Puerto Iguazú/Argentina, 30 de novembro de 2005
Querido presidente Kirchner, presidente da Nação Argentina, Querido doutor Raúl Alfonsín, ex-presidente da Argentina, Querido companheiro senador José Sarney, ex-presidente do Brasil, Governadores presentes a este Ato, Ministros no Brasil, Ministros da Argentina, Agora Ministra, também, da Argentina, Senhores embaixadores, Todos os assessores integrantes da comitiva
Certamente, cada um de vocês tem uma contribuição inestimável para o que nós estamos realizando hoje. Antes de falar, eu queria prestar uma homenagem a um companheiro que preferiu a política à diplomacia, o nosso querido Rafael Bielsa, e que possivelmente seja, como ministro das Relações Exteriores, a última reunião de que participa conosco. Eu, pelo menos, só vou participar da próxima em Montevidéu e ele já será deputado, companheiro Celso Amorim.
Eu penso que Kirchner e eu seremos sempre muito agradecidos à dedicação que vocês dois tiveram nesse episódio. Se não fosse a garra, se não fosse o entusiasmo, se não fosse a crença com que vocês dois, cumprindo a vontade dos Presidentes das Repúblicas, executaram isso com carinho, certamente nós não teríamos obtido o sucesso que estamos obtendo nas nossas relações. O Bielsa sai, entra o nosso querido Jorge Taiena, que deve fazer o mesmo - e Kirchner e eu estaremos torcendo que faça muito mais - Celso Amorim continua, se não te acompanhar também. Mas a história é que o sucesso de tudo isso se dá exatamente porque nós temos homens e mulheres trabalhando pela integração Argentina-Brasil, pessoas que acreditam, pessoas que venceram preconceitos, dogmas, paradigmas equivocados e que podem fazer com que hoje estejamos aqui celebrando esta quantidade enorme de acordos que fizemos, e outros que ainda faremos.
Portanto, eu só posso agradecer ao presidente Kirchner mais esta oportunidade de estarmos aqui reunidos em Puerto Iguazú, e podermos comemorar o dia extraordinário quando, aqui nesta cidade, o presidente Alfonsín e o presidente Sarney tiveram um comportamento de visionários. É importante lembrar que hoje é muito fácil fazermos o que estamos fazendo mas, em 1985, os dois países tinham saído de um regime autoritário, os dois estavam recém-empossados na Presidência da República, e tiveram a coragem de dar sinais a gerações futuras de que era preciso quebrar todas as barreiras possíveis entre Argentina e Brasil.
O rio Prata, por mais largo que seja, por mais profundo que seja, depois da vontade dos dois Presidentes, em 1985, ficou pequeno pelas braçadas de brasileiros e argentinos na vontade de conquistar uma integração maior, mais sólida e muito mais vigorosa. Por isso, eu quero dizer ao presidente Alfonsín e ao presidente Sarney, que não apenas o Kirchner e eu, mas outros presidentes que virão depois de nós, daqui a algumas décadas ou daqui a não sei quantos anos, irão ser sempre agradecidos ao gesto que vocês dois tiveram, um gesto de grandeza, um gesto de visão, de estadistas, um gesto que possibilitou que a grandeza da ação política do ser humano superasse a pequenez que tantas vezes norteou as decisões políticas em nosso país. Meus parabéns a vocês dois.
O Compromisso de Puerto Iguazú, que acabamos de assinar, comemora este momento singular da nossa história. Em 1985 adotamos um acordo tão ambicioso e inédito quanto as potencialidades de nossa associação. Ao abrir de forma recíproca nossos programas nucleares, sedimentamos uma relação de amizade e confiança que é um exemplo para o mundo e que hoje estamos celebrando.
Mas este compromisso também nos remete para o futuro. Os entendimentos que estamos adotando, hoje, aprofundam, atualizam e aceleram nossa agenda bilateral em toda sua vitalidade e abrangência. Os acordos que estamos assinando potencializam os resultados práticos que alcançamos na geração de crescimento, empregos e bem-estar para os nossos povos. A declaração conjunta sobre política nuclear que o presidente Kirchner e eu acabamos de subscrever aprofunda o empenho de nossos países em um projeto partilhado do desenvolvimento, assentado na cooperação pacífica e no diálogo transparente.
Mais do que nunca, estamos convencidos de que não há saída individual para nossos países, apenas soluções coletivas. Por meio de dois protocolos decidimos avançar na pesquisa, produção na regulamentação nuclear, sempre como os olhos postos na independência energética e na autonomia tecnológica. A mesma busca de sinergia está na origem dos demais instrumentos que estamos adotando agora.
Vamos desenvolver um satélite brasileiro e argentino para monitorar nosso patrimônio ambiental. Criaremos centros de pesquisas para promover o intercâmbio de conhecimento em setores fundamentais, como nanotecnologia e os medicamentos genéricos. Exploraremos nossas complementaridades também na esfera militar. Vamos realizar exercícios conjuntos e coordenar nossa participação em operações de paz, como estamos fazendo no Haiti.
