Bissau-Guiné Bissau, 13 de abril de 2005
Quero cumprimentar o primeiro-ministro, Carlos Gomes. Cumprimentar os ministros de Guiné-Bissau. Cumprimentar os meus companheiros ministros brasileiros que estão acompanhando a delegação e dizer ao presidente Henrique Rosa e ao governo de Guiné-Bissau que, desde a campanha que fizemos no Brasil, em 2002, quando disputávamos a Presidência da República, nós anunciamos ao povo brasileiro que íamos ter uma política prioritária com relação ao continente africano. E dentro do continente africano, obviamente, com os países de língua portuguesa.
Nesses dois anos e quatro meses de governo, nós já visitamos mais países no continente africano do que certamente todos os outros presidentes da história do Brasil. Não apenas o Presidente, mas os ministros têm visitado, sistematicamente, países africanos, numa orientação do meu governo de que é preciso que a gente mantenha uma política de relação exterior muito plural com todo mundo, mas que a gente leve em conta que a África e a América do Sul merecem ser tratadas como prioridade porque, depois de tantos séculos, continuam sendo parte pobre do planeta Terra.
E estamos fazendo isso porque acreditamos na capacidade do povo do Brasil, acreditamos na capacidade do povo da América do Sul, acreditamos na capacidade do povo da América Latina e, sobretudo, acreditamos na capacidade do povo da África. Foram anos de muita luta para que os países da África conseguissem a sua independência. Certamente o povo inteiro acreditou que, a partir da independência, tudo iria melhorar para o trabalhador e sua família, para os países africanos. E eu penso que chegou a hora da África dar uma chance à própria África.
E digo isso porque eu já visitei todos os países da América do Sul e com cada país eu tenho discutido exatamente as coisas que eu quero discutir aqui em Guiné-Bissau.
Eu penso que muitas vezes é mais fácil nós dizermos ao mundo que somos pobres por causa dos outros. Muitas vezes é mais fácil a gente afirmar que não progrediu ou não cresceu por causa de algum inimigo externo, por causa de algum problema em outro país. E nós nunca - e isso vale para o Brasil - nós nunca discutimos quais os erros que nós cometemos e o que precisamos fazer para que a gente deposite na consciência da nossa gente a confiança de que, a partir da ação de cada um, a gente pode ir construindo, nos nossos países, um modelo de desenvolvimento sustentável, com a economia crescendo, porque somente assim é que a gente vai fazer a distribuição de renda, e somente assim é que a gente vai produzir riquezas.
Nós entendemos que a relação do Brasil com Guiné-Bissau, a relação do Brasil com o continente africano, pode ajudar, e muito, não apenas Guiné-Bissau, os países da África, mas pode ajudar o Brasil.
Da parte do Brasil, nós temos uma dívida histórica com o continente africano, porque foi dessa parte do Planeta que surgiu o que é hoje o povo brasileiro, a sua cor, a sua beleza, a sua criatividade, a sua inteligência. O seu jeito de trabalhar tem muito a ver com o povo deste continente. E também porque o Brasil tem conhecimento tecnológico, o Brasil tem estrutura empresarial, o Brasil tem base intelectual para, dentro das suas possibilidades, ajudar para que os países mais pobres tenham um mínimo de ajuda para dar os passos seguintes. É por isso que estamos aqui com o Ministro da Educação, viemos aqui com o Ministro da Saúde, viemos aqui com o Ministro da Cultura, estamos aqui com representantes do Senai para tentar estabelecer escolas de formação profissional, e queremos contribuir em várias outras áreas. Quero dizer para vocês que acabou o tempo em que o Brasil olhava apenas para a Europa e para os Estados Unidos. Olhávamos apenas para os ricos. Nós estamos, primeiro, olhando para nós mesmos, com o Projeto Fome Zero, para garantir que as pessoas tenham três refeições ao dia, e estamos olhando para os nossos parceiros, tanto da América do Sul quanto da África, para os que precisam ter uma chance de dar um passo seguinte.
