Caxias do Sul - RS, 20 de fevereiro de 2004
Quero dizer ao meu querido companheiro governador do Estado, Germano Rigotto, e à sua esposa, Cláudia Rigotto,
Ao meu querido companheiro prefeito de Caxias, Gilberto Vargas, e à sua esposa Ana,
Ao nosso querido companheiro Paulo Bellini, presidente da Marcopolo,
Ao senhor José Antônio Fernandes Martins, vice-presidente da Marcopolo,
Aos meus companheiros ministros Roberto Rodrigues, da Agricultura; Furlan, do Desenvolvimento; Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário; Olívio Dutra, ministro das Cidades, e à companheira Judite, esposa do Olívio Dutra,
Ao meu companheiro Luiz Gushiken, secretário de Comunicação do Governo,
À minha companheira Marisa,
Aos deputados - eu não sei se vou lembrar o nome de todos - deputado Beto Albuquerque; deputado federal pelo PSB; deputado Paulo Pimenta, do PT; deputado João Augusto e deputado Adão Preto,
Meus queridos deputados estaduais,
Prefeitos das cidades vizinhas,
Meus companheiros, minhas companheiras,
Trabalhadores e trabalhadoras da Marcopolo,
Eu pensei que não tinha torneiro mecânico aqui, Bellini. Mas, essa fábrica não seria o que é se não tivesse bons torneiros mecânicos, produzindo peças de qualidade.
Eu disse, já há algum tempo, que a Marcopolo é motivo de orgulho para nós, brasileiros. Muitas vezes nós, que estamos no dia-a-dia da empresa, não damos a devida importância àquilo que nós temos. Muitas vezes é assim até na vida particular da gente.
Mas, quando viajamos o mundo, quando vamos à Cuba, ao México, à Colômbia, à China e conversamos com os chineses - embora a fábrica só comece a partir de junho - é que temos a dimensão do que representa a Marcopolo nesse mundo globalizado, aonde ninguém respeita quem fica sentado chorando o que não tem, e não vai à luta para procurar aquilo que lhe interesse.
É por isso que a Marcopolo cresceu, enquanto empresa. É por isso que a Marcopolo tem, hoje, quase 10 mil funcionários. E é por isso que a Marcopolo é uma das maiores produtoras de ônibus do mundo. É porque, ao invés de ficar chorando a taxa de juros, ou ficar chorando financiamento, ou ficar apenas esperando o mercado interno brasileiro crescer, a Marcopolo resolveu ir à luta em outros continentes, em outros países, e não tentar apenas disputar com os países da União Européia, ou dos Estados Unidos, que já têm tecnologia e capacidade produtiva, e mercados até saturados, mas ir à luta onde nós temos condições de competir.
E é por isso que eu não tenho dúvida nenhuma que, depois dessa viagem nossa à Índia, quem sabe na próxima viagem que eu fizer à Índia, já tenha uma fábrica produzindo Marcopolo lá.
Da mesma forma que nós temos tentado recuperar um pouco a dimensão da América do Sul, para que possamos ter um mercado, que não é um mercado pequeno, é um mercado de quase 1 trilhão de dólares, um mercado de algumas centenas de milhões de habitantes. Mas é um mercado que está próximo e ao mesmo tempo tão distante, porque nós não temos as estradas, as ferrovias e as hidrovias, para que haja a interligação entre os países da América do Sul.
Foi esse trabalho que nós fizemos, para uma integração física da América do Sul. Esse trabalho que nós resolvemos fazer, no primeiro ano de Governo, procurando novos status, em pátios pouco freqüentados por governos brasileiros como, por exemplo, os países árabes, onde passamos uma semana. Nós não fazemos outra coisa, meu caro Paulo Bellini, a não ser "garimpar" oportunidades para que produtos brasileiros possam competir com produtos de outros países importantes; para que possamos vender mais e gerar mais divisas, gerar mais riquezas, gerar mais empregos e fazer com que o Brasil seja cada vez mais respeitado, no cenário mundial.
Nós não queremos que o Brasil seja conhecido, no mundo, apenas como o país do carnaval, o país pentacampeão mundial de futebol, ou o país da violência sexual contra adolescentes. Nós temos tudo isso, mas nós precisamos ter o orgulho de mostrar que nós temos uma empresa, como a Marcopolo, que produz ônibus da qualidade que a Marcopolo produz. E, mais ainda, temos o orgulho de dizer que, no mundo pode ter igual, mas não tem trabalhador mais competente, mais criativo que o trabalhador e a trabalhadora brasileira, que aceitam os desafios para competir com quem quer que seja.
