Caracas-Venezuela, 14 de fevereiro de 2005
Meu caro companheiro Hugo Chávez, presidente da República Bolivariana da Venezuela. Meus amigos e amigas ministros e ministras do governo venezuelano. Meus companheiros e companheiras, ministros do meu governo e demais companheiros que integram a nossa comitiva. Meu caro Embaixador da Venezuela no Brasil
Meu caro Embaixador do Brasil na Venezuela. Meus amigos empresários brasileiros. Empresários da Venezuela. Dirigentes de entidades empresariais dos dois países. Meus amigos ministro Celso Amorim, ministro Alí Rodríguez
É com grande satisfação que retorno à Venezuela, onde sempre sou recebido com carinho pelo povo e por suas autoridades. Hoje é um dia histórico nas relações entre Brasil e Venezuela. Nossos países nunca estiveram tão próximos e irmanados. Nossos mais ambiciosos projetos de integração começam a materializar-se.
O comunicado conjunto que assinamos hoje estabelece uma ampla aliança estratégica entre Venezuela e Brasil.
Essa associação pode e deve servir como modelo de integração que desejamos levar adiante com os demais parceiros da região. Ela está baseada em uma decisão política de nossos governos, em seu mais alto nível, e no engajamento de nossos setores empresariais. Traduz-se em um programa de trabalho concreto e realista, cuja execução vamos monitorar cotidianamente.
É sintomático, meu caro presidente Chávez e amigos da Venezuela, que para preparar esta aliança estratégica tenhamos restabelecido os trabalhos da Comissão Binacional de Alto Nível, a Coban, que não se reunia desde fevereiro do ano 2000. A partir de agora, a agenda da cooperação entre os nossos dois países retoma todo o seu vigor.
Nossa aliança estratégica está solidamente apoiada em três pilares: diálogo político, ampliação do comércio de bens e serviços e integração da infra-estrutura. Acabamos de definir objetivos ambiciosos em todos esses campos.
Quero ressaltar a enorme importância da nossa associação no setor energético. O que a Petrobras e a PDVSA podem fazer juntas no Brasil, na Venezuela e em terceiros países, é de um potencial inestimável. Estamos estabelecendo parceria nas áreas de exploração, refino, transporte e comercialização. Vamos trabalhar conjuntamente para produzir combustíveis renováveis, como o biodiesel e o etanol. Vamos também explorar a fundo a complementaridade dos nossos sistemas de geração de energia hidrelétrica. O Norte do Brasil já recebe, hoje, serviços de excelente qualidade fornecidos pela Edelca. O estabelecimento de uma comissão mista em matéria de energia assegurará um acompanhamento contínuo desses projetos.
Com a participação decidida do nosso setor privado, vamos também avançar na mineração do carvão e valorizar a complementaridade de nossas economias no setor siderúrgico.
O Brasil tem abundância de minério, e a Venezuela abundância da energia necessária para o processamento desse minério. Juntos, vamos agregar valor e escala aos nossos processos produtivos.
Outro vetor que merece destaque na aliança que estamos estabelecendo é da infra-estrutura. Vamos seguir promovendo a ativa participação de empresas brasileiras na realização de grandes obras de transportes na Venezuela. E vamos seguir implementando mecanismos inovadores de financiamentos desses empreendimentos. É preciso avançar nesse sentido em âmbito sul-americano.
Temos também planos significativos para o setor aeronáutico e uma plataforma de cooperação na área militar. Trataremos de cooperar não apenas na vigilância e defesa da Amazônia e de seus recursos, mas também no desenvolvimento conjunto em ciência e tecnologia. São prova disso os entendimentos alcançados para o reaparelhamento da Força Aérea Venezuelana pela Embraer e a exploração de possibilidades de exercícios conjuntos na Amazônia por nossas forças militares.
Vamos seguir colaborando no combate ao narcotráfico, ao crime organizado, ao terrorismo, e na proteção de nossa extensa fronteira comum.
É também por essa razão que decidimos cooperar, de maneira mais estreita, em matéria de políticas sociais, com ênfase na saúde e na educação.
Meu querido companheiro Chávez
Nossas economias têm demonstrado claros sinais de recuperação. A Venezuela e o Brasil aumentaram significativamente suas trocas comerciais.
