Dacar-Senegal, 14 de abril de 2005
Eu queria pedir para vocês se sentarem, se tiver lugar para todos, porque não é que eu vá falar muito, é que ouvir sentado é mais fácil que ouvir em pé.
Vocês precisam apenas ter, da minha parte, a demonstração do orgulho que eu tenho de ver mulheres, homens e crianças do meu país peregrinando por vários países da África onde eu passei, todos prestando um extraordinário e relevante serviço: serviço de integração religiosa, de integração política, de integração comercial, de integração cultural.
Vocês sabem que nós tomamos uma decisão antes de eu ser eleito Presidente da República, de que era preciso resgatar a nossa relação com a África, não só porque somos devedores do que o povo africano fez por nós durante tantos e tantos séculos, mas também porque não era possível continuar admitindo que a África e a América do Sul nasceram para ser pobres, ou seja, eu tenho 59 anos de idade, e desde muito menino eu ouvia as palavras "terceiro mundo, país subdesenvolvido, país em desenvolvimento e país desenvolvido."
E nós resolvemos colocar, primeiro, a integração da América do Sul, que está muito próxima do Brasil. Nós só não fazemos fronteira com o Equador e com o Chile e fazemos com todos os outros. E não era possível continuar de costas para os nossos companheiros irmãos e vizinhos do Brasil. Fizemos uma forte política para a América do Sul, tentando fazer uma integração definitiva com todos os países da América do Sul, tentando convencer os companheiros, dirigentes políticos dos países, de que a possibilidade que nós teríamos de dar um salto de qualidade no crescimento econômico, no desenvolvimento dos nossos países e na melhoria de vida do nosso povo, era se juntar e fazer como faz a gente pobre do mundo inteiro, que repassa aquilo que tem.
Eu me lembro sempre de uma coisa que marcou profundamente a minha vida e eu vejo até hoje isso. É que quando você vai na casa de uma pessoa pobre, por mais pobre que ela seja, se ela tiver uma galinha no quintal, ela mata para oferecer almoço para você. E a minha mãe era muito pobre, a gente vivia num quarto e cozinha com 13 pessoas e ela falava assim: "na casa em que come um, comem dois; na casa que comem dois, comem dez". Ou seja, colocar um pouco mais de água no feijão, aumentar a porção de farinha e estava pronto o almoço de todo mundo. Ninguém estava preocupado com a mistura. Então, a nossa tentativa é fazer essa pregação junto às pessoas.
Em que o Brasil pode ajudar vocês e em que vocês podem ajudar o Brasil? O que a gente pode trocar de experiência, o que o Brasil tem para oferecer no campo científico, no campo tecnológico, no campo da agricultura. O Brasil pode contribuir extremamente é por isso que o Presidente da Embrapa tem andado conosco para todos os lugares. Nós temos tecnologia para ajudar esses países.
Na área da saúde nós podemos ajudar muito, não que a gente tenha dinheiro, a gente tem conhecimento, tem gente disposta a viajar esse mundo para tentar ajudar, para tentar organizar, para ajudar a formar enfermeira, para ajudar a formar técnico. No campo da indústria nós podemos ajudar, os nossos empresários são competitivos, é possível convencer os empresários brasileiros a fazerem parcerias com o empresário africanos e que a gente ajude a dinamizar a economia deste continente, afinal de contas, o continente africano não é pobre porque nasceu para ser pobre.
Nós que somos crentes, acreditamos em Deus e achamos Deus o símbolo da bondade, não podemos entender que Deus fez a África para sofrer, não podemos entender. E nós descobrimos o quê? Nós descobrimos que uma das razões da pobreza da África é que, durante três séculos e meio, se tirou daqui as pessoas que tinham mais saúde, as pessoas mais fortes, as pessoas no auge da sua juventude. Meninas, rapazes, homens, mulheres e crianças foram tirados para trabalhar como escravos no Brasil, para trabalhar como escravos nos Estados Unidos, em Cuba, no Haiti e em tantos outros lugares do mundo. Trezentos anos tirando gente com saúde e na flor da idade, obviamente que você está contribuindo, de forma definitiva, para que este continente leve mais tantos anos para poder se reencontrar.
Uma coisa que eu acho marcante é que também aqui na África, que está passando por um processo de reestruturação política e consolidação do processo democrático, as pessoas estão percebendo que apenas o exercício da democracia e a paz é que podem garantir a construção do passo seguinte porque se permanecer em guerra o tempo inteiro, com guerra interna, vão gastar todas as energias (inaudível) e assim passam décadas, passam séculos, e não se resolve o problema.
