Discurso do presidente Lula na cerimônia de lançamento do Pólo de Biocombustíveis

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Piracicaba-SP, 16 de janeiro de 2004

Meu caro Geraldo Alckmin, governador do estado de São Paulo,

Meu caro amigo Roberto Rodrigues, ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento,

Minha querida Dilma Rousseff,

Meu caro companheiro Graziano, ministro da Segurança Alimentar,

Professor Adolpho Melfi, reitor da Universidade de São Paulo,

Meu caro prefeito de Piracicaba, José Machado,

Meu caro José Roberto Parra, diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz,

Companheiros deputados,

Meus queridos deputados estaduais,

Prefeitos,

Professores,

Funcionários e alunos da ESALQ,

Eu fico pensando que, se vocês soubessem que a criação do Pólo de Biocombustível fosse ter sete discursos, vocês falariam: "Deixa para criar em outra oportunidade".

Mas, eu não sei se todos pensam como estou pensando agora. Nesse mundo globalizado, em que a disputa é cada vez mais acirrada, em que as pessoas chutam da canela para cima e os países estão todos tentando conquistar um espaço neste planeta, que está ficando pequeno. E que nós, seres humanos, tratamos, ao longo desses últimos anos, apressar a piora da qualidade de vida no nosso planeta.

Eu acredito que para construir o Brasil que nós sonhamos, uma nação definitivamente dona do seu nariz, uma nação soberana, uma nação respeitada - não porque o presidente fala grosso - mas respeitada porque disputa, palmo a palmo, em vários campos, com outros países. Para a gente construir essa nação, nós precisaríamos ter algumas coisas. Porque hoje, no mundo, se respeita uma nação quando ela tem um alto conhecimento tecnológico; se respeita uma nação quando ela tem um alto poder econômico e quando ela tem um alto poder bélico.

O Brasil fez algumas opções. Nós assinamos o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Portanto, se somos defensores da luta apenas com pétalas de rosas, achamos que somos um povo da paz e pela paz.

Nós achamos que temos conhecimento suficiente para disputar outras coisas. Achamos que o Brasil tem uma oportunidade singular de se firmar, no mundo, enquanto uma nação que disputará com outras nações, não hegemonias, mas políticas de parcerias sem que sejamos tratados como um eterno país em desenvolvimento, vinculado a um continente terceiro-mundista.

Muitas vezes nós somos os culpados de não termos ocupado um espaço mais importante nesse mundo tão grande e tão pequeno ao mesmo tempo. Muitas vezes deixamos de investir em pesquisa, quando era preciso investirmos. Muitas vezes deixamos de investir na educação fundamental da nossa juventude, do nosso povo, quando deveríamos ter investido. Nós poderíamos ter dado passos, há 40 ou 50 anos atrás, que estamos tentando recuperar agora.

Não é fácil disputar um jogo, quando você começa perdendo de dois ou três a zero. Mas acredito que o Brasil se preparou para disputar esse jogo, mesmo saindo em desvantagem.

Acho que a evolução da Humanidade, a defesa do meio ambiente, a preservação da natureza, hoje tão forte no seio dos seres humanos, está fazendo surgir para o Brasil algumas possibilidades que muitos de nós não tínhamos consciência há alguns anos.

Vejam vocês: a política do álcool, criada num momento de emergência deste país por conta da crise do petróleo, na década de 90, quase que começa a ser extinta, porque era feio e até mal visto na sociedade quem fosse usineiro que produzisse álcool ou açúcar. Tentava-se impingir no conjunto das pessoas que produziam álcool e açúcar a culpabilidade por erros concomitantes de governos e de produtores, ao invés de selecionar aqueles que tinham cometido os delitos, puni-los, mas continuar valorizando aqueles que continuavam dignamente produzindo, acreditando e gerando empregos neste país.

