dos trabalhadores e dos empresários foram chamadas a planejar, junto com o ministério da Integração e o Banco do Nordeste, a aplicação do fundo de 2004, ajudando, especialmente, a definir as cadeias produtivas prioritárias para receber recursos.

O programa "Cresce Nordeste" vai financiar vários segmentos produtivos, em especial de pequenos e médios empreendimentos, como a apicultura, artesanato, floricultura, comércio e serviços, fruticultura, turismo e piscicultura entre outros. Os juros serão mais baixos, em torno de 6% ao ano, e os prazos para pagamento mais longos, até 12 anos, com carência de 4 anos. E aquele que pagar em dia, preste atenção, aquele que pagar em dia, se for do semi-árido, receberá um desconto de 25% nos encargos dos empréstimos contraídos.

Estes, certamente, são os recursos mais baratos disponíveis no nosso país, hoje. Os três contratos de financiamento que acabam de ser assinados aqui, para uma unidade industrial, uma microempresa e uma associação de agricultores assentados, são exemplo da rica diversidade da economia regional e da importância de créditos específicos para cada empreendimento.

Além disso estamos, sob a coordenação do ministério da Integração Regional, tomando medidas para dotar o Banco do Nordeste de mais recursos e de meios para a retomada do desenvolvimento regional. Acabamos de instituir linha de crédito específica para capital de giro. São 380 milhões só para o ano de 2004, para atendimento de uma das reivindicações mais urgentes das empresas da região.

Estamos criando, também, uma linha de crédito com recursos do PRONAF - Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - para investimento em infra-estrutura nas áreas rurais, conjuntamente com os municípios, atendendo a uma antiga demanda dos agricultores.

O programa "Credi-amigo", do Banco do Nordeste, já presente em mais de 640 municípios nordestinos, é o maior de microcrédito na América do Sul e o segundo da América Latina. No "Credi-amigo" a taxa de juros é de 2% ao mês para operações até 2 mil reais. O Credi-amigo não é tão amigo assim, não é Roberto, porque esses dois poderiam virar 1,5%. Quem sabe vamos caminhar para isso.

Em 2003, a taxa média de inadimplência em toda a região ficou em apenas 2,26%, sendo que em três estados, foi inferior a 1%. E essa não é uma iniciativa isolada, é o exemplo do novo posicionamento dos bancos oficiais em relação aos pequenos negócios.

Estamos empenhados na retomada do crescimento econômico com distribuição de renda e crédito. Estamos caminhando, eu não tenho dúvida nenhuma, na direção certa, com os passos muito equilibrados e com a cabeça no lugar. E o Banco do Nordeste do Brasil tem um papel fundamental na promoção desse desenvolvimento, que é bom para o nordeste e, certamente, muito bom para o Brasil.

Tenho certeza, o perfil humano do nosso desenvolvimento econômico e social, será obra de toda a nossa gente. Se nós, juntos, não fizermos, a pergunta é: quem o fará por nós? Esse é um desafio a ser enfrentado não só pelo Governo, mas por toda a sociedade brasileira.

Meus amigos e minhas amigas do meu querido Nordeste, eu penso que vou enviar uma medida provisória para ser transformada numa lei, para garantir o seguinte: todo governador que deixar o governo, o prefeito ou o presidente da República, terá que prestar duas horas de depoimento sobre como - no seu modo de ver - ele deixou o governo. E todo aquele que entrar, três meses depois irá prestar um depoimento de duas horas para ver como ele encontrou o governo. E assim sucessivamente. E no final dos tempos, nós vamos avaliar o país de quem estava governando e o país de quem entrou. E depois de quatro anos, vamos ver aquele que prestou depoimento no começo, prestar o depoimento no final.

Porque eu estou dizendo isso? Eu tenho clareza da angústia dos nossos governadores. Eu tenho clareza do sofrimento dos governos dos Estados, dos poucos recursos que têm os estados e os municípios brasileiros. E vejo isso com uma certa tranqüilidade, porque dinheiro nunca é demais. Eu não conheço nenhum ser humano que se contente com o salário que tem. Se se contentasse, a Polícia Federal não estaria em greve, e não estariam reivindicando o que estão reivindicando, porque sabem que é totalmente irreal. Eu, de vez em quando, sou obrigado a brincar com os meus companheiros e dizer que, se eles fossem fazer as reivindicações para eles mesmos atenderem, já o fariam sabendo que não poderiam atender às reivindicações.

