Discurso do presidente Lula no lançamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência - SAMU-192

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São Bernardo do Campo-SP, 26 de abril de 2004

Depois eu vou falar do Leão. Eu, antes, quero dizer duas coisas. Este coral que estamos apreciando deve ficar na cabeça de vocês como uma das possibilidades que nós temos para as crianças que em algum momento da sua vida cometeram um delito e que, por isso, vão para as instituições penais. Alguns acham que a palmatória, o cassetete é a solução. Estas meninas e estes meninos são a demonstração de que o carinho vale muito mais que qualquer castigo que se dê às pessoas. É a demonstração de que existem outros caminhos a serem percorridos no nosso Brasil.

E a segunda coisa é com relação ao nosso querido Ben van Schalk, presidente da Mercedes-Benz. Eu quero fazer justiça aqui, porque falar bem de vocês, na frente de vocês, é o que todo mundo espera. Eu estava em Bruxelas, participando de um debate com mais de duzentos empresários de 24 países do mundo e o presidente da Mercedes foi escolhido para falar em nome dos empresários. E eu confesso, Feijóo, que eu não sei se você, o Marinho, o Guiba, ou se o próprio Moisés defenderia tão bem os trabalhadores brasileiros, como o presidente da Mercedes defendeu, naquela reunião.

Foi um pouco do que ele falou aqui, para vocês. Mas uma coisa era ter falado lá. Ou melhor, uma coisa era ter falado aqui, para vocês; outra coisa é ter falado lá para um público, às vezes, sempre preocupado, sempre receoso com o governo do PT, com o Governo do Brasil. E eu acho que as palavras dele foram animadoras, sobretudo para aqueles que pensam que o Brasil é um país atrasado, um país subdesenvolvido, e que o nosso povo não tem competência. Eu acho que o elogio de um dirigente sindical - do Feijóo, do Marinho e de todos os outros da Comissão de Fábrica, do Tarcísio, do Moisés - é obrigação deles fazer elogio para vocês, até porque se não fizerem elogio, vocês não votam mais neles, depois.

Agora, para o presidente da empresa que, muitas vezes, nem conhece vocês, muitas vezes não sabe o nome da maioria, falar o que ele falou lá, eu confesso que me senti deveras emocionado. Por isso, eu quero cumprimentar-lhe e dar-lhe os parabéns, e pode ficar certo de que esses trabalhadores saberão reconhecer as pessoas que os respeitam. Ninguém perde por respeitar.

Quero cumprimentar os meus ministros,

Humberto Costa, ministro da Saúde,

Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça,

Meu caro Viegas, ministro da Defesa,

O Eunício Oliveira, ministro das Comunicações,

O Olívio Dutra, ministro das Cidades,

Minha companheira Marisa,

Quero cumprimentar o senador Aloízio Mercadante, líder do Governo no Senado,

O deputado Luizinho, líder do Governo na Câmara,

O companheiro Vicentinho,

O companheiro Devanir Ribeiro,

Quero cumprimentar todos os secretários e secretárias municipais de Saúde que estão aqui,

Quero cumprimentar a secretária de Cultura de São Paulo, Cláudia Costin,

Quero cumprimentar todos os meus companheiros e companheiras, prefeitos aqui da região do ABCD,

Quero cumprimentar o meu companheiro Feijóo, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos,

O ex-presidente dos metalúrgicos, Jair Menegueli,

O companheiro Moisés, que é o Kojak de vocês aqui,

Quero cumprimentar meu companheiro Tarcísio,

Quero cumprimentar minha querida Tia, que está aqui, a nossa Tia lá do Bar do Sindicato, que tão bem atende a todos nós,

Eu não posso falar o nome de cada companheiro ou companheira para cumprimentar. Eu queria cumprir o meu roteiro, para depois dizer umas palavras. Vou dizer umas palavrinhas aqui.

Hoje, já vi o Zé do Mato, que prometeu me levar um ganso, ele está prometendo isso há muitos anos. Eu não sei de qual zoológico ele vai pegar esse ganso, mas nós vamos ter que vigiar bem, viu Marisa, porque senão nós poderemos "entrar numa gelada" com o meu amigo José do Mato.

Mas estamos aqui, hoje, para cumprir mais um importante compromisso em defesa da saúde da população brasileira: a extensão, para todo o país, do "Serviço de Atendimento Móvel de Urgência - SAMU/192". Espero que vocês nunca precisem. Serviço médico extraordinário é bom, mas é bom que a gente nunca precise, ou seja, que a gente passe perto sem precisar, porque quando precisa não é muito confortável.

