Palácio do Planalto, 08 de março de 2004
Se eu fosse mais alto, eu estaria vendo até as pessoas que estão aí atrás.
Minhas queridas companheiras, não poderia acontecer comigo, no mesmo dia, duas coisas tão importantes com as que aconteceram hoje, no Dia Internacional da Mulher.
Nós estávamos, na sexta-feira, discutindo a necessidade de fazermos uma reunião com algumas mulheres do Brasil, para que pudéssemos comemorar o Dia Internacional da Mulher, que é hoje, dia 08 de março. E surgiu a idéia de que nós fizéssemos um encontro aqui, com todas as funcionárias do Palácio do Planalto que, muitas vezes, trabalham numa sala do lado da gente, ou numa sala abaixo da sala em que trabalhamos, e a gente passa quatro anos aqui e vai embora, e não vê as pessoas que aqui trabalham.
E hoje foi um dia importante, porque permitiu que, num único dia, nós tivéssemos contatos com todas as mulheres que trabalham aqui, no Palácio do Planalto. E são muitas mulheres, que passamos o ano sem ver.
A segunda coisa é terminar o dia numa reunião com as trabalhadoras rurais brasileiras. Algumas de vocês nós conhecemos de vários lugares deste Brasil, das Caravanas da Cidadania - desde 1992, 1993 - no Maranhão, Piauí, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás.
Eu sei que em algum lugar deste país eu já encontrei com muitas de vocês. Muitas delas com a presença da Marisa, que me acompanha nessa marcha há 30 anos. Eu não sei se sou eu que sou um bom marido, ou se é a Marisa que é uma boa mulher, porque ficar juntos 30 anos, neste Brasil, não é uma coisa boa. Como eu acho que nós somos muito humildes, acho que eu e ela nos merecemos. É por isso que nós estamos juntos há tanto tempo.
Quero apresentar a vocês uma companheira que foi recém-eleita para cuidar das mulheres brasileiras, cuidar da questão de gênero, que é a companheira Nilcéa Freire, que hoje teve um contato com vocês, e me parece que ontem, sexta-feira, também visitou vocês.
Quero apresentar também o companheiro Miguel Rossetto, que vocês conhecem. Gaúcho de boa cepa, um companheiro que tem a incumbência de fazer a mais profunda, a mais séria e a mais responsável reforma agrária que já foi feita na História do nosso país.
E, quando eu digo uma reforma agrária mais profunda e mais responsável, é porque nós estabelecemos que reforma agrária não é apenas dar um pedacinho de terra para as pessoas, muito longe, e abandonar as pessoas à sua própria sorte.
Vocês, que lutam há muitos anos, sabem que a reforma agrária só vai vencer no dia que a gente puder provar que o homem ou a mulher que estiver assentado vai ter não apenas condições de trabalhar a sua terra, porque vai ter crédito e assistência técnica. Vamos segurar as pessoas trabalhando felizes no campo na hora que garantirmos que outros benefícios cheguem ao campo, como educação de boa qualidade para as nossas crianças; como saúde para os nossos filhos, para as nossas mulheres e para os nossos homens; como condições de garantir os preços dos produtos que as pessoas produzam, para que as pessoas possam sobreviver a partir do resultado do seu trabalho.
Coube ao companheiro Miguel Rossetto colocar essa tarefa em prática. E ele sabe que não é uma tarefa fácil, é uma tarefa muito difícil, difícil para nós e difícil até para o próprio movimento, porque é quase um processo de educação coletiva que nós temos que fazer no nosso querido Brasil. Nós não queremos mais que nenhuma pessoa seja assentada e, depois de alguns anos, não tenha recebido nenhum crédito, não tenha recebido assistência técnica, não tenha passado por lá nenhum médico, não tenha passado por lá nada que possa ajudar.
E eu não sei se vocês repararam que, no ano passado, além de liberarmos mais dinheiro para o Pronaf, criamos a primeira grande novidade do Pronaf, que foi criar um crédito para a mulher trabalhadora rural não ficar dependendo do projeto do seu marido. O marido pode ter a sua plantação, pode ir no Banco do Brasil e pegar o seu dinheiro; mas se a mulher quiser, ela própria, ter um outro projeto, pode apresentar esse projeto e conseguir um empréstimo, separado, do empréstimo que o marido fez no Banco do Brasil. E mais ainda, o importante é que, pela primeira vez, Requião, nós beneficiamos o companheiro jovem trabalhador rural. Se além do homem e da mulher pegarem o crédito, eles tiverem um filho de 18, 19 anos que queira trabalhar no campo, ele pode também ir ao Banco do Brasil e ter acesso ao dinheiro do Pronaf, independentemente do dinheiro do pai e da mãe. Ou seja, nós temos a boa felicidade de poder garantir que, numa mesma família, possa ter três projetos com créditos financiados pelo Pronaf. Essa é uma experiência que, eu espero, neste ano seja infinitamente melhor.