Estamos empenhados em consolidar a infra-estrutura de transporte e de energia, que aproxima nossos países e une nossas regiões. Temos de encontrar respostas conjuntas para facilitar o nosso comércio. Por isso, o Brasil está considerando participar da implementação do gasoduto do nordeste argentino e avança os estudos conjuntos para a construção da hidrelétrica de Garabi.
Dentro de poucos dias estaremos reunidos em Montevidéu para dar seguimento ao nosso projeto prioritário de fortalecer o Mercosul e consolidar a Comunidade Sul-Americana de Nações. O presidente Kirchner e eu concordamos que a Argentina e o Brasil são o eixo central desse processo. Estamos na origem do Mercosul e temos especial responsabilidade pela construção de um espaço continental de paz, estabilidade e prosperidade. A integração é muito mais do que o aumento do comércio. Adotamos uma política de exportação que fortalece o mercado interno, gerando emprego e renda e combate à exclusão social.
Estamos articulando políticas agrícolas e industriais que reduzem os custos de fazer negócios entre nossos dois países e com terceiros sócios, eliminando entraves burocráticos e padronizando os procedimentos. Exemplo disso é o programa de trabalho que Argentina e Brasil estão concluindo para uniformizar seus sistemas nacionais de controle fito-sanitário. Essa iniciativa vai no sentido de minha proposta de que todos os países da América do Sul coordenem ações de combate a endemias que afetam a todos, como a febre aftosa. Argentina e Brasil formam uma parceria entre iguais, mas que respeitam as especificidades e necessidades de cada um.
O Brasil quer como sócia uma Argentina forte e confiante, guiada pela criatividade de sua gente e pela reconhecida vocação manufatureira e capacidade técnica de sua indústria. Por meio de cadeias produtivas binacionais estamos forjando laços de integração centrados na inovação tecnológica e nos ganhos de competitividade. Queremos a parceria da Argentina na abertura de novas fronteiras de comércio exterior, atraindo investimentos e internacionalizando nossas empresas.
Por isso, apoiamos o governo argentino nas negociações com o Fundo Monetário Internacional, para garantir a reindustrialização de sua economia e preservar os importantes avanços na geração de crescimento e de emprego nos últimos dois anos. Sabemos que a verdadeira integração começa com o nosso cidadão. O espaço econômico que estamos criando vai além do fluxo de bens, serviços e investimentos. É um espaço de união que se completará quando estiver plenamente assegurada a livre circulação de pessoas. Por isso, estamos aumentando as facilidades de residência de brasileiros e argentinos, reciprocamente.
Estamos garantindo a igualdade de direitos civis, inclusive com respeito ao trabalho. Nossas fronteiras são a vanguarda desse processo de construção de uma verdadeira cidadania regional. Vamos criar localidades fronteiriças vinculadas, ou seja, espaços onde argentinos e brasileiros tenham todos os direitos de seus vizinhos, inclusive o acesso à educação, ao trabalho e à saúde. Os projetos conjuntos que estamos avançando em matéria de educação, cultura e esportes são o microcosmo do que temos de melhor e do que poderemos realizar juntos.
Mas o aprofundamento de nossa relação bilateral não pára em nossas fronteiras. Está no cerne dos grandes projetos de política externa dos dois países. Da integração bilateral passamos ao Mercosul, de nosso bloco sub-regional avançamos para a Comunidade Sul-Americana de Nações. Como região, desejamos ter uma inserção competitiva na economia mundial. Na ONU e OMC somamos nossas vozes para ajudar a modificar as regras e procedimentos dos principais foros multilaterais que não respondem aos nossos interesses e aos de nossa região.
Em 1910, Roque Sáenz Peña disse, sobre o Brasil e a Argentina: "Tudo nos une e nada nos separa". Foi considerado um idealista. Hoje nossos países estão cada vez mais unidos pela coincidência de valores e interesses essenciais, como a busca do desenvolvimento e do bem-estar de nossos concidadãos e dos demais povos da América do Sul. Por isso, confio que os vínculos de cooperação, integração e amizade que unem o Brasil e a Argentina são parte de nossos objetivos nacionais permanentes e irrenunciáveis.
