Paysandú-Uruguai, 02 de março de 2005
O Uruguai vive um grande momento de sua história. Um momento de celebração democrática, de renovação sem precedentes de sua vida política.
A eleição de Tabaré Vázquez expressa a convicção do povo uruguaio de que um outro país é possível. Aqui, como no Brasil e em outros países de nossa América, a esperança venceu o medo. Tua vitória, companheiro Tabaré, abre grandes perspectivas para teu país, para nossos países.
Enfrentamos os mesmos desafios. Precisamos crescer e crescer muito para resgatar a imensa dívida social que herdamos. Precisamos distribuir renda para alimentar um ciclo longo de crescimento. Esse crescimento, para ser duradouro, não comporta aventuras. Mas também não suporta vacilações em nossos compromissos com as maiorias que representamos.
O desenvolvimento econômico e social que queremos se fará na democracia. Aprofundando-a. Ele confirma a necessidade de integração de nossos países. Uma integração sem hegemonismos. Uma integração que respeite as diferenças de nossas economias, as particularidades de nossas sociedades, as diferenças de nossos sistemas políticos, a originalidade de nossas culturas.
Estamos imbuídos de um grande espírito de cooperação e temos consciência das enormes potencialidades de nossa região. Juntos, estaremos em condições de enfrentar os desafios de um mundo desigual, injusto e ameaçador. Estamos comprometidos com a superação do mal maior que aflige os nossos países: a injustiça social, que se traduz nos flagelos inaceitáveis da fome e da pobreza extrema.
Companheiro Presidente,
Sinto-me imensamente feliz por estar aqui em Paysandú. Compartilho hoje, como ontem em Montevidéu, a alegria e o entusiasmo do povo uruguaio.
Conheço e admiro a democracia deste país. Sei da perseverança e do alto nível de consciência política do povo uruguaio.
Aprendi a respeitar seu país em minhas relações com o movimento sindical e com os políticos uruguaios. Tive o privilégio de acompanhar de perto a trajetória do companheiro Tabaré como líder comprometido com a construção de uma sociedade mais justa, mais desenvolvida e mais democrática. Sei que o novo Presidente do Uruguai está comprometido com o fortalecimento do Mercosul e com a integração sul-americana. Estes objetivos são também prioritários na política externa do Brasil. Daqui para frente, poderemos contar com a inteligência, coragem, sensibilidade política e social do companheiro Tabaré na busca desses objetivos comuns.
A integração, palavra que aparece com freqüência em nossos discursos, precisa traduzir-se em atos, iniciativas. Ela precisa trazer benefícios concretos para nossas populações, que não podem mais esperar.
Queridas companheiras e companheiros
É significativo que o primeiro compromisso da agenda bilateral que inauguramos com o novo governo uruguaio se dê aqui em Paysandú, na abertura da nova maltaria da AMBEV. Esta fábrica ilustra o tipo de integração que queremos: uma iniciativa que traz investimentos e gera maior prosperidade, que garante empregos e promove a integração de nossas cadeias produtivas. A história da AMBEV em Paysandú tem um significado muito especial para mim.
Minha trajetória pública e pessoal me impedia de ficar indiferente à ameaça de fechamento da fábrica da Norteña, em Paysandú. Lembro que, logo no início do meu governo, tomei conhecimento da decisão da AMBEV de fechar a fábrica da Norteña, em virtude da retração do mercado cervejeiro no contexto da crise econômica que afetou o Uruguai. O fechamento da fábrica significaria queda da atividade produtiva da região, redução nas correntes de comércio do Uruguai e, o que é mais grave, desemprego. Não ficamos de braços cruzados. Os trabalhadores aqui se mobilizaram. Setores sindicais no Brasil também se mobilizaram. Lideranças políticas e parlamentares do Uruguai se mobilizaram. E também se moveram os governos do Brasil e do Uruguai.
