Discurso do presidente Lula na inauguração da nova fábrica de café solúvel da Nestlé

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Araras-SP, 01 de abril de 2004

Meu caro Geraldo Alckmin, governador do estado de São Paulo,

Meu caro Ivan Zurita, presidente da Nestlé do Brasil,

Minha querida companheira Marisa,

Meus companheiros ministros de Estado Roberto Rodrigues, da Agricultura; companheiro Furlan, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio,

Meu caro Sidney Beraldo, presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo,

Meu caro Paul Bulcke, vice-presidente do Grupo Nestlé,

Meu caro companheiro Eduardo Suplicy, senador da República,

Meu caro Luiz Meneguetti, prefeito de Araras,

Meus caros deputados federais Jefferson Campos, José Eduardo Cardozo, João Herrmann, Nelson Marquezelli, Wanderval Santos e Salvador Zimbaldi,

Meu caro Nelson Brambilla, vice-prefeito de Araras,

Secretários de Estado,

Deputados estaduais,

Vereadores,

Trabalhadores e trabalhadoras da Nestlé,

Meus queridos brasileiros e brasileiras de Araras, de São Paulo e do Brasil,

Eu não poderia deixar de comparecer à inauguração desta fábrica. Primeiro, por agradecimento ao comportamento da Direção da Nestlé, na sua relação com o governo federal, por ocasião do lançamento do programa Fome Zero.

A Nestlé foi a primeira empresa a procurar o governo federal e a dizer a mim e ao então ministro de Combate à Fome, companheiro Graziano, que a Nestlé seria parceira na política de combate à fome no nosso país.

E eu sou testemunha viva de que a Nestlé cumpriu tudo o que prometeu, até agora, e espero que continue prometendo mais e cumprindo mais, não apenas gerando empregos para que trabalhadores de Araras não precisem ficar dependendo de um programa de combate à fome, porque a dignidade de um ser humano estará garantida quando todos nós ganharmos o pão de cada dia às custas do nosso trabalho, às custas do nosso esforço mas, também, participando de outras ações do Governo.

Eu não poderia deixar de vir aqui, para passar para a sociedade brasileira a idéia de que é preciso acreditar para que as coisas aconteçam. Realmente, a Direção da Nestlé foi corajosa, porque num ano eleitoral, como 2002, onde não faltavam aqueles que diziam que o Brasil ia acabar se a oposição ganhasse as eleições, a Nestlé ter a coragem de fazer uma parceria com o BNDES, trazer o governador de estado aqui, lançar uma pedra fundamental e, dois anos depois, inaugurar a fábrica, demonstra, desde aquela época, que a Nestlé tem dirigentes com visão política e que sabem que o Brasil é tão grande e tão importante que não será a mudança de um Governo que abalará a crença que o mundo tem nas potencialidades do nosso país.

Aliás, eu queria dizer ao meu caro Zurita que, andando por esse mundo afora, muitas vezes nós encontramos, no exterior, empresários com muito mais confiabilidade e com muito mais crença no Brasil do que, muitas vezes, determinados brasileiros, que preferem não acreditar na sua própria capacidade de fazer do Brasil o país que ele precisa ajudar a fazer.

Então, a Nestlé lançou uma pedra fundamental em 2002 e, menos de dois anos depois, estamos nós, aqui, inaugurando esta fábrica. Possivelmente, se fôssemos esperar as eleições passarem para ver quem iria ganhar, não estaríamos aqui, hoje, inaugurando esta fábrica.

A terceira razão pela qual eu vim aqui é porque tenho dito, em todos os momentos que posso: não tem nenhum brasileiro, que esteja com os pés nesses 8 milhões e meio de quilômetros quadrados, que tenha mais confiança no futuro deste país do que o presidente da República.

E é uma coisa muito interessante, porque um presidente da República não tem o direito de não acreditar, não tem o direito de vender pessimismo, não tem o direito de se deixar envolver por qualquer coisa menor que não sejam os interesses da maioria do povo brasileiro.

E, muitas vezes, em se tratando de governar um país da complexidade do Brasil, as pessoas se esquecem de olhar o seu conjunto. E eu, que ando por esse interior de São Paulo desde 1982, fico imaginando como seria bom se o Brasil inteiro conhecesse o que é o interior do estado de São Paulo, do ponto de vista da formação da sua gente, do ponto de vista da capacidade de crescimento econômico e do ponto de vista do potencial que tem o interior deste estado.

Eu me lembro o sacrifício que fez o saudoso governador Mário Covas na luta contra a chamada guerra fiscal de estados e mais estados, oferecendo o que tinham e o que não tinham para tentar levar as empresas de São Paulo, com isenção de impostos não sei por quantos anos. E, naquele tempo, o governador Mário Covas tomava uma medida que aparecia aos olhos de setores empresariais como se estivesse na contramão da história, porque estava defendendo uma política fiscal que fosse mais ou menos igual para todos os estados da Federação, que conseguimos concluir na votação da reforma tributária.

