Discurso do Presidente Lula: brinde no almoço oferecido pelo presidente da República da Guiana

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Georgetown, 15 de fevereiro de 2005

Meu caro amigo, presidente da Guiana, meu companheiro Jagdeo. Meu caro amigo Samuel Hinds, primeiro-ministro da República da Guiana. Meus amigos. Minhas amigas. Membros da comitiva do Brasil e da Guiana.

Queria dizer ao presidente Jagdeo que em 1989 eu perdi uma eleição para presidente da República do meu país. E, terminada a campanha, eu descobri que não conhecia o Brasil e resolvi, então, fazer Caravanas da Cidadania para percorrer de barco, de trem, de ônibus o meu país.

Foram, praticamente, 91 mil quilômetros percorridos entre 1991 e 1994. Foram essas caravanas que me deram mais convicção e me deram uma certeza de que era preciso mudar o governo brasileiro, para que o Brasil pudesse ser governado para a totalidade do seu povo e não apenas para uma parcela da sociedade que tinha participação no mercado.

Perdi, ainda, mais duas eleições e ganhei na quarta. E tomamos a decisão de que era preciso conhecer a América do Sul para que nós pudéssemos carregar, dentro da nossa consciência, não apenas o sentimento, mas a certeza de que a integração é a única possibilidade de desenvolvimento da nossa região.

Percorri todos os países da América do Sul e recebi no Brasil praticamente todos os presidentes da América do Sul. E firmei mais ainda a minha convicção de que não era importante apenas o discurso da integração, de que era preciso tornar realidade o nosso discurso, compreendendo que sem integração cultural, sem integração comercial, sem integração física, era humanamente impossível dar a cada um dos povos da América do Sul, independentemente do país em que ele resida, a esperança e a oportunidade de se desenvolver.

Por mais que eu olhasse o mapa do Brasil e, em volta do mapa do Brasil, eu visse a Guiana, eu jamais teria a dimensão de quão próximos nós estamos. A cor do povo da Guiana, o jeito do povo da Guiana, o sorriso do povo da Guiana, é muito, mas muito parecido, com uma grande parcela da sociedade brasileira.

E é difícil entender que durante séculos e séculos não se concretizou a integração deste continente. Apenas uma ponte, apenas uma estrada, apenas um vôo ou, quem sabe, uma linha de ônibus, poderiam permitir que a nossa cultura, o nosso comércio e a nossa gente pudessem transitar com mais facilidade pelo nosso continente.

Imagine, Presidente, em 500 anos de história eu tive a oportunidade de inaugurar a primeira ponte entre Brasil e Bolívia. Em 500 anos de história eu vou ter a oportunidade de inaugurar a primeira ponte entre o Peru e o Brasil. E, se Deus quiser, no menor espaço de tempo possível, eu terei o prazer de inaugurar a primeira ponte entra Guiana e o Brasil.

Quero lhe dizer, Presidente, que cada membro do meu governo que está aqui, e aqueles que ficaram no Brasil; e a cada empresário brasileiro com quem eu tenho conversado, tenho feito desafios para que eles acreditem, com muita força, na integração; para que façam investimentos, para que troquem os nossos conhecimentos na área de ciência e tecnologia, para que a gente possa ter força econômica, ter força política para negociar com o mundo desenvolvido.

Eu, em dois anos de Presidência, fico, às vezes, envergonhado de ver quantos protocolos são assinados entre os países e passam-se anos e anos e aquilo não deixa de ser um mero protocolo. E, muitas vezes, isso se repete a cada encontro.

A nossa determinação é mudar um pouco essa história. Primeiro, mudando o nosso comportamento, transformando os protocolos de intenções em ações políticas concretas. Segundo, dando importância aos países pequenos tanto quanto damos aos países grandes, porque, muitas vezes, todos nós passamos anos e anos fazendo carinho nos Estados Unidos da América do Norte, fazendo carinho na União Européia, e, quando precisamos de um voto na ONU não nos damos conta de que um país do tamanho da Guiana, do tamanho do Suriname, do tamanho do Uruguai ou do tamanho de uma ilha qualquer aqui, do Caribe, tem o mesmo poder de voto que tem o Brasil, o mesmo poder de voto de um país que tem 1 bilhão de habitantes.

A integração, ela é mais do que uma ação comercial, ela tem que ser uma profissão de fé, ela tem que ser a crença de que com a junção e a unidade das centenas de países pobres que existem no mundo - se agirem conjuntamente, se acreditarem nas suas próprias forças e deixarem de acreditar que vai aparecer alguém para ajudar, e firmarem posições, como firmamos no G-20 - nós teremos muito mais chance de mudar a geografia comercial do mundo, de mudar a geografia política do mundo e permitir que os nossos povos tenham oportunidade no século XXI.

Nós não temos que inventar nada, não precisamos criar nada novo, é só olhar o que aconteceu no século passado, quem foram nossos aliados, quem nos ajudou, quem tirou proveito de nós. E, depois de um século, como é que nós estamos? Mais pobres? Com mais necessidade de educação? Com mais necessidade de conhecimento científico e tecnológico? E isso, quem tem, não dará para nós, se nós não nos transformamos numa força política ativa, ousada e corajosa, e não tenhamos medo de enfrentar o debate político.

E o Brasil, que durante muito tempo voltou as costas para a América do Sul, para outros países pobres, quer agora recuperar o tempo perdido e construir uma parceria em todos os níveis, levando em conta as suas dificuldades também, mas, sobretudo, uma parceria que tenha um conteúdo muito forte de lealdade, que tenha um compromisso muito forte com as políticas sociais. E embora todos nós tenhamos que cumprir todos os contratos que fizemos, não nos esqueçamos que tem um contrato que não está escrito, mas que está na nossa origem e na nossa consciência, que é o contrato que estabelece o compromisso com o pagamento da dívida social que nós temos com o nosso povo.

Com essas palavras, eu quero convidar a todos os presentes a levantarem um brinde ao presidente Jagdeo e ao povo da Guiana.

Muito obrigado.

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