Brasília-DF, 10 de fevereiro de 2005
Meu caro amigo, senador José Sarney, presidente do Senado Federal. Meu caro companheiro João Paulo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados. Ministro Carlos Mário da Silva Velloso, presidente em exercício do Supremo Tribunal Federal. Meu querido Eugênio Bucci
Meu caro José Alencar. Ministro Edson Vidigal, presidente do Superior Tribunal de Justiça. Meu caro Gushiken. Waldir Pires. Meu caro Álvaro Eunício. Meu caro Renan Calheiros, senador da República. Senador Sérgio Zambiasi. Senador Luiz Otávio. Deputado José Borba. Meus amigos e minhas amigas.
Não se impressione, Gushiken, que eu não vou ler o discurso aqui. Eu não vou ler o discurso porque eu queria apenas retratar aos nossos queridos convidados o simbolismo que tem este gesto de hoje. E precisava ser feito hoje, presidente Sarney, presidente João Paulo, eu diria, para homenagear vocês. Precisava ser feito porque terá eleição no Senado no dia 15 e, na Câmara, no dia 14. E eu penso que outros assumirão a Câmara e o Senado e, certamente, terão gestos que merecerão atos como este. Mas este, de configuração e criação de uma TV internacional, com a participação dos três Poderes, teria que ter a assinatura de vocês porque foram mentores, cúmplices e parceiros, desde o primeiro momento em que essa idéia foi ventilada.
E esse gesto, meu querido Eugênio Bucci, é apenas o começo de uma empreitada que pode ser longa, porque sabem os comunicadores e os homens de imprensa que estão aqui que não basta a vontade dos três Poderes, não basta ter dinheiro para criar um instrumento de comunicação. É preciso saber se nós vamos ter competência para fazer uma programação capaz de fazer com que o nosso público-alvo assista e nos dê razão de termos criado essa televisão.
Como eu, particularmente, acredito piamente que o processo de integração é uma coisa irreversível no mundo e, sobretudo, na América do Sul, acho que não basta apenas a integração comercial, é preciso que haja integração física, é preciso que haja integração cultural, é preciso que haja a integração social.
E nenhum instrumento será mais eficaz para a integração do que a comunicação. Por ser o Brasil o país economicamente mais forte e geograficamente maior, do ponto de vista populacional, com maior número de habitantes, o que tem o maior PIB, isso demonstra que nós temos que ter mais responsabilidade e muita generosidade na construção de um projeto dessa magnitude.
Primeiro, porque precisamos repartir o que nós temos com os outros que não têm o que temos. Um projeto como este, para dar certo, não pode ser visto pelos países da América do Sul como uma intromissão de um país que quer ter hegemonia sobre os demais países. Muito cuidado, porque isso tem que ser visto e recebido, pelos governantes e pelo povo, como um instrumento a mais no processo de integração solidária que nós queremos fazer na América do Sul e na América Latina.
Nós precisamos ter uma programação que seja, ao mesmo tempo, muito plural. Portanto, é muito importante. Eu queria aqui a compreensão dos meus companheiros da imprensa: não é um canal de televisão do governo, pelo contrário, é um canal de televisão do Estado brasileiro, portanto ele perpassa os presidentes do Supremo Tribunal, da Câmara e do Senado, porque é um instrumento em que o Estado brasileiro vai tentar estabelecer e engrandecer as suas parcerias com uma parte do mundo que é interligada a nós por obra de Deus e pela natureza.
A segunda coisa que eu acho extremamente importante a gente dizer aqui, presidente Sarney: isso não começou comigo. Na verdade isso começou quando Vossa Excelência era Presidente, porque eu acho que a história vai marcar o papel importante que teve a sua passagem pela Presidência, a do presidente Alfonsín, na construção do primeiro embrião, de verdade, de integração da América do Sul, porque até então o que acontecia com muitas autoridades, e ainda hoje tem muitas que ainda pensam assim, é que não temos que dar muita importância para a América do Sul: Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Equador. Nós temos que olhar para os Estados Unidos e olhar a Europa, que nós queremos olhar sempre, mas não queremos ser hipócritas de olhar para os Estados Unidos sem ver que, antes de chegar lá, nós temos um imenso Continente que está mais próximo de nós e que precisamos fazer alguma coisa para que eles tenham a chance de um dia serem países desenvolvidos.
Nós não podemos olhar para a Europa e fingir que não existe o Continente Africano na nossa frente. Nós temos que olhar e perceber que tipo de gente mora ali, até um tipo de gente que tem responsabilidade pela nossa cultura, pela nossa cor, pelo nosso biotipo. Vocês percebem que eu tenho a cara um pouco misturada.
