Paris-França, 13 de julho de 2005
Vim a Paris a convite do presidente Jacques Chirac, para participar do Ano do Brasil na França, a maior mostra cultural já organizada por meu país no exterior. Serão mais de trezentas manifestações, em diferentes regiões da França e nos mais diferentes campos da arte e da cultura. Vamos mostrar aos nossos amigos franceses um pouco do que nós somos e do que fazemos.
O Ano do Brasil na França representa o encontro de dois povos que, ao longo de suas histórias, construíram afinidades e convergências. Compartilhamos uma mesma percepção sobre as vantagens e os riscos da globalização. Acreditamos no multilateralismo e no diálogo como instrumentos na construção de um mundo mais próspero e justo, com menos fome e menos pobreza.
Estou aqui, hoje, para convidar os empresários franceses a engajarem-se nessa parceria. Quero agradecer à Câmara de Comércio Internacional de Paris e ao Movimento das Empresas da França pelo seu entusiasmo e pelo grande encontro de representantes do setor privado que organizaram, em abril último.
Os empresários de vários estados brasileiros puderam expor seus produtos nas vitrines e nos balcões das mais prestigiosas lojas de departamento e negócios franceses.
Hoje, tenho a alegria de encontrar - e em muitos casos rever - os dirigentes das mais destacadas empresas da França. Quero registrar, particularmente, a presença do presidente do Comitê de Mecenas do Ano do Brasil na França, Gilles Benoist. Juntamente com os representantes de numerosas empresas locais, ele contribuiu decisivamente para o êxito do ano cultural.
Senhores empresários
Suas presenças aqui são a melhor demonstração do enorme potencial das relações econômicas e comerciais entre nossos países. Trago-lhes uma palavra de confiança e de determinação. Confiança nos rumos do país. Hoje, mais do que nunca, os brasileiros acreditam na democracia e nas instituições republicanas.
Estamos demonstrando que é possível crescer de forma sustentada, com estabilidade monetária e responsabilidade fiscal, resgatando ao mesmo tempo uma enorme dívida social.
Pela primeira vez na história recente, os principais indicadores da economia brasileira estão alinhados num círculo virtuoso. O mercado interno está crescendo, ao mesmo tempo em que as exportações estão em franca expansão e as contas públicas estão sadias.
Pela primeira vez, o país não está preso à cruel opção entre o crescimento interno, de um lado, e o equilíbrio de suas contas internas e externas, de outro. Não estamos mais condenados a ciclos de crescimento de curto prazo, interrompidos por restrições cambiais e descontrole inflacionário.
Quero registrar o papel decisivo do empresariado brasileiro para esse resultado. Souberam enfrentar o desafio da abertura econômica, para fazer um choque de competitividade, diversificar a pauta exportadora e ganhar novos mercados externos.
Estamos fazendo o mesmo na esfera pública. Aprofundamos a reforma tributária e previdenciária. Introduzimos uma série de incentivos ao crédito, em benefício, sobretudo, das camadas de renda mais baixa da população. Reforçamos o apoio às pequenas e médias empresas e aos exportadores brasileiros. Enfrentamos agora a melhoria da gestão estatal.
Os resultados são expressivos. O Brasil cresceu cerca de 5% no ano passado e criou 1 milhão e 900 mil novos empregos formais. Gerou um saldo fiscal primário superior a 4% que ajudou a reduzir a inflação para menos de 6% ao ano.
Ao mesmo tempo, a balança comercial gerou um superávit de US$ 34 bilhões de dólares e as exportações ultrapassaram os US$ 100 bilhões de dólares anuais, saldo sem precedentes. Como resultado, nosso balanço de pagamentos passou de um déficit de 5%, há alguns anos, a um superávit de 2% do PIB. A reversão das expectativas inflacionárias e as medidas de controle fiscal sinalizam uma trajetória consistente de queda para as taxas de juros.
Senhoras e Senhores
O Brasil é uma democracia madura, dotada de instituições sólidas e de um ambiente seguro para os investimentos de longo prazo. Temos grandes projetos e buscamos grandes sócios para um novo ciclo de grandes investimentos. Três áreas, em particular, oferecem oportunidades aos investidores que confiam no potencial do país e na vontade de trabalhar de sua gente: infra-estrutura, energia e parcerias empresariais.
O crescimento do país, em particular, o crescimento das exportações - 32% no último ano - exige uma infra-estrutura à altura, sobretudo em matéria de portos e estradas.
