Discurso do presidente Lula nas obras de duplicação da Rodovia BR-101 Nordeste, no estado de Pernambuco

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Goiana-PE, 16 de janeiro de 2006

Bem, primeiro dizer ao governador Jarbas Vasconcelos que voltar a Pernambuco é sempre, em qualquer que seja a circunstância, uma coisa prazerosa.

Eu queria que a imprensa prestasse atenção no maquinário que está sendo utilizado. Quando, no começo, nós começamos a discutir com as Forças Armadas, e nós percebemos que as Forças Armadas brasileiras estavam desestruturadas, desaparelhadas para enfrentar uma tarefa dessa magnitude. E nós achamos que o Batalhão de Engenharia do Exército Brasileiro já fez tantas obras consideradas obras difíceis, em lugares inacessíveis... porque fazer obras, em algumas circunstâncias é que nem telefone: todas as empresas querem ocupar os grandes centros urbanos, mas tentar fazer telefonia para a camada mais pobre é sempre muito difícil. Fazer uma estrada num lugar difícil, você sempre encontra mais dificuldade das empresas quererem fazer. E o Exército brasileiro historicamente fez isso: pontes, estradas.

Mas, ao longo dos anos esse Batalhão de Engenharia das Forças Armadas brasileiras, do Exército vem sendo desaparelhada, porque as máquinas foram ficando velhas, não foram sendo renovadas e, portanto, o Exército Brasileiro estava quase que impossibilitado.

Vocês vão perceber que grande parte dessas máquinas aí são novas. E o resultado, qual é? É que depois de construir uma obra como esta o Exército vai estar equipado para fazer outras obras que o Estado brasileiro precisa que sejam feitas. E por que nós estamos fazendo com o Exército Brasileiro? Porque todo mundo que tem convivência comigo sabe que o desenvolvimento do Nordeste é muito mais do que um sonho, é uma obrigação que eu tenho, como nordestino que conheço muito a realidade do Nordeste brasileiro. E a Rodovia 101 Nordeste é uma rodovia de extrema necessidade para o desenvolvimento do Nordeste.

Eu até ouvi dizer, agora há pouco, está ali o nosso doutor Armando Monteiro Filho, que foi o homem que fez esta estrada, ainda na década de 50, 50 anos depois eu vim aqui dar um jeitinho na estrada que o senhor fez como secretário do estado de Pernambuco.

Pois bem, o nosso desejo era fazer a estrada desde março do ano passado. Era um desejo porque por aqui vai passar a riqueza produzida nos estados nordestinos, aqui vão passar alemães, japoneses, franceses, australianos, dinamarqueses, portugueses. Ou seja, quem vier, francês... quem quiser conhecer as praias nordestinas pode descer numa capital e aí percorrer por estrada, com segurança, estrada bem demarcada.

Portanto, isso aqui é uma, como disse o governador Jarbas, é mais do que uma estrada. É, na verdade, uma obra que pode ajudar a demarcar um pouco a cara do Nordeste brasileiro.

Esta estrada já poderia ter sido feita antes, porque já houve muita promessa dessa estrada. O nosso senador José Maranhão me dizia que uma vez foi convidado para ir a Santa Catarina, porque essa obra ia ser anunciada em Santa Catarina, junto com a BR-101 Sul, que liga Osório a Palhoça, no Rio Grande do Sul, Santa Catarina-Rio Grande do Sul. Entretanto, essa obra não aconteceu.

Quando nós imaginávamos começar em março, primeiro o Tribunal de Contas encontrou um problema e nós tivemos que ir, através do Ministério dos Transportes, junto com o seu jurídico, refazer o que precisava ser feito. Depois, foram abertos os envelopes de licitações e muitas empresas participaram e as empresas que perderam começaram a brigar com as que ganharam e, aí, a obra... vai liminar atrás de liminar, a obra nunca ia acontecer, quando nós decidimos que enquanto as empresas brigam a gente faz a obra, e chamamos o nosso Exército para fazer isso.

Então, esses três trechos que estamos fazendo é um aviso aos navegantes: nós queremos que a iniciativa privada participe da construção das estradas brasileiras, não são poucas, são muitas coisas que vão acontecer, no âmbito das estradas. Mas também não podemos perder um ano vendo empresa brigar com empresa na Justiça, liminar contra liminar, ou seja, enquanto isso o povo sendo prejudicado porque não consegue transitar com facilidade.

Eu estou dizendo isso porque o Exército está construindo esses cento e quarenta e poucos quilômetros, tem outros 200 quilômetros para serem feitos, que estão num processo de projeto executivo, depois licitação. Se quando o Exército tiver terminando esses trechos não estiverem prontos com as empresas, não tenham dúvida que nós não vamos ficar esperando briga na Justiça, nós vamos, outra vez, chamar o Exército para fazer o que o que tem que ser feito, até as pessoas se darem conta de que em algum momento as coisas têm que acontecer e não dá para ficar essa briga.

