Discurso do presidente Lula na reativação da linha do Correio Aéreo Nacional - CAN

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Manuel Urbano-AC, 06 de abril de 2004

Meu caro companheiro Jorge Viana, governador do estado do Acre,

Meu caro embaixador José Viegas Filho, ministro da Defesa,

Meu caro companheiro e amigo Alfredo do Nascimento, ministro dos Transportes - para quem não sabe, o Alfredo também conhece muito a região, porque foi prefeito de Manaus até o mês passado, quando assumiu o Ministério,

Meu querido companheiro Humberto Costa, ministro da Saúde,

Meu querido companheiro Miguel Rossetto, ministro do Desenvolvimento Agrário,

Minha querida companheira Marisa,

Meu caro comandante da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos da Silva Bueno,

Meu caro almirante-de-esquadra Roberto Magalhães Carvalho, comandante da Marinha,

Meu querido companheiro senador Sibá Machado,

Nosso querido companheiro Tião Viana, que está aqui presente, neste ato,

Meu caro senador Augusto Botelho,

Meu querido deputado Henrique Afonso,

Deputado João Tota,

Deputado Júnior Betão,

Deputado Nilson Mourão,

Deputada Perpétua Almeida,

Deputado Zico Bronzeado,

Meus queridos companheiros e companheiras secretários estaduais aqui, do Acre,

Senhor Cláudio Langone, secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente,

Senhor Rolf Hackbart, presidente do Incra - Rolf muda esse nome, coloca um "da silva" nesse nome,

Senhor Mâncio Cordeiro, presidente do Banco da Amazônia,

Meu querido Jorge Almeida, prefeito de Manuel Urbano,

Nossos queridos companheiros, deputados estaduais,

Senhora Toinha Vieira, prefeita de Sena Madureira,

Companheiros vereadores e vereadoras,

Companheiros da Aeronáutica,

Companheiras e companheiros médicos que vieram para essa empreitada extraordinária,

Nossos queridos companheiros das Forças Armadas brasileiras, representados, aqui, pela Aeronáutica,

Meus queridos companheiros representantes das nações indígenas no Brasil e no estado do Acre,

Meus companheiros e minhas companheiras,

Eu penso que vocês nunca acreditaram que pudesse vir aqui um Presidente da República. Mas, certamente, muitos de vocês pensaram, a vida inteira, que dificilmente um metalúrgico pudesse chegar à Presidência da República do Brasil. E as duas coisas aconteceram.

Em 1990, eu prometi que voltava aqui e voltei, em 2004, como Presidente da República do Brasil, para fazer coisas que muita gente não gosta e não tem o hábito de fazer. Normalmente, o Brasil é pensado a partir das grandes cidades, das grandes metrópoles, onde se concentram os grandes eleitorados brasileiros.

E eu estou aqui para dizer para vocês - fiz questão de trazer a minha mulher junto comigo - de que não há distinção entre crianças, mulheres e homens do nosso Brasil, estejam eles trabalhando no meu gabinete, na Presidência da República, ou estejam eles morando na beira do Rio Purus, em Manuel Urbano. Todos são brasileiros e, portanto, todos merecem o mais dignificante respeito de todos nós.

Eu confesso a vocês que fiquei emocionado na hora em que esse avião pousou aqui. Se alguém for contar isso para um cientista político ou para um militante político da capital, de Brasília, da capital do Rio ou da capital de São Paulo, possivelmente eles não entendam o que estamos fazendo aqui. Possivelmente, eles diriam: "Mas o que vai fazer um presidente da República com um monte de ministros - estão aqui os ministros dos Transportes, da Saúde, da Reforma Agrária, da Defesa; vários senadores, inclusive a nossa companheira de Rondônia, Fátima Cleide, que eu esqueci de citar o nome, porque não estava na nominata; Fátima, é imperdoável, depois, vou conversar com o cerimonial sobre a Fátima Cleide - nesta terra tão distante, numa cidade pequena, na beira do rio Purus, na divisa com o estado do Amazonas, onde os eleitores são poucos? As pessoas não têm noção; possivelmente, quem está habituado a andar perto do aeroporto de Brasília, Santos Dummont; de São Paulo, Congonhas; ou seja, quem vê avião a toda hora não tem a menor noção do que significa um avião da Força Aérea Brasileira passar, uma vez por mês, aqui, nesta cidade, e deixar médico, dentista, quem sabe, deixar outro tipo de atendimento que vocês tanto precisam. E mais: o avião vai passar por nove ou dez cidades, aqui no estado do Acre e, se for preciso, vai levar pessoas daqui para outras cidades, vai levar pessoas para Rio Branco. Muita gente do Brasil não tem a menor dimensão da importância disso.

