Discurso do Presidente Lula: posse da nova Diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

 

São Bernardo do Campo-SP, 23 de julho de 2005

Eu não vou fazer nada que tome o tempo de vocês mais do que o necessário.

Eu queria apenas dizer ao meu querido companheiro Marinho, ministro do Trabalho; ao companheiro Jaques Wagner, ministro-chefe da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais da Presidência da República; dizer ao companheiro Feijóo, presidente reeleito do Sindicato; e ao companheiro Rafael Marques, secretário-geral eleito do Sindicato dos Metalúrgicos, dizer aos nossos queridos prefeitos Filippi e o companheiro João Avamileno. Dizer aos nossos queridos deputados Vicentinho, Donisete e outros que estão por aqui e eu não vi

Cumprimentar o Laerte, que é o dono deste restaurante. E para quem não sabe, foi aqui neste restaurante que nós fizemos o primeiro documento do PT, em 1979. Cumprimentar os companheiros metalúrgicos, suas esposas, as companheiras metalúrgicas e seus esposos e namorados, as crianças que estão aqui. Cumprimentar a minha querida Marisa que está lá numa mesa sentada, e eu pedi para ela não passar aí para não ficar muito metalúrgico metido à besta querendo (inaudível). Meus queridos companheiros e minhas queridas companheiras. Meus companheiros da imprensa.

No dia 24 de abril de 1979, portanto há 36 anos atrás, eu tomava posse como delegado de base, empregado da Vilares, no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Eu não conhecia nenhum de vocês, não conhecia sequer a minha esposa Marisa, não era nem casado ainda, tinha apenas 24 anos de idade. Hoje eu já tenho 59, portanto, já faz muito tempo. E de lá para cá nós acompanhamos a trajetória da categoria metalúrgica, acompanhamos a trajetória do movimento sindical brasileiro e percebemos nitidamente o avanço e as conquistas que os trabalhadores brasileiros conseguiram ter nesses 30 e poucos anos em que eu, pelo menos, estou vivenciando a vida sindical brasileira.

Em 1975 assumi a presidência desse Sindicato, possivelmente com a mesma emoção que todos os companheiros que tomaram posse hoje estão sentindo. Depois de mim veio o companheiro Meneguelli, depois do companheiro Meneguelli veio o companheiro Vicentinho. Depois do Vicentinho veio o companheiro Guiba. Depois do companheiro Guiba, veio o companheiro Marinho. Depois do Marinho veio o companheiro Feijóo. E eu tenho certeza que daqui a três anos vocês estão tirando o Feijóo e colocando um outro companheiro para que a categoria siga a sua trajetória de produzir quadros extremamente importantes para a política brasileira.

Mas é importante lembrar, porque muitas vezes nós não notamos os avanços das coisas que nós fizemos.

Outro dia eu lembrava e dizia a alguns companheiros: quem é que se lembra, em algum momento da história do ABC Paulista, se ele já teve algum ministro? Se já teve alguma grande autoridade do ABC? Veja, por conta da luta de vocês, e eu quero dizer, por conta da luta dos metalúrgicos neste país. Lógico que hoje não é só mais de metalúrgico, hoje é de químico, de gráficos, da construção civil, de petroleiros, de trabalhadores da indústria naval, de trabalhadores da agricultura, de trabalhadores sem-terra, da classe média brasileira, de intelectuais, de empresários, mas vamos lembrar que começou aqui e começou com vocês. E por conta dessa luta, hoje o ABC tem, ou melhor, os metalúrgicos brasileiros têm o Presidente da República, o Ministro do Trabalho, o Presidente do Sebrae, o Presidente do Sesi e um Delegado Regional do Trabalho de São Paulo.

É importante lembrar, porque de vez em quando a gente fica na casa da gente lamentando as coisas que nós não conquistamos. Mas vamos lembrar que, por conta de vocês e a partir de vocês, da responsabilidade do conjunto da classe trabalhadora brasileira, vocês têm um Presidente da República, um Ministro do Trabalho, um Presidente do Sebrae, um Presidente do Sesi, o Delegado Regional do Trabalho e, quem sabe, espalhados por este país afora, outras dezenas de companheiros que estão ocupando cargos importantes como vereadores, como prefeitos ou como secretários.

Este é um motivo de orgulho para cada um de vocês e que vocês têm a obrigação de repassar para os filhos de vocês, porque nós não chegamos aqui porque somos mais políticos. Nós não chegamos aqui porque somos mais inteligentes, nós não chegamos aqui porque somos melhores do que qualquer outra pessoa. Nós chegamos aqui porque soubemos aproveitar as oportunidades que a história nos deu. E eu estou aqui, 30 anos depois, para agradecer o sacrifício. Não foram poucos os trabalhadores que perderam empregos nas greves de 78, nas greves de 79, nas greves de 80, nas greves de 83, nas greves de 81 e nas outras greves que se seguiram, lideradas por outros dirigentes sindicais. E toda vez que vendia uma idéia de que nós estávamos derrotados, a gente lembra o que aconteceu.

