Torres-RS, 03 de dezembro de 2004
Meu caro Germano Rigotto, governador do estado do Rio Grande do Sul. Meu caro Luiz Henrique, governador do estado de Santa Catarina. Meu caro Alfredo Pereira do Nascimento, ministro dos Transportes. Meu caro Tarso Genro, ministro da Educação. Meu caro Olívio Dutra, ministro das Cidades. Meu caro José Fritsch, secretário especial da Aqüicultura e Pesca. Meus queridos companheiros, senador Paulo Paim, senador Sérgio Zambiasi e senadora Ideli Salvatti, de santa Catarina. Deputados Ary Vanazzi, Adão Pretto, Beto Albuquerque, Edson Bez de Oliveira, Henrique Fontana, Mauro Passos, Orlando Desconsi, Paulo Gouvêa, Paulo Pimenta, Jorge Boeira e João Augusto Nardes, Senhor José Batista Milanez, prefeito de Torres. Deputadas e deputados, Senhor Jorge Luís Lestani, representante interino do BID no Banco do Brasil, Senhor Ideraldo Caron, diretor de infra-estrutura terrestre do Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes. Prefeitos e prefeitas da região. Vereadores. Companheiros e companheiras do Brasil, do Rio Grande do Sul e da cidade de Torres.
Eu não vou ler o discurso que eu trouxe. Queria aproveitar, aqui, o momento e ter uma conversa com vocês. No dia 1º de dezembro nós completamos 23 meses de governo. E vocês lembram que no discurso de posse eu disse que, primeiro, nós iríamos fazer aquilo que era necessário, segundo, nós iríamos fazer aquilo que era possível e, terceiro, quando todo mundo menos esperasse, nós estaríamos fazendo aquilo que parecia impossível no Brasil.
Com o apoio de todos os governadores, com o apoio dos partidos políticos, na sua grande maioria, com pouquíssimas exceções, nós começamos fazendo o impossível. Porque era impensável num país do tamanho do Brasil, com os problemas do Brasil, em dez meses fazermos a reforma da Previdência Social e a reforma tributária, que ainda falta um pouco a ser feito.
E depois, ainda de sobra, nós aprovamos a Lei de Falências, que era uma coisa que estava paralisada há muito tempo. Aprovamos no Congresso Nacional o Estatuto do Idoso que estava há 12 anos esperando no Congresso Nacional.
E, no mês passado, nós aprovamos a reforma do Poder Judiciário que estava parada também há quase 14 anos no Congresso Nacional.
Com essas reformas nós alicerçamos, nós temos a base para que o Brasil possa construir outra coisa. Todo mundo sabe, quem governou o primeiro ano - seja um prefeito, um governador, um presidente da República - que o primeiro ano é sempre mais difícil. Primeiro, porque nós pegamos as prioridades definidas por um outro governo que, muitas vezes, não se adapta às nossas prioridades. E até você mudar tudo isso, leva muito tempo. E eu me lembro que tomei uma decisão. A única coisa que eu não posso permitir que aconteça na minha cabeça é ficar nervoso ou perder a paciência em qualquer momento de adversidade.
Eu, por mais que enxergue a fisionomia dos 176 milhões de brasileiros, por mais que eu consiga quantificar essa enormidade de gente, eu não consigo distinguir a arte de governar um país da arte de governar a minha própria família. Não consigo fazer diferenciação. Eu só tenho o respeito dos meus filhos se os respeitar. E eu só tenho o respeito do povo brasileiro se eu tiver por ele o respeito que ele tem por mim.
Eu só posso fazer pelo povo aquilo que é possível ser feito. Um pai que tem a coragem de dizer para um filho, na véspera de Natal, que não pode dar o presente que ele quer, porque não tem condições de dar, este mesmo pai, sendo governador, prefeito ou presidente da República, tem que ter a coragem de dizer para o povo: "eu não vou fazer tal coisa porque não tenho condições de fazer." A verdade, muitas vezes, é dura, mas ela tem que ser dita 24 horas por dia, porque a gente deita todo dia, encosta a cabeça no travesseiro com a consciência tranqüila de que ganhou o dia honestamente e está com a consciência tranqüila para começar bem o dia seguinte.
Eu me lembro que muita gente torcia para o fracasso do nosso governo. Havia pessoas que imaginavam que: "esse pessoal ganhou as eleições, esse cara, o máximo que ele estudou foi um curso de torneiro mecânico. O país vai entrar numa "degringolada", a economia vai fracassar, não vai exportar. Daqui a pouco, o povo estará gritando na rua para entrar outro".