Muita gente não tem a menor noção porque, muitas vezes, na chamada "grande política", passa-se o dia inteiro discutindo futricas e mais futricas de grandes cidadãs e cidadãos brasileiros contra outros, ao invés de todos nós estarmos dedicados a saber onde o povo brasileiro mais precisa de nós e onde poderemos estar para atender a essa gente.

Então, eu fiquei emocionado. Vou ler, aqui, um pronunciamento, para não extrapolar no tempo; a dona Marisa funciona como um relógio, controlando o meu tempo, porque ainda temos duas atividades: vamos visitar um hospital de hansenianos em Cruzeiro do Sul. E depois vamos inaugurar um porto, também em Cruzeiro do Sul e ainda temos que voltar para São Paulo, porque a vida é dura - voltar para Brasília, me desculpem - e temos muita coisa para fazer amanhã.

Mas eu quero dizer para vocês da alegria, do prazer de estar na beira do aeroporto, vendo esse avião pousar aí e saber que, a partir de agora, vocês conquistaram um pouquinho mais de cidadania. E estou feliz também porque agora foi anunciada, pelo nosso companheiro presidente do Incra, a desapropriação de, praticamente, 70 mil hectares, para que façamos um processo de reforma agrária civilizado, respeitando a natureza e fazendo a combinação perfeita entre o desenvolvimento, a produção e o meio ambiente.

As populações de Manuel Urbano, de Cruzeiro do Sul, de Feijó, Tarauacá, Marechal Taumaturgo, Santa Rosa, Jordão, Porto Walter e tantos outros municípios e povoados distantes do Acre - especialmente seus moradores mais antigos - sabem o significado valioso dessas três letras que, juntas, formam a sigla histórica do CAN - o Correio Aéreo Nacional, cuja operação está sendo reativada hoje.

Em vários lugares do país, alguns pensam que se trata apenas de um serviço postal. Mas em quase toda a Amazônia, assim como no Brasil Central e em partes do Nordeste, essas três letras representam bem mais que isso.

Durante décadas, e para milhões de brasileiros, a integração e a solidariedade nacionais viajaram nas asas da Força Aérea Brasileira.

Desde a sua criação, em 1931, até o seu batismo, dez anos depois, o Correio Aéreo Nacional sempre funcionou como um elo fundamental de ligação do nosso país, a unir distancias, culturas e destinos num mesmo sonho de Nação e de cidadania para todos. Este sonho ainda não se completou.

Exatamente por isso o CAN está de volta. Para milhares de pessoas, filhos e netos dos valorosos Soldados da Borracha que povoaram este recanto do Brasil, o Correio Aéreo ainda representa um elo imprescindível entre extremos de um país desigual.

A retomada dos vôos semanais da FAB vai recuperar os padrões originais do Correio Aéreo. As aeronaves levarão equipes de médicos, dentistas e farmacêuticos para prestar atendimento regular a mais de 100 mil brasileiros dessas linhas.

Além disso, vai assegurar o deslocamento de enfermos a centros especializados. E providenciar o abastecimento e o transporte regular no período crítico das chuvas, de outubro em diante.

Essa é uma obrigação do Estado brasileiro que nunca deveria ter sido abandonada. Nos anos 90, dirigentes que pensavam e agiam como estrangeiros em sua própria terra, decidiram, infelizmente, acabar com o CAN.

Por isso, a volta do Correio Aéreo Nacional é também um símbolo de outro projeto de desenvolvimento nacional, aquele em que o Estado assume a responsabilidade de tornar o progresso um bem comum, e não um privilégio de poucos.