Sempre dei muito valor à idéia de um serviço de saúde que salvasse vidas em situações de urgência. Qualquer um de nós - rico ou pobre - está sujeito a sofrer um acidente ou enfrentar, de repente, risco de morte. É quando precisa de atendimento na hora, onde quer que esteja, antes mesmo de poder ser removido para um pronto-socorro ou hospital.

O SAMU é isso. Um serviço móvel de atendimento pré-hospitalar, que chega rapidamente a qualquer lugar, com equipes capacitadas para salvar vidas.

Para isso, conta tanto com equipes que dão suporte básico - auxiliares e técnicos de enfermagem - atendendo urgências com risco moderado de vida, como também com equipes de suporte avançado - médicos e enfermeiros - para cuidar dos casos graves.

O SAMU/192, todos sabem, mas não custa repetir, é acionado por uma simples ligação telefônica gratuita para o número 192. Os pedidos de socorro são atendidos em centrais que funcionam 24 horas, sempre com a presença de um médico. É esse profissional que faz a triagem das ocorrências, dando as orientações sobre a urgência de cada caso.

Atualmente, no Brasil, existem apenas 11 desses serviços móveis de atendimento de urgência, criados e mantidos pelos próprios municípios e governos estaduais.

Agora, com a implantação da rede nacional SAMU, o governo federal vai investir e espalhar esse serviço por todo o território nacional.

Hoje, estamos aqui na Mercedes entregando as primeiras unidades do lote de 480 ambulâncias que serão entregues ao Programa até o final de junho.

Até o final do ano, o governo federal vai investir 297 milhões de reais na compra de novos equipamentos, para garantir atendimento de urgência a 118 milhões de pessoas em 1.700 municípios brasileiros.

Esse investimento inclui a instalação de 132 Centrais do SAMU/192, além da compra de 1.480 ambulâncias de atendimento básico e UTIs móveis. Além desses recursos, serão aplicados, anualmente, mais 180 milhões de reais no custeio dos serviços.

Das 1.480 ambulâncias que estão sendo adquiridas este ano, 480 serão entregues a 229 municípios até o final de junho. Esses veículos permitirão a ampliação do atendimento do SAMU/192, de 20 milhões para 65 milhões de habitantes no Brasil.

Até o final de julho, o serviço receberá mais 600 ambulâncias e a capacidade de atendimento subirá para 83 milhões de pessoas em todas as regiões do Brasil.

É preciso enfatizar que o ministério da Saúde utiliza os padrões internacionais de atendimento móvel de urgência, que preconizam uma ambulância básica para cada grupo 100 mil habitantes e uma UTI móvel para cada 500 mil.

Com essa expansão do SAMU que estamos fazendo, vamos criar cerca de 15 mil novos postos de trabalho, diretos e indiretos. Só em termos de empregos diretos, vamos abrir vagas para 3.900 auxiliares de enfermagem, 3.900 motoristas, 2.852 médicos, 1.502 enfermeiros e 1.824 telefonistas.

Quero destacar também que o ministro Humberto Costa assinou, hoje, protocolos de intenções entre os ministérios da Saúde, Justiça e Defesa, para utilização no SAMU de equipamentos da Policia Rodoviária Federal e da Aeronáutica. O objetivo é integrar helicópteros ao atendimento de urgência e criar um serviço inédito no país: o resgate de urgência aéreo pelo SUS.

Com a escolha certa das prioridades, muito trabalho e fé em Deus, estou convencido de que, ainda este ano, vamos ter mais da metade da nossa população beneficiada pela rede nacional SAMU/192.

Eu quero cumprimentar o companheiro Humberto Costa, porque logo depois da eleição, quando ele tomou posse como ministro, eu disse a ele: Humberto, o que o povo brasileiro mais deseja não é um novo hospital; o que o povo brasileiro mais deseja é que a gente faça funcionar bem, primeiro, as coisas que já existem neste país; segundo, que a gente dê para as pessoas a certeza de que quando elas precisarem, elas vão ter.

