Discurso do presidente Lula: Teleconferência sobre o Programa de Regionalização do Turismo - "Roteiro do Brasil"

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CNC - Brasília-DF, 29 de abril de 2004

Meu querido companheiro Walfrido Mares Guia, ministro do Turismo,

Meu querido Antonio Oliveira Santos, presidente da Confederação Nacional do Comércio,

Meu querido Silvano Gianni, presidente do Sebrae,

Meu companheiro Fritz, secretário especial de Aqüicultura e Pesca,

Meu querido Carlos Wilson, presidente da Infraero,

Meu caro Eduardo Sanovicz, presidente da Embratur,

Deputados,

Senadores,

Eu estava conversando com o cerimonial para me dar o nome dos deputados e senadores que tinham chegado, mas ainda não temos em mãos. Quem sabe depois a Leda possa citar o nome dos deputados e senadores que estão aqui. Estou vendo o Paulo Octávio, o Marcondes Gadelha.

Eu quero agradecer pessoalmente pelo empenho de votarem as leis que mandamos para o Congresso Nacional e que resultaram na conquista de ontem à noite, graças à compreensão dos senadores, que resolveram apostar que o turismo é, definitivamente, uma das grandes possibilidades que nós temos de desenvolver o Brasil sem ficar chorando aquilo que não temos, e utilizar de forma mais competente aquilo que temos.

Eu, de vez em quando, trago um discurso por escrito, porque como é uma teleconferência, eu vim todo cheio de formalidades. Mas eu estou vendo que o ambiente aqui não é de muita formalidade. Eu queria dizer umas palavras antes de ler o meu pronunciamento.

Há algum tempo, eu, trocando idéias com o ministro Mares Guia, disse a ele que era importante que a gente tivesse um cuidado especial ao tratar da imagem do Brasil. Da mesma forma que o homem se arruma para sair de casa, ele não se arruma para ele mesmo, ele se arruma para alguém, para os outros virem que ele está arrumado. Da mesma forma que uma mulher quando se troca para sair, não se troca para ela, mas para que alguém note que ela está sendo importante para os olhos de quem a vê.

A imagem do turismo tem que ser tratada assim. Ou seja, na medida em que a gente define o turismo como prioridade, na medida em que a gente cria um ministério para cuidar do turismo, na medida em que a gente coloca o turismo dentre as dez prioridades do governo para o desenvolvimento da economia, nós temos que ter o cuidado excepcional com a imagem que nós queremos passar, porque a imagem é o que pode atrair as pessoas, tanto de dentro para viajar internamente o Brasil, quanto de fora para vir para o Brasil.

Eu tinha conversado com o Walfrido no sentido de que nós pudéssemos produzir fotografias dos 50, 60, 70 melhores lugares do Brasil, e que a gente pudesse utilizar as embaixadas brasileiras no mundo inteiro, que a gente pudesse utilizar os balcões das nossas empresas de transporte aéreo, que nós pudéssemos utilizar as nossas agências, e que nós aprendêssemos a vender com mais competência o que nós temos de bom, porque o que é ruim os nossos adversários vendem, o que é bom nós temos que vender. Quando eu digo nossos adversários, não são adversários políticos internos não, são os que competem conosco internacionalmente na questão do turismo.

Então, nós temos que cuidar da nossa imagem com o carinho que a gente cuida da nossa cara de manhã. Nem sempre ela fica boa, mas a gente não deixa de cuidar com carinho excepcional, para sair da melhor forma possível, principalmente quando se é candidato, que precisa tirar fotografia. Então, você cuida do rosto, você faz maquiagem.

O turismo é exatamente isso. Eu, de vez em quando, penso assim: nós precisaríamos colocar para funcionar a ociosidade da nossa criatividade. Eu acho que nós somos muito mais criativos, e muitas vezes, temos uma ociosidade enorme, porque para sermos criativos é preciso pensar, ousar, e é isso que nós estamos fazendo no turismo.

