Sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC - São Bernardo do Campo-SP, 26 de junho de 2003
Toda vez que a gente vê um filme em que passam muitas histórias, em que a gente vê muitos companheiros, sentimos, de um lado, a alegria de estar encontrando companheiros que, há 30 anos, estão juntos conosco mas, de outro lado, a gente tem a certeza de que está ficando velho e que a velhice é implacável. Meu companheiro Feijó. Meu companheiro Marinho. Meu companheiro Meneghelli. Meu companheiro Guiba. Minha querida companheira Maria Inês. Companheiro Felipe. Companheiro Osvaldo. Companheiro Josa Mileno. Companheiro Tarcísio. Companheira Marisa. Companheira Nézia. Companheira Tia. Companheira Maria Carla. Companheiro Melo. Não vou falar mais nomes aqui, porque a gente também pode esquecer, não é, Gonçalo? Se começar a falar muitos nomes aqui, a gente começa a esquecer, companheiro Natal.
Vocês sabem que estar aqui é sempre um encontro com a história. Eu sempre falo que este sindicato aqui foi a razão de muitas coisas que aconteceram no Brasil. Possivelmente muita gente daqui, da categoria, aliás, muita gente que lutou, não tenha a dimensão disso, porque às vezes não tem tempo de discutir, de estudar, de fazer reflexão, e não avalia os gestos que nós fizemos ao longo desses últimos 30 anos, que repercutiram neste país.
E eu não tenho nenhuma preocupação de dizer que este sindicato foi o motor, a mola propulsora do processo de mudanças que aconteceram neste país. Nós mudamos o movimento sindical brasileiro, mudamos a qualidade da política neste país, aprendemos a fazer democracia e a exercitá-la, e aprendemos uma coisa importante: que nós poderíamos chegar lá. Porque hoje é fácil. Mas eu me lembro quando, aqui, neste salão, há 30 anos, dizíamos: um dia a classe trabalhadora vai chegar ao poder. Aquilo parecia um sonho tão distante, inatingível. Muita gente falava: esses meninos do ABC são malucos.
E eu sempre pensava: um cara que teve a paciência de aturar o Damasceno, como eu, durante 20 anos - durante 20 anos o Damasceno saía da Volkswagen para me encher os pacotes, aqui neste sindicato, e eu, democraticamente, convivia com ele - tinha consciência da importância da categoria.
E estou aqui, hoje, Feijó, Vicentinho, Guiba, Marinho, Meneghelli, muito mais tranqüilo do que eu estava em 1975, quando assumi a presidência deste sindicato. Por que mais tranqüilo, se eu estou com muito mais responsabilidades? Se eu estou com uma carga muito maior nas costas para carregar? Por que eu estou mais tranqüilo? Porque estou mais consciente, estou mais maduro, estou mais calejado.
Eu cheguei à presidência do sindicato quase por acaso. E eu sou presidente da República porque briguei muito para chegar onde cheguei hoje. Não foi por acaso. Então, eu estou mais tranqüilo porque estou exercitando uma função que eu queria exercer.
Aqui há companheiros, alguns já com menos cabelos do que eu, que se lembram daquela cena em que eu apareço chorando na tela - aliás, não é nenhuma novidade eu aparecer chorando, quando estou aqui neste sindicato - mas aquela foi uma assembléia e um momento histórico desta categoria.
Nós tínhamos sido cassados por 59 dias na greve de 79. Nós terminamos com a greve porque entendíamos que o acordo era correto, aliás, um dos melhores que nós já fizemos nesta categoria. A categoria não queria aprovar o acordo e eu a induzi a aceitá-lo, propondo um voto de confiança em mim, e não na proposta que estava sendo votada. A categoria aceitou me dar o voto de confiança, mas voltou para a fábrica como jamais eu vi uma categoria voltar: como um filho quando a gente diz que ele não vai a um lugar.
Quem é pai e mãe aqui sabe, quando a gente diz para um filho: "você não vai a tal lugar ou você não vai ganhar", ele vira as costas para a gente e entra bufando, bate a porta, se tranca, e fica resmungando o dia inteiro. Vocês fizeram isso comigo, vocês aceitaram a idéia de voltar a trabalhar, mas voltaram para a fábrica irados comigo, nervosos. Aliás, me chamavam de traidor. Eu não esqueço porque essas coisas a gente não esquece e eu, graças a Deus, tenho memória boa.
