Palácio da Justiça, Brasília, 03 de julho de 2003
Meu caro André Luiz Faoro e demais membros da família Faoro presentes neste ato. Embaixadores e embaixadoras acreditados junto ao governo brasileiro. Meu companheiro Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça. Companheiros ministros e ministras aqui presentes. Autoridades. Meus senhores e minhas senhoras. Meu caro ministro Sepúlveda Pertence, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, e demais ministros dos Tribunais Superiores.
Antes de ler o meu pronunciamento, quero dizer a vocês que um amigo, muitas vezes, não é aquele que se vê todo dia, mas é aquele que, possivelmente, vendo-o uma única vez, marque a amizade para o resto da vida.
Depois que fui eleito presidente da República, resolvi visitar quatro pessoas no Rio de Janeiro - o meu companheiro de partido, Apolônio de Carvalho, a dona Maria Amélia, mãe de Chico Buarque, o Evandro Lins e Silva e o Raymundo Faoro, que já estava no hospital. Fui visitá-los porque cada um marca uma passagem na minha vida.
E o Raymundo Faoro marca uma passagem dos tempos difíceis, porque eu estava, em 1980, preso, e o Faoro se ofereceu para ser meu advogado. A causa era pequena, não precisava de um advogado da envergadura do Faoro. Os meus advogados, na época, eram o Greenhalgh e o Airton Soares. O Mino Carta, que está aqui presente, tinha levado o Faoro para conversar comigo. E eu disse ao Faoro: "Acho que a causa não é do tamanho do jurista que você representa, portanto, nesta causa, você não precisa entrar."
Depois, em 94, eu tive a ousadia de convidar o Faoro para ir à casa do meu amigo Hélio Bicudo, também um grande jurista, para convidá-lo para ser vice-presidente da República. O Faoro tinha perdido recentemente sua esposa e disse que não tinha disposição para aceitar a incumbência de ser candidato à vice-presidência da República.
Isso mostra que o respeito que eu tinha pelo Faoro era muito maior do que qualquer homenagem que eu pudesse fazer. Faoro era da minha geração, não na idade, mas surgiu como figura política pública no embate ao autoritarismo, enquanto presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, no mesmo tempo em que eu surgia no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. A vida do Faoro foi marcada por gestos políticos. E a nossa homenagem, a homenagem feita pelo nosso ministro da Justiça e, na verdade, qualquer outra homenagem seria pequena diante do que ele representou para o nosso país e, certamente, pelo que ele ainda fará para a nossa juventude, por meio das idéias que deixou para as futuras gerações.
O edifício-sede do Ministério da Justiça passa a denominar-se Palácio da Justiça Raymundo Faoro. O que significa homenagear o grande jurista, intelectual e polemista que foi Raymundo Faoro, no dia em que o Ministério da Justiça comemora 181 anos de história?
Significa, acima de tudo, que vivemos um tempo de mudança. Significa que estamos reafirmando, em alto e bom som: é preciso recuperar o sentido de justiça para todos. É preciso voltar a acreditar que as instituições existem para servir e não para serem subalternas ao gosto daqueles que as comandam.
Estou convencido de que trabalhar para democratizar a Justiça e o conjunto das instituições é a melhor forma de preservar a memória de Faoro e a melhor maneira de manter vivos os ideais que orientaram e continuam orientando a luta de todos nós.
Quando perdemos a democracia, poucos lutaram como ele, com tanta paixão, para reconquistá-la. Mas, justamente porque era um democrata convicto, nunca deixou de apontar suas deficiências, buscando aperfeiçoá-la.
Quando soube de sua morte, no dia 15 de maio, voltei o pensamento para os muitos momentos em que ele pesou decisivamente em nossas vidas. Tive o privilégio de conhecer Raymundo Faoro no final dos anos 70. Eu era presidente do Sindicato e ele - grande jurista e presidente da Ordem dos Advogados do Brasil -, já era uma das principais lideranças da luta pela redemocratização. A profunda identificação que se manifestou naquele momento só fez crescer durante este quarto de século, assumindo a forma de uma amizade respeitosa.
Lembrei-me da primeira visita de Faoro ao ABC para tomar contato com o nosso movimento, como também do último encontro que tivemos, no ano passado, quando fui ao Rio de Janeiro - já como Presidente da República -, para agradecer a alguns intelectuais, aos quais o país muito deve. Faoro, que sempre prezou sua independência intelectual, nunca teve medo de assumir posição. Essa era uma de suas muitas qualidades. Homem de notável elegância moral, muitas vezes desnudava setores da elite brasileira com sua postura irrepreensível em defesa de valores e direitos, quase sempre tratados como ornamento pelos poderosos de plantão.
Esses setores tinham por ele um certo receio, semelhante ao que têm de todas as pessoas que se colocam firmemente ao lado dos mais necessitados.
Para todos nós, que lutamos contra o autoritarismo, pelas liberdades democráticas e justiça social, Faoro era um exemplo de dignidade e de compromisso com os interesses coletivos.
E, aqui, a partir de hoje, na Esplanada dos Ministérios, tem seu nome - e tudo o que ele representa - para sempre gravado, para que nós, brasileiros, nunca esqueçamos qual é o verdadeiro papel do Estado e da Justiça.
Muito obrigado.
fonte: www.info.planalto.gov.br