Eu estava lembrando que o Aeroporto de Brasília, a segunda pista, governador Jarbas, ela ficou praticamente dez anos para que o nosso Carlos Wilson, presidente da Infraero... dez anos. Um cidadão achou que o avião ia fazer barulho e entrou na justiça e ficou por 10 anos a obra embargada, ou seja, fazendo com que todos os aviões ficassem transitando 40 minutos sobrevoando o Aeroporto de Brasília entre cinco, sete horas da noite, dando um prejuízo enorme no gasto de combustível. Sempre a gente estando no ar é menos seguro do que a gente estando com o pé na terra. Até que nós resolvemos enfrentar a parada e fazer o aeroporto que, graças a Deus, começou a funcionar.

Mas, no Brasil nós temos esse problema. A democracia é isso mesmo, dá direito das pessoas recorrem quantas vezes for necessário, mas nós não poderíamos prescindir dessa obra que é extremamente importante para o Nordeste. E não é apenas essa obra. Eu queria aproveitar, porque este é o último trecho que estou visitando, para dizer que para o Nordeste brasileiro já está garantida a refinaria de Pernambuco com a PDVESA e a Petrobrás. Já está garantido para o estado do Ceará o Pólo Siderúrgico. Já está garantida para Pernambuco, Ceará, um pouco do Piauí e logo mais um pouco da Paraíba e do Rio Grande do Norte, a Transnordestina, que será uma ferrovia de 1.803 quilômetros, com investimento de 4 bilhões e meio de reais, não é pouca coisa. E o mais importante, que é um projeto dos meus sonhos, que é o programa de Biodiesel para o Nordeste Brasileiro, porque ele é nacional, mas ele tem uma função social para o Nordeste brasileiro, por isso, na legislação, nós temos um certo incentivo aos investidores que no Nordeste brasileiro contratarem o Biodiesel para o plantio da mamona para o pequeno produtor. Ele vai receber um incentivo porque o programa tem uma função social muito grande. O mundo vive uma crise de petróleo, vocês estão vendo o preço do petróleo todo dia na televisão, e nós achamos que o Biodiesel pode, daqui a 15 anos, dar para o Brasil a sustentabilidade que dá o álcool hoje. E ainda no momento em que o Brasil, se Deus quiser, quando entrar em funcionamento a Plataforma de Petróleo P-50, que eu fui lançar no Rio de Janeiro esses dias, quando ela começar a fazer a prospecção, nós vamos poder comemorar a nossa independência porque atingiremos a auto-suficiência, numa briga que começou em 1950, ou seja, muita gente neste país brigou por isso e finalmente a gente vai poder dizer que o petróleo é nosso, porque atingimos a auto-suficiência e vamos, quem sabe, logo, logo, podermos exportar um pouco de petróleo ao invés de comprar.

Tudo isso está ligado a outros projetos de desenvolvimento para o Nordeste brasileiro. Nós temos consciência de que em algum momento da história do Brasil o Nordeste tem que ter a mesma oportunidade que tiveram outras regiões do Brasil. Nós entendemos que o Nordeste brasileiro não pode passar mais um século sendo a parte pobre do país, sendo a parte rejeitada deste país. É preciso dar ao Nordeste o que o Nordeste precisa.

Na década de 50, no governo Juscelino, o nosso querido Celso Furtado projetou a Sudene, que tem a responsabilidade por grande parte do ICMS arrecadado no Nordeste brasileiro hoje. A Sudene foi rifada, acabou, nós reconstruímos a Sudene, agora precisa colocar dinheiro na Sudene. Eu tenho ponderado aos governadores do Nordeste, sobretudo, que aquele Fundo de Desenvolvimento que está na proposta de reforma tributária, ao invés de ser partilhado um pouquinho para cada governador, seria muito mais prudente que aquele Fundo fosse todo para a Sudene e quem vai ganhar com isso certamente é o Nordeste brasileiro, porque a Sudene vai desenvolver as regiões do Nordeste, uma parte de Minas Gerais, que são regiões que fazem parte das ajudas que a Sudene tanto pode dar.

Mas uma coisa importante que eu acho que precisa ficar marcada para o Nordeste brasileiro é o que nós estamos tentando fazer, governador Jarbas, com as universidades brasileiras. Pernambuco, mesmo, é um estado que já ganhou uma em Caruaru, uma em Serra Talhada, uma em Garanhuns, acho que vai ter mais outra não sei aonde, mas é um dado de estarmos descentralizando as universidades federais e levando os braços delas para as regiões pobres dos estados. É por isso que nós estamos criando este ano quatro universidades federais novas; estamos transformando cinco faculdades em universidades; estamos fazendo 32 extensões das universidades federais para o interior do país e estamos fazendo 32 escolas técnicas, das quais 25 serão inauguradas este ano no Nordeste.

Mais importante ainda é que o Congresso Nacional terá diante de si, esses dias, uma tarefa extraordinária, que é a votação do Projeto do Fundeb, do Fundo Nacional de Educação Básica. Hoje, na verdade, se cuida do ensino fundamental, da primeira à oitava série. Com o Fundeb, a gente vai cuidar das crianças de zero até o ensino técnico, para que a gente permita que os filhos das pessoas mais pobres tenham o direito a uma creche, a uma pré-escola, para que quando eles entrem nas escolas eles estejam mais preparados do que hoje. Porque uma criança pobre, que não fez pré-escola, e entra com sete anos ele tem mais dificuldade de competir com uma criança que fez a pré-escola, que fez creche, que teve jardim de infância, que teve uma série de coisas.