Eu me lembro que nós levamos um ano para recuperar a confiança de vocês. Tinha gente que dizia que nós nunca mais iríamos conseguir organizar a categoria e, em 80, nós conseguimos fazer uma greve ainda maior do que a greve que fizemos em 79. E eu fico imaginando como a vida ensina a gente. Na greve de 79, nós ganhamos parte das coisas que queríamos e a categoria se sentiu derrotada.
Na greve de 80, nós não ganhamos nada e a categoria se sentiu vitoriosa. Isso demonstrou o quê? Que a luta da classe trabalhadora não é uma luta eminentemente economicista. Não vivemos para lutar apenas por 10% de aumento de salário; vivemos para lutar por isso, mas também por outros valores que significam melhorar a qualidade de vida de cada um de nós, o nosso espaço democrático, o nosso espaço cultural, o nosso espaço de moradia, o nosso espaço de escola, e isso foi a grande lição que eu tive em 1980.
Imaginem vocês a dificuldade que tivemos, quando nós imaginamos criar o PT. Porque até então eu era unanimidade no movimento sindical brasileiro. Eu era convidado por todos os partidos políticos para fazer palestras. Quando eu inventei de criar o PT, os convites começaram a diminuir. Na verdade, as pessoas não queriam lutar por liberdade de organização partidária, porque as pessoas não queriam que nós existíssemos.
Naquele momento, falar que os trabalhadores iriam criar um partido era quase uma violência. Ninguém entendia isso porque não tinha hábito, não tinha cultura; o trabalhador, até então, era coadjuvante, era assistente; no máximo, ia a um comício, bater palmas para quem estivesse falando. Então, aparece um grupo de malucos no ABC e diz: vamos criar um partido dos trabalhadores - e a gente nem falava partido dos trabalhadores, porque nós aprendemos a comer o "s", como eu nunca vi na vida.
A gente falava "Partido dos Trabalhador", que era mais charmoso, mais forte, mais gostoso. E nós chegamos aqui; eu fico orgulhoso de ver tantos companheiros que começaram, alguns antes de mim, como a nossa companheira Maria Carla, e outras companheiras que já estavam aqui. O companheiro Laércio já era velho na Volkswagen Caminhão quando eu vim para cá.
Muitos já estavam aqui antes de mim, outros morreram, como o companheiro Afonso, que não viu o que aconteceu nesses últimos anos. E eu sempre dizia: a minha vontade de chegar ao governo é para provar que eu tenho capacidade de fazer aquilo que eu reivindico para os outros fazerem. Eu disse isso em 1982, quando fui candidato ao governo do estado de São Paulo, e me perguntaram: "por que o senhor quer ser candidato a governador?" E eu disse: porque eu quero ver se consigo fazer o que eu fico brigando para eles fazerem por nós.
Parece pouco, mas é muito, é muito a gente querer provar se tem competência de fazer as coisas em que acredita, porque você está desafiando a si mesmo enquanto ser humano, e está desafiando outros seres humanos a partilharem com você essa responsabilidade. E é por isso que eu uso sempre a família como exemplo, porque todo mundo tem uma experiência de família, não tem um único ser vivo no planeta Terra que não tenha uma experiência de família.
Como, às vezes, nem todo mundo entende palavras difíceis, eu prefiro utilizar coisas do dia-a-dia, que nós dizemos. E é por isso que sempre trato a arte de governar como a arte de criar uma família. Parece fácil criar uma família, mas o mundo está cheio de irresponsáveis, homens ou mulheres que não conseguem criar uma família. Está cheio de gente que não consegue cuidar da educação correta dos filhos, que não consegue fazer o mínimo necessário que todos nós deveríamos fazer e muitas vezes não fazemos.
Então, o desafio de governar é exatamente esse, é a gente poder fazer as coisas simples com a precisão que a sociedade precisa, fazer com que o Estado esteja a serviço da comunidade e não a serviço de uma minoria, como historicamente sempre esteve no nosso país. Tudo isso não é fácil de ser construído, é muito mais fácil falar, e aqui eu estou vendo muita gente boa de discurso.