Eu não sei se vocês percebem que um canal de televisão, por mais importante que seja, programas que nós assistimos há 30 anos, há 35 anos, há 10, 15 anos, toda semana tem propaganda fazendo chamada para você assistir ao programa. Teoricamente não precisaria ter. Por que fazem? Porque é importante chamar a nossa atenção para não assistir outra coisa. Naquele horário tem que ver aquele programa.

Isso, leva em conta uma coisa que eu dizia para o Mares Guia, ontem, na reunião com o PPP. Nós precisamos chamar os nossos canais de televisão que têm a transmissão para o exterior, e discutir com eles, com muito carinho, as coisas que seriam importantes não para o governo, mas para o Brasil que passassem no exterior.

Porque se nós passarmos imagens negativas, se nós passarmos violência, se nós passarmos uma série de coisas, o cidadão pode estar arrumando a mala, dizendo: "Olha, vamos dar uma volta no Brasil". Ligou um canal de televisão e viu 10% da violência que às vezes é transmitida, e ele fala: "Espera aí. Não é mais para o Brasil. Eu vou passar por cima ou vou evitar de chegar ao Brasil".

Então, eu acho que é extremamente importante, Walfrido, que exista uma parceria com os nossos homens de comunicação, de televisão, para que a gente trate a imagem do Brasil com o carinho que a gente trata da nossa imagem pessoal, porque é isso que vai motivar as pessoas a visitarem o Brasil.

Eu, de vez em quando, vejo um filme americano e de repente o cidadão é um ladrão, rouba um banco e fala: "vou para o Rio de Janeiro, vou para São Paulo". Como se aqui fosse um paraíso de quem quer fugir da polícia lá.

Ou seja, nós é que temos que mostrar aquilo que a gente tem de bom. Por isso nós criamos um Ministério do Turismo. Porque o turismo não poderia continuar sendo um apêndice do Ministério do Esporte. Da mesma forma que a Pesca não poderia continuar sendo um apêndice do Ministério da Agricultura.

Se são áreas que têm potencial de crescimento, nós, então, temos que cuidar com um carinho especial para que a gente tenha, nesses setores, um grande centro de atividade.

Eu estava agora com o governador do Amazonas e ele me dizia a quantidade de americanos que estão indo pescar no estado do Amazonas, pesca esportiva, ou seja, pesca e solta o peixe. E depois vem o brasileiro pesca o peixe e come. Mas de qualquer forma, é importante que eles continuem pescando e soltando para que o brasileiro possa pescar e comer porque nós temos mais necessidade do que eles.

Eu acho que o Brasil não é divulgado nem internamente. Eu penso, ministro, que é importante reunir os governadores do Brasil inteiro, e discutir com eles uma parceria com o Ministério do Turismo, para que cada estado faça propaganda do seu potencial turístico. O único estado que fez isso, com competência, foi a Bahia e colheu resultados por quê? Porque levantou a auto-estima do povo baiano, porque a Bahia virou uma referência de turismo para todo o povo brasileiro, porque tiveram coragem de ousar e colocar na televisão.

Então, é preciso que todos os estados brasileiros, do Oiapoque ao Chuí, possam divulgar as coisas boas em parceria com o Ministério. Se o problema é dinheiro vamos fazer parceria com a iniciativa privada, mas é importante que o cidadão de São Paulo saiba o que tem de bom na Paraíba, em Pernambuco, em Alagoas, no Acre, em Rondônia e Roraima. Ou seja, se nós não soubermos, nós pegamos um avião e vamos para outro lugar.

Então, isso é crucial, é convencer os governadores que não podem permitir que continuem passando a fome do seu estado apenas como sinônimo de pobreza. É preciso mostrar o que tem de bom em cada região e eles têm que ter consciência que, ao mostrar, eles estarão contribuindo para que o seu estado tenha mais renda, para que o seu estado tenha mais visitantes.

