Discurso do Presidente Lula: 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais

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Brasília -DF, 28 de fevereiro de 2005

Eu estou impressionado com a quantidade de máquinas fotográficas, coisa que antigamente a gente só via nas caravanas dos japoneses fazendo turismo pelo mundo. Isso significa, Manoel, que houve um avanço na melhoria da renda do pessoal, que começou a comprar sua maquininha para tirar fotografia.

Mas eu queria, companheiros, cumprimentar o nosso querido Manoel dos Santos, o nosso querido presidente da Contag que, pelo que eu fiquei sabendo, vai ser reeleito porque vai ter uma chapa única na Contag. Conseguiram construir uma chapa de unidade e eu acho muito importante que a Contag continue trabalhando nesse clima de harmonia.

Quero cumprimentar a nossa companheira Raimundinha, coordenadora da Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Contag. E um aviso para as mulheres: este ano nós vamos comemorar o Dia Internacional da Mulher lá no Rio Grande do Norte, em Apodi. Nós vamos comemorar lá, com as trabalhadoras camponesas do Rio Grande do Norte.

Quero cumprimentar o meu querido companheiro Luiz Marinho, presidente da Central Única dos Trabalhadores

Quero cumprimentar o nosso querido ministro Miguel Rossetto, ministro do Desenvolvimento Agrário. Cumprimentar o nosso querido companheiro Nilmário Miranda, secretário dos Direitos Humanos. Cumprimentar o companheiro Fritsch, nosso companheiro da Secretaria Especial de Pesca e Aqüicultura. Quero cumprimentar os companheiros deputados federais Assis Couto, Anselmo, Eduardo Valverde, (inaudível) e Elvino Bohn Gass. Quero cumprimentar o companheiro Rolf, presidente do Incra, que tem um compromisso comigo, com a Bahia, até julho, não se esqueça. Quero cumprimentar o Arnaldo Pereira, diretor da Organização Internacional do Trabalho. Quero cumprimentar o Eduardo Buzzi, presidente da Federação Agrária da Argentina e representante da coordenadora das organizações de produtores familiares do Mercosul. Quero cumprimentar o senhor Geraldo Iglesias, coordenador regional da União Internacional dos Trabalhadores em Alimentação, Agricultura, Hotéis, Restaurantes e Tabaco. Quero cumprimentar o nosso querido companheiro João Paulo Rodrigues, companheiro da Direção nacional do Movimento Sem-Terra. Quero cumprimentar os delegados e as delegadas deste Congresso da Contag que vieram passar uns dias aqui, em Brasília.

E quero, companheiro Manoel, ver se consigo falar um pouco mais baixo que o Rossetto, porque quando eu cheguei aqui, o Rossetto estava tão entusiasmado e falando com tanta ênfase que eu, ali atrás, não consegui entender as palavras que ele falou. E eu vou tentar, como a acústica aqui é complicada, falar mais calmo, vou gritar menos para ver se vocês todos me entendem. E também porque eu aprendi uma lição em 1998. Em 1998, Manoel, eu estava no Rio de Janeiro fazendo campanha política em um palanque e, quando eu fui falar o meu discurso, eu estava gritando tanto, estava tão bravo que quando terminei de falar - eu estava defendendo a reforma agrária - uma senhora se aproximou de mim e falou assim: "Lula, eu sou sua eleitora. Agora, não daria para você dizer as mesmas coisas mais tranqüilo? Você não precisa gritar tanto porque você termina assustando as pessoas que estão te ouvindo. Você poderia dizer as mesmas palavras com tranqüilidade, que a gente iria entender e não iria ficar com medo de você."