E o governo estadual, o governo municipal, é mais ou menos a mesma coisa. Se nós tivéssemos um PIB americano, ainda assim não conseguiríamos atender a demanda que é sempre muito maior do que a nossa disposição.

Entretanto, o dado concreto é que os governadores, os prefeitos e o Governo Federal são sempre vítimas do que aconteceu no Brasil ao longo dos anos que se passaram. E a mim não cabe, nem tampouco a um governador ou administrador público, ficar se queixando das coisas que não aconteceram antes dele ser governo.

Nós somos eleitos para governar por um mandato de quatro anos, o que é muito pouco, e eu acho que, ao invés de ficarmos chorando aquilo que recebemos, nós temos que nos propor a fazer aquilo que nós acreditamos e aquilo que nós prometemos fazer para a sociedade brasileira.

Tem muita gente no Brasil que não se dá conta do atraso do desenvolvimento de uma região como o nordeste brasileiro e cada um joga a culpa em cima de quem quiser. O dado concreto é que uma única vez neste país, em que foi dada a chance ao Nordeste, através de uma agência de desenvolvimento regional como a Sudene, de se autodesenvolver, a região cresceu de forma extraordinária, se bem que ainda com muita deformação na utilização dos recursos públicos.

Nós anunciamos aqui, no ano passado, a criação da Sudene, que possivelmente será aprovada esta semana no Congresso Nacional, e vamos ter que trabalhar a realocação de fundos para que a Sudene possa elaborar os seus projetos; e assim, vamos garantindo, com passos muito sólidos, aquilo que o nordeste brasileiro nunca deveria ter perdido, que é a sua capacidade e a sua chance de desenvolvimento.

Obviamente que não existe como fazer milagre, se assim pudesse ser feito, nenhum de nós teria problema, e muito menos, o Brasil. As coisas têm que ser feitas no tempo que podem ser feitas, com os recursos com que podem ser feitos e com a cautela que nós temos que ter.

Se não fosse assim, a ferrovia Transnordestina não estaria paralisada há tantos anos neste país. Ela precisa ser retomada, mas para ser retomada, nós temos que combinar: ao mesmo tempo que pensarmos em recuperar a ferrovia, nós teremos que pensar em um modelo de desenvolvimento que possa dar sustentabilidade econômica à existência da Transnordestina. Não é apenas fazer a ferrovia, como muita gente faz no Brasil, que constrói uma ponte e depois não descobre porque vai utilizar essa ponte. Ela vai ligar o quê a que?

Então, é preciso pensar de forma responsável o projeto, para que dê sustentação e viabilidade econômica a uma ferrovia como a tão sonhada transnordestina de muitos e muitos ilustres nordestinos. Da mesma forma que nós temos que pensar na BR 101 não apenas em fazer uma estrada como qualquer outra, mas discutir quais os projetos de turismo que estarão acoplados e ligados ao desenvolvimento de uma rodovia que vai ligar praticamente todo o nordeste brasileiro.

Somente a estrada pela estrada não trará os resultados e os benefícios que todo mundo pensa que vai ter. Eu me lembro, companheiros governadores, que quando o nordestino discutia o problema da região dentro das fábricas ou nos sindicatos lá em São Paulo, a coisa mais comum era dizerem que o Nordeste está sob um mar de água subterrânea, que em qualquer lugar que se cavar, terá água para abastecer um mundo inteiro. E essa fantasia é vendida ainda hoje. As pessoas não se dão conta de tratar de coisas importantes com soluções fáceis, muitas vezes inexeqüíveis, e nós temos que pensar no Nordeste com projetos que mexam com a estrutura dessa região.

Eu me lembro que quando vim aqui para inaugurar a Sudene, eu falei que nunca tinha assumido o compromisso em relação às águas do rio São Francisco, para a região mais pobre. Nunca ninguém me ouviu falar em discurso sobre a transposição das águas. Nunca falei. Entretanto, nós vamos fazer. E se todos nós estivermos certos, se Deus quiser, no meio de 2006 nós estaremos inaugurando a primeira etapa para trazer a água para uma região pobre deste país.