As razões da minha vinda aqui, hoje, além dessas, é pela geração de empregos que a Nestlé oferece ao Brasil. Emprego, que é uma das coisas mais sagradas para um homem, para uma mulher, sobretudo, para quem é chefe de família. E todo mundo sabe que a solidez de uma política de crescimento, num país do tamanho do Brasil, com os problemas do Brasil, tem que ser feita com uma palavra-chave chamada credibilidade, combinada com a participação dos segmentos da sociedade.

Me dizia o companheiro Roberto Rodrigues - no avião, na vinda para cá, quando eu pedi que ele lesse o discurso que eu ia fazer, mas que não vou fazer mais - e o Roberto me dizia, como agricultor, como fazendeiro que é em São Paulo, do que resultou para ele e para os agricultores brasileiros os prejuízos do Plano Collor e, depois, os prejuízos do Plano Real. E dizia que a grande tarefa dele, como ministro da Agricultura, com orientações discutidas dentro do Governo, é não permitir que os agricultores brasileiros sejam pegos de supresa com planos mirabolantes, que muitas vezes parecem que vão salvar a Pátria, durante seis meses, um ano e, depois, os prejuízos ficam acumulados para a sociedade que produz e trabalha no nosso país.

Foi por isso que, no ano passado, o Governo fez uma grande reunião com os produtores de café no estado do Espírito Santo e assumimos participar do leilão para garantir que o preço do café não caísse, como vinha caindo. E, ao mesmo tempo, fomos participar de uma reunião da Organização Mundial do Café, em Cartagena, onde fomos para defender a idéia de que os produtores de café não podem ser as vítimas toda vez que o produto entra em crise. Os produtores de café, que já tiveram uma renda de 20% no resultado final do café, têm hoje apenas 14% de participação.

E sugerimos, lá em Cartagena, que era preciso criar uma câmara setorial ou algo parecido, para que juntássemos empresários de torrefação, exportadores e produtores e estabelecêssemos um programa em que a cota-parte de cada um na cadeia do café ficasse garantida, para que um não se tornasse vítima do outro.

Ao mesmo tempo, estamos discutindo com muitos setores empresariais que não é possível que, sendo o Brasil o maior produtor de café do mundo, vejamos outros países, sobretudo da Europa, como exportadores de café solúvel e o Brasil não coloque valor agregado nos seus produtos. E nós queremos que, além do Brasil ser o maior produtor de café, que sejamos o maior exportador de café solúvel, para colocarmos valor agregado aos nossos produtos, para melhorar o salário de quem trabalha no campo e garantir emprego e salário para quem mora na cidade. O Brasil não pode, sendo o produtor de café que é, ver outros países se tornando os maiores exportadores de café solúvel, enquanto nós ficamos exportando café em grãos.

E essa fábrica da Nestlé é a demonstração mais viva de que o exemplo a ser seguido por outros empresários pode garantir que, num prazo muito curto o Brasil, definitivamente, aprenda a tirar proveito da globalização mundial em que vivemos e dispute em igualdade de condições os produtos industrializados com valor agregado, adentrando o chamado mercado desenvolvido.

Mais importante ainda é que, para chegar à situação de otimismo em que estamos hoje, foi necessário ser duro. E não somos os primeiros a ser duros, a fazer um ajuste fiscal.

Eu quero aproveitar que estou no estado de São Paulo e lembrar a todos o que foram os primeiros quatro anos do governador Mário Covas, aqui no estado de São Paulo. Possivelmente, grande parte dos políticos que estão aqui em algum momento fez críticas, porque diziam que o Mário Covas não gastava, não investia, só pensava no ajuste. Mas foi graça à coragem de fazer o ajuste, no momento em que foi preciso, que o estado de São Paulo se recuperou economicamente. E graças ao que nós fizemos no ano passado, é que eu posso dizer a vocês que, hoje qualquer membro do Governo pode andar de cabeça erguida, em qualquer lugar deste país e dizer: não terá volta nesse país, a economia vai crescer, e vai crescer muito a cada ano, porque esse é o destino, sem plano Lula, sem plano Palocci, sem plano que leve o nome de qualquer pessoa, porque o grande plano nosso é a credibilidade na relação entre Governo e sociedade, entre Estado e sociedade e entre Estado e outros estados.

É por isso que o capital externo está voltando. É por isso que eu posso dizer para vocês que a economia brasileira vai crescer, independentemente da idéia do maior pessimista que possa existir no nosso país. Nós vamos provar que é possível controlar a inflação, que é possível ter a economia estabilizada e, ao mesmo tempo, crescer, e a gente possa começar, aos poucos, a gerar os empregos que o Brasil tanto necessita.