Esses dias, em Genebra, Furlan estava comigo, fizemos uma reunião com mais de 200 empresários de 24 países do mundo inteiro. E o representante da Mercedes Benz foi falar, no almoço que fizemos. Vocês companheiros, trabalhadores e trabalhadoras aqui presentes, não sabem o orgulho que eu fiquei com o discurso do presidente da Mercedes Benz. Eu poucas vezes, aqui dentro do Brasil, vi e ouvi alguém falar tão bem do Brasil e defender tanto a capacidade de trabalho dos trabalhadores brasileiros; eu não chorei porque estava com vergonha de chorar, junto de um público que eu não tinha, praticamente, conhecimento, fora os meus ministros.
E agora vamos continuar fazendo esse trabalho. Vamos continuar fazendo este trabalho, Bellini, porque nós estamos convencidos que, embora tenhamos uma relação privilegiada com os Estados Unidos, que é o nosso maior parceiro comercial individual, e com a União Européia que é o nosso segundo parceiro comercial - mas aí já é coletivo, porque é toda a União Européia - nós não podemos apenas ficar esperando que esses dois blocos econômicos façam para nós as concessões que nós queremos que eles façam, para que possamos colocar os nossos produtos lá dentro.
Nós entendemos que negociação é vencida por quem tem perseverança, porque quem vai à luta. E nós entendemos que um país do tamanho do Brasil, com a capacidade que tem este país, com o povo extraordinário que tem, não pode ficar esperando as sobras das negociações do mundo desenvolvido. Nós temos que ir atrás de negócios. Eu, quando fui montar o Governo, imaginava criar uma secretaria especial de comércio exterior, e eu dizia: eu quero na secretaria de comércio exterior uma espécie de mascate. Aquele mascate que já não existe mais hoje, aquele mascate que chegava na casa da gente como uma sacola cheia de roupa, a mãe da gente não queria atender porque sabia que ele ia empurrar um pano para ela comprar, ia atender com má vontade, mas ficava ali, meia hora, uma hora, e a mãe voltava para dentro de casa com um pedacinho de pano e com uma prestação para pagar, a cada mês. Mas comprava, porque o mascate era teimoso, ia lá para vender e não queria perder a viagem.
O Brasil tem que ser assim. O Brasil não tem que pedir licença a ninguém. Nós já conquistamos a nossa maioridade comercial, a nossa maioridade tecnológica, nós já temos competência para viajar ao mundo e disputar com qualquer país, com qualquer produto que seja fabricado no mundo, e a Marcopolo fez isso. Tenho feito duras críticas, em vários lugares do mundo, aos empresários brasileiros, dizendo para eles: não tenham medo de ser empresários multinacionais, não tenham medo de crescer, disputem os espaços geográficos que existem no mundo. Nós poderemos contribuir para a mudança da geografia comercial do mundo se formos ousados.
E eu espero que outros empresários venham visitar a Marcopolo, conheçam o trabalho que vocês fazem pelo mundo afora. Primeiro, que não têm preconceito. Quando foi possível fazer um ônibus em Cuba, a Marcopolo não quis saber se Cuba era comunista ou não. Ela quis saber se lá era possível colocar os produtos dela. Se é importante colocar os seus produtos na China, a direção da Marcopolo não discutiu se a China é um país em que tem um partido único, a Marcopolo queria saber que lá era um país em que ela poderia fazer negócios e colocar os seus produtos, da mesma forma que fez com o México. Ou seja, é essa a ousadia, é essa a competência, é essa a visão estratégica que os empresários brasileiros precisam ter e não apenas ficarem esperando que o governo tenha mais dinheiro para emprestar, para fazer algum projeto. Nós temos que ir à luta para ocupar o espaço. E a Marcopolo, na verdade, serve como referência de empresa que não fica esperando, que vai atrás. E o sucesso está aí, os trabalhadores todos com a cara bonita, alegres, nunca vi tanta gente bonita junta. E eu acho que isso é um pouco o que é o Brasil, que vive hoje um momento econômico especial.
Nós estamos num ano em que a Caixa Econômica tem mais dinheiro para investir em habitação e saneamento básico. Nós estamos num ano em que o governo tem praticamente três vezes mais para investir do que teve no ano passado. Nós estamos num ano em que o Banco do Brasil tem o dobro do dinheiro para investir que teve o ano passado. Nós estamos num ano em que o BNDES tem muito mais dinheiro para financiar projetos do que financiou o ano passado. E é por isso que o Furlan vai levar muito em conta essa proposta do Moderbus.