Na greve de 1979 não faltaram aqueles no Brasil que diziam que os metalúrgicos tinham acabado e que o Lula tinha acabado com a luta sindical deste país. Nós amargamos um ano muito difícil, no ano de 79. A gente ia na porta de fábrica e os trabalhadores não paravam. Eu lembro de um jornalista amigo meu que escreveu uma manchete no jornal Diário do Grande ABC, há muito tempo atrás. Ele dizia assim: "Lula fala para os ouvidos mocos dos trabalhadores da Ford que não pararam para ouvir." Nós voltamos para o Sindicato, reunimos a Diretoria e resolvemos fazer um desafio, de que nós iríamos fazer em 1980 uma luta muito mais forte do que fizemos em 1979.

Em 80 este país conheceu a greve histórica mais importante deste país, que foi a famosa greve dos 41 dias, feita pela categoria metalúrgica do ABC, e que culminou com a consolidação do processo democrático brasileiro, que foi aquela extraordinária manifestação no dia 1º de maio de 1980, quando a polícia, naquela ocasião chefiada pelo general Braga, não queria deixar que o 1º de maio se realizasse na Igreja Matriz. E a polícia chegou de manhã, tomou conta da praça, e os trabalhadores e suas mulheres foram chegando e foram cercando a polícia. Daqui a pouco a gente tinha mais de 6 mil pessoas e 20 mil policiais no meio. Vários políticos, o próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro, Teotônio Vilella, vários, o ex-prefeito Tito Costa, todos fazendo gestão para que se permitisse haver o 1º de maio, porque se não houvesse o 1º de maio, iria haver uma verdadeira chacina no centro de São Bernardo, porque o povo não queria sair e a polícia não queria sair. O povo queria fazer a passeata e a polícia não queria deixar.

Eu estava preso, não estava aqui. Quem estava me representando, além da Diretoria do Sindicato, era a minha companheira Marisa. Até que, em um ato de sensatez, o general Braga resolveu dar ordem para a polícia se retirar e permitir que os metalúrgicos, finalmente, fizessem apenas o que a gente queria fazer, uma passeata, e ir até o Estádio da Vila Euclides, de onde nós tínhamos sido retirados.

Pois bem, eu estou falando isso porque eu conheço muita gente no Brasil, conheço muitos sindicatos, mas eu ouso dizer, na posse do Feijóo, com todo respeito aos milhões e milhões de trabalhadores no Brasil, feliz, companheiro Feijóo, feliz o ser humano que pode ser presidente de sindicato de uma categoria extraordinária como esta categoria metalúrgica. Feliz o companheiro que pode dirigir uma categoria com um nível de organização que tem os metalúrgicos hoje, o nível de politização, e poderiam nem ser, porque são tidos como a base mais bem remunerada da classe operária brasileira. Poderiam até não ser, mas são.

Então, eu queria, de coração, dizer que, entre vocês, ontem, hoje e sempre, eu me sinto como um metalúrgico, todo santo dia, atuando em defesa dos interesses da classe trabalhadora brasileira. Sou tão metalúrgico que a minha carteirinha do sindicato, que é de 1968, eu nunca esqueci o número, 25.986 é o número da minha matrícula de associado do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Mas companheiros e companheiras, companheiro Feijóo, companheiros da Diretoria e companheiros metalúrgicos, eu aprendi muito cedo na minha vida que as coisas têm que ser feitas do tamanho dos passos que a sua perna pode dar. Toda vez que vocês vêem na televisão um jogador tentar fazer um esforço muito grande e cair no chão, e um médico constatar que ele está contundido, é porque ele teve uma distensão. E se ele teve uma distensão, é porque ele tentou dar um pique, um passo ou fazer um esforço maior do que a sua resistência física permitia.

Eu, desde o dia em que comecei a minha vida no Sindicato, eu sempre achei que a gente deveria fazer as coisas, mesmo que mais lentamente do que alguns precisam ou do que alguns querem, mas a gente deveria fazer as coisas de forma gradual, bem pensada, para a gente não ter que recuar a cada vez que a gente avançasse demais. Quando tomei posse na Presidência do Sindicato, eu fiz a mesma coisa. Quanto tomei posse na Presidência da República, eu tomei a seguinte decisão: este país tem problemas demais e tem problemas sociais profundos, tem problemas econômicos profundos. E se nós não fizermos as coisas passo a passo, a conquista de credibilidade, a conquista de confiança na classe trabalhadora, nos empresários internacionais, tomando as medidas corretas, dando as demonstrações de seriedade no controle da economia, no controle dos gastos públicos, se a gente não fizesse isso, a gente certamente não poderia citar o que eu vou citar para vocês agora, já citado pelo Marinho.

E quero dizer para vocês que, desde 1992, portanto há 13 anos, que não se cria no Brasil a quantidade de empregos com carteira profissional assinada que nós criamos em 30 meses. Enquanto nós criamos em 30 meses, 3 milhões e 135 mil empregos de carteira profissional assinada, o governo passado, em oito anos, criou apenas 737 mil empregos. Uma demonstração de que nós queremos que a economia se desenvolva de forma sustentada e que a gente não tenha um crescimento hoje e uma queda amanhã, mas que a gente tenha um crescimento contínuo para que a gente possa, durante dez ou quinze anos seguidos, fazer a economia crescer para recuperar os prejuízos de tantos e tantos de estagnação na economia brasileira.