É importante lembrar que chegamos a ter, praticamente, 90% dos carros a álcool, 90% dos carros brasileiros produzidos eram a álcool. E, de repente, como num passe de mágica, sem que dependesse da decisão política do Governo brasileiro - e não sabemos de onde veio a decisão - nós chegamos praticamente a zero. Não se levou em conta a questão da matriz energética renovável, do combustível renovável, não se levou em conta a geração de empregos, a geração de riquezas. Ou seja, interessava a alguém destruir e "Vamos destruir", ao invés de aproveitarmos o conhecimento que já tínhamos e aperfeiçoar a nossa tecnologia, para que a gente pudesse vender ao resto do mundo aquilo que produzíamos.

Possivelmente, isso tenha sido resultado de uma certa cultura de dominação, onde, muitas vezes, somos induzidos a acreditar que o que fazíamos era pior do que aquilo que era feito lá fora. Então, se fosse bom para outros, era bom para nós. Mas, se fosse bom para nós, produzido por nós, não era tão bom para nós quanto deveria ser.

Estamos aqui, hoje, nesta cidade extraordinária de Piracicaba, possivelmente cercados por parte da inteligência brasileira, das pessoas que acreditam em pesquisa, discutindo o lançamento de um programa de biodiesel, acreditando que o mundo caminha para utilizar um sistema de combustível renovável, que o mundo caminha para ser menos poluidor e caminha para construir uma qualidade de vida melhor. E para que cada país consiga extrair, de dentro do seu território, aquilo que podem ser as alternativas econômicas para o nosso país.

A primeira vez que o Roberto Rodrigues falou comigo do biodiesel, logo no começo do governo, eu até pensei que a gente já tinha uma fábrica. Nós estávamos discutindo o semi-árido nordestino. Se não tomarmos cuidado e não colocarmos num programa como esse uma determinada função social, obviamente que sem desprezar o econômico, nós corremos o risco de garantir que um projeto desse possa produzir biodiesel apenas de algumas coisas que já têm capacidade de produção extraordinária e que os pequenos não teriam condições de produzir.

Eu estou dizendo isso porque o objetivo não é anular a possibilidade de quem quer que seja produzir biodiesel, mas a prioridade é garantir, já que estamos tirando proveito daquilo que a natureza nos oferece e daquilo que a inteligência brasileira pode produzir. Quem sabe, seja uma extraordinária oportunidade para que a gente pegue as áreas mais pobres deste país, através da mamona, através da palma, e a gente consiga gerar uma oportunidade de conquista de dignidade por pessoas que há 300 anos vivem, no Brasil, sendo citados em livros, em jornais, em programas especiais apenas pela questão da fome e da miséria. Apenas pelo fato de serem nordestinos pobres, que vêm para o Centro-Sul rico e que, muitas vezes, ficam morando em piores condições do que moravam lá.

Eu fiquei entusiasmado com a idéia. Fiquei entusiasmado porque, como sou nordestino, e tive que sair de lá em 1952, por conta da seca, eu acho que não é possível que a seca ainda seja a razão pela qual as pessoas deixem algumas regiões do país.

Nós já temos tecnologia avançada, não para ficar brigando com a seca, porque aqui, no Brasil, também do ponto de vista cultural, nós utilizamos determinadas terminologias que dificultam encontrarmos soluções para os problemas.

Eu, durante 20 anos de minha vida, ouvi as pessoas dizerem: "Nós temos que brigar contra a seca. Nós temos que vencer a seca. Nós temos que derrotar a seca". Ora, minha Nossa Senhora! A seca é um fenômeno da natureza, a gente não vai conseguir evitar que tenha seca.

Eu nunca vi, no Canadá, alguém brigar contra a neve. Nunca vi, na Europa, algum governo dizer: "Puxa, isso aqui não vale nada, porque tem cinco meses por ano que está coberto de neve. Nós temos que enfrentar isso".