Quando vocês namoravam, o sujeito contava para vocês: "eu faço isso, eu faço aquilo, vamos fazer aquilo e tal." Vocês casaram e o "isso" ou "aquilo" não era tanto quanto se queria, muita gente não teve a casa de praia que sonhou, não teve o carro que sonhou.
Veja, companheiro Marinho, que eu - não como presidente da República, mas como sócio benemérito, com direito a votar na Diretoria deste sindicato - com muito orgulho, vejo você assumir a presidência da CUT, que já foi presidida pelo companheiro Meneghelli e pelo companheiro Vicentinho.
Quero dizer uma coisa para vocês, já que o tema é discutir liberdade e autonomia sindical. Aqui temos algumas pessoas que faziam oposição a mim em 1978, que são meus amigos, porque eu nunca consegui diferenciar um companheiro que não concordava comigo de um que concordava, na relação pessoal, na relação humana.
Este sindicato exercitou a democracia até as suas últimas conseqüências. Se tem uma coisa de que ninguém pode se queixar é de que, em algum momento da história deste sindicato, ele tenha deixado de exercitar a democracia até as suas últimas conseqüências. Há companheiros que se confundem com o significado da democracia. Há companheiros que acham que democracia é a minoria se sobrepor à maioria. Tem gente que acha que se entre 100 pessoas houver cinco votos de um lado e 95 do outro, os cinco é que têm razão. Eles podem até ter razão no futuro mas, naquele momento, a democracia é a prevalência da vontade e da decisão dos 95, se tiver sido garantido a todos participar.
Eu estou dizendo isso, Marinho, para dizer que, como presidente da República, tenho um orgulho imenso de ter ajudado a criar esta central sindical, de ter tomado a maior vaia da minha vida exatamente no dia do congresso da Praia Grande, quanto a gente criou a CUT, porque tinha muita gente que não queria que criássemos a CUT.
Estou muito orgulhoso em dizer, na frente dos principais dirigentes sindicais deste país: vocês nunca ouvirão da minha boca um pedido de subserviência do movimento sindical aos atos do presidente da República. Nunca. O que vocês ouvirão da minha boca é o convite, é o chamamento para repartirmos a responsabilidade pelas coisas boas e pelas coisas ruins que acontecerem neste país, participando, de forma igual, na discussão, desde a elaboração do Orçamento da União até a destinação dos recursos para o conjunto das coisas que nós precisamos fazer no Brasil. Para isso vocês serão convidados. Serão convidados através do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, como dirigentes sindicais da CUT, como meus amigos, assim como outras centrais também serão convidadas. No começo da minha carreira política neste sindicato, a pergunta que os jornalistas me faziam era a seguinte: "Lula, do que que você tem mais medo na vida?" E eu dizia: "De mentir para a categoria que eu represento."
E por que eu dizia isso? Porque, para mim, política exige uma relação de confiança. Em política, um olho no olho vale mais do que um documento escrito. Política, para mim, a gente faz por telepatia. É isso, uma relação de confiabilidade, de sinceridade. E política e sinceridade não significam que a gente é amigo quando diz sim; a gente é amigo quando diz não. Muitas vezes, um pai é muito melhor para um filho quando diz não do que quando diz sim. Um não, dito com verdade, é muito mais frutífero do que um sim dito com mentira, para enganar, para ganhar tempo. E isso não faz parte do meu cotidiano, nem da minha vida política e nem da minha vida pessoal. É essa a relação que eu quero ter com a sociedade brasileira, com os trabalhadores, com os desempregados, com os empresários, pequenos, grandes e médios. É a relação direta, de olhar nos olhos, da conversa franca, do sim ou do não verdadeiro, sempre tendo em mente que nós precisamos utilizar todo o potencial que o Estado tem para fazer políticas que favoreçam a parte mais pobre da população, aquela que está excluída do processo de desenvolvimento do país.
Mas, também, é preciso lembrar que as coisas têm tempo para acontecer. Eu me lembro de quando fiquei parado 11 meses, em 1975. Quando você fica parado é uma desgraça, porque você vai perdendo amigos. As pessoas pensam que você vai pedir dinheiro emprestado. E quando você fica desempregado, vai fazendo dívidas. E depois que você arruma emprego, o que você recebe não dá para pagar um terço do que deve. E você é obrigado a dizer: "Companheiro, não dá, espera mais um mês". Se a gente não tiver uma relação boa, a gente vai perdendo a amizade por conta disso e, muitas vezes, o que está devendo não tem coragem de enfrentar e dizer: "Eu não posso lhe pagar". E começa a correr. Não tem coisa pior do que você ir cobrar de uma pessoa que corre.