E não vamos fazer nenhum projeto onde o Ministério Público possa, amanhã, entrar com uma ação para embargar. Também não vamos fazer nenhum projeto onde, amanhã, o Tribunal de Contas encontre irregularidades e o faça parar. E não vamos fazer, também, nenhum projeto para, depois de pronto, ouvirmos o IBAMA dizer que não dará o licenciamento. É por isso que estamos trabalhando com muita tranqüilidade, envolvendo o Ministério Público, o IBAMA, o Tribunal de Contas, o Ministério do Meio Ambiente para, quando o projeto executivo estiver pronto, estejam prontas todas as condições para que possamos começar a trabalhar.

Nós não podemos continuar a ser o país das obras paradas. Só hidrelétrica neste país, tinham 35 paradas, desde 2001. Nós, de junho a novembro, começamos a tocar 17 e até junho agora, se Deus quiser, tocaremos as outras 18. E estavam paradas por irresponsabilidade, parada por que, em algum momento da História, alguém pensou que era possível chegar numa tribuna, fazer um discurso para poder ganhar uma eleição, e depois não concluir as obras. Eu acho que o Brasil precisa dar uma chance a si mesmo. E para dar uma chance a si mesmo é preciso trabalhar com muita seriedade e com muita responsabilidade.

Eu sempre digo que responsável é aquela pessoa que, ao tratar uma febre, não mate o paciente com um choque anafilático, é aquela que cuida com a dosagem certa e com o carinho certo. É assim que nós, inclusive, estamos cuidando da economia brasileira.

Eu vejo esse debate todo, dentro e fora do meu Partido, dentro e fora do Governo, de que o grande problema do Brasil é que é preciso baixar os juros mais rápido e muitas vezes, as pessoas que falam não têm noção se é possível baixar com rapidez ou não. Eu disse, outro dia, no Conselho de Desenvolvimento Econômico, que quem mais quer baixar os juros é o ministro da Fazenda, é o presidente do Banco Central, é o presidente da República, são os ministros que estão aqui.

Entretanto, nós temos que ter uma responsabilidade em não permitir que um gesto fora de hora, impensado, possa trazer uma repercussão negativa para um país que estava tão sem credibilidade, que a dívida interna foi praticamente dolarizada, porque ninguém acreditava mais nas altas taxas de juros que o Governo oferecia. E nós agora estamos, com muito cuidado, fazendo o que tem que ser feito, comprando os nossos títulos em dólares, para não ficar dependente nem vulnerável, tentando fazer com que as dívidas se tornem pré-fixadas, para que o governo não tenha que correr atrás. E tudo isso leva tempo. As coisas não são feitas num toque de mágica, leva um tempo. E vai levar o tempo necessário para que a gente possa dar ao Brasil a sustentabilidade de que ele precisa para fazer as reformas profundas, inclusive na linha de financiamento da nossa produção.

Quero dizer para vocês que o problema, hoje, do Brasil, não é falta de dinheiro para investimento. Se nós analisarmos o dinheiro que tem na Caixa Econômica Federal, no Banco do Brasil e no BNDES para financiar, nós ultrapassaremos os 100 bilhões de reais. O importante é saber quais os projetos que têm sustentabilidade para serem financiados e que vão resultar em benefícios depois. Porque nós não vamos "rasgar nota de 100" financiando projetos que são inexeqüíveis do ponto de vista prático e do ponto de vista das atividades econômicas. E, da mesma forma que eu disse para o companheiro Roberto Smith, que não tenha medo, com o mesmo orgulho que apresentou a sua Diretoria, aqui, hoje, daqui a quatro anos você irá trazê-los, convocar esse público e dizer: nós queremos prestar contas do que fizemos no Banco do Nordeste e queremos medir com o que nós encontramos.

E é disso que eu sinto orgulho, porque cada ministro meu, ao terminar o seu mandato, vai poder prestar contas da diferença entre o que ele vai deixar e o que ele pegou, porque somente assim nós vamos aferir o que aconteceu neste país. Somente assim vamos medir concretamente o que está acontecendo e o novo papel que os bancos públicos estão cumprindo. Diziam que a gente não poderia reduzir a taxa de juro para crédito, nós chamamos o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, o Banco do Nordeste e o Basa, e começamos a fazer empréstimos a 2% para descontar em folha. Logo, logo, todos os bancos se prontificaram a fazer, pela primeira vez na história do Brasil, acordos com o movimento sindical para emprestar dinheiro aos trabalhadores e descontar em folha.