Felizmente, como é próprio das empresas que atuam com criatividade, que são conscientes da sua responsabilidade social, que têm uma visão estratégica de seus negócios, a AMBEV se sensibilizou. Repensou a decisão do fechamento puro e simples da fábrica. Fez aquilo que qualquer pessoa, instituição, governo pode e deve fazer: transformar a crise em oportunidade. Esse exemplo representa um modelo do tipo de relação que queremos para o Mercosul e para a América do Sul: governo, setor privado e trabalhadores atuando juntos e buscando as melhores decisões para a economia e para a sociedade.
Foi assim que a AMBEV, ao estudar soluções alternativas, decidiu converter as antigas instalações da cervejaria da Norteña em uma nova maltaria. Acompanhei esse processo de perto desde o início e hoje vejo com alegria o resultado da aposta feita na inovação e na capacidade dos trabalhadores uruguaios.
A AMBEV está investindo 5 milhões de dólares para ampliar a capacidade de produção de malte e a área de plantio da cevada. Com isso, devem ser geradas vendas da ordem de 12 milhões de dólares. É previsto um aumento das exportações em cerca de 11 milhões de dólares - se os dados não estiverem certos, a AMBEV tem um pouco de responsabilidade, e o meu Ministério do Desenvolvimento - espero que seja mais. Não só se preservaram os postos de trabalho da fábrica, como devem ser gerados novos empregos diretos e indiretos no campo, na logística e no transporte de cevada e malte.
Meu querido companheiro Tabaré
Hoje é o dia em que celebramos a vitória dos trabalhadores da nossa região. É uma vitória de todos aqueles que acreditam na integração de nossos países.
A inauguração desta fábrica tem uma relevância muito grande, quase simbólica, para as relações entre Uruguai e Brasil. O que se está garantindo, na prática, é a integração de um segmento importante da agroindústria uruguaia à cadeia industrial brasileira. Estamos agregando valor aos produtos exportados pelo Uruguai.
Em lugar de importar insumos para a fabricação de cerveja de países de fora do Mercosul, como fazíamos antes, passamos a receber essas importações do Uruguai, nosso vizinho e sócio. As vantagens para ambos os países são evidentes.
É preciso, porém, que essa integração de cadeias produtivas se dê em escala ainda maior. Estou confiante em que estamos no caminho certo. Apostemos na sintonia que existe entre nossos governos e na tradição de amizade existente entre uruguaios e brasileiros. Vamos trabalhar para a integração de nossas economias, para que nossas vantagens competitivas sejam aproveitadas ao máximo.
Companheiro presidente Tabaré
Amigas e amigos do Uruguai
Estejam certos de que o governo brasileiro estará empenhado em dar um impulso renovado à relação antiga e sólida de amizade e cooperação que une nossos países.
Queremos intensificar nosso diálogo político. Estamos prontos para cooperar mais estreitamente em matéria de políticas sociais. Desejamos ampliar nosso intercâmbio comercial. Estamos decididos a aumentar nossa cooperação em setores estratégicos para os dois países, como é o caso do setor energético.
Queremos ver o Brasil e o Uruguai como parceiros ativos na construção de um Mercosul pujante e de uma Comunidade Sul Americana de Nações justa e democrática.
Na fronteira de nossos dois países chegamos a criar praticamente uma cidadania comum para brasileiros e uruguaios.
Isso tudo me deixa otimista. Estou seguro de que seremos capazes de reproduzir esse mesmo espírito de convivência integrada e harmoniosa em toda nossa região.
Haverá muitas oportunidades para mostrar à sociedade uruguaia e à sociedade brasileira que a integração não é apenas uma peça de retórica, uma esperança que alimentamos em nossos discursos. Ela é e será uma realidade que, como estamos vendo aqui em Paysandú, significa mais empregos, mais investimentos, relações mais sólidas de comércio, melhores condições de vida para todos nós.
Obs.: Por problemas técnicos na transmissão, o último parágrafo deste discurso não foi inserido.
fonte: www.info.planalto.gov.br