Como presidente da República não esqueço a maioria das coisas que eu falei neste sindicato, das coisas em que eu acreditava e que, aos poucos, nós fomos construindo. Não esqueço os compromissos que eu assumi durante a campanha. Fui eleito para cumpri-las e vou cumpri-las, nas etapas necessárias, com a tranqüilidade necessária, porque não vou perder a tranqüilidade.
Se alguém pensa que vai me deixar nervoso, não vai. Eu demorei muito para chegar lá, cheguei lá não em nome pessoal, mas em nome de uma causa, em nome de uma parcela do povo brasileiro que acreditou, que nunca me pediu um favor para votar em mim, e disse: "Vai lá e faça o que tem que ser feito". E eu cheguei lá e vou fazer o que tem que ser feito neste país.
Outro dia eu disse em um debate: "Esperem que o mês de julho será o mês do espetáculo do crescimento." E eu estou convencido de que esse mês é o mês em que vamos começar a fazer as coisas que devemos fazer.
E por que não fizemos antes? Porque não podíamos fazer antes. Quem tem responsabilidade e quem faz política, com "P maiúsculo", sabe, como disse o companheiro Palocci, que este país estava na UTI quando nós ganhamos as eleições. Havia muita gente dizendo até mesmo que nós não teríamos competência para tocar este barco para a frente. É porque elas não nos conheciam, não sabiam o que nós já tínhamos feito. E nós conseguimos.
Hoje eu posso dizer para vocês: a perspectiva de inflação de 40% que nós tínhamos em janeiro, companheiro Feijó, não existe mais. A nossa perspectiva agora é trabalhar com uma inflação de 5,5% para o próximo ano.
Quando nós ganhamos e tomamos posse, não havia um dólar para financiar as nossas exportações, porque este país não tinha confiabilidade lá fora, e não faltavam os preconceituosos para dizer: "Esse Lula não vai conseguir fazer nada porque ele não fala nem inglês, como é que ele vai conseguir as coisas lá fora?" Pois bem, nós não estamos nem com seis meses de Governo, e eu posso olhar para cada companheiro metalúrgico aqui e dizer: nunca, na história deste país, nós tivemos a credibilidade internacional que nós temos agora, com apenas cinco meses de Governo.
E isso está acontecendo pela grandeza da sociedade de não cobrar o que ela sabia que não podia cobrar; pela competência de uma equipe de Governo, e não de um homem, que foi fazendo as coisas do modo que poderia fazer, no tempo em que poderia fazer. E nós já começamos a fazer coisas importantes para esta categoria, inclusive, ontem nós aprovamos a criação de uma empresa para financiar consórcio, através do Banco do Brasil, para ver se conseguimos resolver parte dos problemas do setor automotivo deste país.
Estamos discutindo a criação de uma "moderfrota" para ver se conseguimos a renovação da frota de caminhões. Queremos financiar caminhões para os motoristas autônomos, para que possamos tirar caminhões com 25 ou 30 anos da rua, facilitando para que aquele que tem um caminhão velho possa comprar um novo.
Anteontem nós anunciamos o maior plano de safra que a agricultura familiar brasileira já ouviu ser anunciado; 5 bilhões e 400 milhões de reais para a agricultura, que no ano passado recebeu apenas 2 bilhões. Com uma vantagem, porque, pela primeira vez na vida deste país, o financiamento da agricultura familiar não é apenas para o homem, o chefe de família.
Se um homem e uma mulher trabalham no campo e têm 20 hectares, o homem pode pedir um empréstimo para financiar cinco hectares de arroz e a sua mulher pode pedir um outro empréstimo para financiar cinco de feijão. E se tiverem um filho trabalhando, e ele tiver um projeto para produzir outra coisa, há financiamento também para o filho, para que se possa fazer com que o dinheiro comece a circular neste país. Isso não é pouca coisa.