A nossa pregação é no sentido de fazer com que as pessoas compreendam que só tem um caminho para nós, que é construir uma convivência harmônica entre a sociedade. Mesmo que a gente tenha divergência é possível conviver democraticamente na diversidade, é preciso que a gente tenha muita tolerância com aqueles que não concordam conosco, muita tolerância, muita generosidade e, ao mesmo tempo, temos que nos juntar, porque, na África, tem 54 países, na América Latina tem outros tantos, vocês imaginem se esse monte de países pobres se juntam, a gente passa a ter uma influência nos organismos multilaterais na Organização Mundial do Comércio, na ONU; a gente começa a ter força, afinal de contas, nós aprendemos o quê? Um gravetinho só, a gente pode quebrar com facilidade (inaudível...). Então, é um pouco isso que nós estamos tentando fazer, resgatar nossa história, tentar ver o seguinte: o que a gente pode usufruir do ponto de vista da relação de troca com os países africanos e o que a gente pode oferecer.
No caso do Brasil, além da dívida histórica que nós temos, o Brasil é um país economicamente mais forte, o Brasil tem uma boa base intelectual, universitária, o Brasil tem uma boa base industrial. O Brasil é um país pobre, mas tem uma parte do Brasil que é rica. Portanto, o Brasil tem que estar despojado, o Brasil tem que estar generoso. Não que vá abdicar de fazer as suas relações com o mundo rico, porque nós também precisamos deles. Mas não é (inaudível) mais próximos à espera de que a gente estenda a mão, que a gente faça um gesto para eles. É por isso que nesses 2 anos e 3 meses de governo, eu já visitei mais a África do que todos os presidentes da história do país juntos. Historicamente, a gente esqueceu a África durante muito tempo e nós queremos resgatar do ponto de vista político, cultural, econômico, comercial, para que a gente possa construir a possibilidade de transformar o século XXI num século de prosperidade para os países pobres.
O século XIX foi o século da Europa, o século XX foi o século dos Estados Unidos, o século XXI está sendo um pouco da China, mas tem que ser nosso também. Nós estamos fazendo as coisas que são possíveis fazer, no Brasil, com o pouco tempo que temos no governo. Nós estamos priorizando a parte pobre do Nordeste. Este ano começamos a fazer a transposição das águas do rio São Francisco para levar para a parte mais pobre do Brasil, que D. Pedro já queria fazer em 1846 e não lhe permitiram fazer. Nós estamos construindo algumas estradas importantes para o Nordeste.
Nós, agora, estamos fazendo um projeto de biodiesel, que é produzir óleo diesel da mamona para substituir o diesel do petróleo, porque é menos poluente e gera muito mais empregos, sobretudo para a parte mais pobre do Nordeste. Esse projeto de biodiesel pode ser uma coisa muito importante para o Senegal, para Guiné-Bissau e para todos os países da África que têm, na agricultura, a base da sua economia.
É por isso que nós estamos fazendo essa viagem. Estou de retorno agora ao Brasil. Nós fomos à Nigéria, a Guiné-Bissau, Camarões e fomos a Gana. Já tínhamos visitado Namíbia, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, África do Sul. Visitamos também alguns países árabes africanos, em dezembro de 2003. E vamos continuar. No ano que vem vai ter mais viagens para a África, porque eu acho que esse é o mínimo que a gente pode fazer. E por que visitar? Por uma razão simples: a relação humana é feita de contatos, é feita de aperto de mãos, é feita de olhar no olho, é feita das pessoas se compreenderem entre si. Não dizem que quando dois seres humanos se encontram ou eles se gostam ou eles se odeiam? Eu, uma vez conheci a Marisa, pintou uma química, estamos casados há 31 anos.
Então, o que eu quero, na verdade, é que essas pessoas que governam os países africanos, o povo da África, percebam que nós somos um país de irmãos, que nós somos um país de companheiros, que nós somos um país que quer uma integração efetiva. Nós não queremos explorá-los, nós não queremos fazer escravos, nós não queremos tirar coisas deles, como no passado. Nós queremos repartir o pouco que nós temos com eles para eles repartirem um pouco do que têm conosco, numa política de fazer com que cresça o Brasil, cresça a América Latina e cresça o continente africano. Quando isso acontecer, todos nós talvez vejamos, os nossos netos verão, nossos filhos verão. Nós não fazemos as coisas para nós mesmos. Quando o pioneiro planta uma coisa, às vezes não é para ele, às vezes é para o que vem depois dele. E eu espero que os nossos filhos, os nossos netos e bisnetos consigam ver o Brasil e a África infinitamente melhores, com mais progresso, com mais qualidade de vida, com mais educação, com mais saúde e com mais fé em Deus do que nós, porque o homem sem esperança e sem fé não vai a lugar nenhum, ele não consegue dar os passos que a vida exige que ele dê.
Por isso, queria dizer para vocês da emoção, do carinho de poder, em cada país que eu visitei, encontrar pessoas com a cara tão boa como vocês. Com a cara de pessoas que, embora não estejam financeiramente ricas, são, na verdade, espiritualmente realizadas, porque estão fazendo exatamente o que gostam de fazer. Por isso eu acho que feliz o Brasil, não apenas por causa das nossas coisas lá dentro, feliz o país que tem Deus como Senhor, mas feliz o Brasil que tem vocês como brasileiros e brasileiras.
Muito obrigado.
fonte: www.info.planalto.gov.br
