Discurso do Presidente Lula: na cerimônia de abertura da Olimpíada do Conhecimento 2005

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São Paulo - SP, 05 de outubro de 2005

Meu querido companheiro embaixador Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, Meu querido companheiro Luiz Furlan, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Meu caro companheiro Sérgio Machado Resende, ministro da Ciência e Tecnologia, Minha querida companheira Marisa, >Meu caro amigo Paulo Skaf, presidente da Fiesp, Meu caro Carlos Eduardo Moreira Ferreira, representante da Confederação Nacional da Indústria, Meu caro Luiz Carlos de Souza Vieira, Diretor Regional do Senai, Meu caro Mario Amato, presidente emérito da Fiesp, Meu caro Jair Meneguelli, presidente do Conselho Nacional do Sesi, Meu caro Lars Grael, secretário de Estado da Juventude de Esporte e Lazer, Meus queridos companheiros prefeitos que eu vi aqui, uma penca de prefeitos, mais que uma penca, um cacho de prefeitos. Tem tanto prefeito aqui que até parece que as Olimpíadas vão ser para os prefeitos. Obrigado pela presença de vocês. A presença de vocês aqui só demonstra o significado que tem para vocês a existência de uma escola Senai na cidade de vocês.

Meus caros adolescentes, jovens, estudantes do Senai, empresários, deputados aqui presentes, meninos e meninas que estão inscritos nas Olimpíadas do Conhecimento.

Eu, primeiro queria dizer para vocês que quando começou a apresentação, em que vocês desceram essas escadas, eu confesso que a minha memória voltou aos anos de 61, 62, no tempo em que eu estudei no Senai. E por isso que eu digo que o Senai, para mim, eu poderia dizer, Paulo, que a minha vida pode ser medida antes e depois do Senai, e digo isso porque quando era deputado constituinte, tinha pessoas que achavam que nós tínhamos que acabar com o Sesi, com o Senai ou com os "esses" como se diz...o Mário Amato se lembra disso, Meneguelli se lembra disso e outros companheiros aqui se lembram disso.

Eu dizia que só era possível querer acabar com o Senai ou com o Sesi, alguém que não conhecesse nem o Senai nem o Sesi. Por que uma coisa é você ter críticas a alguma coisa que não funciona bem e, ao invés de consertar, você então propõe acabar. Eu sinto muito orgulho porque não só não acabamos como criamos o Senat, do transporte. Possivelmente, as pessoas de famílias mais ricas, que não precisaram estudar no Senai, que os pais puderam sair do ensino... que fizeram o colegial e foram direto para a universidade, não têm a dimensão do que significa para a classe média e para a classe média baixa ter a possibilidade de colocar um filho no Senai.

Possivelmente esses jovens que estão de camisa branca, esses jovens e essas jovens, talvez não tenham a dimensão do que os pais de vocês têm de orgulho de saber que vocês estão estudando no Senai. Vocês não sabem a esperança e a expectativa que vocês criaram nos seus pais, possivelmente sendo o primeiro da própria família a estar tendo acesso a uma formação profissional.

Na minha vida foi isso, na minha vida eu fui o primeiro filho de um total de oito irmãos a aprender uma profissão e aprendi muito rapidamente, como o Meneguelli também, que estudou no Senai, a diferença de um trabalhador sem profissão procurando emprego e a diferença de um trabalhador com profissão procurando emprego. Um é tratado como se não fosse ninguém e o outro é tratado como se fosse um profissional. E não tem nada mais importante até do que você, tendo uma profissão, poder discutir o teu salário. Quando a gente não tem profissão, a gente, primeiro, não escolhe emprego, muito menos a gente escolhe salário. A gente trabalha onde alguém oferece um emprego para a gente.