O que eles não perceberam é que as quatro derrotas que eu tive para chegar à Presidência da República me transformaram num ser humano calejado. Porque as derrotas, ao invés de ficarmos chorando cada uma que temos, nós temos que levantar a cabeça e tirar as lições das adversidades que vivemos para que a gente possa, a partir daí, avançar um pouco na compreensão da relação do governante com o seu povo e do Estado como a sociedade.
Atravessamos 2003 e chegamos a 2004. Se vocês quiserem saber, peguem a imprensa de janeiro ou de fevereiro, peguem o que todos os analistas econômicos diziam, os mais renomados, inclusive, gente do próprio governo, pessoas tentando adivinhar o que ia acontecer em 12 meses no Brasil. E as pessoas diziam que a economia não cresceria mais do que 3%, as pessoas diziam que a economia não ia conseguir crescer. Nós chegamos, agora, e temos uma notícia excepcional: a economia não cresceu 3%, ela cresceu 5,3%, o maior crescimento dos últimos 8 anos. E vamos terminar este ano com 2 milhões de trabalhadores com empregos novos, registrados em carteira profissional, o maior número desde 1992.
É lógico que o Brasil tem tantos problemas que seria necessário uma vida inteira para resolver todos esses problemas, porque tem uma dívida acumulada ao longo de muitas décadas, ao longo de séculos. E esses problemas são que nem prestação que a gente tem: se a gente não pagar uma, vai ficar mais difícil pagar duas, vai ficar mais difícil pagar três e aí chega um dia em que a gente não pode pagar mais. A dívida social foi se acumulando ao longo do século passado e, ao invés de você ter 1 milhão de gente com problemas, você tem 30, 40 milhões com problemas. Seriamente, muito mais difícil.
E, de vez em quando, aparece alguém - sempre tem gente muito engraçadinha no nosso meio -, que acha que a gente pode, num toque de mágica, resolver os problemas da sociedade como se não fôssemos presidentes, governadores ou prefeitos, mas como se fôssemos deuses, como se fôssemos um ser onipotente.
Eu estava em Alagoas, estes dias, Tarso, e você é ministro da Educação. Nós fomos prestar uma homenagem ao marechal Deodoro da Fonseca, fazer um memorial para ele, porque foi o homem que proclamou a República neste país e que não tem um único memorial. Nós vamos recuperar isso, em Maceió. E tinha lá 20 ou 30 mil pessoas e tinha 20 estudantes me vaiando. Eu mandei saber porque estavam vaiando. Estavam vaiando contra a reforma universitária. Ora, meu Deus do céu, nem nós, que estamos fazendo, não temos ainda o projeto, porque ele está em debate. E os meninos que nem conheciam já eram contra. Como eu tomei a atitude de não ficar nervoso com isso, prefiro tentar, em algum momento, ir abrindo a consciência dessas pessoas, porque eu acho que é exatamente na juventude que a gente é mais impetuoso, que a gente quer as coisas mais rápidas, que a gente acredita em muita coisa e, depois, com o tempo, vai percebendo que as coisas não são como a gente quer. As coisas são como a gente pode fazer, e elas são, muitas vezes, mais difíceis do que a gente imagina.
Mas eu estou vivendo um momento de alegria na minha vida pessoal, um momento, sobretudo, de crença. Quando nós começamos a campanha da auto-estima, essa campanha que vocês viram na televisão, o Ronaldinho falando "eu sou brasileiro", na verdade, essa campanha foi assumida pela iniciativa privada, porque não tem país do mundo que vá para a frente se o povo estiver com a auto-estima lá embaixo. Como aqui, nesta região, um lugar bonito, um lugar extraordinário, um lugar onde pode transitar o Brasil inteiro, onde pode transitar a América do Sul inteira. E ao longo de anos, faz mais de dez anos que eu não posso ir a Santa Catarina ou vir ao Rio Grande do Sul, sem ver alguém com uma placa: BR-101. E muitos já prometeram fazer essa estrada. Eu não quero saber quem foi que prometeu, sei que muitos já prometeram. Eu nunca prometi porque eu não prometo aquilo que eu não conheço, e não prometo aquilo que eu não sei se eu posso fazer ou não.
Entretanto, todos nós, aqui, temos consciência que essa BR-101 é uma alavanca extraordinária para o desenvolvimento do estado do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, para nossa integração com a Argentina, com os países da América do Sul e, mais ainda, para que a gente não veja pessoas estendidas ao longo da estrada, mortas por acidente de carro ou por atropelamento. Nós estamos, aqui, avisando para vocês: essas máquinas vão ter que funcionar.
O ministro Alfredo vai ter que, depois, dizer de público, aqui, o telefone dele, porque eu já estou cansado de ver inauguração de obras no Brasil que quando o povo vai embora as máquinas vão embora e não começam a trabalhar.