Quando falamos nesse investimento é preciso levar em conta que um simples pé de feijão demora 90 dias para nascer. Ao plantá-lo, não se colhe logo o que se plantou. É preciso ter paciência para esperar, tem que irrigar. Um pé de milho leva quase 150 dias para produzir. Então, é como um filho: entre a gravidez e o nascimento correm nove meses. Não adianta ficar querendo mais rápido. E isso nós vamos fazer. Vamos fazer com a certeza de que este país não pode retroceder. E vocês vão participar, companheiros, porque nós queremos fazer a coisa partilhada. Resolvido esse problema agora, vamos lançar, no dia 30, o programa Primeiro Emprego. E eu espero que a CUT esteja presente.
Lançaremos a proposta do Primeiro Emprego para ver ser conseguimos dar uma perspectiva de trabalho para os nossos filhos de 18, 19 ou 20 anos, que estão desempregados. O narcotráfico pode conquistá-los, se nós não oferecermos oportunidades para eles.
Vai acontecer num único dia? Não. Mas fiquem certos de que vai acontecer. Porque eu disse, durante a campanha, que o emprego seria a minha obsessão. E eu sei como é quando um pai ou uma mãe tem um filho ou uma filha de 18, 19 anos, desempregado, dentro de casa. Eu sei a angústia e o sofrimento que passa, não apenas quem está desempregado, mas o pai e a mãe. Isso nós vamos fazer e vamos lançar agora, no dia 30, já está tudo preparado pelo ministro Jaques Wagner, do Trabalho. Vamos anunciar a cooperativa de crédito para a agricultura, como anunciamos, agora, o microcrédito. Foram 4 bilhões anunciados para o microcrédito, para as pessoas que querem comprar um liquidificador e não querem pagar 100% de juros. Elas podem ir à Caixa, pegar 200 reais e pagar 2% de juros ao mês.
Quem trabalha dentro de fábrica sabe que, quando a gente recebe o pagamento no dia 5, no dia 6 já não tem mais dinheiro, e vai pedir 50 reais para um amigo, que fala: "eu dou 50 reais agora, para você me dar 100 daqui a dez dias". É agiotagem pura.
Na televisão tem a propaganda: "você precisa de dinheiro? Vá não sei onde, ligue não sei para onde." Aí a pessoa vai. Sabe quanto ela paga de juros daquele dinheiro? 332% ao ano. Se a pessoa vai a uma loja comprar uma televisão, para pagar em 24 meses, são, no mínimo, 116% ao ano. Outro dia, eu perguntava ao companheiro Marinho: se a gente fizesse um acordo para que fosse dada garantia no holerite de pagamento do trabalhador para que, ao invés de pagar 160% de juros, ele pagasse 20% ou 30%, você toparia? O Marinho falou: topo. Nós também estamos discutindo isso com o sistema financeiro. E antes de fazer o acordo com eles, vamos fazer com os bancos, onde a gente pode fazer, que é o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, para darmos o exemplo.
Nós queremos fazer com que aconteçam as coisas e por isso estamos discutindo, pela primeira vez na história deste país, um Plano Plurianual com a sociedade brasileira, com o modelo de desenvolvimento que nós queremos.
Agora, para isso acontecer, nós teremos que fazer algumas coisas. Todo mundo aqui sabe: Benzetacil dói, mas que ela cura, cura. Mesmo que a gente fique um dia mancando. Mas depois de dois dias, melhora. Nós, se quisermos recuperar o Brasil, vamos ter que aplicar algumas Benzetacis. Uma é a reforma tributária, outra é a reforma da Previdência Social.
Essa reforma não é para atingir o sistema geral da Previdência, não é para prejudicar os pequenos, não é para tirar direito de quem ganha pouco. É para mexer no setor público brasileiro, para tentar harmonizar e fazer justiça social, porque não é justo, num país onde as pessoas ganham 240 reais de salário mínimo, alguém se aposentar com 30 ou 40 mil reais por mês.
Nós queremos criar um sistema único em que o setor público e o setor privado estejam juntos. O movimento sindical está brigando para negociar. O que não dá é para um peão, que trabalha a vida inteira, ter que se matar de trabalhar para se aposentar aos 60 anos, e alguém se aposentar com 53 anos, no auge da sua atividade intelectual. O Brasil precisa dessa gente trabalhando, porque são a inteligência na vida da nação. O que nós queremos é fazer apenas um ajuste e redistribuir melhor a parte do bolo que nós temos neste país.