Porque é sempre assim: polícia, médico, essas coisas que precisamos, a gente só vê quando não precisa; quando estamos precisando, a gente procura e não existe. Agora, com a implantação do SAMU, eu não tenho dúvida nenhuma - isso não vai salvar a humanidade - mas é, possivelmente, uma das coisas mais extraordinárias já feitas na área da saúde brasileira.

Aqui tem muita gente que sabe o que é carregar um parente doente dentro de um carro e, às vezes, ver esse parente morrer dentro do carro. Aqui, tem muita gente que sabe o que é levar uma mulher grávida, e ela dar à luz dentro de um carro, porque passa-se 40, 50, 60 minutos, até muito mais dentro de um carro, no trânsito de uma cidade grande.

Agora, com o SAMU - vocês viram o que o Ministro falou, nas cidades em que foi aplicado, aqui, na capital de São Paulo por exemplo, o atendimento caiu de 40 minutos para 12 minutos e, certamente, pode ser muito mais rápido; e, mesmo assim, em algumas dessas cidades as pessoas terão praticamente um tratamento médico de primeiríssima qualidade, porque elas estão preparadas para isso.

Por isso, Humberto, meus parabéns. Você hoje dá um passo extraordinário para copiar dos países desenvolvidos aquilo que eles têm de melhor e não aquilo que eles têm de pior. Meus parabéns, espero poder estar aqui na entrega de outras ambulâncias.

Agora, o que vocês querem ouvir mesmo?

Companheiros, primeiro, não vou tomar muito o tempo de vocês. Até porque depois dos elogios que o presidente da Mercedes fez, vocês vão ter que trabalhar, porque o mundo agora está de olho nos trabalhadores da Mercedes-Benz.

Esse negócio de Imposto de Renda é uma inquietação que nós temos há muito tempo na nossa vida, no Sindicato, e eu fico feliz que o Sindicato dos Metalúrgicos resolva colocar o Imposto de Renda como uma bandeira a ser defendida pelos trabalhadores que pagam impostos.

Eu vejo concretizada, com essa reivindicação de vocês, uma coisa que eu venho dizendo nos últimos dez anos: que o Sindicato precisa parar de ser eminentemente economicista, de reivindicar 10% de aumento de salário e depois não se importar quando se está discutindo o Imposto de Renda no Congresso Nacional; quando se está discutindo política tributária; quando se está discutindo outras leis que parecem não ter nenhum interesse direto para a classe trabalhadora. Mas é ela, a classe trabalhadora, que é a beneficiada ou a prejudicada com determinada lei.

Da mesma forma, eu acho que o Sindicato dá passos importantes quando começa a se preocupar com o salário-mínimo. Não era coisa de sindicatos se preocupar com salário-mínimo, até porque os trabalhadores representados pelos sindicatos dos metalúrgicos, a grande e imensa maioria não ganha mais o salário-mínimo. Então, o salário-mínimo ficou para um grupo chamado "categoria inorganizada".

Eu, durante 20 anos da minha vida, fiz críticas dizendo que a gente fazia um discurso no Dia 1º de Maio sobre o salário-mínimo e depois só íamos falar no outro 1º de Maio. E não era porque os dirigentes sindicais não eram bons não, é porque ninguém ganha um salário-mínimo aqui na Mercedes-Benz, então, o salário-mínimo não pode ser a preocupação de quem ganha mais. A preocupação de vocês, hoje, é muito mais Imposto de Renda. E por quê? Porque vocês fazem parte de uma minoria, no Brasil, que não passa de oito milhões e meio de brasileiros, que paga Imposto de Renda. De 176 milhões, apenas 8 milhões paga Imposto de Renda. São muito poucas as pessoas que pagam. Mas a culpa é que, no Brasil, não houve distribuição de renda durante muitos anos, e a grande maioria do povo ficou marginalizada do processo de pagar Imposto de Renda.

Então, eu quero dizer que são privilegiados aqueles que podem pagar Imposto de Renda, porque ganham um pouco mais. Todo mundo que ganha um salário-mínimo adoraria ganhar o que os metalúrgicos ganham, para pagar Imposto de Renda. Todo mundo. Podem ficar certos que todo mundo que não paga Imposto de Renda gostaria de ganhar um pouco mais para pagar. Se o percentual e a alíquota colocada no salário é muito alta, aí são "outros quinhentos", que nós poderemos resolver.