Eu também quero dizer para vocês que é uma alegria estar aqui com o nosso governador do estado do Paraná, o companheiro Requião, um companheiro que tem sido solidário na luta dos trabalhadores rurais desse País; com o nosso companheiro Jaques Wagner, que era ministro do Trabalho, e agora é o secretário responsável pela funcionamento do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social; além de outros companheiros que estão por aqui.
Eu quero, portanto, dizer para vocês que vocês me deram - à mim e a Marisa - uma alegria extraordinária. Eu sei que vocês trouxeram uma pauta de reivindicação; essa pauta já foi entregue a vários ministros com quem vocês conversaram e, podem ficar certas que logo, logo, vocês estarão, através da direção de vocês, sendo chamadas a Brasília para discutirmos ponto por ponto. Eu tenho a convicção que a trabalhadora brasileira e, sobretudo a trabalhadora rural, não reivindica nada impossível. Mas reivindicar melhor educação é uma coisa necessária e todo mundo tem que reivindicar; assistência técnica é uma coisa que todo mundo tem que reivindicar; terra para trabalhar e reforma agrária são coisas que todos que querem trabalhar no campo têm que reivindicar. Portanto, não haverá nenhuma dificuldade em, daqui a pouco tempo, quem sabe em menos de 10 dias ou 15 dias, o nosso Governo chamar as lideranças aqui, e dizer item por item aquilo que nós poderemos atender imediatamente, aquilo que nós poderemos atender no médio prazo e aquilo que vamos ter mais dificuldade de atender.
Eu gostaria de terminar e dizer para vocês o seguinte: eu não sei, na história deste Palácio, quantas vezes trabalhadoras rurais entraram aqui dentro. Não sei quantas vezes. O dado concreto é que, muitas vezes no Brasil, gente honesta e trabalhadora teve dificuldade de entrar nas salas dos governantes. E, muitas vezes, outro tipo de gente conseguiu entrar com muita facilidade. Isso é histórico e é cultural, no nosso país.
A presença de vocês, aqui, é a demonstração de que as coisas mudaram, pelas bandas do Brasil. As coisas mudaram, e vão mudar cada vez mais.
Vocês, companheiras, que lutam a vida inteira, eu duvido que exista no planeta Terra gente que tenha mais paciência do que mulher. Mulher tem paciência porque sente a dor do parto. E, depois da dor do parto, a mulher tem que cuidar da criança. E, às vezes, ela percebe que a dor do parto dói menos do que, às vezes, cuidar do filho sem as condições financeiras necessárias, tendo que formar essa criança corretamente.
Muitas de vocês estão na luta há 20 anos ou há 30 anos. Algumas, começaram na luta na mesma época que eu comecei. E nós estamos no Governo há 13 meses. A única coisa que eu peço é para vocês não perderem a certeza de uma coisa: eu me lembro cada compromisso que assumi na minha vida com o povo brasileiro. E, sobretudo, eu me lembro de cada compromisso que assumi em cada caravana que eu fiz, com mulheres e homens deste país. E pretendo cumpri-las. Pretendo realizá-las, porque não é apenas uma reivindicação, é um compromisso de vida.
E este compromisso de vida vai ser feito. Muitas vezes, nunca é feito no tempo que a gente quer e com a rapidez que a gente precisa. Mas podem ficar certos que será feito porque é determinação da minha consciência e dos meus compromissos de vida fazer com que o povo trabalhador possa melhorar neste país. E fazer as coisas com tranqüilidade e no tempo certo, porque se a gente der um passo errado, vocês sabem que não falta, neste país, quem queira ver a gente não dar certo.
E eu digo sempre: eu não tenho o direito de errar. Não por mim, que sou um ser humano comum, pois qualquer ser humano pode errar. Eu digo que não posso errar porque, se eu errar, será um fracasso da classe trabalhadora deste país, será um fracasso das trabalhadoras deste país, será um fracasso dos trabalhadores rurais.
Portanto, eu quero dizer para vocês que nós vamos nos encontrar muitas vezes. Eu tenho pedido para o Miguel Rossetto que ele tem que organizar, para mim, a visita a um assentamento bem-sucedido, a visita a um assentamento que ainda não deu certo, a visita a um assentamento onde as pessoas já estão produzindo, e a visita a um assentamento onde as pessoas não estão produzindo, que é para a gente aprender com aqueles que estão fazendo certo para ensinar àqueles que ainda não estão fazendo certo.
E, se Deus quiser, logo, logo, nós vamos ter uma agenda para visitar muitos assentamentos neste país, para poder conversar com vocês onde vocês vivem, onde vocês moram e, muitas vezes, onde vocês sofrem sem perder a esperança de que nós estamos muito próximos de conquistar e tornar realidade os sonhos que motivaram a vida de vocês.
Muito obrigado. Meus parabéns. E viva as mulheres trabalhadoras brasileiras!
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fonte: www.info.planalto.gov.br