Esperamos superar, já neste ano de 2005, a cifra de 3 bilhões de dólares. O meu número, aqui, era 2 bilhões de dólares, mas como os empresários foram mais otimistas e falaram em 3 bilhões de dólares, e eu estou numa fase de muito otimismo, eu prefiro os 3 bilhões de dólares. Desde que, nós, brasileiros, aprendamos que relação comercial é uma via de duas mãos: a gente vende, mas a gente compra, para que haja um equilíbrio nas balanças comerciais dos dois países, porque senão esse desequilíbrio pode prejudicar a saudável relação que queremos ter com a Venezuela. Desejamos dar maior equilíbrio ao intercâmbio comercial.
Estamos também facilitando os investimentos nos dois sentidos, com a assinatura de acordo para evitar a bitributação.
No plano regional, compartilhamos o desejo de fortalecer a unidade dos países sul-americanos.
Estamos afirmando a auto-confiança do Continente na superação dos nossos grandes desafios econômicos e sociais.
A construção e o fortalecimento da Comunidade Sul-Americana de Nações e da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica são instrumentos fundamentais para a promoção e a defesa dos interesses da nossa região no cenário internacional.
Estamos contribuindo, assim, para mudar a correlação de forças internacionais para conformar uma nova geografia econômica e comercial mundial, tendo como cenário um mundo de paz, politicamente mais democrático.
E, aqui, eu quero aproveitar para agradecer ao presidente Hugo Chávez o apoio de primeira hora que ele deu, tanto para o Conselho de Segurança da ONU quanto para a disputa na Diretoria Geral da OMC.
Meu querido Hugo Chávez
Quero, por seu intermédio, felicitar mais uma vez o povo venezuelano pelo seu firme compromisso com a democracia. A sociedade venezuelana soube superar, de forma serena e soberana, momentos muito difíceis. O Brasil acompanhou de perto e com grande atenção esses momentos. Nunca faltamos com nossa solidariedade
Quero também congratular-me com o governo e o povo venezuelanos pela superação das dificuldades recentes nas relações entre a Venezuela e a Colômbia. Os dois países e toda a América do Sul demonstraram, uma vez mais, a sua maturidade política. Reafirmamos, dessa forma, nossa capacidade de resolver as divergências por meios próprios e pela via pacífica do diálogo.
Meus amigos
Minhas amigas
Saúdo o empenho e a visão do nosso setor empresarial. Sua participação foi e continuará sendo fundamental nos projetos de parceria que assumimos.
O trabalho de todos, governo e sociedade, tornou possível esta imensa plataforma de cooperação que hoje lançamos.
Tenho consciência de que ainda teremos de superar muitos desafios na construção da aliança estratégica entre a Venezuela e Brasil.
Estou seguro de que o caminho que estamos trilhando nos levará à construção de um espaço sul-americano mais solidário, comprometido com a eliminação da fome, da pobreza e das grandes disparidades sociais que persistem em nosso Continente.
A democracia é um processo de construção permanente. Para acelerá-lo, necessitamos desencadear um ciclo de prosperidade com altas taxas de crescimento, sólidas políticas de emprego e de distribuição de renda e iniciativas que garantam efetiva inclusão social. Esses são os passos decisivos para garantir a soberania e a auto-determinação.
Meu caro presidente Chávez
Forjamos nos últimos anos uma forte amizade. Nossa solidariedade mútua ganha, hoje, outra qualidade com o estabelecimento de nossa aliança estratégica.
Sem me alongar muito tempo, eu queria, meus caros ministros brasileiros e venezuelanos, empresários brasileiros e da Venezuela, meu querido presidente Chávez e amigos da imprensa, dizer mais uma palavra.
Faz muito tempo, eu era candidato à Presidência da República do Brasil e fui a um grande instituto de pesquisa fazer um debate com alguns grandes técnicos brasileiros. E lá, pela primeira vez, eu tive contato com uma realidade que, até então, eu pouco conhecia: o mapa do Brasil me mostrava que durante 500 anos de história nós tivemos toda a nossa relação comercial, política e de desenvolvimento voltada para a Europa. E mais, no século XX, para os Estados Unidos. E o mapa do Brasil mostra isso claramente. Somente a partir de 1956 é que o presidente Juscelino resolveu levar o Brasil para o Centro-Oeste brasileiro. Até então, o nosso desenvolvimento se dava na orla marítima, fazendo o mesmo trajeto que os nossos colonizadores fizeram, 500 anos atrás.