Eu estou dizendo isso porque logo vocês vão ter, em maio, uma grande reunião, o Grito da Terra. E toda vez que tem o Grito da Terra vocês apresentam, antes, uma pauta de reivindicação para o governo e, depois de alguns meses ou no dia do Grito da Terra, o governo se reúne com a coordenação do Grito da Terra e parte das reivindicações são atendidas, parte não, parte é discutida. Eu queria dizer para vocês que a Contag, mais do que uma reivindicação, apresentou para nós uma proposta sobre aposentadoria para o trabalhador rural brasileiro.

Eu quero dizer para o companheiro Manoel que 90% dessa proposta já está encaminhada, faltam algumas discussões e, quem sabe no mês de março, quando vocês forem entregar a proposta do Grito da Terra, a gente já tenha uma solução e, se não tiver essa solução, até pelo compromisso assumido por nós, vamos concluir isso, na pior das hipóteses, no mês de maio, quando se dará o Grito da Terra aqui, em Brasília.

Portanto, eu acho que essa é uma conquista que vem consagrar uma reivindicação histórica e a Contag, com muita seriedade e muita responsabilidade, apresentou uma proposta madura, capaz de ser compreendida por todos aqueles que entendem de previdência social e eu penso, Manoel, que nós terminaremos o Grito da Terra com uma boa compreensão e um bom acordo firmado na questão da aposentadoria. Essa é uma novidade que eu acho boa para os trabalhadores e as trabalhadoras que estão participando deste Congresso.

Mas tem outras coisas que são importantes ressaltar, aqui, neste Congresso, porque vocês vão voltar para as suas cidades, para os seus estados e muito debate vai acontecer depois do Congresso. Algumas coisas o Rossetto já falou. Certamente, seria impossível imaginar que, com apenas dois anos de mandato, já pudéssemos ter feito tudo aquilo que precisa ser feito no Brasil. Mas, certamente, os companheiros que trabalham no campo sabem o que foi o avanço, sobretudo para a região Norte e Nordeste do país, sobre a questão do Pronaf.

Eu me lembro que há três anos o Pronaf era quase um direito do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina. Chegava muito pouco em São Paulo e, de São Paulo para cima, não chegava nada. Hoje, o Pronaf, no caso do Norte, chegou a subir, Miguel, 172% em contratos feitos pelos trabalhadores e no Nordeste, chegou a subir 92%. O Manoel sabe, aliás, o Marinho sabe porque me ligou, que até companheiros do Banco do Brasil tinham desaprendido a emprestar dinheiro para pequenos, porque estavam habituados a emprestar dinheiro apenas para os grandes proprietários de terra. Quando nós introduzimos o Pronaf, colocando a quantidade de dinheiro que colocamos, muitos gerentes tinham perdido o hábito de atender o trabalhador e muitos trabalhadores nem iam mais ao banco porque sabiam que teriam dificuldades de ter acesso ao dinheiro.

Essas coisas já mudaram muito e vão mudar muito mais, na medida em que os sindicatos de trabalhadores rurais comecem a organizar os trabalhadores, orientá-los a ir ao banco ou, quem sabe, o próprio sindicato vá junto com eles para que a gente possa gastar não apenas o dinheiro que está disponibilizado para financiamento, mas para que a gente possa colocar muito mais dinheiro para o próximo ano, porque o nosso desejo é que a agricultura familiar ganhe cada vez mais força na agricultura brasileira, não apenas para produzir para comer, como era um hábito no nosso país, de se plantar o seu feijãozinho, o seu milho, a sua mandioquinha para comer. Não. Nós queremos que o trabalhador da agricultura familiar possa plantar para comer, mas possa plantar para vender, porque ele precisa de dinheiro para melhorar sua casa, para comprar as coisas para dentro de casa, para vestir os filhos, para calçar os filhos, para comprar outras coisas que ele não consegue produzir dentro do campo.

