São Paulo-SP, 1º de agosto de 2003
Minha querida companheira e prefeita de São Paulo, Marta Suplicy. Meu caro ministro da Educação, Cristovam Buarque. Meus caros companheiros senadores da República, Aloízio Mercadante e Eduardo Suplicy. Meu companheiro Hélio Bicudo, vice-prefeito de São Paulo. Companheiro José Genoíno. Minha companheira Aparecida Perez, secretária municipal de Educação
Meu caro Celso Frateschi, secretário municipal de Cultura. Minha queria Nádia Campeão, secretária municipal de Esporte e Lazer. Meus companheiros, minhas companheiras professores, pais, alunos, crianças e companheiros e companheiras portadores de deficiência física, que estão aqui sentados na minha frente.
Cristovam, nada neste mundo me impediria de vir à inauguração do primeiro Centro Educacional Unificado. Eu vim aqui porque acho que nós temos que aprender, neste país, a fazer justiça, quando ela precisa ser feita.
Essa mulher que está aqui, quando teve a idéia de construir o CEU, foi duramente atacada. Ela foi duramente incompreendida, por uma parte da elite. Ora criticavam porque ela estava tirando o dinheiro da educação para construir, ora porque estava tirando o dinheiro da educação para poder comprar mochila, calça, camisa e saia para as crianças pobres da periferia de São Paulo.
Uma parte da elite brasileira, Cristovam, não tem noção de que dar um uniforme para uma criança pobre ir à escola, é dar a essa criança o primeiro princípio da cidadania, para que ela possa ir bem vestida à escola. Isso é um princípio elementar da igualdade entre as crianças numa escola. Duro é quando uma criança vai bem vestida à escola, porque o pai e mãe têm um mínimo de condições, e lá encontra um companheirinho que está maltrapilho, mal vestido, às vezes sem sapato. O que a Marta fez foi gastar o dinheiro da educação da forma mais decente possível.
Eu vim aqui, Marta, para fazer um apelo. Não foram poucas as vezes que ouvi críticas a você, pela televisão. Não foram poucas as vezes que eu vi pessoas importantes na televisão, fazendo uma crítica. Eu gostaria, e você sabe de quem estou falando, que você convidasse essas pessoas para visitarem o Centro Educacional Unificado Jambeiro, para que elas percebam que o que você está fazendo é mais do que investir na educação.
O que você está fazendo hoje, Marta, é mudar o padrão de educação deste país. O que você está dizendo hoje é que, se você pode fazer uma escola dessa qualidade, outras cidades podem fazer, os estados podem fazer e nós haveremos de fazer. O que você está fazendo hoje, Marta, é fazer com que essas crianças pobres da periferia de Guaianazes venham para a escola e não tenham vontade de ir embora para casa, de noite. Você está fazendo com que essas crianças, ao deitar na cama, estejam com os olhos vivos, o coração batendo forte, porque querem levantar cedo e vir para a escola, porque essa vai ser uma escola em que as crianças vão se sentir bem, aqui elas vão poder aprender história, matemática, ciências; vão poder aprender física, mas vão poder também aprender a nadar, a fazer artes cênicas, a tocar; na verdade, as crianças pobres de Guaianazes estão tendo uma oportunidade de acesso àquilo que, até então, só os ricos ou a classe média alta brasileira tinha direito.
É isso, Marta, a revolução que você está fazendo. Aliás, para você seria mais fácil fazer uma escola dessas no centro de São Paulo, para atender à classe média, ou na Marginal, para que todo mundo pudesse passar e a escola funcionasse como um cartão postal ou um "outdoor"; não, você veio à periferia de São Paulo, em Guaianazes, onde mora uma parte pobre da população.
Você veio dizer, Marta, que no seu governo, no seu coração e na sua consciência política não existe discriminação. O filho de uma pessoa pobre, o filho de uma faxineira tem que ter o direito a uma escola de qualidade igual ao filho da sua empregadora ou da sua patroa.
É na escola que se estabelece o princípio da igualdade entre os seres humanos, e hoje, no Brasil, nós percebemos que a escola já é um divisor de águas. Quando nasce uma criança pobre, a gente já sabe que ela poderá desistir da escola, antes de terminar o ensino fundamental; quando nasce uma criança rica a gente já sabe que ela pode ir para Paris fazer pós-graduação.
O que você está fazendo é dizer ao povo de Guaianazes, aqui na cidade de São Paulo: os pobres serão tratados com dignidade, com respeito e com decência.
Os atuais jogadores do Botafogo que se preparem, porque vocês estão em cima de dois campos de futebol. Aqui, a molecada vai poder vir brincar, vai poder jogar bola e os atuais jogadores podem se preparar, porque vão perder o lugar para essa meninada, que vai ter muito mais condições de treinar do que vocês tiveram.
Eu vi aquelas menininhas ali fazendo balé, Marta, coisas que até então só eram possíveis para quem podia pagar uma escola. Não estava na cabeça dessas mulheres, mães dessas crianças, que um dia elas pudessem dançar balé, muito menos tocar violino, e você, Marta, está abrindo para essas crianças uma oportunidade. Você está dando a essas crianças a chance delas, amanhã, poderem provar que o que o povo pobre deste país precisa apenas de uma oportunidade na vida, e você está dando essa oportunidade.
Eu quero lhe dizer, minha querida Marta, que você hoje inaugura não só uma escola, você inaugura um padrão de decência, um padrão de respeito, você inaugura, na verdade, um novo jeito de tratar as pessoas neste país.
Seria muito mais fácil gastar esse dinheiro em outro lugar, mas você veio gastar aqui, nesta cidade, onde há mães aflitas, porque não sabem o futuro dos seus filhos, que sabem que seus filhos não têm onde brincar e que, às vezes, vão ter que ficar na rua à mercê do narcotráfico, à mercê da criminalidade. Você está abrindo a porta do seu coração para dizer para essas crianças: no meu governo, pobre será tratado com respeito; no meu governo, pobre tem educação de qualidade.
Muito obrigado, Marta, parabéns, e parabéns ao povo de Guaianazes por esse extraordinário Centro Educacional Unificado.
fonte: www.info.planalto.gov.br