Uma advogada da União, que é uma pessoa importante para nós, porque precisamos dela, porque é inteligente, pode se aposentar com 47 anos de idade ou 48; mas uma cortadora de cana tem que se aposentar com 60 anos; uma começou a trabalhar com 20 e poucos anos e a outra começou a trabalhar com 10; uma teve a opção de saber o que queria ser; a outra, coitada, não teve opção, foi para o corte de cana como única alternativa de sobrevivência. E enxergar isso não é querer o mal de quem está melhor, é apenas querer dar um degrauzinho a mais para quem está embaixo. As pessoas têm que saber que, se não houver a reforma, não haverá dinheiro para pagar. Vou pegar este sindicato como exemplo.
Este sindicato aqui, e este companheiro sofreram na pele. Eu sei o quanto você, Marinho, foi xingado aqui dentro. Pelo menos lá fora, para mim, as pessoas diziam. O companheiro Tarcísio está na mesa. Essa categoria aqui perdeu mais de 50 mil trabalhadores, e era normal que o sindicato não pudesse continuar com a mesma quantidade de funcionários. Se eu tenho uma quantidade de sócios e perco metade desses sócios, diminui pela metade o dinheiro que recebo; então, se não posso manter a mesma folha de pagamento, tenho que mandar gente embora.
Até na casa da gente, quando diminui o dinheiro, diminuímos a comida e as coisas que compramos. Este sindicato aqui teve que mandar muita gente embora, e mandou porque era necessário fazer um ajuste. Vai tirar dinheiro de onde? Para pagar aposentadoria é preciso ter dinheiro; para ter dinheiro é preciso ter contribuinte; para haver contribuição, as pessoas precisam pagar.
Quando Dom Pedro criou o sistema de aposentadoria no Brasil, o funcionário público recebia a aposentadoria como um prêmio. Tudo bem, isso acontecia naquela época, mas nós não estamos mais na época de Dom Pedro.
Hoje, se a gente não cuidar disso, daqui a cinco anos não teremos dinheiro para pagar. Então, nós queremos fazer tudo com a maior responsabilidade. É preciso aprovar a política de reforma da Previdência, é preciso aprovar a política tributária; depois, nós vamos mandar a política de reforma sindical que vocês vão fazer, discutindo com a sociedade; depois, vamos discutir a reforma trabalhista para adequar o mundo do trabalho ao século XXI; depois, vamos fazer a reforma política e, antes disso, vamos fazer a reforma agrária. Ontem, eu disse que nós vamos fazer a reforma agrária; já fizemos o lançamento do programa de Agricultura Familiar, agora vamos cuidar de assentar as pessoas que precisam ser assentadas.
Agora, é importante ficar claro que reforma agrária não é colocar o trabalhador em uma terra e deixá-lo lá. Reforma agrária é arrumar a terra, arrumar assistência técnica, dar garantia de preço, fazer investimento, cuidar da educação e de uma série de coisas para que as pessoas se sintam produtivas, possam sustentar a sua família e, ainda, possam produzir alimentos no Brasil inteiro. Significa gerar empregos e acabar com o inchaço das grandes cidades.
É por isso que nós vamos fazer a reforma agrária, e vamos fazê-la da forma mais competente possível, conversando com a CUT, com a Contag, com os sem-terra, com a Igreja. Tudo que nós vamos fazer não é uma coisa minha, ou uma coisa para nós, é uma coisa para o povo brasileiro, portanto, temos que fazer com competência, porque precisamos ser lembrados no futuro pelas coisas boas que fizemos para outras pessoas e não pelas coisas boas que fizemos para nós mesmos.
É por isso que eu comecei dizendo, aqui, que eu estou mais tranqüilo hoje do que quando tomei posse, no dia 24 de abril de 1975, estou muito mais feliz. Primeiro, porque estou com um otimismo, não exagerado, de que este país vai dar um salto de qualidade como jamais teve na sua história, por uma razão simples: o povo brasileiro recuperou a auto-estima, voltou a gostar e a acreditar no Brasil, na honestidade, voltou a acreditar que o amanhã pode ser melhor para ele.
Segundo, as perspectivas do Brasil no mundo são extraordinariamente boas. Lógico que não podemos ficar apenas brigando com os Estados Unidos ou com a União Européia para que abram mão das suas conquistas e as cedam para nós. Temos que continuar brigando na Organização Mundial do Comércio, mas temos que procurar novos parceiros.