E vocês sabem de uma outra coisa importante, os gaúchos que estão aqui sabem, há muito tempo a gente não ouvia falar de uma seca no Rio Grande do Sul. O Rio Grande do Sul, para os nordestinos, é terra de fartura, mas o Rio Grande do Sul está vivendo a maior seca dos últimos 40 anos. Até então, quando a gente falava em seca, a gente pensava na minha terrinha, lá em Caetés ou Garanhuns; a gente pensava em Xique-Xique; a gente pensava em Sergipe, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí, Maranhão. Agora, estamos vendo no Rio Grande do Sul. E o que vai acontecer? Por conta de uma coisa, Rossetto, que foi feita e aprovada, mesmo no Rio Grande do Sul, os trabalhadores que estão vivendo a seca já não vão sofrer como sofriam há cinco anos, porque agora o seguro agrícola cobre todo o prejuízo que o companheiro tiver e ele ainda vai poder ter acesso a mais 65% daquilo que era o lucro que ele poderia ter, para que ele possa continuar produzindo essa safra.

Eu quero dizer para os gaúchos que eu estarei indo ao Uruguai amanhã de manhã, já pedi para o Miguel Rossetto me apresentar um relatório e, possivelmente, por esses dias, eu vá conhecer de perto a seca lá no Rio Grande do Sul para ver o que a gente pode fazer, junto com o Ministério do Rossetto, junto com o Ministério da Integração e junto com o próprio governo do estado, para ajudar a minimizar o sofrimento de uma seca que a gente não tem controle.

Uma coisa, meu companheiro Mané, que é um sonho que nós temos que concretizar e eu estou vendo aqui, para minha agradável surpresa, é que este Congresso tem mais mulheres do que qualquer outro congresso de que eu já participei. Eu estou impressionado com a quantidade de mulheres. Mas vou dizer uma coisa para vocês: quando nós aprovamos, no ano passado, o Pronaf Mulher, a gente aprovou para que a mulher não ficasse dependente do marido. A gente aprovou o Pronaf Mulher porque a gente queria que, ao mesmo tempo que o marido fosse ao banco e pegasse o dinheiro para aquilo que ele queria plantar, que a mulher tivesse o mesmo direito de ir ao mesmo banco e pegar outra quantia para que ela financiasse o seu projeto.

Agora, o que acontece? Entre a gente aprovar uma lei e acontecerem as coisas há uma diferença enorme, porque tem uma questão cultural. Muitas vezes, as pessoas não receberam a informação direta; muitas vezes, não houve uma combinação entre a família ou mesmo o sindicato não estava preparado para dar as orientações e, no primeiro ano, a gente não teve o sucesso que a gente queria ter. O que a gente espera é que neste segundo ano e no terceiro ano as mulheres possam ter tanto acesso aos bancos quanto os homens têm para fazer o seu crédito.

Mas fizemos mais, criamos o Pronaf Jovem. Qual era a idéia? Quem é do campo sabe muito mais do que eu que é muito difícil a gente segurar o jovem de 18 anos no campo. É muito difícil a gente segurar um jovem de 19 anos no campo, seja menina ou menino; eles querem estudar, eles querem ter acesso às maravilhas das luzes das cidades, coisa que o campo não oferece. Então, nós criamos o Pronaf Jovem para dar condições aos adolescentes que quiserem também fazer o seu projeto. Mas, muito mais do que isso, nós criamos, companheiro Mané, uma coisa que você acompanha desde o começo, o projeto Luz para Todos, que possivelmente seja o mais importante projeto que nós vamos fazer nesses anos, atendendo a 12 milhões de famílias no Brasil que não têm luz elétrica. Quem já tem ou quem já nasceu na luz elétrica não sabe o que é a falta de uma luz elétrica. Agora, quem já viveu na beira de um fogão à lenha, com o candeeiro aceso para fazer comida; quem é mulher, que teve que pregar um botão na camisa do marido na base de luz do candeeiro; quem sabe o que é levantar de madrugada para cuidar de uma criança doente à luz de um candeeiro; quem sabe o que é fazer farinha numa casa de farinha e ter que puxar com o rodinho a farinha, sabe a importância do que é a luz elétrica.