Nós temos que estabelecer políticas de convivência com as situações de intempéries adversas, no nosso país. Nós temos o sol, temos o solo, poderemos ter água, mas nós temos alguns produtos que quis Deus que pudessem nascer nas regiões mais pobres do país, sem precisar de grandes tecnologias.

Então, um projeto como este tem que ter, uma parte pensada comercialmente, pensada para disputar, mas tem que ter uma parte pensada socialmente. Tem que ter uma parte dele pensada para quem a gente quer que isso possa gerar empregos.

E não precisa fazer nenhuma revolução agrária. As pessoas já têm as suas pequenas propriedades, no semi-árido nordestino, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais e em outras regiões pobres deste país. Uma parte dessa gente precisa ser beneficiada. E, quem sabe, até a gente consiga, num tempo em que outros não conseguiram, fazer com que o Nordeste brasileiro não apenas da beira da praia, mas o Nordeste brasileiro do semi-árido possa servir de motivo de orgulho para todos nós.

Por isso, quero dar os parabéns ao companheiro Roberto, à companheira Dilma, a outros ministros do meu governo que participaram de uma reunião que fizemos, ao magnífico reitor, aos professores e aos cientistas que vão participar deste fórum, aos empresários, a quem, certamente, vamos pedir um pouco de recurso para fazer as coisas que precisam ser feitas.

Quero agradecer a vocês, dar os parabéns a vocês, dizer ao Machado que Piracicaba é uma cidade diferenciada. Um dia, quem sabe, daqui a alguns anos ou daqui a algumas décadas, a gente tenha todas as cidades brasileiras com a qualidade de vida que tem Piracicaba. Aí, não teremos mais problemas de miséria absoluta como temos em algumas regiões do país.

Quero dizer para vocês que vamos apostar nesse trabalho. Vamos apostar e vamos jogar o peso que o governo pode jogar para contribuir para que esse pólo transforme a política de biodiesel numa coisa verdadeira e a gente possa começar a vender o produto para outros países do mundo, porque, certamente, a partir de 2008, o protocolo de Kioto os obrigará a utilizar combustíveis menos poluentes do que os que utilizamos hoje.

Aprendi uma coisa, que tem notabilizado a vida de Roberto Rodrigues, que tem notabilizado a vida do Furlan, a vida do Celso Amorim. Tenho dito a eles: olhem, em política, não existe espaço vazio. Não tem vácuo. Se alguém levanta um pé, quando ele for colocar o pé, de volta, terá um no lugar. Em política econômica e comércio exterior não há espaço vazio e nós não temos o direito de ficar, aqui no Brasil, chorando as coisas que não estamos vendendo lá fora. Temos que competir.

Me lembro que, quando chamei o Furlan, falei: Furlan, quero que você seja um mascate. Quero que você saia pelo mundo afora vendendo as coisas boas que o Brasil tem para vender. Não é vender empresas estatais. É para vender produtos brasileiros. É vender os produtos que o Brasil precisa.

Por isso, temos viajado e levado empresários. Levamos empresários para a África e alguém dizia: "Mas o que eu vou fazer na África?". Vamos descobrir a África comercialmente, como, um dia, o Brasil foi descoberto. Vamos ter que discutir com os africanos que possibilidade o Brasil tem de ajudá-los a ter conhecimento, para que eles possam, num momento muito próximo passar a ser consumidores do Brasil ou a vender produtos para o Brasil.

Quando fomos para o Oriente Médio, perguntaram: "O que vamos fazer no Oriente Médio?" Nós vamos levar o Brasil. Vamos mostrar o Brasil para o Oriente Médio. Vamos mostrar para todos os países árabes que não existem apenas os Estados Unidos ou a Europa, que eles olhem o mapa do mundo, um pouco à sua esquerda, um pouco para baixo, para ver que tem um continente, que existem vários países, e países importantes, dentre eles, o Brasil, e que existe o Mercosul.