Mas eu acho que é isso que dá dimensão a um país; é reconhecer valores que, muitas vezes, a aristocracia elitista de um país não quer ver, porque para alguns o Brasil ainda é colonizado. Alguns ainda agem como se o Brasil fosse colonizado e dependesse apenas de uma parte do mundo, quando, na verdade, o Brasil tem um papel extremamente importante, exatamente pela pluralidade das políticas que temos colocado em prática no nosso país.
É muito importante que o mundo da América do Sul conheça a nossa cultura plena, mas é muito importante que a gente tenha humildade de conhecer a deles. É muito importante que eles conheçam como funciona o nosso Poder Judiciário, mas é muito importante que a gente conheça como funciona o deles; é muito importante que eles saibam os lugares bonitos que nós temos para as pessoas tirarem férias, mas é muito importante que nós também conheçamos os deles; é muito importante que eles conheçam o funcionamento do nosso Congresso Nacional, mas é importante que a gente conheça o deles. Por aí, sim, nós estaremos estabelecendo uma relação de confiança tal que não haverá mais dúvida, como houve no passado, quando fomos construir Itaipu e alguns militares argentinos achavam que Itaipu era uma espécie de instrumento para inundar a Argentina, em caso de guerra, e começaram a pensar em criar a bomba atômica. Este tipo de coisa não pode mais existir se houver uma relação política sadia. E por isso nós acreditamos e trabalhamos, arduamente, para a integração.
Estou viajando domingo, à noite, presidente Sarney, meu querido José Alencar, João Paulo, para uma reunião que é muito importante para nós. Eu e vários ministros, junto com vários empresários, estamos estabelecendo um processo de integração de parcerias com a Venezuela na área de mineração, na área de gás, na área de petróleo, na área de diamante, em várias áreas em que o Brasil tem potencial de investimento, mas, sobretudo, tem potencial para fazer parcerias com empresas venezuelanas. Vamos fazer o mesmo com a Colômbia e fazer o mesmo com todos os países, para que a integração deixe de ser uma peça de discurso em época de campanha eleitoral e seja uma ação cotidiana nossa. E ainda mais se a gente tiver um instrumento de comunicação para que essas coisas possam chegar a muita gente ao mesmo tempo.
Por isso, eu penso que o dia de hoje é um dia marcante. Possivelmente, nem nós mesmos tenhamos noção da importância. Quem sabe, daqui a 30 ou 40 anos estarão aqui outro presidente e outros senadores, outros deputados, outros jornalistas, que estarão recordando a importância que o dia de hoje teve para a consagração da integração da América do Sul.
A única coisa que eu queria pedir aos companheiros e companheiras que vão cuidar disso: em relação política, humildade não faz mal a ninguém. Se num projeto como este vocês não tiverem o cuidado de não deixar parecer que o Brasil quer impor a sua cultura aos outros, o projeto poderá ser um daqueles canais de televisão que existem, todo mundo aqui tem, mas que ninguém assiste.
E nós estamos fazendo um canal não para ocupar uma onda de satélite, nós queremos um canal para que determinados setores da sociedade se sintam na obrigação de tomar conhecimento do que acontece na América do Sul e na América Latina, porque, hoje, a verdade é que nós temos muito mais notícias de qualquer outro país do mundo do que da própria América do Sul. Nós temos pouquíssimas notícias da América do Sul, é preciso ter uma coisa muito grave para que saia aqui, no Brasil. Então, eu acho que esse potencial de transitar informações entre os países é uma coisa consagradora para a integração com que, eu acredito, todos nós sonhamos.
E, prestem atenção, nós estamos lançando isso no dia 10 de fevereiro, dia em que nasceu o meu Partido. E eu tenho dito que o século XXI será o século do Brasil e da América do Sul. Não consigo visualizar o mundo futuro sem que essa parte do mundo, que ainda tem tudo por explorar e que tem um povo fantasticamente generoso, não tenha a oportunidade.
Nós vamos levar em conta que Deus pode não ter nascido no Brasil, como nós, brasileiros, queremos. Mas que, certamente, ele passou por aqui, passou, muito tempo.
E eu acho que nós temos apenas que, junto com os nossos parceiros, não jogar fora essa chance que nós estamos tendo. E a comunicação - não apenas um canal de televisão, mas outros instrumentos que a gente pode utilizar - é a consagração desse processo histórico, da chance que vai ter a nossa querida América do Sul e, dentro da América do Sul, o nosso querido Brasil.
Portanto, meus parabéns. Acho que o gesto da Câmara, do Senado, do Poder Judiciário e da nossa querida Radiobrás, é um gesto significativo de um país que, finalmente, se descobriu para respeitar e ser respeitado no mundo inteiro.
Meus parabéns e boa sorte ao novo canal de televisão.