Contamos com a contribuição do setor privado para realizar essas obras, e para isso aprovamos as Parcerias Público-Privadas. Seu objetivo é simples: viabilizar empreendimentos economicamente atraentes para os investidores e para o desenvolvimento econômico e social do Brasil.
Um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo, o nosso BNDES, participará diretamente desse empreendimento. Já foram selecionados projetos como o da Ferrovia Norte-Sul, a rodovia BR-116, que liga Minas à Bahia, o anel rodoviário do Rio de Janeiro e o ferroviário de São Paulo. Convido-os a participar desta nova forma de parceria com o Brasil.
O Brasil também enfrenta o desafio de assegurar fontes seguras, competitivas e ambientalmente adequadas para sua matriz energética. A hidroeletricidade continuará a ser fundamental, mas precisamos responder às incertezas do mercado de energia e preparar alternativas ao petróleo.
Hoje, o Brasil domina o ciclo do combustível nuclear, onde a França possui grande competência tecnológica. Queremos cooperar com a França no uso pacífico dessa fonte estratégica de energia.
Saudamos os avanços da União Européia na incorporação do bio-combustível em sua matriz energética, particularmente no setor de transportes. O Etanol, em particular, é uma alternativa estratégica para que a França cumpra seus compromissos de reduções de emissões de gases assumidos no Protocolo de Quioto. Ao mesmo tempo, permitirá à economia francesa diversificar sua matriz energética.
Não faz sentido, portanto, que o álcool continue a ser o único bem energético ainda protegido com altas tarifas e quotas impeditivas no mercado internacional.
O Brasil tem muito a oferecer no campo das energias renováveis. Contamos com uma das mais bem sucedidas experiências de bio-combustível, o Programa do Álcool. Todos os veículos brasileiros rodam com mistura contendo pelo menos 25% de álcool. Dois milhões e meio de carros já funcionam unicamente com álcool.
Estamos levando adiante projetos ainda mais ambiciosos na indústria automobilística, com o desenvolvimento dos motores "flex-fuel" que funcionam com três tipos de combustíveis. Também queremos expandir a cooperação em matéria de Biodiesel, que já produzimos a partir de diferentes matérias primas. O caminho está aberto, uma vez que uma indústria automobilista francesa participa da produção de diesel no Brasil.
Senhoras e senhores
Este não é um movimento de mão única. Muitas empresas brasileiras - nos setores do aço, das construções, da agroindústria, dos cosméticos e de tantos outros - vêm se implantando na França.
Essas verdadeiras transnacionais brasileiras ganham, assim, acesso aos mercados francês e europeu, e abrem espaço para promover a marca Brasil.
Parcerias entre nossas empresas beneficiarão também a presença francesa no Brasil. Poderão beneficiar-se da transferência mútuas de tecnologia, e alcançarão não apenas o vasto mercado brasileiro, mas terão uma plataforma de operações para todos nossos vizinhos sul-americanos.
Por essa razão, defendemos a conclusão, ainda este ano, do acordo de associação entre o Mercosul e a União Européia.
Precisamos superar uma visão acanhada para dar um impulso político que mobilize nossas complementaridades e resguarde nossos interesses comuns, frente a outras negociações e iniciativas.
Senhoras e senhores
Nosso empenho em promover a prosperidade econômica não tem sentido se não gerar bem-estar social. Nesse novo mundo globalizado, não são apenas as fronteiras entre os países que perdem relevância, são também as demarcações entre o que é político, econômico e social.
O combate à fome e à pobreza é um imperativo que deve unir não apenas lideranças políticas e empresariais nos países que ainda lutam para superar profundas desigualdades econômicas e injustiças históricas.
É uma obrigação de todos.
Vejo, portanto, com otimismo que empresas brasileiras e francesas tenham se juntado a centenas de outras em todo o mundo para apoiar o Pacto Global, organizado pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, há um ano, em Nova Iorque. São empresas que não se preocupam apenas em produzir, mas que assumem sua responsabilidade ética, social e ambiental.
Por isso fiz questão de ter, entre os grandes e importantes empreendedores brasileiros que me acompanham nesta visita à França, alguns incansáveis parceiros de meu governo nos projetos sociais que estamos levando adiante.
Entre eles se encontram dirigentes de filiais de empresas francesas no Brasil. Eles vestiram com entusiasmo a camisa verde e amarela e vêm participando de nosso esforço para melhorar as condições de vida dos brasileiros mais desfavorecidos. São brasileiros de coração e alma.
E também, nós somos todos, afinal, um pouco franceses, sempre inspirados pelos ideais da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
Muito obrigado.
fonte: www.info.planalto.gov.br