Está certo que 2% ainda é muito alto, o ideal seria que o juro fosse de 0,1%, ou fosse zero, mas nós não temos que medir com aquilo que sonhamos, temos que medir com o valor do juros do crédito aí fora, ao qual o povo estava submetido quando ia comprar uma geladeira ou uma televisão e tinha que pagar 150, 160% de juros ao ano.

Isso foi feito. Agora vamos fazer o mesmo para os aposentados. Os 19 milhões de aposentados vão poder tomar dinheiro emprestado a juros bem baixos para pagar em tempo alongado, para que não fiquem todo ano indo à Caixa Econômica Federal, levar o seu reloginho para penhorar.

Nós vamos criar condições para essas pessoas terem acesso ao crédito e vamos criar condições para o Brasil crescer do jeito que precisa. Mas não criaremos nenhum projeto faraônico, daqueles que a gente anuncia e 30 anos depois descobre que nem estava pronto. Nós não temos que ter duas caras na política, nós temos que ter uma. É melhor dizer um não, é melhor mostrar as dificuldades e não fazer, do que vender facilidades e depois não fazer.

Eu estou dizendo isso porque conheço as angústias dos governadores e conheço as angústias dos prefeitos, e me lembro que nós tivemos uma eleição em 2002, e fico imaginando os debates dos quais eu participei na televisão. A coisa estava tão arranjada no Brasil que não ia ter problema. E vocês hoje sabem o tamanho do problema que vocês, que eu e que os prefeitos herdarão ainda este ano.

O Lúcio foi constituinte junto comigo e foi exatamente na Constituinte de 88 que nós fizemos com que os municípios brasileiros tivessem a maior participação na distribuição da renda no Orçamento da União. De lá para cá, os municípios vieram perdendo, ano após ano, porque na política deste país, a concepção é de que prefeitos e estados não podem ter dinheiro porque é conveniente, do ponto de vista político, estarem todo mês em Brasília com o chapéu na mão, dependendo do favor do presidente da República ou de um ministro que libera ou não libera, de acordo com a sua conveniência ou com as possibilidades dos recursos que tem.

O ideal seria que a política de distribuição fosse de uma justeza tal, que a gente passasse os quatro anos se encontrando para discutir o desenvolvimento do país, para comemorar alguma coisa positiva e não nos encontrando todo santo dia para discutir a falta de recursos, a falta da estrada, a falta da ponte, a falta do açude, a falta da escola, a falta não sei do quê. E falta muita coisa no nosso país.

E qual é o desafio que está colocado para nós? Afinal de contas, nós temos um mandato que começou junto, no dia 1º de janeiro, e terminará junto, dia 31 de dezembro de 2006. O desafio que nós temos não é, nem eu e nem vocês, ficar olhando para quem veio antes de nós, depois de nós, e ficar xingando e jogando a responsabilidade da desgraça.

O desafio para nós, governadores, companheiros prefeitos - este ano tem eleição para prefeito - é sentar e ver o seguinte: que Brasil poderemos construir para os próximos 20 anos? Qual a qualidade deste país? Como será o Nordeste daqui a 20 anos? Como será o país como um todo? Como será a qualidade da educação deste país daqui a 20 anos? Como será a qualidade da saúde?

Hoje nós vamos a Sobral lançar o Plano de Políticas de Saúde Bucal. Porque no Brasil até frieira no pé é tratada como uma questão de saúde pública. A boca não é tratada como uma questão de saúde pública. É indescritível você perceber que, num país como o Brasil, você está com um problema de bicho-de-pé, você se trata onde você quiser, e isso é visto como uma questão de saúde pública, mas se você está com dez dentes estragados na boca, isso não é uma questão de saúde pública, e muitas vezes a rede pública não dá a assistência que as pessoas precisam. Nós pretendemos, até 2006, criar 400 centros para tratamento da saúde pública bucal neste país, não apenas para tratar os dentes. Pretendemos chegar a 16 mil grupos, como têm os grupos dos médicos de família, para garantir que a parte mais pobre da população não perca o direito de sorrir aos 14 anos de idade, aos 15 anos de idade.

E isso só pode ser feito se houver uma determinação do Governo de não se subordinar à orientação das grandes indústrias que cuidam da saúde no Brasil, ou das grandes indústrias que cuidam dos remédios. Se pensa que for feito por um Governo que antes de qualquer coisa, nós temos que cuidar do serviço que temos que dar à sociedade brasileira.