E, outra vez, os trabalhadores me deram uma lição. Eu digo os trabalhadores porque não aprendi isso com os economistas, meus companheiros. Um belo dia nós estávamos discutindo que era preciso facilitar a vida do trabalhador, que ia num banco e pagava juro muito alto e que, às vezes, caía na mão da agiotagem. E o companheiro Marinho me levou uma proposta dizendo que era importante a gente colocar em prática o crédito consignado. E o governo tomou atitudes, junto com a CUT e com o sistema financeiro, de garantir que os sindicatos fizessem acordos com os bancos para emprestar dinheiro a juros mais baratos, dando como garantia para os trabalhadores da ativa e para os aposentados, os seus contracheques, o seu holerite. Só essa medida colocou, no ano passado, 16 bilhões e meio de reais no mercado de consumo deste país. Mais ainda, a poupança interna, meu caro Feijóo, que quando fazia campanhas eu dizia que era de apenas 17% do PIB, a poupança interna hoje é de 23,2%. É a maior poupança interna desde 1981 neste país. Portanto, a maior poupança interna dos últimos 24 anos neste país.

Se a gente levar em conta o crédito consignado, se levarmos em conta os 9 bilhões da agricultura familiar, se levarmos em conta os 7 bilhões e meio para o Bolsa Família, se levarmos em conta os 20 bilhões a mais no BNDES, se levarmos em conta todo o dinheiro que nós colocamos, inclusive os 4 bilhões do Estatuto do Idoso, nós vamos, companheiro Marinho, ter o gostoso prazer de dizer aos metalúrgicos que nós colocamos, com políticas alternativas, mais de 40 bilhões de reais para circular no mercado brasileiro.

E é por isso que a economia brasileira tem crescido, é por isso que as exportações têm crescido, porque no Brasil sempre se fez assim, Rafael, quando se fazia a opção para exportar, diminuía o mercado interno. Quando se resolvia fortalecer o mercado interno, diminuíam as exportações. E nós estamos provando que é possível crescer a exportação e é possível crescer o mercado interno. É por isso que a indústria brasileira tem crescido, é por isso que a capacidade ociosa das empresas têm diminuído, e é por isso que nós já estamos com 109 bilhões de dólares de exportação, e vocês, aqui, eu vi chamar gente da Scania, eu vi chamar gente da Volkswagen, da Mercedes e da Ford, e vocês sabem que há muitos e muitos anos a indústria automobilística não produzia tanto, não vendia tanto e não empregava tanto como está empregando agora.

Eu digo tudo isso, meus companheiros, porque estou no meio de trabalhadores, mas eu poderia dizer para vocês que na área de saneamento básico, e tem dois prefeitos aqui presentes, em 30 meses, em apenas 30 meses, nós colocamos mais dinheiro para saneamento básico, 14 vezes a mais do que o governo passado, de 1999 a 2002. Em 30 meses nós colocamos 14 vezes mais dinheiro para o saneamento básico do que eles em 4 anos, em uma demonstração de que, para governar este país, não se precisa ter os diplomas universitários que tanto preconceito jogaram contra mim. Para dirigir este país tem que ter, sobretudo, uma coisa chamada coração, porque é com o coração que a gente conserta um país com os problemas sociais de um país.

E quero terminar, Feijóo, para dizer: muitas vezes à razão não se dá razão. Toda vez que você estiver em dúvida, Feijóo, entre a razão da sua consciência, deixe funcionar a emoção do seu coração, que você vai acertar muito mais do que errar na sua vida política.

Muito obrigado meus companheiros. Parabéns Feijóo, parabéns à Diretoria, e até a próxima posse.

fonte: www.info.planalto.gov.br

Leia antes de comentar

Atenção: Este NÂO é o site oficial deste politico.

O objetivo deste site é reunir opiniões independentes sobre nossos representantes eleitos.

Não há censura de opinião nos comentários, mas o vc é o responsável pelo que escrever. Ou seja, aqui vale o Yoyow (You Own Your Own Words).

Lembre-se: Opinião é diferente de informação.

Informações sem fonte ou que não puderem ser checadas facilmente podem ser deletadas.

Serão apagadas tb mensagens publicitárias fora de contexto, spam usado para melhorar a posição de sites e outras iniciativas de marqueteiros pouco éticos.

Grosserias desacompanhadas de conteúdo, coisas off-topic e exagero nas gírias ou leet que dificultem o entendimento de não-iniciados tb não serão toleradas aqui.

Vou apagar sumariamente tb todos os comentários escritos inteiramente CAIXA ALTA e mensagens repetidas.

Além de prejudicar, a leitura é falta de educação.

Não publique tb números de telefone, pois não tenho como checá-los.

Obviamente, qq conteúdo ilegal tb será deletado sem dó.

Todas os comentários são considerados lançados sobre a licença da Creative Commons.

Se você não quer que seu texto esteja sob estes termos, então não os envie.