Eu acho que esse é um trabalho de uma grandeza extraordinária, é um trabalho de convencimento, e nós temos que fazê-lo, porque quando a gente fala de alguns estados no Brasil, a imagem que vem é de pobreza, quando, na verdade, a economia deixou o povo pobre. Mas a natureza, quando Deus fez o mundo, ele não mediu nenhum esforço para fazer investimento e fazer coisas boas no Brasil. Agora, o que nós precisamos é tirar proveito disso, nenhum país do mundo tem. Ou seja, eu fico imaginando quando chega um turista sueco, alemão, francês, em Foz do Iguaçu, e depois ele vai para Niagara. Ou seja, ele vai perceber que nós temos muito mais beleza, temos muito mais atrativos, muito mais quedas d'água.

Eu fui fazer uma viagem agora para a Índia. E num determinado momento, eu pedi para um governador mostrar o seu estado. Eu tinha orientado: cada um leva as coisas do seu estado. Vocês vão ter uma reunião com empresários, com governadores, com presidentes, e vão entregando as coisas do seu estado, pois um dia o cara lê. Aí cheguei para um governador e pedi para ele mostrar. Eu achei que ele ia mostrar as coisas bonitas que existem lá, mas eu não vou falar o que é, para vocês não descobrirem quem é o governador. Na verdade, o que ele fez? Ele passou no aeroporto, comprou uns livros lá, que ele nem sabia o que tinha dentro, lacrado. Ou seja, quando eu fui dizer para o Presidente: olha que coisa bonita que tem nesse estado, não tinha nada, porque não era um livro do estado, não era uma divulgação do estado.

Então, nós temos o dever, eu diria, quase que cívico, de mudar a nossa imagem interna e externa. E o governo federal vai cuidar da sua parte, e é importante que a gente convença os estados a cuidarem da sua. O Carlos Wilson está fazendo a parte dele, porque todas as capitais neste país estão tendo uma transformação excepcional dos aeroportos.

Eu tive o privilégio de participar da inauguração do aeroporto de Bonito, e tenho certeza que, tendo vôo direto dos grandes centros urbanos para Bonito, possivelmente, a cidade dobrará os seus turistas, ou melhor, triplicará, em poucos anos. E eu acho que isso pode demonstrar que o governo federal está cumprindo a sua parte. Vamos convencer prefeitos e governadores a cumprirem com a sua, para que a gente possa fazer o turismo render tudo aquilo que nós sonhamos.

Agora vou cumprir minha obrigação aqui.

Primeiro, quero dizer a vocês que esta cerimônia de hoje tem um significado muito especial para mim.

Desde o início de minha vida sindical e política tenho viajado por este país para conhecer de perto os problemas do povo e, junto com ele, encontrar soluções e alternativas para a construção de um Brasil realmente à altura de nossa gente.

Que país enorme e lindo descobrimos quando saímos dos grandes centros! E não falo apenas das belezas naturais e dos sítios históricos que temos em todas as nossas regiões. Praias, montanhas, rios, lagoas - tudo isso encontramos em nosso Brasil, numa diversidade sem igual no mundo. Mais importante, porém, é a riqueza cultural de nosso povo e de nossa história.

Estamos, nesse sentido, vivendo um momento especial, pois a elevação de nossa auto-estima favorece a exploração de todas as possibilidades do Brasil, seja na economia, na cultura, nas artes, na ciência, na tecnologia e em outras áreas do conhecimento humano. Com o turismo, não é diferente.

Isso fortalece nossa percepção da importância do turismo também como um fator de coesão social - queremos que cada vez mais brasileiros conheçam outras regiões do nosso próprio país, tenham muito orgulho da nossa cultura, da nossa natureza, da nossa gente, para que consolidemos ao máximo o nosso sentimento de nação.

A atividade turística representa emprego e renda para um enorme conjunto de comunidades pelo Brasil afora. Apesar disso, nunca foi levada suficientemente a sério, o que deixou de contemplar, na prática, a rica diversidade regional do nosso país. Foi daí que nasceu a minha decisão de criar o Ministério do Turismo.

O tempo mostrou que estava certa a nossa opção de dar ao turismo tratamento de atividade estratégica para o desenvolvimento econômico e social. Para isso, foi preciso planejar e articular as ações com o setor produtivo e as comunidades, de modo a tirar o melhor proveito possível desse mercado que é um dos que mais emprego e renda geram em todo o mundo.