Nós estamos num ano em que o Congresso Nacional, certamente, aprovará o PPP, que é a primeira grande experiência feita no Brasil de parceria concreta entre a iniciativa privada e o poder público.
Nós estamos num ano onde as exportações continuam crescendo. E nós estamos num ano em que a economia está mais ou menos estável e controlada. E sabemos que enquanto tivermos uma dívida do tamanho que temos, não será fácil a gente perder a vulnerabilidade externa. E essa outra, nós vamos compensar com a credibilidade do Governo.
E eu quero aproveitar, meu caro Bellini, meu caro Governador, não porque seja o momento, mas é porque eu estou na frente de uns companheiros que, na verdade, significam a minha origem no mundo político e, eu diria, no mundo do trabalho. Eu estou dentro de uma fábrica. Na minha frente tem homens e mulheres de macacão, berço onde eu comecei a minha vida, com 14 anos de idade.
E eu queria aproveitar para dizer para vocês uma coisa, porque vocês estão acompanhando a imprensa e, muitas vezes, a imprensa cobra que o Presidente não se pronuncia, como se o Presidente fosse delegado de polícia, fosse representante do Ministério Público.
Mas eu quero dar uma informação importante para vocês. Primeiro, não haverá nenhum indício - eu não estou dizendo nem caso de denúncia - não haverá nenhum indício de denúncia que envolva práticas ilícitas ou corrupção, neste Governo que não seja investigada até o fim.
Obviamente que o Presidente da República tem sérias limitações. O que o Presidente da República pode fazer, às vezes, é a abertura de inquérito, junto com a Polícia Federal, e exonerar as pessoas que estejam envolvidas. Mas eu acho que cada um de nós pode fazer a sua parte. Eu acho que a imprensa joga um papel muito importante quando levanta as dúvidas, agindo, cada vez mais com seriedade. Acho que o Congresso Nacional tem toda a competência e serenidade para definir se deve ou não fazer CPI, quantas CPIs deve fazer.
O que eu posso dizer para vocês é que eu sou filho de uma mulher que morreu aos 64 anos de idade, analfabeta. E ela dizia para mim: "Meu filho, a única coisa que você não pode perder nunca é o direito de andar de cabeça erguida e olhar o seu semelhante no olho". E isso, pode ter certeza que é o grande patrimônio que eu tenho na vida. É o grande legado que eu recebi da minha mãe.
Eu tenho muito cuidado nessas coisas. Muito cuidado. Porque, no Brasil, o tempo instituiu a cultura de que todo mundo é culpado até que se prove o contrário. Eu sou formado numa outra cultura. Eu sou formado na cultura de que todo mundo é inocente até que se prove o contrário.
Então, as denúncias têm que ser apuradas. E eu estava falando ao telefone com o ministro José Dirceu, tinha falado pela manhã com o ministro Thomaz Bastos e determinei, Governador, que seja feita, hoje, uma medida provisória proibindo o bingo e caça-níqueis no nosso país, até que encontremos uma solução definitiva para essa situação.
Nós estamos conscientes do momento auspicioso que o Brasil pode viver, daqui para a frente, na área econômica. E podem ficar certos que não haverá nenhum problema político que atrapalhe os passos que o Brasil precisa dar. E vamos dar, porque o Presidente da República tem que sempre se comportar como se fosse um pai de uma grande família. O Presidente da República não tem filho privilegiado, um pai não grita com o seu filho fora de hora, como o Presidente da República não pune ninguém, não castiga ninguém, sem que tenha muita certeza das coisas que estão fazendo.
Todos nós, os 176 milhões de brasileiros, estamos subordinados à possibilidade de qualquer denúncia, sobre qualquer coisa. Todo mundo pode agir emocionalmente, um presidente da República não pode agir emocionalmente. Se tiver denúncia de crime eleitoral, a Justiça Eleitoral e os partidos para investigar, não depende do Presidente da República. Se tiver denúncia contra funcionários, o máximo que o Presidente pode fazer é exonerar o funcionário, abrir inquérito na Polícia Federal e permitir que haja toda facilidade possível para que a apuração vá até o fim. Se a pessoa estiver condenada, que pague pelo erro cometido. Se a pessoa for inocente, que tenha a sua honradez recuperada por quem a acusou.
Muito obrigado, meus companheiros. Boa sorte aos companheiros da Marcopolo.
/mcpro/vpm
fonte: www.info.planalto.gov.br