Por isso, esse é um programa que eu considero extraordinário, e é por isso, Manoel, que eu senti a sua ausência, apesar de a Contag ter estado lá; os Sem-Terra também estavam lá; os Sem-Terra, através do Egídio; e a Contag, através do Geraldo, do Mato Grosso do Sul. Nós fomos inaugurar 56 assentamentos que receberam o Luz para Todos, colocado pelo Ministério de Minas e Energia. E, se Deus quiser, até 2008 nós vamos chegar a 12 milhões de residências no Brasil que não têm energia elétrica e a grande maioria é no campo.

A coisa está tão importante, Manoel, que nós, esses dias, tivemos que comprar uma briga com as empresas porque está faltando poste, porque estão faltando aqueles transmissores grandes, transformador, porque está faltando cabo; e as empresas, ao invés de aproveitarem que nós estamos fazendo um programa e elas vão ganhar dinheiro com base no programa, têm preços que chegaram a aumentar 300%, Mané. A ordem é a companheira Dilma chamar essas empresas que estavam ser ter o que fazer há um ano e, agora que tem serviço, estão aumentando em 300%. E nós estamos exigindo que o trabalho seja feito por trabalhadores da cidade, da região, e não levar trabalhadores de outros estados para fazer aquele trabalho.

Mas não é apenas isso, este companheiro da Pesca, o companheiro Fritsch, "comeu o pão que o diabo amassou" até agora, para que a gente estruturasse o Ministério da Pesca, porque não tinha nada, era um artigo no Ministério da Agricultura. Segundo, era preciso liberar dinheiro, tinha mais de 1 bilhão de reais do Fundo da Marinha Mercante que não se podia utilizar e não pense que o Presidente pode determinar que funcione porque tem leis, tem decretos, tem artigos, tem um monte de coisas que têm que mudar e, graças à Deus, agora isso está resolvido e a Pesca vai poder ganhar muito mais importância, não apenas para os nossos pescadores que pegam no rio, até com a possibilidade de financiar um barquinho e a minha tese é a seguinte: se a gente pode financiar um carro, porque a gente não pode financiar uma canoazinha para um companheiro sair de manhã e pegar um peixe para alimentar sua família? Sabe o companheiro Fritsch que tem que fazer um trabalho enorme para ajudar os companheiros que têm uma terrinha, e se for possível e tiver água, a fazerem um tanque para criar peixe, porque isso vai dar mais "sustança" para a família. O cara vai poder chegar e pegar uma tilapiazinha para dar para a família, um bagre, uma piabazinha. E, ao mesmo tempo, se ele aprender a criar direito, vai poder até ter nisso uma fonte de receita para que ele possa vender.

Eu estou dizendo essas coisas porque eu sei que o Rossetto teve que falar de 80 coisas e não dá para falar de uma por uma, assim. Mas vou dizer mais, companheiros, o projeto que eu acho mais extraordinário, que vai, na minha opinião, daqui a alguns anos, colocar o nosso querido Nordeste no patamar das regiões desenvolvidas do Brasil, é o Projeto do Biodiesel com a mamona. Esse é um projeto que está iniciando e, para iniciar, a exigência é que ele comece pela região mais pobre do Brasil, que é o semi-árido nordestino. E a mamona dá em qualquer lugar. E nós queremos que a Contag, eu já falei para o Manoel: a Contag precisa organizar os sindicatos, organizar os trabalhadores em cooperativas para que a gente possa produzir não apenas mais e melhor, mas para que a gente possa fazer as moendas para moer a mamona, algumas delas em cooperativas, para gerar emprego para a nossa juventude, para gerar desenvolvimento.