Eu, de vez em quando, encontro um companheiro que fala assim para mim: "puxa vida, esse ano eu paguei vinte paus de Imposto de Renda". Aí o cara que está do lado fica falando: "nossa, você pagou tanto, eu não paguei nada." O cara que não pagou nada, no mínimo, deve ganhar cem vezes menos do que o que pagou. Então, o que nós precisamos discutir é a justeza da alíquota, que há muitos anos se reivindica que seja reajustada, pelo menos para cumprir aquilo que é a taxa de inflação.

O Feijóo me entregou um documento, uma reivindicação dos metalúrgicos que vale não apenas para eles. Essa reivindicação vale para toda a classe média brasileira assalariada, para toda a classe média brasileira que recebe contra-cheque. No final do mês, a redução da alíquota vai incidir diretamente nessas pessoas.

Eu disse ao Feijóo: eu sei que vocês têm uma passeata no dia 30, aqui pela Via Anchieta. E eu disse a ele que eu espero ter uma boa notícia para ele, até a sexta-feira, na hora que vocês começarem a passeata porque, quem sabe, a gente evite que vocês andem. Mas se não conseguir, é bom vocês andarem, porque eu estou vendo muito companheiro metalúrgico com a barriga grande aí. Andar um pouco não vai fazer mal para ninguém. Mas eu quero ver se a gente resolve isso, porque essas frases que vocês estão colocando aí: "salário não é renda", eu disse isso a minha vida inteira. Eu não estou vendo essa frase aqui, agora, esse cartaz. Eu disse isso a vida inteira e, portanto, nós temos que delimitar qual é o salário que paga e qual é o que não paga Imposto de Renda. Muitas vezes, um trabalhador faz 30 horas extras e o pouquinho que ele ganha a mais fica no Imposto de Renda. Eu acho que é uma forma injusta de taxar a parte da sociedade que vive de salário.

Agora, obviamente, nós temos que compreender que as coisas não são tão fáceis, porque quando a gente manda um projeto de lei para o Senado, pedindo para aumentar a alíquota de quem ganha muito, para que eles paguem até mais do que 27,5 não tem respaldo. Então, é preciso que a gente consiga força para fazer com que haja, efetivamente, uma política justa de Imposto de Renda. Aqueles que ganham muito, têm que pagar muito; aqueles que ganham mais ou menos, pagam mais ou menos; aqueles que ganham pouco não pagam Imposto de Renda.

Eu acho que nós haveremos de encontrar uma solução e eu espero que o Feijóo possa ter, na próxima sexta-feira, uma boa notícia para vocês.

Estou vendo também companheiros com a "camiseta do salário-mínimo." Vejam que engraçado, Feijóo, olha a arapuca em que você me colocou, aqui. De um lado tem a turma de trás, de bonezinho azul, pedindo justiça para reduzir a alíquota do Imposto de Renda; de outro lado tem, aqui na frente, a turma de branco pedindo mais aumento de salário-mínimo; ou seja, eu reduzo o que o Estado ganha e aumento a despesa. Vamos fazer um acordo aqui, porque isso vale para mim e para vocês; isso vale para a conta que vocês fazem na casa de vocês: se vocês têm que gastar dez e só recebem oito, vão ter que diminuir o número de gastos.

A verdade, Feijóo, é que nós temos um problema com relação ao salário-mínimo no Brasil, que não é uma coisa tão tranqüila para resolver. A iniciativa privada não teria nenhum problema em pagar o salário-mínimo, até porque muitas empresas já pagam mais que um salário-mínimo.

Onde é que está o nó do salário-mínimo? É na Previdência Social. E onde é que está o nó da Previdência? Eu fui a um encontro com três mil prefeitos de cidades pequenas. Muitos prefeitos, aqui, estavam presentes e a grande reivindicação dos prefeitos dessas cidades era não aumentar o salário-mínimo, senão eles teriam que mandar os trabalhadores embora.

Na Previdência Social - está aqui o nosso querido Aloízio Mercadante - 10 reais que a gente aumente no salário-mínimo, significam 3 bilhões de reais, num prazo de 12 meses.

Temos uma Previdência que tem um passivo, Feijóo, de 200 bilhões de reais, ou seja, há 200 bilhões de reais a receber e nós não podemos fazer nada, porque está na Justiça; temos que esperar a decisão da Justiça porque não há como o Poder Executivo ou o Poder Legislativo impor ao Poder Judiciário uma decisão. Ele é um poder autônomo.