Agora, por exemplo, o Roberto vai viajar para a Rússia. Os russos, não sei por que "cargas d'água", decidiram, na lei de cotas lá, que 70% da carne que eles compram são dos Estados Unidos. Aí, dividiram um monte de países e colocaram o Brasil entre outros. Eu já tive duas reuniões com o presidente Putin, em dois encontros anteriores, um em Evian e outro na ONU. Então, quero que os ministros vão lá para dizer: "Por que não comprar carne do Brasil? Por que um país do tamanho do Brasil, com a capacidade produtiva do Brasil, sem o risco da "vaca louca", porque aqui o boi é "boi verde" mesmo, e a carne de qualidade. Por que não comprar uma parte da carne do Brasil? Por que não comprar uma parte dos produtos brasileiros?"

Quando eu falo mascate é por isso: eu lembro da idéia do mascate, quando eu tinha uns 15 anos de idade. Eu já contei isso umas 30 vezes. Chegava lá, na porta de casa, batia palmas e minha mãe dizia: "Eh, já está "não sei quem" aí para vender as coisas. Eu não quero". Mas tinha que ir lá dizer que não queria. E, ao chegar lá para dizer que não queria, papo vai, papo vem, depois de meia hora voltava para dentro de casa com um pacotinho de pano embaixo do braço, para pagar não sei em quantas prestações, mas comprava.

Então, o Brasil tem que fazer assim. Não é possível a América do Sul ser esse Continente que tem fronteiras com o Brasil, dez países e a gente perder a competitividade com outros países.

Então, eu tenho dito o seguinte: "Olhe, nós não vamos ficar esperando. Se nós quisermos conquistar espaço no mundo da ciência, no mundo da indústria, no mundo da agricultura, nós temos que disputar". Isso é que nem uma final de Copa do Mundo: não tem moleza. Nenhum governo do mundo está preocupado em dar uma cota para o Brasil porque no Brasil tem criança com fome. Ninguém está preocupado em comprar do Brasil porque no Brasil tem desemprego. Eles estão preocupados em comprar quando o produto é bom e de qualidade; a um preço bom, eles compram. E, muitas vezes, com decisão política.

Então, eu aprendi uma coisa: respeito é bom, eu dou e gosto de receber. E o Brasil vai ocupar o espaço que ele já deveria ter ocupado há muito tempo, nessa geografia do nosso Planeta. Vamos ocupar de verdade.

E nós sabemos que para ocupar esse espaço a pesquisa tem que ser levada a sério pelo Governo Federal, pelos Governos Estaduais, pelos estudantes, pelos pesquisadores e pelos Centros de Pesquisa, neste país.

Eu tenho compromissos assumidos há muitos anos. Eu não posso não cumprir meus compromissos, porque são históricos: o de dobrar a verba para pesquisa, neste país.

Nós fizemos uma reforma tributária. Eu ouvi, aqui, um depoimento fantástico, de que o fato de você abrir mão do imposto não significa que você arrecada menos. Nós, ontem, anunciamos a isenção de 30% do IPI para bens de capitais. E, nos próximos três anos, iremos zerar a cobrança de IPI para bens de capitais.

Nós queremos adotar uma outra política: é cobrar menos para que todos paguem. E, quando todos pagarem, nós vamos arrecadar mais do que arrecadamos dos poucos que pagam, hoje. E, aí, vamos ter dinheiro para pesquisas, vamos ter dinheiro para fazer os nossos Centros de Pesquisas sobreviverem e disputarem, com o chamado "mundo desenvolvido", a primazia de não sermos exportadores de matérias-primas ou de produtos in natura, mas de sermos exportadores de conhecimento.

Obrigado, meus queridos companheiros. Obrigado, Reitor. Obrigado, professores. Obrigado, Governador. Obrigado Roberto Rodrigues. Obrigado Dilma. Obrigado, José Machado. E podem ter certeza que nós, logo, logo, iremos festejar a exportação do biodiesel fabricado pelo nosso querido país.

Muito obrigado e bom trabalho.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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