E podem ter certeza de uma coisa - que eu digo aqui o disse da outra vez: eu durmo toda noite sem esquecer de nenhum compromisso que assumi durante a minha vida inteira, não para uma campanha eleitoral, sem esquecer das coisas que eu sei que têm que ser feitas neste País. E podem ficar certos, com a cautela que eu tive na minha vida o tempo inteiro, que nunca dei passos que não pudesse alcançar chão firme quando o pé batesse no chão. Nós vamos fazer, porque tenho um compromisso, historicamente assumido. Temos uma definição das prioridades e vocês vão perceber que os nossos adversários são aqueles que torcem tanto para que as coisas não dêem certo, até porque neste País deve ter muita gente torcendo: "´Não pode, esse Lula não pode dar certo." É como um ex-marido que não quer que a ex-mulher seja feliz. "Tomara que não dê certo". Ou seja, também vale para uma ex-mulher que não quer que o ex-marido seja feliz.

Tem gente que diz: "Será possível, nós vamos deixar um torneiro mecânico? É certo que nós, que estudamos tanto, possamos deixar! Mas isso não pode!" E eu vou fazer. E sabe por que eu vou fazer? Porque não é um livro que ensina a arte de governar. Vou fazer porque tenho mais compromissos e porque acredito nas pessoas que trabalham comigo. E vou fazer porque tenho certeza que eu não posso trair a expectativa que, durante tantos anos nós geramos na sociedade brasileira. Mas vou fazer com uma responsabilidade que foi me dada.

Todo mundo sabe que eu fui o dirigente sindical mais importante da História deste País. Eu comecei a minha vida sindical gritando: "83% ou nada". Conclusão: fiquei sem nada, porque, em algum momento, faltou bom senso para eu perceber que entre o nada e o 83 tinha 82 números, e que eu poderia ter colocado minhas reivindicações com outras palavras.

Mas nós vamos tratar esses problemas com carinho e com habilidade. Lúcio, acho que na História republicana do Brasil nunca teve, no Governo, metade dos dirigentes sindicais que estão hoje no Governo. É impressionante. O presidente da República foi sindicalista; o ministro da Fazenda foi sindicalista; o ministro das Cidades foi sindicalista; o ministro da Secretaria de Comunicação foi sindicalista; o ministro do Trabalho foi sindicalista; o secretário-geral da Presidência da República foi sindicalista; o Humberto Costa, não, foi só por um ano; esse aqui foi pouquinho tempo; o presidente da Petrobrás foi sindicalista.

Portanto, nós não deixaremos de tratar a questão relacionada ao servidor público com o carinho que precisa ser tratado. Não deixaremos de tratar com carinho mas, também, não deixaremos de tratar com a responsabilidade necessária. Isso vale dentro de casa e vale para fora de casa.

O país está começando a crescer. Os empregos que nós tanto queremos criar vão ser criados neste país. A política de juros vai baixar, vai ter mais investimento. Agora, tudo isso não acontecerá porque alguém gritou mais alto.

Eu me lembro que, um dia, um jornalista importante deste país queria criar um jornal. E, ao querer criar um jornal, pediu uma reunião comigo e eu perguntei quanto tempo ele precisaria para saber se o jornal iria dar certo ou não. Ele falou: "Olha, eu preciso de, pelo menos, um ano. Pelo menos um ano para saber se o jornal vai conquistar mercado e vai se manter".

Pois bem, meu caro Roberto, você está há apenas um ano no Banco. E você, em pouco tempo, já provou que esse Banco, se viesse cumprindo, ao longo desses últimos anos, as funções para as quais foi criado, certamente o Nordeste brasileiro seria melhor do que é hoje. E eu não tenho dúvida de que, no final da sua gestão neste Banco, haverão os nordestinos de reconhecer que o Banco do Nordeste voltou a justificar a sua criação e voltou a cumprir com a sua função.

O trabalho de vocês, diretores, não é ficar sentando em cima do dinheiro, olhando se a nota de 100 é melhor que a nota de 50. O trabalho de vocês é criar todas as facilidades mas, também, com toda a honestidade exigida, criar a possibilidade de emprestar dinheiro a quem queira investir no nosso país.

Muito obrigado e boa sorte para todos vocês.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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