Como nós acreditamos que o Brasil caminha para um momento excepcional de deixar de ser um grande exportador de matéria-prima e de produtos manufaturados e que vai logo, logo, ser um grande exportador de inteligência, de conhecimentos, e como nós achamos que é preciso dar ao Nordeste brasileiro o direito de competir em igualdade de condições com outras regiões do país, aqui não tem nenhum anti... dizem que, de vez em quando, algum nordestino é antiimperalista, contra São Paulo, aqui não existe, na minha cabeça, isso, porque eu sou pernambucano, devo tudo que sou a São Paulo, mas eu acho que o Nordeste precisa ter mais chance. Se em alguma parte do século passado teve e não foi aproveitado, o desafio que eu faço para todos nós aqui é que a gente não pode deixar que o século XXI seja mais um século perdido.

Eu estou convencido de que o Brasil será o grande país beneficiado do século XXI. A Europa foi do século XIX, os Estados Unidos foram do século XX, portanto o Brasil e a América do Sul terão que tirar proveito do século XXI. E se o Brasil pode tirar, do ponto de vista da globalização, proveito do século XXI, o Nordeste também precisa tirar, em relação a outras regiões do país, porque nós não queremos ser melhores do que ninguém, apenas queremos ter a mesma igualdade de oportunidades que em algum momento outras regiões do país tiveram. Não vamos ficar aqui julgando se no passado alguém errou, se no passado alguém não fez. Eu acho que nós que governamos o país, ou que queremos governar, a gente não tem que ficar chorando o leite derramado, nós temos que olhar o leite que está no pote, ir para a frente e fazer para o Nordeste o que precisa ser feito, daí porque o meu orgulho. Eu, desde os 25 anos de idade, que eu tenho uma ilusão ou um sonho de percorrer todo litoral brasileiro de carro, sair do Rio Grande do Sul e chegar onde terminar a fronteira do Brasil. Nunca pude fazer isso. Quem sabe, depois que deixar a Presidência, quem sabe eu possa fazer essa viagem e já numa estrada asfaltada com a minha participação.

No mais eu quero agradecer aos governadores, aos deputados, aos senadores. Outro dia eu vi, na Bahia, Alfredo, você estava na Bahia e a imprensa disse: "Não, porque tinha deputado". Ora, se não tivesse deputado a imprensa dizia: "Nossa, não foi ninguém". Então, veja, deputado é para estar aqui mesmo, governador é para estar aqui mesmo, prefeito é para estar aqui mesmo. Candidatos, eu estou vendo aqui vários candidatos, é para estarem aqui mesmo. E estão dizendo: "Não, mas essa obra é eleitoral". Mas se eu não fizesse também seria eleitoral, porque os adversários vinham aqui cobrar: "Por que não fez? Por que não assinou o contrato?" Então, na verdade, eu fui eleito para governar o Brasil até dia 31 de dezembro de 2006. Até o dia 31 de dezembro eu vou viajar o Brasil para inaugurar as coisas que eu plantei. Porque não é justo um cidadão cavar uma covinha, plantar uma muda, regar ela, e quando ela dá fruto o cidadão não quer que você encoste no pé de fruta para chupar o fruto, ele quer ele vir tirar proveito.

Então, vai ter eleição, cada um dispute à vontade. Eu não tenho nenhuma pressa de definir se sou candidato ou não. Se tem alguém preocupado que se defina, que lance candidato, eu não estou preocupado. A minha preocupação é o seguinte: eu preciso governar o Brasil até o dia 31. E vou percorrer o Brasil, vou inaugurar as obras que nós começamos. E eu sei que cada obra que nós fazemos alguém fica chateado, porque no Brasil, lamentavelmente, tem determinado tipo de político que fica sempre torcendo para a teoria do "quanto pior, melhor". Quanto menos você fizer, mais é bom para ele e ruim para você. Como nós somos o governo, nós vamos fazer. Se alguém vai reclamar, eu peço desculpas, mas eu não posso fazer nada. As que eu não fizer, Jarbas, eles vão mostrar. As que eu fizer, nós vamos mostrar , porque esse é o direito essencial da democracia.

Eu quero dizer meus parabéns ao estado de Pernambuco, meus parabéns à Paraíba, ao Rio Grande do Norte, porque o que nós estamos falando é o seguinte: esses estados estão apenas ganhando do governo federal um pouco de retribuição ao que esses estados, ao longo de cinco séculos, deram para o Brasil.

É fácil falar que no Nordeste tem muita pobreza, mas é difícil lembrar o que o Nordeste já fez pelo Brasil historicamente, o que o Nordeste já fez nesses 350 ou 400 primeiros anos da história do Brasil. Foi do Nordeste que saiu grande parte da nossa riqueza. Então, humildemente, como nordestino, eu estou apenas dizendo: "Vou dar a minha contribuição para o Nordeste ser mais Nordeste".

Muito obrigado.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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