E nós vamos ter que colocar essas máquinas para trabalhar, porque precisamos da estrada, precisamos gerar empregos, gerar desenvolvimento. E nesta região, aqui, este estado e esta região Sul do país, que é uma região privilegiada, qualquer dinheiro que o governo federal tiver para investir, não tem que olhar de que partido é o governador, de que partido é o prefeito, qual é o clube do governador ou qual é o clube do prefeito. Nós temos que fazer, porque isso aqui é o Brasil, e por ser Brasil merece ser tratado igual ao quintal da casa do Presidente da República. Não pode ser diferente em hipótese alguma. Nós vamos investir 500 milhões nesta estrada o ano que vem.
Quero dizer aos empresários que não é fácil gastar 500 milhões, em um ano, na estrada. Se for necessário, Alfredo, tem que trabalhar dia e noite, porque nós precisamos gerar empregos, gerar riqueza e porque nós precisamos gerar distribuição de renda.
Então, eu estou feliz por isso. Eu estou feliz, primeiro, porque eu acho que nós vamos conseguir fazer mais do que prometemos durante a campanha, sem ficar olhando o adversário. Eu não fui eleito para ficar falando mal de ninguém, eu fui eleito para governar. Esta é uma chance que Deus me deu. Eu sempre disse que Deus foi por demais generoso. Saí de onde saí, e ser eleito três vezes Presidente da República no estado do Rio Grande do Sul, já uma benção de Deus. Quatro vezes. Uma eu ganhei no Brasil e as outras três eu ganhei aqui.
E eu acho que essa foi a parte mais difícil. Se a gente fizer as coisas que tem que fazer, com o cuidado que tem que fazer, sabendo o tempo em que as coisas têm que acontecer, não tem porque não dar certo.
Eu vinha conversando com o Rigotto, muitas vezes nós somos criticados injustamente. Se a gente contrata funcionários, os adversários falam: "estão contratando demais". Se a gente manda embora, falam: "estão mandando embora demais". A verdade é que se a gente quiser melhorar a universidade brasileira, o Tarso vai ter que contratar, até dezembro do ano que vem, seis mil professores universitários para suprir os milhares que saíram, se aposentaram. O PROUNI, que vai ser aprovado no Congresso Nacional até o dia 15 deste mês, vai gerar, já no ano que vem, a possibilidade de mais 70 mil jovens, de escola pública, estudarem de graça em universidade privada.
A Lei da Acessibilidade que nós, ontem, regulamentamos com um decreto, vai permitir que um companheiro que está numa cadeira de rodas ou que é cego, ou uma pessoa portadora de doença mental possa, inclusive, ir para a escola, conviver com os alunos que não têm nenhum problema de deficiência e ser tratado como um cidadão igual, como todo mundo tem que ser tratado. Porque quem está com uma deficiência não quer ajuda, não quer esmola, quer apenas ter a oportunidade de, pelo seu próprio jeito, fazer o que tem que ser feito. Então, os ônibus vão ter que se adequar; os banheiros têm que ser adequados; os prédios públicos têm que ser adequados nas prefeituras, nos estados e no governo federal, porque os portadores de deficiência são tão brasileiros ou mais brasileiros do que nós e, portanto, eles têm que ser tratados com a mesma dignidade que nós queremos tratar todo mundo.
Por isso, meu caro Rigotto, é com alegria que venho aqui, e talvez, eu não sei se neste ano ou no ano que vem, nós viremos aqui, agora com a ministra Dilma Roussef, e com você, para inaugurar as hidrelétricas que o estado fez, as outras que o governo federal vai fazer, porque o desenvolvimento chegou. E no ano que vem, as palavras-chaves são crescimento econômico, desenvolvimento, geração de empregos e distribuição de renda. Não existe espaço para as pessoas ficarem apenas chorando, nós temos é que levantar a cabeça e acreditar que se a gente quiser fazer, a gente faz; se a gente quiser fazer, é possível fazer. Nós temos, Rigotto, que recuperar 11 portos no Brasil, porque há cinco ou seis anos não se imaginava ou não se queria imaginar que o Brasil fosse crescer como cresceu e exportar o que está exportando. Então, nós estamos com 11 portos que precisam ser modernizados, dragados, para que possa entrar navios com maior calado, para que a gente possa escoar com maior facilidade a nossa.... São quase 470 milhões que o Ministro dos Transportes vai gastar, entre o ano que vem e 2006, para que a gente possa reestruturar, inclusive, o nosso querido porto de Rio Grande, aqui no estado do Rio Grande do Sul, que é um grande escoador dos nossos produtos agrícolas.