Da mesma forma, companheiro Feijoó, não estava previsto no orçamento deste ano e nós vamos ter que pagar 12 bilhões e 400 milhões de reais, por conta da URV. Quando foi implantada a URV, alguns milhares de aposentados entraram com uma ação e essa ação saiu este ano.

Ou seja, são 12 bilhões e 400 milhões que não estavam no orçamento da União e que a gente agora vai ter que se virar para encontrar um jeito de pagar, porque é decisão judicial e nós não temos como descumprir uma decisão do Poder Judiciário.

Então, eu fico pensando como, às vezes, as coisas não são tão fáceis como a gente gostaria que fossem. Se eu tivesse que decretar um salário-mínimo para a Mercedes-Benz, eu poderia decretar um salário-mínimo de uns 600 reais, que a Mercedes Benz já paga um piso maior do que isso e poderia pagar; ou, para outra empresa.

Para uma empresa média poderia dar um piso de 400, 450 reais que as empresas poderiam pagar. Até porque muitas já pagam isso. Agora, o nosso problema é um problema de receita e despesa de verdade. Eu propus ao Ministro da Previdência Social que constituísse uma comissão de especialistas envolvendo inclusive a Receita Federal e a Advocacia-Geral da União, para a gente ver qual a possibilidade que nós temos de transformar esse passivo da Previdência Social num ativo, para que a gente possa ter dinheiro para melhorar a questão da Previdência Social e, sobretudo, o salário-mínimo.

Da mesma forma, que nós estamos pensando, Feijóo, em estudar com carinho a questão do salário-família, porque eu não sei se vocês perceberam que na Constituição diz que o salário-mínimo deve permitir a um trabalhador e à sua família viverem condignamente.

Acontece que, hoje, se um trabalhador tem quatro filhos, ou se é solteiro, o salário-mínimo é igual. Então, nós estamos discutindo qual a possibilidade de podermos fazer mudanças, para que possamos atender, pelo menos em parte, aqueles que têm mais filhos, para que o salário-mínimo deles seja familiar e não pessoal.

Essas coisas não estão definidas. Até quarta-feira eu vou tomar uma decisão sobre a questão do salário-mínimo e espero tomar uma decisão sobre a questão da alíquota do Imposto de Renda e outras decisões importantes. Eu sei que vocês têm outra reivindicação importante, que eu estou vendo ali naquela faixa, está escrito ali: "contratações emergenciais."

Eu discuti com o Marinho, na última sexta-feira, essa questão das contratações emergenciais. No Brasil, nós temos algumas experiências de frentes de serviço.

Quem é nordestino, aqui, como eu, sabe que em toda época de seca, eles pegam uns trabalhadores para tirarem a terra de um lado e colocarem do outro; no ano seguinte, devolvem a terra para o outro lado e no ano seguinte... ou seja, é uma frente de trabalho que no ano passado estava a 30 reais por mês, o que é uma vergonha. O grande desafio que está colocado para nós é tentar resolver de uma vez por todas a questão do desemprego no Brasil e, para resolver essa questão, a economia brasileira precisa começar a crescer em números muito mais auspiciosos do que aqueles que nós estamos imaginando.

Até porque nós temos um problema sério, hoje, concentrado nas grandes regiões metropolitanas do nosso país. Quem for para o interior de São Paulo, com exceção de Campinas ou outra cidade do porte de Campinas ou, quem for para o Rio Grande do Sul, Santa Catarina ou Goiás, vai perceber que o problema do emprego está muito mais forte na capital do que no interior, onde as possibilidades têm se apresentado melhores; possivelmente, porque mais empresas tenham sido abertas no interior, em detrimento das capitais.

Nós estamos pensando em fazer um grande investimento, e foi orientado ao nosso ministro Olívio Dutra que todo dinheiro para investimento em saneamento básico e habitação - sobretudo a parte do Ministério, mas também a parte que a Caixa Econômica Federal tem, que são 8,5 bilhões para financiar a habitação - que seja dada prioridade às grandes regiões metropolitanas, tendo como critérios o desemprego e a violência, para ver se conseguimos resolver esses dois problemas, que são cruciais.