Depois nós vamos fazer do dendê, do girassol, da soja, mas numa segunda etapa; a primeira etapa é a questão da mamona, para a gente ajudar a parte mais pobre do Brasil. Essa experiência de ajudar a parte mais pobre do Brasil é uma combinação da Caravana da Cidadania que eu fiz em 1993, em Pernambuco, Alagoas, Paraíba e outros estados do Nordeste, Rio Grande do Norte, até a Caravana eu que fiz ao Vale do Jequitinhonha. E eu me lembrei que os Estados Unidos tinham um presidente chamado Roosevelt, e lá tinha um vale tão ou mais pobre que o Nordeste brasileiro e o governo americano tomou a atitude de desenvolver aquela região; hoje, o Vale do Tennessee é uma das regiões mais ricas dos Estados Unidos.

E eu, como sou nordestino e saí de lá por causa da seca e da fome, acho que o Nordeste brasileiro não pode continuar simbolizando a miséria deste país. Nós temos que simbolizar a fartura, nós temos que simbolizar a produção. E é só ter um pouco de tecnologia que a gente vê o que está acontecendo no Vale do São Francisco com a fruticultura, mas ainda a fruticultura empresarial. Nós precisamos levar o projeto de fruticultura para a agricultura familiar, para que o trabalhador e sua família possam produzir mais e vender.

No mês de julho eu vou a alguns estados do Brasil inaugurar algumas bases do Projeto do Biodiesel. Eu vou, por exemplo, a Vitório de Santo Antão, em Pernambuco; eu vou a Floriano, no Piauí; eu vou ao Rio Grande do Norte; eu vou a sete estados inaugurar as primeiras bases de produção do biodiesel. E como eu acho que depois da aprovação do Protocolo de Quioto os carros do mundo inteiro vão ter que poluir menos e a gasolina é muito poluente, o óleo diesel é muito poluente, eu acho que o Brasil vai tirar vantagens de ser um país que tem condições de produzir como nenhum outro país do mundo tem, não só por conta do Protocolo de Quioto, mas porque também temos terra, sol e, com um pouquinho de tecnologia, a água não faz a falta que fazia um tempo atrás.

Um outro projeto importante é a questão das águas do rio São Francisco. De vez em quando vejo esses debates e, o Mané é testemunha, os companheiros que disputam comigo há muito tempo essa luta sabem que eu nunca prometi transposição de água. Entretanto, eu talvez tenha pouco pescoço porque com sete anos de idade eu era obrigado a colocar um jumento velho que a minha mãe tinha, colocar um "caçuá", colocar dois potes e andar seis léguas para ir buscar um pote de água barrenta para beber, que depois colocava para assentar e, no dia seguinte, tirava com uma canequinha: metade era terra com caramujo, com fezes de animal, e a outra metade era água sem nenhum tratamento.

Quando cheguei em São Paulo eu só tinha barriga e as canelinhas deste tamanho, e eu pensei que era saúde; na verdade, era doença, que muita gente ainda tem. Quem não tem esse problema d'água ou quem nasceu no centro de São Paulo não sabe o que é você ir num açude ou num barreiro buscar água, chegar lá e ter que disputar o metro quadrado com jumento, com cavalo, com vaca e com cabra, que estão fazendo as suas necessidades lá dentro e você tem que pegar a água e levar para casa para beber.

Então, gente, eu assumi o compromisso. Nós vamos fazer o projeto mais responsável que já foi feito neste país, vamos cuidar da revitalização porque sabemos que é preciso recuperar o rio São Francisco, porque historicamente, permitiram que o cerrado fosse cortado para fazer carvão e o rio ficou assoreado. Nós sabemos quantas cidades deste país jogam dejetos humanos e lixo dentro do rio São Francisco e nós precisamos revitalizá-lo, reflorestá-lo, fazer saneamento básico para recuperá-lo. Mas, ao mesmo tempo nós temos que levar água para 10 milhões de famílias nordestinas beberem um pouco d'água decente, limpa e tratada, sem que isso possa criar nenhum problema para a pessoa, e esse projeto se faz necessário porque eu sei que aqui tem muita gente que trabalha no campo.