Foi necessário também reunir as diversas comunidades e os setores envolvidos na atividade para que pudéssemos avançar de fato nessa área.

Há exatamente um ano, lançamos o Plano Nacional de Turismo, com o objetivo de promover o desenvolvimento estratégico do setor.

Ousado e criativo, o plano estabelece medidas práticas sugeridas e discutidas num processo de construção coletiva que envolveu governo, setor privado, instituições de ensino, organizações não-governamentais e outros setores da sociedade.

Entre elas estão iniciativas de promoção tanto do turismo interno quanto daquele voltado para a captação internacional. Na ocasião, eu disse que estávamos apresentando não o plano deste governo para o turismo, mas estávamos apresentando o plano do Brasil para o turismo. Uma coisa que perpasse um governo ou vários governos, mas que se transforme numa conquista da nação brasileira.

A base dessa nova política é que o turismo deve contemplar as diversidades regionais. E deve buscar a geração de emprego, ocupação e renda como forma de reduzir as desigualdades sociais e regionais existentes ainda no Brasil.

O Programa de Regionalização do Turismo - Roteiros do Brasil - que estamos lançando hoje é resultado prático dessa orientação estratégica. Ele significa a implementação de um novo modelo de desenvolvimento do setor, baseado na cooperação e na parceria dos segmentos envolvidos.

Com ele, estamos oferecendo novas opções ao turista e melhorando a qualidade dos produtos e serviços prestados. Para isso, ampliaremos e qualificaremos ainda mais o mercado de trabalho.

É preciso lembrar que o turismo é uma atividade que envolve não apenas setores estruturados da economia, como hotéis, agências e companhias de transporte. É grande e imprescindível também a participação de ocupações informais, como vendedores, artesãos, barraqueiros e pescadores, e tantos outros brasileiros e brasileiras que produzem produtos na economia informal.

E precisamos qualificar melhor essas pessoas, e aí está o Sebrae para fazer isso, para que o turista se sinta bem atendido, aumente sua permanência nos locais visitados e tome a decisão de voltar sempre que possível. É assim que vamos também ampliar a participação brasileira no turismo mundial.

Nos encontros realizados em todos os estados e no Distrito Federal, já foram identificados 219 pólos com potencialidade para o desenvolvimento do turismo.

Nosso objetivo é diversificar a oferta brasileira, com no mínimo três produtos turísticos de qualidade em cada estado. E eu acho aí Walfrido, que tem mais do que três para cada estado. Isso é que nem garimpar, garimpando a gente vai achar lugares extraordinários, e se não for tão extraordinário, a gente pode fazê-lo extraordinário com um pouco de infra-estrutura e um pouco de melhoramento.

O Programa de Regionalização do Turismo - Roteiros do Brasil está, portanto, voltado para o país como um todo, para suas riquezas ambientais, materiais e de patrimônio histórico. Mas, principalmente, está dirigido às populações dessas áreas que passam a ter a chance de mostrar ao restante do Brasil e ao mundo as maravilhas que abrigam.

Quero agradecer ao ministro Mares Guia e sua equipe pelo esforço e dedicação que resultaram nesse programa. Agradeço ainda a todas as entidades e organizações que atenderam ao apelo do governo e se engajaram na construção conjunta de um novo modelo de desenvolvimento turístico.

Quero destacar, entre outras, as parcerias com o Senac, Sesc, Sebrae e Confederação Nacional do Comércio. Quero reafirmar aqui uma crença que, felizmente, ganha a cada dia mais adeptos.

O desenvolvimento do turismo vai nos ajudar não apenas economicamente, mas em especial na construção de um país mais justo, menos desigual e com um povo ainda mais confiante, receptivo e alegre.

É importante lembrar que o melhor do Brasil é o brasileiro, e é importante lembrar que a auto-estima de um povo é a mola propulsora para as conquistas importantes desse povo. E o turismo está aí, a natureza já preparou 50% do caminho. Tenhamos capacidade para concluir essa obra.

Muito obrigado.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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