E por que eu sou otimista? Sou otimista porque, comparando todo e qualquer número com 2002 ou mesmo com 2003, nós temos muito mais recursos para investir em habitação, em saneamento básico, temos muito mais recursos do BNDES para investir em projetos empresariais por este país afora e temos, hoje, muito mais credibilidade para trazer dinheiro de fora, para criar empresas e gerar riquezas dentro do nosso país.

E não mediremos nenhum esforço em tomar a medida que for necessária para que a inflação não volte. E, ao mesmo tempo, faremos o mesmo esforço para cumprir cada um dos compromissos que assumimos com a sociedade brasileira, antes das eleições. E todo mundo sabe o que foi a Carta ao Povo Brasileiro, assinada no mês de junho de 2002.

Eu vim à Nestlé porque a Nestlé, hoje, está simbolizando aquilo que eu mais tenho tentado passar para a sociedade brasileira: quem não acredita, quem não pensa de forma positiva e quem não investe no momento certo não colhe no momento certo. A Nestlé está dando exemplos a outros empresários, ao governo federal, e a outros governos de que, quem quiser ter dúvidas sobre o Brasil que tenha, porque a Direção da Nestlé não tem dúvida de que o Brasil continua sendo um mercado extraordinário para que ela faça mais investimentos do que já fez e para que outras empresas façam mais investimentos no nosso país.

A responsabilidade nossa é começar a construir os pilares para vencer a ocupação territorial desordenada - como aconteceu no nosso país nos últimos 50 anos, esvaziando algumas regiões e enchendo outras de forma totalmente desordenada, sem nenhum planejamento - o que faz com que tenhamos, de um lado, verdadeiros paraísos, como o interior de São Paulo, o interior de Goiás, a região sul de Minas Gerais, setores da Bahia, Balsas, no Maranhão, e tantos outros setores que demonstram um potencial de crescimento excepcional e, de outro lado, setores que têm um acúmulo de problemas sociais, que estão acumulados há 30, 40, alguns até há 50 anos.

E cabe a nós não resolver todos, mas começar, pelo menos, a criar o alicerce para que fique mais fácil sonharmos em acabar com parte dos problemas sociais do Brasil, sobretudo, com a fome e a miséria absoluta que toma conta de alguns milhões e milhões de brasileiros.

E sabemos perfeitamente bem que, para fazer esses investimentos, para que tenhamos uma classe trabalhadora qualificada profissionalmente, é preciso que a gente invista corretamente na educação. Neste país, num determinado momento, foi decidido que o aluno não iria mais repetir de ano, que o seu ano seria ano contínuo, sem nenhuma prova. Hoje, constata-se que 52% das crianças que saem da escola ou que estão na 5ª série não conseguem interpretar um texto, porque não estão tendo a formação correta.

Nós temos que acreditar e temos que ter certeza de que não existe na História da humanidade nenhum país e nenhum povo do mundo que tenha conseguido se desenvolver sem acreditar antes na educação do seu povo e na boa formação escolar que as nossas crianças têm que ter.

Nós sabemos que o ensino fundamental é da responsabilidade dos estados e, em muitos estados, é de responsabilidade da sociedade.

Pedi ao ministro Tarso Genro que é importante que se comece a fazer teste com as crianças do ensino fundamental, a cada seis meses; que se convoque uma reunião com os secretários de Educação de todos os estados - se for necessário, convocarei uma reunião de governadores - para que possamos medir, a cada seis meses, se as crianças estão aprendendo de verdade dentro da escola, porque, se não estiverem aprendendo, é preciso mudar o que estamos fazendo. O objetivo não é tirar a criança de casa para ir à escola, é garantir que essa criança aprenda.

E, se a criança não estiver aprendendo porque o ensinamento não está sendo correto, nós vamos ter que, também, melhor qualificar os educadores brasileiros, para que eles possam melhorar a qualidade do ensinamento que estão dando às nossas crianças. Porque, se não fizermos isso, a cada ano que passa nós iremos nos arrepender, cada vez mais, de não termos investido no momento certo.

Não basta um governante se vangloriar de que todas as crianças estão na escola. É melhor a gente se vangloriar pela qualidade da educação que essas crianças estão tendo, que os nossos universitários estão tendo, porque é dessa boa qualidade da formação que vamos poder ter uma economia mais forte, com mão-de-obra mais qualificada, mais competitiva no mercado internacional. E vai chegar um dia em que nós não estaremos apenas exportando matérias-primas ou produtos industrializados.

O dia, quem sabe, mais sagrado para este país será o dia em que estivermos exportando o conhecimento do povo brasileiro.

Muito obrigado.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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