E foi dessa reunião, presidente Chávez, que me surgiu quase uma obsessão da necessidade de o Brasil se voltar para a América do Sul. Não era compreensível que o Brasil continuasse a olhar o mundo desenvolvido sem olhar os seus irmãos que têm, praticamente, 15 mil quilômetros de fronteira seca com o Brasil.
Essa visão de olhar para o mundo rico e esquecer os pobres era um pensamento de uma elite política, no Brasil. Eles eram capazes de olhar para a Europa sem ver o continente africano. Eram capazes de olhar para os Estados Unidos sem ver a Venezuela, sem ver o Suriname, sem ver a Guiana.
Não era possível continuar acreditando nessa visão de mundo.
Quando assumimos o governo tomamos uma decisão: nós seremos muito mais fortes, teremos muito mais influência política se conseguirmos unificar os iguais, os pobres, os em desenvolvimento, aqueles que não faziam parte do chamado "mundo rico" do nosso Planeta.
E você sabe da nossa dedicação com a América do Sul, para chegarmos ao dia de hoje. É por isso que, para mim, essa reunião de hoje não pode ser vista como mais uma reunião e, muito menos, como uma coisa eminentemente comercial, é mais do que isso.
O dia em que a América do Sul tiver as estradas que precisa ter, interligando os países; o dia em que a América do Sul tiver as hidrovias que precisa interligando os países; o dia em que a América tiver os sistemas de telecomunicações interligando os países; e o dia em que a América do Sul tiver um conjunto de governantes e uma grande parte do povo acreditando na América do Sul, nós teremos concretizado o sonho de muitos que antes de nós acreditaram nisso, lutaram e morreram sem ver o seu sonho ser concretizado.
Possivelmente, Chávez, nem você nem eu venhamos a ver a plenitude do projeto. Nem sempre o pioneiro consegue desfrutar da primeira produção da terra descoberta. O que é importante é que ele faça as coisas bem feitas, para que os que vierem depois dêem continuidade e façam melhor do que nós estamos fazendo.
Eu não tenho dúvidas, Chávez, que ainda exista no nosso meio, no Brasil e na Venezuela, gente que ache que o que estamos fazendo não tem futuro, que nós precisamos aprofundar a nossa relação apenas com os países ricos, vamos ser criticados. E eu estou feliz por isso, feliz porque estou fazendo uma coisa em que acredito; estou fazendo junto com empresários que acreditam; estou mantendo relações com governantes que acreditam. E, mais ainda, nós estamos descobrindo um mundo novo. Aqueles que diziam que nós não devíamos fazer relações com os países em vias de desenvolvimento, é só pegarem o número das exportações brasileiras, e vão perceber o quanto cresceu o nosso comércio com a América do Sul, o quanto cresceu com a África, o quanto cresceu com a Índia, o quanto cresceu com o mundo árabe, o quanto cresceu com a China e o quanto pode crescer, não agindo enquanto Brasil, mas enquanto Comunidade Sul-Americana de Nações. É o sonho maior que eu carrego, de poder negociar conjuntamente, não enquanto país, mas enquanto conjunto de países, para que a gente consiga que o nosso povo possa ter, neste século, a oportunidade de conquistar a cidadania plena. E não é muito, Chávez: é morar, trabalhar, comer, estudar, ter acesso à cultura e ao lazer, ou seja, é tão pouco, que todo mundo poderia ter.
Eu acho que o gesto que estamos fazendo aqui, hoje, com a participação de empresários tão importantes dos dois países, não pode terminar aqui, Chávez. O próximo passo nosso é, como fizemos hoje com os empresários, fazermos na área social, fazer um encontro dos nossos ministros da área social, dos nossos representantes dos movimentos sociais, para que a gente possa, com a mesma seriedade com que tratamos este encontro, com o mesmo respeito que recebemos dos empresários, e que demos a eles, a gente possa fazê-lo com o movimento social, porque a integração é mais do que isso. A integração passa pelo transitar livre dos nossos povos, passa pela repartição das riquezas que produzimos e passa, sobretudo, pelo fato de sabermos utilizar corretamente as experiências bem-sucedidas em cada país.
Eu vou repetir uma coisa aqui, Chávez. Você, que tem no Bolívar a sua grande bússola de vida, vai perceber que se nós fizermos as coisas como estamos fazendo, com a ousadia que estamos fazendo mas, também, com a tranqüilidade que estamos fazendo, pode ter certeza que Simon Bolívar estará dizendo: "Valeu a pena morrer acreditando na integração da América do Sul".
Muito obrigado.