Nós conseguimos vencer as colônias, conquistamos a independência, dispersamos esperança no nosso povo, e daí? A pergunta que o povo faz: "e daí?". Conseguimos tudo isso, o que vai acontecer agora? Agora, eu digo em todos os países, é preciso juntar toda a nossa inteligência, toda a nossa competência, todos os homens e mulheres de bem em cada país e, juntos, decidir qual o futuro que queremos para os próximos anos. É preciso pensar um projeto, da mesma forma que temos que pensar para o Brasil, o Peru, a Bolívia, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, para todos os países. Que país nós queremos daqui a 20 ou 30 anos? O que queremos deixar para os nossos filhos? Um mundo igual ou pior do que aquele que recebemos de nossos pais, ou um mundo melhor? Esse desafio, Presidente, só pode ser construído na democracia. Esse objetivo só pode ser construído em um mundo de paz. Esse país só pode ser construído se tivermos confiança de que temos que investir mais em educação, na formação profissional, nos pequenos e médios agricultores de nosso país. Temos que pensar em industrializar o nosso país. E a pergunta que nós fazemos é: como pensar tudo isso se passarmos parte do nosso tempo tentando resolver os nossos conflitos internos que, muitas vezes, se transformam em conflitos maiores do que todos os problemas externos que nós temos?
Quando nós decidimos fazer a disputa eleitoral de 2002, eu resolvi assumir esses compromissos porque um presidente da República nunca será medido pela quantidade de asfaltos que fez no seu país, ele será medido pelo que construiu de relação no seu Estado e seu povo, e entre os povos no mundo inteiro.
Nós resolvemos nos dedicar, gastar todo o tempo que for necessário, viajando o máximo de países que for possível viajar, tentando estabelecer uma melhora na nossa relação comercial, tentando levantar aquilo que os países precisam e que o Brasil pode ajudar. E quero dizer, gente, que o Brasil pode ajudar mais do que está ajudando, o Brasil pode fazer mais do que está fazendo, porque também temos uma cultura secular que precisamos desmontar, que é a cultura da relação com os países ricos. Até porque é muito mais fácil ter relação com os países ricos. Mas nós queremos ajudar os países pobres, para que tenham uma oportunidade, e tenham a chance de acreditar no seu futuro para que o povo não perca nunca a esperança. E o mundo que queremos, nós mesmos temos que construir. É por isso que criamos a campanha contra a fome. Eu quero agradecer o seu empenho, a sua participação. É por isso que criamos um fundo (inaudível) para poder dar um exemplo concreto em um país como Guiné-Bissau, de que estamos aqui dispostos a fazer novos acordos, e eu disse ao presidente Henrique Rosa que o importante, daqui para frente, não é a quantidade de acordos que podemos fazer, o importante é que, se fizermos apenas um acordo, esse acordo tem que sair do papel para a prática, para poder acontecer, porque, muitas vezes, os acordos são feitos e não passam de protocolo de intenções. Nós achamos que a confiança que nós queremos passar e queremos receber, que a ajuda que nós queremos dar e queremos receber, necessita de ações concretas e objetivas.
E o Brasil, como país que tem maior economia, como país que tem mais conhecimento científico e tecnológico, como país de maior inserção nesse mundo globalizado, o Brasil tem a obrigação, não de ser generoso, o Brasil tem a obrigação de dar a sua contribuição para que os países menores e mais pobres possam crescer, se desenvolver e gerar qualidade de vida para o seu povo.
É com esse espírito que eu estou aqui, no seu país, Presidente. É com esse espírito, mesmo passando aqui poucas horas, esteja certo que depois desta visita, a relação do Brasil com Guiné-Bissau, que já é boa, vai melhorar e vai melhorar muito, porque outras pessoas virão aqui, outros acordos acontecerão. E, certamente, nós temos tudo para garantir que o processo democrático da Guiné-Bissau, que o processo eleitoral que está determinado, vai acontecer da forma mais tranqüila, e que Guiné-Bissau pode passar a servir como exemplo de um país que sabe conviver democraticamente na diversidade.
É esse um desejo, é um sonho, é uma esperança que eu quero dizer ao Presidente, aos ministros e ao povo de Guiné-Bissau.
Obrigado.
fonte: www.info.planalto.gov.br