De quase 60 mil quilômetros de estradas que tem o Brasil, tem mais de 35 mil quilômetros que precisam ser recuperados. Então, ao invés da gente fazer estradas novas, nós temos que recuperar, porque neste país tem gente que governou e não foi capaz de fazer manutenção nas coisas que já existiam. E nós vamos ter que gastar muito dinheiro para refazer muitas estradas no Brasil.
Aqui, no Rio Grande do Sul, ao tomarmos a decisão de recuperar a indústria naval brasileira, nós não fizemos, como queria alguém, que fizéssemos apenas no Rio de Janeiro. Nós distribuímos a indústria naval, uma grande parte para o Rio de Janeiro, mas um pedaço para o estado do Paraná, um pedaço para o estado do Paraná, um pedaço para o estado de São Paulo e um pedaço para o estado do Rio Grande do Sul, um pedaço para a Bahia, e vamos levar um pouco para Pernambuco com o estaleiro novo, vamos levar um pouco para o Espírito Santo, porque eu não posso fazer com que todo o desenvolvimento e o investimento público se dêem apenas num estado. Nós temos que fazer - Santa Catarina também, porque nós vamos recuperar o porto de São Francisco do Sul, de Itajaí.
Então, eu penso, meus companheiros, que as coisas estão para acontecer. No ano que vem nós vamos atacar muito fortemente algumas ferrovias brasileiras que precisam ser acabadas. E veja que engraçado, Rigotto, eu era constituinte - Luis Roberto Pontes, você também era - e eu fiz muita críticas à Ferrovia Norte-Sul. Não consigo contar o tanto de discurso que fiz por este país contra a Ferrovia Norte-Sul. E quis Deus que eu fosse eleito Presidente da República para pedir desculpas e dizer: nós, agora, vamos terminar a Ferrovia Norte-Sul, porque o Brasil precisa dela. E se eu como oposição não tinha condições de enxergar a prioridade daquela rodovia em 1987, hoje eu tenho clareza que ela é imprescindível para o desenvolvimento da região Centro-Oeste e uma parte do Nordeste brasileiro.
Da mesma forma, companheiro Rigotto e companheiro Luiz Henrique, que vamos, ainda este mês, fazer o lançamento do Programa de Biodiesel. Um programa em que a gente vai produzir biodesel da mamona, no primeiro momento, de palma e de dendê, na região Norte e Nordeste do país, sobretudo para que a gente possa fazer o desenvolvimento na região mais pobre do Brasil, que é o semi-árido nordestino.
E nós achamos que se acontecer o que estamos imaginando que pode acontecer, daqui a alguns anos, nós não vamos mais precisar usar nem óleo diesel nos caminhões, nem óleo diesel nas termoelétricas. Nós vamos usar biodiesel menos poluente, mais gerador de emprego, uma fonte energética renovável, portanto, nós vamos até ter crédito de carbono depois da aprovação do Protocolo de Quioto, e a gente vai, então, ganhar dinheiro exportando o nosso petróleo, e a gente vai fazer mais divisas para o país.
Estamos anunciando agora a 101-Sul, mas vamos, também, no começo do ano, anunciar a 101-Nordeste. Nós vamos fazer duplicar também a 101-Nordeste, pegando do Rio Grande do Norte, pegando a Paraíba, pegando Pernambuco, depois Sergipe, Alagoas e Bahia, para que a gente possa transformar a vida dos gaúchos que viajam para as praias do Nordeste numa vida muito mais tranqüila, numa vida muito mais serena, sem transtorno, e também para eles virem para cá.
Vejam, é essa a sabedoria do desenvolvimento. Na hora em que a gente gerar a possibilidade de emprego no Nordeste, eles vão ganhar um dinheirinho. Como eles já conhecem o Nordeste, eles não vão ficar lá, eles vêm para cá e vocês vão para lá. Essa é a lógica do desenvolvimento.
Por isso, gente, eu quero agradecer aos meus companheiros Ministros, agradecer ao companheiro Rigotto pelo carinho que tem me dado toda vez que eu venho a este estado, agradecer ao povo da cidade de Torres, agradecer ao povo do Rio Grande do Sul e dizer para vocês o seguinte: finalmente essa obra vai acontecer. Nós queremos fazê-la no menor tempo possível. Talvez ela demore porque é uma estrada difícil de ser feita, talvez ela demore três anos. Não vai dar para fazer até o final do meu mandato, mas eu quero, meu caro Rigotto, meus companheiros ministros, independente de onde Deus quiser que eu esteja, ser convidado para a inauguração da BR-101.
Muito obrigado e boa sorte a vocês.