Ao mesmo tempo nós pretendemos anunciar, também na quarta-feira, se der certo - as Forças Armadas Brasileiras este ano iriam chamar 50 mil recrutas - e nós propusemos ao ministro da Defesa e aos comandantes das Forças Armadas, que ao invés de 50 mil, que eles requisitem 100 mil, desde que o critério seja pegar também os nossos adolescentes - nos grandes centros urbanos, onde o clima é mais tenso, onde o narcotráfico tem mais poder de influência e captação de jovens - para que esses jovens possam servir um ano nas Forças Armadas Brasileiras, mas servir de forma diferente, em que ao mesmo tempo que prestem o serviço militar, aprendam uma profissão, para que saiam das Forças Armadas já com a possibilidade de ter uma chance de emprego.

E eu sei que isso vai ser um benefício extraordinário, sobretudo, nos grandes centros urbanos das regiões mais nervosas de cada cidade. E estamos discutindo também a possibilidade, junto ao ministério da Defesa - em parceria com o Sesi, com o Senai, com o Sebrae, com o Sesc - para ver se a própria estrutura das Forças Armadas pode ter mais cem mil jovens, não para servir, de farda, mas para que dentro da estrutura das Forças Armadas possam aprender uma profissão; eu não estou preocupado apenas com a formação profissional, eu estou preocupado, também, com a formação do homem, porque hoje há um processo de desagregação na estrutura familiar conduzida pela pobreza, pela falta de oportunidade, em que o pai briga com mãe, o filho briga com pai e o pai briga com filho, não há respeito, e o jovem fica violento.

Então, nós queremos que essa criança aprenda um pouco de civismo, que essa criança aprenda um pouco de respeito hierárquico pelos seus pais, que essa criança aprenda a gostar deste país, que descubra que vai ter uma oportunidade na vida que não pode jogar fora. Essa não é uma tarefa fácil, é uma tarefa infinitamente difícil. E, possivelmente, já compreende a importância dela quem tem um filho de 18 anos em casa, desempregado, na frente da uma televisão o dia inteiro, sem ter o que fazer. Então, nós vamos tentar cuidar disso, Feijóo, com carinho.

Estamos mandando para o Congresso Nacional, Feijóo, uma mudança na lei do Primeiro Emprego. E porque estamos fazendo uma mudança? Porque do jeito que nós mandamos a primeira vez, nós pensamos como sindicalistas, e mandamos uma lei em que a gente dizia que o empresário não podia mandar um outro trabalhador embora. Significa que a lei está bonita, perfeita, mas o empresário não contratou ninguém. Por quê? Porque ele não quer assumir o compromisso de que ele não pode mandar ninguém embora. E se precisar mandar embora? Então, nós estamos mandando uma mudança na lei, para ver se a gente consegue fazer com que o Primeiro Emprego seja uma mola propulsora para despertar o sonho na juventude brasileira.

Eu estou certo que essas medidas vão ajudar, mais o investimento que estamos fazendo em habitação e saneamento básico, mais a quantidade de dinheiro no BNDES - 35% dos recursos do BNDES serão canalizados para as micro e pequenas empresas.

O Banco do Brasil saiu de 11 bilhões para 18 bilhões para microcrédito, para ver se a gente consegue colocar em circulação os recursos necessários para gerar os empregos que nós queremos, já que a pequena e a micro empresa são grandes geradoras de emprego neste país. E, ainda esta semana, devemos anunciar o mesmo que foi feito para os metalúrgicos. Nós vamos anunciar empréstimos para os 19 milhões de aposentados - através da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil - descontados em folha, para que eles possam pagar, no máximo em 1,75% ou 2,20%, dependendo do banco.

Isso é pouco? É pouco, na verdade, não é nenhuma salvação, mas é para evitar que os nossos velhinhos, muitas vezes, peguem o seu relógio para ir penhorar na Caixa Econômica Federal, para comprar um remédio.

Da mesma forma, o Humberto falou, uma coisa muito importante que vai acontecer no Brasil é a farmácia popular, com 89 tipos de remédios - aqueles remédios que as pessoas tomam de forma continuada, Tia, que nem você, que precisa tomar remédio todo dia para não dar um "piripaque". Parte desse remédio as pessoas vão poder comprar a 50% do preço que encontram nas farmácias. As farmácias populares serão criadas em alguns lugares importantes, nos grandes centros urbanos, em primeiro lugar.

E, depois, uma outra coisa importante, Feijóo, que é a primeira vez que acontece na História do Brasil: nós estamos criando, no Brasil, 400 centros de saúde bucal. São centros especializados que vão fazer desde a correção dos dentes, a tratamento de canal, prótese, porque no Brasil a unha do dedão do pé era tratada como uma questão de saúde pública, mas a boca não.