Meu querido amigo, presidente Kirchner
Eu penso que o que estamos fazendo aqui hoje, possivelmente, seja mais do que tudo o que nós pensamos em fazer nesse pouco tempo em que você é presidente da Argentina e que eu sou presidente do Brasil. Afinal de contas, três anos parece tanto para quem está na oposição, mas é tão pouco para quem está na situação, que há uma contradição. Entretanto, eu quero fazer justiça ao comportamento do presidente Kirchner que, em nenhum momento, mesmo nos momentos em que Brasil e Argentina tiveram divergências setoriais, mesmo nos momentos em que setores empresariais de um ou de outro país achavam que estavam sendo prejudicados, mesmo muitas vezes tendo necessidade de discordar, em nenhum momento o presidente Kirchner, em nenhuma reunião de que participamos, em nenhuma conversa que tivemos, deixou de acreditar, um milímetro sequer, que nós poderíamos avançar na integração Brasil-Argentina, fortalecer o Mercosul, criar a Comunidade Sul-Americana de Nações, se expandir pela América Latina e fazer com que a força da Argentina e a força do Brasil, trabalhando conjuntamente, pudessem nos dar força para melhor negociar, sobretudo na Organização Mundial do Comércio. Todas as vezes que alguém se queixa que tem problemas da Argentina com o Brasil eu fico sempre dizendo aos meus ministros, à imprensa, que nós, mais do que ninguém, precisamos compreender que a Argentina precisa fortalecer a sua indústria; mais do que ninguém a Argentina precisa recuperar a capacidade produtiva que já teve no nosso Continente e, quanto mais forte for a Argentina, mais forte será o Brasil; quanto mais forte for o Brasil, mais forte será a Argentina; e quanto mais forte for a Argentina e o Brasil, mais forte será o Uruguai, mais forte será o Paraguai, mais forte será a Bolívia e mais forte será toda a América do Sul.
Eu tenho a certeza de que o presidente Kirchner acredita, tanto quanto eu e outros presidentes, que nós apenas estamos colhendo aquilo que outros plantaram. Começou com Alfonsín, com o presidente Sarney, outros presidentes fizeram mais ou fizeram menos, os nosso diplomatas fizeram mais ou fizeram menos, mas alguém sempre deu uma contribuição, mesmo na divergência, para que a gente descobrisse a necessidade de avançar um milímetro a mais. Nós estamos colhendo o que a nossa gente plantou, nós estamos colhendo o que a nossa gente trabalhou, e não foram poucos anos, não foram poucas gentes. Portanto, aquilo que aos olhos dos pessimistas parecia impossível, está acontecendo hoje. Aqueles que muitas vezes venderam a idéia de que a Argentina e o Brasil não têm jeito, que são inimigos mortais e, portanto, não podem dar certo... a Argentina tem que ter uma relação privilegiada com outros países e o Brasil, também, com outros países. E nós teimamos em dizer, nós queremos, Argentina e Brasil, ter relações com todo mundo, não fazemos veto a nenhum país, mas não abrimos mão de que tudo começa pela grande relação entre Argentina e Brasil.
E quero dizer a vocês, agora, já que o clima está muito tenso do discurso, que a vida humana é uma coisa fantástica porque, de vez em quando, aparece o inesperado. Eu torço para um time no Brasil chamado Corinthians, que tem a maior torcida, eu acho, do futebol brasileiro, mas os cariocas acham que é o Flamengo que tem, mas, de qualquer forma, a maior torcida é de São Paulo. Era impossível, alguns meses atrás, alguém imaginar que pudesse ver um corintiano vestido com uma camisa do Boca Júnior, era inimaginável. De repente, o Corinthians contrata alguns jogadores argentinos e, dentre eles, o Carlitos Tevez. Olhe, o cidadão, obviamente que não é estilo Maradona, nem estilo Ronaldinho, mas o povo também não quer muito estilo, o povo quer muita garra. O dado concreto, Kirchner, é que se o Corinthians for campeão, eu vou te presentear com uma camisa do Corinthians, se for possível, quem sabe, com a camisa 10, se o Tevez não te der antes que eu. Porque aquilo que parecia impossível, hoje virou uma coisa normal, ou seja, os brasileiros vendo nos jogadores argentinos um irmão, um parceiro. E veja, o Tevez virou a figura mais importante da torcida corintiana, que é a torcida do pobre, o Corinthians é um time pobre, é um time acusado pelos adversários de ser muito pobre. Entretanto, um dos espetáculos da humanidade é ver um jogo do Corinthians com o estádio lotado, pelo espetáculo que a torcida dá.
Então, eu fico imaginando, tudo começou com Alfonsín, com Sarney, depois vieram outros presidentes. Aí chega você, que não estava previsto ser presidente da Argentina, chego eu, que não estava previsto ser presidente do Brasil, e a gente começa a perceber o que está acontecendo na América do Sul. Olhem o retrato das eleições na América do Sul nesses últimos três anos e nós vamos perceber que, em nenhum momento histórico da América do Sul, a gente teve tanta possibilidade de ter uma América do Sul realmente voltada para a sua gente. Eu dizia a Kirchner, agora há pouco, "imagine o que significou a eleição do Chávez na Venezuela; imagine o que significa se o Evo Morales ganhar as eleições na Bolívia". São mudanças tão extraordinárias que nem mesmo nossos melhores cientistas políticos poderiam escrever porque não tinha livros antecedentes mostrando que isso seria possível.
E eu tenho certeza, Kirchner, que o que você está fazendo na Argentina vai possibilitar que, em outros países, a gente possa colher mais gente progressista, mais gente comprometida com o povo e, quem sabe daqui a alguns anos, você e eu, já na idade do Sarney e do Alfonsín, poderemos ser convidados a participar de um ato e a gente poderá ver que os indicadores sociais da América do Sul são comparados aos indicadores sociais dos países mais ricos do mundo.
Muito obrigado pelo carinho e boa sorte a brasileiros e argentinos.
