Abuja-Nigéria, 11 de abril de 2005
Caro presidente Obasanjo
Nossos dois governos promovem hoje um reencontro de duas nações. Nações unidas pela história, pela cultura e por crescentes laços de cooperação. Quase cinco séculos da história brasileira foram construídos com o trabalho de irmãs e irmãos africanos.
A Nigéria, berço de culturas tradicionais africanas, deu-nos uma contribuição fundamental. Somos orgulhosos dessa contribuição.
Somos orgulhosos de possuir a segunda maior população negra do planeta, atrás apenas da própria Nigéria. Essa proximidade afetiva e cultural explica por que a Nigéria é um dos mais importantes parceiros africanos do Brasil.
Vejo nas relações entre nossos países um potencial imenso que precisa ser explorado com mais vigor e ousadia. Somos duas grandes nações. Nossas economias se complementam. Temos visões convergentes, interesses que coincidem na construção de um futuro de prosperidade e justiça.
O principal resultado de minha visita deve ser a redescoberta da Nigéria pelo Brasil.
Seu país ocupa, graças à vitalidade econômica e ao dinamismo de seu povo, lugar de destaque na África e no mundo.
Essa posição se vê fortalecida pela consolidação do processo democrático no país. Reconhecemos o papel que o presidente Obasanjo vem tendo nessa evolução histórica.
Diversas missões nigerianas visitaram o Brasil nos dois últimos anos. Estão avançadas as negociações para a transferência de tecnologia brasileira na produção de medicamentos anti-retrovirais. Aprofundamos a cooperação em outros campos da saúde pública. Estamos aprofundando a cooperação na área energética. Assinaremos amanhã um Protocolo de Cooperação em matéria agrícola. Aí estão exemplos do vasto potencial de nossas relações.
Nosso intercâmbio comercial registra cifras importantes. Atinge quase 4 bilhões de dólares, mas ainda não reflete a diversidade e o equilíbrio desejáveis para as trocas entre as duas economias. Vamos estimular nossos agentes econômicos a desenvolver o intercâmbio bilateral.
A visita recente do meu Ministro das Relações Exteriores foi importante passo nessa direção. A comitiva empresarial que o acompanhou voltou ao Brasil com a consciência de que há excelentes oportunidades de negócios neste país.
Caro presidente Obasanjo
Os países em desenvolvimento vivem hoje um momento crucial de sua história. Enfrentamos enormes desafios. A pobreza extrema atinge hoje mais de um bilhão de pessoas. A fome, a falta de acesso à água potável, carências de assistência médica e de educação são males que o século XX não soube resolver. Devemos resgatar a secular hipoteca do subdesenvolvimento.
Lancei, juntamente com outros líderes mundiais e com o Secretário-Geral da ONU, no ano passado, a Ação contra a Fome e a Pobreza. Realizamos uma reunião histórica com mais de 50 chefes de Estado e de Governo, em Nova Iorque, no último dia 20 de setembro. Desejo agradecer publicamente seu apoio, presidente Obasanjo, a essa iniciativa. Continuamos trabalhando intensamente para que a iniciativa dê frutos.
Precisamos atuar em conjunto, Nigéria e Brasil, para que a comunidade internacional se comprometa com o cumprimento das Metas de Desenvolvimento do Milênio, dentro dos prazos estabelecidos.
Senhoras e Senhores
Brasil e Nigéria estão empenhados na reforma das Nações Unidas. Queremos tornar o Conselho de Segurança mais democrático, representativo e legítimo, com a inclusão de países em desenvolvimento como membros permanentes. O Brasil saúda a recente decisão da União Africana sobre a reforma do Conselho de Segurança. Seguiremos defendendo firmemente a presença permanente da África em um Conselho de Segurança reformado.
Os laços que nos unem aparecem também em nossa ação conjunta no G-20. Transformamos esse Grupo em um agente essencial na luta por um sistema internacional de trocas que respeite o justo valor de nossos produtos agrícolas.
Devemos aproximar nossas regiões. Podemos nos beneficiar de uma maior articulação entre o Mercosul e a Comunidade Econômica de Países da África Ocidental.
Caro presidente Obasanjo
Ao assumir o governo, determinei prioridade às relações do Brasil com a África. Essa prioridade se reflete também em nosso plano interno. Criei a Secretaria Especial para a Promoção de Políticas de Igualdade Racial, chefiada por minha querida amiga Matilde Ribeiro, aqui presente. Queremos eliminar o preconceito, a discriminação e a exclusão social que pesaram sobre sucessivas gerações de brasileiros afro-descendentes.
Lançamos programas específicos de cotas para afro-descendentes nas universidades. Determinei a inclusão do estudo da história da África em todos os currículos escolares. Agradeço a Vossa Excelência por ter tornado disponíveis professores e estudiosos africanos para lecionar essa disciplina no Brasil.
É preciso que a juventude nigeriana também conheça melhor seus irmãos brasileiros. Para isso, estou empenhado em estabelecer mecanismos de concessão de bolsas de estudo no Brasil, e em apoiar o intercâmbio de docentes, em nível de pós-graduação.
Presidente Obasanjo
Levarei da Nigéria a grata sensação de ter reencontrado um amigo e de ter podido renovar o diálogo franco e afetivo. Uma nova etapa nas nossas relações inaugurou-se hoje. Agradeço a Vossa Excelência, em meu nome e no de minha comitiva, a esplêndida acolhida que nos proporcionou.
Queria dizer a Vossa Excelência e aos membros do governo da Nigéria que Brasil e Nigéria ainda estão por se descobrir. A possibilidade econômica, cultural e comercial dos dois países não pode ter, no Oceano Atlântico, as suas dificuldades.
É verdade que, durante muito tempo, o Brasil olhou para a Europa e para os Estados Unidos. É verdade que, durante muito tempo, a Nigéria também olhou para a Europa. Eu acho que, agora, é hora de nos olharmos e percebermos que dois países, um com 140 milhões de habitantes, outro com 180 milhões de habitantes, somados, viram uma população que só perde para a China e para a Índia.
Portanto, o potencial de estabelecermos políticas de complementaridade, de fazermos sociedade no campo da ciência e tecnologia, de fazermos parceria entre indústrias nigerianas e indústrias brasileiras, de fazermos com que o comércio se transforme numa via de duas mãos, onde possamos comprar e vender o máximo que pudermos produzir.
Este mundo está à nossa disposição. Precisamos apenas acreditar e fazer com que o século XXI seja, de fato, o século que transforma os países pobres e em desenvolvimento em países definitivamente desenvolvidos.
Não é possível que um bilhão de seres humanos, que vive abaixo da linha da pobreza, não nos faça compreender que nós já conquistamos a nossa independência, já afastamos os nossos colonizadores. Agora, precisamos acreditar em nós mesmos.
O século XXI está nos desafiando, está à nossa espera. Por isso, fortalecer a democracia, acreditar na paz e criar um modelo econômico de desenvolvimento sustentável, fazendo parcerias com países que têm similaridades é o caminho pelo qual haveremos de criar uma nova geografia comercial, uma nova geografia econômica, uma nova geografia social, e fazer com que a globalização chegue ao estômago de todos.
Com esse espírito, peço aos presentes que se unam a mim em um brinde à Nigéria, a seu povo e à felicidade pessoal de Vossa Excelência.
Muito obrigado.
fonte: www.info.planalto.gov.br