Todo mundo aqui se lembra que, quando eu era presidente do Sindicato ainda, lá para os idos de 1976, a minha briga com a indústria automobilística era que eles faziam convênios com empresas prestadoras de assistência médica e não colocavam odontologia dentro do plano. Por quê? Porque, na verdade, dente doendo é coisa de pobre. Rico não tem problema de dente. É o pobre que tem dor de dente, é o pobre que coloca cachaça, coloca álcool, alguns até bebem um pouquinho para dizer que vai curar a dor de dente.

Mas, de qualquer forma, são coisas importantes que nós estamos fazendo e nós temos certeza que os frutos já começam a aparecer.

Eu queria terminar, já que nós falamos tanto de saúde, dizendo uma coisa para vocês: eu estou hoje, um ano depois de ter vindo aqui, muito mais otimista do que eu estive, da outra vez. Da outra vez nós ainda tínhamos pouco conhecimento de como funcionavam as entranhas da máquina pública e as dificuldades.

Hoje, nós já conhecemos o labirinto da máquina pública e as potencialidades do Brasil. Vocês sabem que nós dedicamos um ano e que, possivelmente, muitos de vocês até fizeram críticas a mim porque viajava demais. Mas era preciso recuperar coisas que este país tinha perdido, chamadas "credibilidade" e "respeito".

Hoje, eu posso dizer que o Brasil nunca foi tão respeitado no mundo como é hoje. Consolidamos a América do Sul, talvez até dezembro tenhamos toda a América do Sul dentro do Mercosul. Consolidamos uma parceria estratégica entre África do Sul, Índia e Brasil.

Dia 22 de maio estarei viajando para a China para consolidar, possivelmente, a mais forte aliança do Brasil com a China. Em dezembro estarei recebendo, aqui, o presidente da Rússia, para que a gente possa consolidar uma aliança forte, porque a Rússia é nossa parceira estratégica e compra carne dos Estados Unidos, não compra carne brasileira. É preciso comprar o nosso produto.

Estamos consolidando uma aliança da União Européia com o Mercosul. Depois disso feito, eu posso dizer para vocês que a Alca sairá exatamente do ponto de vista do interesse da América do Sul. A Alca sairá do tamanho que os países da América do Sul entenderem que ela deva sair.

Agora, Feijóo, tem uma briga maior. Primeiro porque eu tenho consciência das coisas que nós temos que fazer pela frente e quando eu digo para vocês que eu estou otimista, é porque quando eu tomei posse - já que eu estou falando aqui do SAMU - a impressão que eu tinha e todos que fazem economia sabem, é que o Brasil estava numa UTI.

Muitos até imaginavam que nós não seríamos capazes de tirar o país da UTI. Hoje, eu posso dizer que este país, que estava na UTI, já está andando nos corredores do hospital e posso dizer que a cada momento que eu tiver dificuldade de fazer uma coisa, não terei nenhum problema em ligar para você e falar: Feijóo, eu quero fazer uma assembléia com a peãozada do ABC, para poder não apenas pegar energia positiva, mas para discutir com franqueza o que nós temos que fazer com o nosso país.

Nós sabemos que temos tudo para fazer, até porque é muito difícil consertar 500 anos em 500 dias. É muito difícil, e vocês sabem disso. Vocês precisam dormir, todo santo dia, com a certeza - inclusive você, Rafael, que está aí coçando o queixo - vocês têm que dormir, todo santo dia, com a certeza que eu vou dormir sonhando em concretizar cada coisa que o povo brasileiro acredita que nós vamos concretizar.

Até porque foi por causa do país que eu fui eleito. Se o Brasil estivesse bom, eu não seria eleito presidente da República. Eu só fui eleito porque o povo percebeu que era preciso mais que um presidente da República, que era preciso um companheiro, ao invés de um presidente. Era preciso alguém que tivesse o sentimento do povo brasileiro, para poder mudar.

E estejam certos que nós vamos mudar. E eu espero voltar aqui, brevemente, vai ter mais ambulâncias, e para aquele companheiro que está com a faixa ali, "salário não é renda" poder dizer: "Obrigado, companheiro Lula. Obrigado, companheiro Feijóo, porque vocês resolveram o problema de o Leão não morder mais o meu bolso".

Muito obrigado, gente, e até outro dia, se Deus quiser.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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