Trabalhar no campo é bom. Agora, quando você trabalha num campo que não chove e passa dois, três anos, fazendo promessa para São José, e São José não traz a água; e, no ano seguinte, não traz a água e você vê a vaquinha que você tem morrer de sede, vê a cabritinha que você tem morrer de sede, vê a família fugir para a cidade, a gente não pode deixar de compreender que essas pessoas precisam mais de nós do que qualquer outra pessoa neste país; e nós vamos fazer isso porque o Brasil não pode continuar sendo vítima da indústria da seca, daqueles que têm os caminhões-pipa, que em época de seca tiram proveito ganhando dinheiro do governo para levar água para vender para os coitados que não têm como pagar. E esse projeto, se Deus quiser, nós vamos começá-lo logo, assim que o Ministério do Meio Ambiente der o licenciamento prévio.

Quero dizer para vocês uma coisa: o Manoel foi me visitar no meu gabinete, aliás, eu liguei para ele e ele estava no Ceará. Eu falei: Manoel, por favor, eu quero que você venha a Brasília para a gente discutir a questão do São Francisco. Veio o Manoel e um grupo de companheiros da Contag e depois nós mandamos à sede da Contag o companheiro Ciro Gomes, ou o seu chefe de gabinete, fazer uma discussão junto com o Dulci. Foi uma discussão extraordinária, inclusive com companheiros de estados que eram contra. Tem gente que é contra do ponto de vista ideológico, tem gente que é contra porque não quer, tem gente que é contra porque é contra. Agora, tem gente que é contra porque quando abre a geladeira tem até uma "agüinha" francesa para beber. Então, nós queremos garantir que o sertanejo que está morrendo de sede tenha o mesmo direito de tomar um copo de água limpa como eu estou tomando aqui, neste Congresso da Contag.

Uma coisa que me inquietava, meus companheiros e companheiras, e é importante porque estão Sem-Terra e Contag juntos, para eu dizer uma coisa que me inquietou a vida inteira: vira e mexe a gente lia nos jornais a seguinte manchete: "governo assenta 250 mil famílias" e, no outro dia, a gente via outra matéria: "800 mil famílias deixam o campo", "400 mil famílias deixam o campo." E eu fiquei pensando: que política maluca é essa? Eu faço um trabalho "desgramado" para levar 100 pessoas, coloco no assentamento e, no mês seguinte, as pessoas que já tinham terra, que já tinham casa, que já tinham família deixam o campo porque não tinha política agrícola para ajudar quem já tinha terra?

E aí eu me lembrei de uma coisa: em 1982, quando eu fui candidato ao governo do estado de São Paulo, às vezes eu chegava numa casa, a pessoa tinha dois hectares e não queria me receber, não queria nem me ver porque dizia: "já vem o demônio tomar minha terra. Ele quer fazer reforma agrária na minha terra." Eu dizia: pelo amor de Deus, ninguém vai fazer reforma agrária em dois hectares, rapaz, ninguém pode fazer. O que nós queremos é garantir que você sobreviva desses dois hectares, ou que arrume um pouquinho mais. E é por isso que o companheiro Miguel Rossetto assumiu a responsabilidade de dizer em alto e bom som: "Nós queremos fazer uma reforma agrária mais responsável do que já foi feito em qualquer momento da história do país." O nosso desejo é que quando a gente coloque uma família no campo, essa família tenha luz, escola, acesso à saúde e tenha condições de se organizar em cooperativas para montar uma pequena agroindústria. Essa família tem que ter assistência técnica, tem que ter acesso ao crédito porque, senão, nós estaremos tirando um miserável urbano e transformando-o num miserável rural. E, aí, o que acontece? O companheiro fica dois, três anos, desanima e volta para a cidade outra vez. Então, nós queremos fazer alguma coisa diferente.