Foi para realizá-lo que tivemos de fazer ajustes e sacrifícios, devolvendo a credibilidade e o fôlego do crescimento ao país. Hoje, o Brasil recuperou espaço para executar um projeto de desenvolvimento nacional que busque a regeneração dos laços sociais, a solidariedade e o equilíbrio entre as regiões.

O Correio Aéreo Nacional é um símbolo dessa agenda. Seus pilotos heróicos muitas vezes arriscam a própria vida para integrar extremos do nosso território à cidadania nacional.

Mas nós viemos aqui também para lançar um novo modelo de reforma agrária, um programa de assentamento florestal que valoriza as potencialidades regionais e cria as bases de um futuro sustentável para o Acre e para toda a Amazônia.

Vamos começar com 300 famílias, em 66 mil hectares, divididos entre dois núcleos: de Sena Madureira e Rodrigues Alves. Cada família terá a concessão de 200 hectares de florestas, divididos em vinte talhões, para explorar a madeira em sistema de rodízio, permitindo assim a regeneração da mata.

Os assentamentos contarão também com lavouras de subsistência e centros comunitários para facilitar a educação, o atendimento à saúde e o convívio social de seus moradores.

É assim que o Brasil fará uma reforma agrária, e reforma agrária para valer. Não aquela dos anos 70, que jogava pobres no mato para disputar espaço com onça e malária. Tampouco o modelo dos anos 90, cheio de números gordos e resultados muito magros.

Vamos assentar 115 mil famílias no Brasil este ano. E estamos fazendo as coisas com muito cuidado e direito: com crédito, infra-estrutura, respeito e dignidade. Este Governo tem a missão de moralizar o processo da reforma agrária no nosso querido Brasil. Num país pobre e sofrido como o nosso, a reforma agrária não pode ser outra coisa senão sinônimo de paz, produção e equilíbrio social.

É por isso que vamos levar também luz elétrica aos assentamentos. O programa Luz Para Todos está chegando aqui. O Governo já autorizou a Eletronorte a implantar 384 quilômetros de linhas de transmissão que vão beneficiar Sena Madureira, Capixaba, Xapuri, Epitaciolândia e Brasiléia, entre outros municípios.

Nossa meta é levar energia a 12 milhões de brasileiros até 2008; 10 milhões deles na área rural. A região Norte é uma prioridade porque nela vive o maior contingente de brasileiros na escuridão. São 2 milhões e 500 mil pessoas, sendo 62% na área rural. Quarenta e cinco por cento das terras da Amazônia pertencem à União. O problema da reforma agrária, portanto, não é terra, mas sim infra-estrutura e adequação às vocações regionais para permitir que o assentado produza de forma eficiente e sustentável.

O Acre é um estado de enorme importância para o Brasil, com seus 15 milhões de hectares e quase 90% da mata ainda em pé. Esse patrimônio distingue o Acre no mundo e dá aos seus 600 mil habitantes o privilégio de liderar um novo e promissor mercado: o da produção florestal sustentável.

O fator ecológico aqui não é um discurso, mas um elemento estrutural no processo de desenvolvimento.

E Chico Mendes anteviu esse futuro que agora é o nosso presente. Ele não era contra o progresso, nem contra as estradas. Chico era contra a irracionalidade; era contra a ganância; contra a cobiça; contra a ignorância que destrói a natureza e empobrece homens e mulheres no nosso país. Por isso ele foi assassinado em Xapuri, em 1988.

Por isso também mataram Wilson Pinheiro, em 1980, em Basiléia. Mas nós estamos aqui para dizer que eles tinham razão e para transformar essa razão num projeto de desenvolvimento para a Amazônia e para o Brasil.

A floresta em pé, bem manejada, com certificação de madeira e produção diversificada, vale muito mais que os 630 mil km2 de desertos que o lucro cego produziu na Amazônia. Por isso, ela será a base da reforma agrária na Amazônia.

Estamos ampliando o manejo florestal sustentável em mais 11 milhões de hectares até 2007. E pelo menos um terço dessa expansão será feita através de projetos comunitários de base familiar.

