Brasília - DF, 13 de setembro de 2006
Excelentíssimo primeiro-ministro da Índia, senhor Singh. Excelentíssimo presidente da África do Sul, Thabo Mbeki. Meus amigos e minhas amigas.
É um enorme prazer receber, em Brasília, o Presidente da África do Sul e o Primeiro-Ministro da Índia para a Primeira Cúpula IBAS. A presença simultânea de dois líderes da importância de Mbeki e do primeiro-ministro Singh no Brasil marca a consolidação da iniciativa, lançada em 2003 aqui neste mesmo Palácio do Itamaraty.
A idéia original de criar o IBAS foi do presidente Mbeki, que, no dia de minha posse, sugeriu que grandes países em desenvolvimento deveriam se unir para dar novo impulso à cooperação Sul/Sul.
Pensamos em reunir um grupo pequeno de países, capazes de oferecer uma contribuição criativa para os desafios do mundo contemporâneo. Países democráticos, com irradiação regional e projeção global.
O IBAS é muito mais do que uma construção diplomática. É a expressão natural de identidades de visão sobre grandes temas internacionais. É também uma manifestação concreta de objetivos compartilhados por Brasil, Índia e África do Sul.
Somos democracias plenamente consolidadas, que dão exemplo de convivência harmônica entre as várias etnias e culturas que formaram nossas sociedades. Somos economias emergentes, destinadas a ter presença internacional sempre mais relevante. Somos, também, países que ainda enfrentam o desafio de combater a pobreza extrema e lograr um desenvolvimento sustentável.
Estamos determinados a avançar na construção de sociedades mais justas e prósperas por meio de políticas econômicas responsáveis e de um compromisso sem tréguas com a melhoria das condições de vida de nossas populações mais vulneráveis.
Índia, África do Sul e Brasil também podem oferecer uma contribuição decisiva para a construção de uma ordem internacional mais justa, solidária e equilibrada. Estivemos juntos na origem do G-20, trabalhamos em conjunto na reforma das Nações Unidas. Nossa capacidade de irradiação positiva em nossas respectivas regiões - África, América Latina e Ásia - reforça o papel que cabe ao Sul nos principais debates e decisões internacionais.
Senhor Primeiro-Ministro, Senhor Presidente
O Brasil, a Índia e a África do Sul coincidem no entendimento de que uma reforma urgente do Conselho de Segurança é essencial. Somente assim, as Nações Unidas poderão responder de modo eficaz aos desafios da manutenção da paz, da segurança e da estabilidade no mundo.
É necessário que o Conselho reflita o peso crescente dos países em desenvolvimento no cenário internacional. Sua atual composição representa um mundo que já não existe mais. Continuaremos a trabalhar por uma expansão do Conselho de Segurança que contemple países em desenvolvimento nas categorias de membros permanentes e não-permanentes. É fundamental chegarmos a uma decisão ainda em 2006.
A ONU precisa estar preparada para poder atuar da forma que todos esperamos. Os desafios da paz e da segurança internacional exigem, também, uma maior atenção aos problemas do desenvolvimento e do combate à pobreza. Para avançar nestes temas cruciais, a Rodada Doha é o teste do momento.
Esperamos que os países desenvolvidos assumam plenamente suas responsabilidades. Não se pode mais aceitar que suas políticas agrícolas continuem a receber um tratamento especial e diferenciado. A abertura de seus mercados agrícolas e cortes efetivos nos seus imensos subsídios são indispensáveis para o êxito da Rodada.
Os países do G-20 reuniram-se no último final de semana, no Rio de Janeiro, para buscar alternativas para a retomada das negociações da Rodada. Estamos absolutamente engajados em relação a esse objetivo. Com resultados satisfatórios em agricultura, saberemos corresponder nas outras áreas da negociação.
Pelo seu extraordinário conteúdo simbólico, e pela sua expressão concreta de solidariedade Sul/Sul, quero também mencionar o Fundo IBAS de Combate à Fome e à Pobreza. O Fundo é um instrumento único e pioneiro de cooperação Sul/Sul, em benefício dos países de menor desenvolvimento relativo.
Já estamos prestando apoio a projetos de desenvolvimento na Guiné-Bissau e no Haiti. Queremos seguir avançando com projetos na Guiana, no Laos, na Palestina e em outros países onde nossa cooperação possa fazer diferença.