Foi por isso que, em cinco meses, a gente estabeleceu a relação mais sábia possível que o Brasil já teve com a América do Sul. É por isso que, no mês que vem, estarei viajando para visitar cinco países africanos; é por isso que, em dezembro, vou visitar países árabes. É por isso que, no ano que vem, vou à China, à Índia, ao México, à Rússia.
Por que? Porque este país tem que mostrar lá fora que nós temos crianças de rua, sim, que somos bons de futebol, sim, que somos bons de carnaval, sim, mas que temos uma classe trabalhadora competente, uma agricultura competente, que temos tecnologia capaz de competir com a deles. Da mesma forma que o ser humano precisa de uma oportunidade para vencer na vida, o Brasil precisa se dar uma oportunidade.
Acontece que essas coisas não acontecem de graça, ninguém vai comprar o nosso produto se a gente não for vender, nós é que temos que ir lá fora dizer que o metalúrgico do ABC produz carros com qualidade melhor do que a de qualquer outro país do mundo.
Não são eles que têm que descobrir, nós é que temos que mostrar. Não adianta dizermos que "o Brasil é o país mais bonito do mundo, por isso todo turista do mundo vem para cá", é preciso que a gente vá lá mostrar o que o Brasil tem. É preciso que tenhamos estradas, pontes, aeroportos, segurança, porque é isso que garante que as pessoas se sintam motivadas a virem para cá.
Hoje, os africanos que quiserem vir ao Brasil, têm que ir até Paris. Ora, se eles vão a Paris, já fazem negócio em Paris. Por que vir ao Brasil? Alguns moradores de países da América do Sul, para irem a Brasília, primeiro têm que ir para Miami e já fazem negócio em Miami.
Nós temos que garantir, numa discussão com os presidentes dos outros países, que é preciso que haja vôos para que as pessoas circulem. O Brasil tem fronteira com nove países na América do Sul. Nós cansamos de falar na integração da América Latina. Integração não é só uma palavra, é uma atitude, integração tem que ser comercial, econômica, política e cultural, mas ela só vai acontecer com a integração física. É preciso que as pessoas tenham como transitar, é preciso que tenha estradas, ferrovias, pontes. Se não tiver, não haverá integração.
É por isso que eu disse ao presidente Bush: presidente Bush, o Brasil é um país que tem muitas condições de ajudar no desenvolvimento de toda a América do Sul. Agora, para isso, é preciso que o mundo desenvolvido constitua um fundo para o desenvolvimento de infra-estrutura, para que possamos fazer as estradas que precisamos, as pontes, as ferrovias, porque o governo anterior não teve nem condições de fazer a manutenção nas estradas que nós já tínhamos, estão todas esburacadas. E quem viaja, no Brasil, sabe como estão as estradas brasileiras.
Eu quero terminar dizendo para vocês do orgulho que eu tenho de o Feijó me chamar de Lula, de o Marinho me chamar de Lula, porque as pessoas lá em Brasília só me chamam de "Excelência" e de "Presidente". Vocês me chamam de companheiro Lula e isso me dá orgulho, porque mostra que o fato de eu ser o presidente do país não afastou a nossa relação de companheiros, construída há tantos e tantos anos.
Se alguém me perguntasse do que eu tenho medo hoje, eu diria: eu tenho medo de não conseguir cumprir os compromissos que assumi com este país durante tantos e tantos anos. É por isso que, sem querer ofender ninguém, eu digo sempre: qualquer pessoa pode ser presidente; depois que ele sai, o povo nem lembra que ele existe. Mas eu, no dia em que vencer o meu mandato, virei morar a 600 metros deste sindicato. Então, se eu não fizer as coisas direito, muita gente sabe onde eu moro. Quero encontrar vocês, durante todo o meu mandato, e quero encontrar vocês também depois do meu mandato e olhar na cara do Marinho, do Feijó, do Vicentinho, do Meneghelli, do Guiba, de cada um de vocês, e dizer: companheiros, missão cumprida, porque eu estou aqui de cabeça erguida, olhando no olho de cada um de vocês.
Muito obrigado meus companheiros, bom Congresso, e que Deus abençoe todos vocês.
fonte: www.info.planalto.gov.br