A economia é uma ferramenta muito importante na mão do ser humano. Ela pode destruir ou preservar, pode gerar desenvolvimento ou não. Quem tem que escolher o país que queremos e o mundo que desejamos deixar para os nossos filhos somos nós mesmos.

Essa é uma prerrogativa da cidadania: fazer do desenvolvimento uma ponte solidária, que todos possam atravessar em busca de um futuro melhor. É essa ponte que nós viemos fortalecer aqui, hoje. A mesma ponte que o Correio Aéreo Nacional começou a construir nos céus do Brasil em 1941.

Eu quero, antes de terminar, dizer ao companheiro Jorge Viana que só visitei 12 municípios com ele porque, naquele tempo, o estado do Acre só tinha 12 municípios. Se tivesse mais, eu teria visitado, certamente, muito mais municípios.

E quero dizer a vocês, moradores de Manuel Urbano, que feliz o estado que tem os companheiros governantes e representantes no Legislativo, como vocês têm no estado do Acre. Eu acho que poucos estados no Brasil, poucos, sem nenhum menosprezo aos demais estados, podem ter orgulho do governo do Estado como vocês têm que ter do companheiro Jorge Viana.

Eu conheço os três senadores de vocês. E poderia, aqui, pegar o mais antigo deles - embora seja muito jovem - o nosso companheiro Tião Viana, para falar em nome dos outros dois senadores.

Eu penso que poucas vezes - sem nenhum desrespeito a quem já foi senador pelo estado do Acre - na História um estado houve três senadores tão comprometidos com a sua raiz e a sua origem como esses três senadores que vocês elegeram nos últimos anos. Representado por esse companheiro, que foi líder do PT, foi líder do Governo, um companheiro que tem um trabalho que, eu diria, chega quase a ser fanático, em defesa do estado do Acre, sobretudo, para trazer para cá a saúde para o seu povo.

Esse companheiro é Tião Viana. E eu tenho certeza de que os outros senadores não ficarão nem um pouco chateados por eu ter citado apenas o nome do Tião Viana. É porque ele é o mais velho no Senado, já está lá há quase seis anos e se dedicou como jamais alguém se dedicou, na história política do estado do Acre.

E quero terminar dizendo a vocês que outras coisas virão. Estamos aqui, hoje, inaugurando o Correio Aéreo Nacional e, se Deus quiser, se tudo correr como nós imaginamos que vai correr, acho que, antes de terminar o nosso mandato, vamos inaugurar a estrada que liga Manuel Urbano a Rio Branco.

Muitas vezes, até por necessidade, a gente gasta muito dinheiro em outras coisas e esta parte mais distante vai ficando cada vez mais esquecida. Mas nós temos uma obrigação, pelas nossas ligações históricas, porque não estamos vindo aqui como Presidente ou, tampouco, viemos aqui como candidato. É importante lembrar que, quando vim aqui, eu tinha perdido as eleições de 1989. Portanto, eu deveria ter ficado no meu cantinho, lá em São Paulo, e não ter vindo aqui. Eu vim porque, independentemente de eleição, independentemente de ser Presidente do Brasil ou, independentemente do que aconteça no futuro, todos nós, brasileiros, civis ou militares, temos que ter o mínimo de compromisso para garantir que todos os brasileiros e todas as brasileiras - homens, mulheres e crianças - possam receber aquilo que lhes é de direito pela própria Constituição: saúde, educação, reforma agrária. O direito de ir e vir das pessoas é uma coisa que nós temos que garantir a vocês.

Estamos começando agora e muito mais irá acontecer neste país. Podem ficar certos de que nós não viemos governar o Brasil apenas para esperar os quatro anos passarem. Nós viemos governar o Brasil para mostrar que é possível fazer, em quatro anos, o que muita gente não fez em 40.

Muito obrigado e parabéns a todos vocês de Manuel Urbano. Parabéns ao governador Jorge Viana. E, sobretudo, parabéns aos nossos companheiros da FAB, por esta empreitada corajosa e que, sem dúvida nenhuma, servirá de orgulho para todos nós, brasileiros.

Até outro dia, se Deus quiser.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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