E eu quero terminar, companheiro Mané, porque eu tenho a convicção, aqui, na sua frente e na frente do companheiro João Paulo, de que essa reforma agrária não é medida pela quantidade de pessoas que são assentadas. Eu me lembro que o Miguel Rossetto me dizia, na primeira discussão que fizemos... acho que foi o Graziano, que trabalhava comigo, que era ministro, que dizia para mim: "Companheiro, quase 80% dos assentamentos estão recebendo cesta básica." E eu dizia: não é possível que alguém esteja assentado e recebendo cesta básica. Se a pessoa está assentada, nós temos que dar o direito dessa pessoa produzir. Nós temos que garantir que essa pessoa possa tirar da terra o alimento para sua família, e mais ainda, que possa criar a sua galinha, o seu porquinho, a sua vaquinha, o seu cabrito e que possa viver dignamente disso. É isso que o companheiro Miguel Rossetto está empenhado em fazer, e é isso que nós vamos fazer.

Por isso, companheiro Mané, não se preocupe com o orçamento não. Eu vou lhe dizer uma coisa, Mané, eu sei que o Congresso da Contag... é todo ano ou de dois em dois anos? É de quatro em quatro anos. Pois bem, mesmo que não seja congresso, companheiro Mané, faço aqui um compromisso meu com Vossa Excelência e com o companheiro João Paulo, do Movimento Sem-Terra: quando chegar mais ou menos em junho do ano que vem nós vamos reunir a Direção da Contag, a Direção do Movimento Sem-Terra, a Direção de outros movimentos no campo para fazermos uma avaliação concreta do que aconteceu no campo, no nosso governo. Se piorou, Mané, vocês peçam para mim: "Companheiro Lula, pede licença e vai embora." Se melhorou, nós vamos ter que dizer: este país não vai para a frente enquanto a gente não fizer a reforma agrária como tem que ser feita e esse país não vai para a frente enquanto o agricultor familiar não tiver, do Estado brasileiro, o respeito que tem que ter, porque se o agronegócio é importante, e o é, é importante a gente salientar que a agricultura familiar é tão importante ou mais importante que qualquer outra coisa que produza neste país. Os dois são muito importantes.

E a agricultura familiar é importante não porque gera empregos, ela gera trabalho, e manter o marido, a mulher e os filhos trabalhando já é uma benção. Sabe por que, companheiros? Porque cada companheiro que estiver trabalhando no campo, a gente sabe que é, possivelmente, um desempregado a menos nas grandes regiões metropolitanas; cada menina que tiver a possibilidade de viver no campo, a gente sabe que ela não estará sendo vítima da prostituição infantil; cada menino que estiver trabalhando no campo, a gente sabe que ele não será vítima do narcotráfico ou da bandidagem nos grandes centros urbanos; cada pessoa que tiver acesso ao trabalho, a gente sabe que vai garantir uma vida melhor para todos nós, uma vida, sobretudo, com a família unida, porque para mim a base da sociedade é a família. Se a família tiver pai e mãe que estejam bem e que cuide bem dos filhos, esta família não vai criar nenhum bandido, nenhum traficante, nenhum viciado em droga. Essa família vai criar um homem honesto, uma mulher honesta. Não é a pobreza que faz as pessoas virarem bandidas, porque eu saí de Pernambuco agarrado no rabo da saia de uma mãe com oito filhos, ficamos comendo o "pão que o diabo amassou" durante muito tempo em Santos e em São Paulo, todos pobres, mas todos honrados e nenhum bandido. Sabe por quê? Porque era uma mãe que sabia cuidar dos seus filhos, mesmo na pobreza.

Meu companheiro Mané, eu quero agradecer a vocês e lembrar que, pela primeira vez na história do país, o Brasil não tem um presidente da República, o Brasil tem um companheiro dos trabalhadores brasileiros, do campo e da cidade, ocupando um mandato por quatro anos.

Muito obrigado, gente. Bom Congresso e vamos à luta.

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