Meu querido Primeiro-Ministro, meu querido Presidente
A importância do IBAS não se esgota no papel internacional que podemos desempenhar. Este Fórum é também um poderoso instrumento para promover a cooperação trilateral em áreas de impacto concreto para nossos processos de desenvolvimento nacional. Nesta Primeira Reunião de Cúpula, teremos avanços importantes nas áreas de comércio, transporte, energia, agricultura e sociedade da informação.
A conclusão de um acordo trilateral de transportes marítimos, juntamente com o já existente acordo de serviços aéreos, permitirá conexões mais diretas entre o Brasil, a Índia e a África do Sul. Queremos, com isso, dinamizar o comércio entre nossos países que, em conjunto, já alcança 7 bilhões de dólares. Queremos também aproximar nossos povos e nosso intercâmbio cultural e turístico. O acordo de normas técnicas, que também concluímos, será outra ferramenta poderosa para a dinamização de nossas relações comerciais.
Partilhamos ainda o propósito de transformar o etanol, o biodiesel e outras fontes renováveis e limpas de energia em commodities com grande impacto sobre o mercado mundial de energia.
Senhoras e senhores
Nosso engajamento no IBAS reflete a prioridade que sempre dei às relações entre países em desenvolvimento. Em 2005, realizamos a Primeira Reunião de Chefes de Estado da Comunidade Sul-Americana de Nações, e a Primeira Reunião de Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da América do Sul e dos Países Árabes.
Ainda no final deste ano, estarei participando, na Nigéria, da primeira cúpula entre países da América do Sul e da África. Esses são passos fundamentais na superação das barreiras históricas, geográficas, culturais e mentais que sempre nos fizeram olhar mais para o Norte do que para o Sul.
O que queremos, com o IBAS e outras iniciativas, é aproveitar melhor oportunidades de cooperação Sul/Sul antes inexploradas. Isso não quer dizer que o Brasil vá descuidar das relações com o mundo desenvolvido. Essas duas vertentes de nossa política externa não são jogos de soma zero. São complementares, uma reforça a outra.
Entre 2002 e 2005, o comércio exterior brasileiro cresceu vigorosamente. Nossas trocas com os países desenvolvidos aumentaram em ritmo sem precedentes. Mas com os países em desenvolvimento, elas aumentaram em ritmo ainda maior. E representam, hoje, mais de 53% das vendas do Brasil ao exterior. Isso prova que se pode crescer simultaneamente em diferentes direções.
Em 2000, o comércio bilateral com a Índia somou pouco mais de 500 milhões de dólares. Já em 2005, subiu para 2 bilhões e 300 milhões de dólares, montante quatro vezes superior ao de 2000. Com a África do Sul, o comércio bilateral cresceu de 530 milhões de dólares, para 1 bilhão e 700 milhões de dólares, no mesmo período.
O comércio com os países em desenvolvimento também é qualitativamente importante, pois envolvem produtos de maior valor agregado do que a média daqueles exportados pelo Brasil. No caso específico da Índia e da África do Sul, 87% das nossas vendas são de produtos manufaturados. Nossos principais itens de exportação para a Índia são aviões e, para a África do Sul, automóveis.
Senhoras e senhores
Por suas características singulares e únicas de reunir três grandes países em desenvolvimento, de três diferentes continentes, o IBAS simboliza de modo muito especial essa orientação da diplomacia brasileira, de uma busca mais ativa de parcerias com os países do Sul.
Gostaria também de fazer um registro muito positivo sobre o pleno engajamento das comunidades empresarial e acadêmica com a iniciativa do IBAS. A participação de nossas sociedades é indispensável para a consolidação do mecanismo.
Primeiro-ministro Singh e presidente Mbeki
Suas presenças aqui têm grande significado para o Brasil. Elas refletem nosso compromisso político com a visão de mundo plural que inspirou a criação do IBAS. Estou certo de que teremos uma reunião muito produtiva.
Continuaremos a construir, com determinação e com uma visão de futuro, um destino de aproximação cada vez maior entre o Brasil, a Índia e a África do Sul.
Muito obrigado.
fonte: www.info.planalto.gov.br