Possivelmente nessa flor da idade de vocês, vocês ainda não sintam o significado disso na vida de vocês. Vai chegar o dia em que vocês vão casar e vão ter filhos, e aí muitos de vocês vão lembrar do que o Presidente da República disse hoje. Graças a Deus existiu o Senai na minha vida, como eu acho que muitos de vocês dirão "graças a Deus o Senai entrou na minha vida", ou vocês entraram na vida do Senai. Aproveitem porque não são todos os brasileiros que têm esse direito, não são todos que têm essa oportunidade, e hoje, no Brasil, ter uma profissão significa ter acesso à possibilidade de um melhor emprego, significa ter acesso de conquistar a cidadania. Vocês sabem que as empresas brasileiras estão investindo muito em tecnologia para se tornarem cada vez mais competitivas, para produzirem cada vez mais produtos de qualidade, e quanto melhor vocês forem, mais chances de ter um bom emprego e ter uma realização profissional, melhor.

Alguns não pararão aqui. Alguns sairão do Senai, irão entrar em uma universidade e seguirão a sua vida. Outros, possivelmente, parem e falem "eu vou agora arrumar um bom emprego e vou cuidar da minha vida". Qualquer que seja a decisão de vocês e, se depender de mim, não parem nunca, porque o mundo contemporâneo, o mundo moderno exige que cada vez mais tenhamos conhecimento. Todos vocês sabem, hoje, que uma coisa que nós aprendemos, uma máquina que manuseamos hoje, daqui a três meses já está obsoleta, já está superada, e a modernização do conhecimento tem que ser cotidiana, e vocês sabem que isso é que vai garantir a vocês uma oportunidade extraordinária.

Mas, Paulo Skaf, eu tive o primeiro contato com as Olimpíadas da Matemática no Brasil ano passado, quando eu recebi alguns jovens que ganharam prêmios brasileiros, nacionais e prêmios estrangeiros. E algumas coisas me impressionaram. Primeiro, um menino sergipano de 13 anos de idade, que vai se tornar Mestre em Matemática, mesmo sem ter terminado o ensino médio. Um garoto do Ceará, de 14 anos de idade, que está na oitava série, que ganhou a medalha de ouro nas Olimpíadas Brasileiras de Matemática. E uma menina de 18 anos, também cearense, que ganhou a medalha de prata nas Olimpíadas, já cursa o Mestrado e foi aceita para Doutorado com bolsa de estudo integral em três universidades dos Estados Unidos.

Esse fato despertou em mim a seguinte idéia: Paulo Freire dizia "não tem ninguém que não seja inteligente", ou seja, as pessoas precisam ter acesso à informação e as pessoas precisam ter oportunidade. E veja que engraçado, nessas Olimpíadas do Instituto de Matemática, estados como Piauí, Ceará e outros estados do Nordeste conseguiram colocar mais estudantes nas Olimpíadas do que os alunos do ITA, aqui em São José dos Campos. E depois, discutindo com a professora que organizava, ô Sérgio Rezende, ela me disse o seguinte: "Presidente, matemática, o aluno para ir para frente, ele tem que ter um bom professor de matemática atrás dele, ajudando, porque não basta o professor dar uma aula. É preciso que ele saiba se o aluno aprendeu o que ele ensinou".

Aí me veio a idéia de fazer as olimpíadas nas escolas públicas. Você sabe que toda vez que a gente fala de fazer alguma coisa na escola pública as pessoas falam: "não vai dar certo, porque são as pessoas muito pobres, da periferia, ninguém tem interesse e não vai das quantas". Vamos tentar.

Pois bem, como disse o ministro Sérgio Resende, a grande surpresa é que se inscreveram mais de 11 milhões de estudantes. A maior olimpíada no mundo era a americana, que tinha 9 milhões de pessoas, e nós já temos mais de 2 milhões de pessoas a mais que os americanos.

O que significa isso? É que apenas a idéia e o chamamento para fazer as Olimpíadas despertou a vontade que tem dentro das pessoas de pegar as oportunidades, despertou o gênio que existe dentro de cada ser humano e nós, certamente, iremos fazer outras olimpíadas sobre outras matérias, porque nós descobrimos um jeito de atender não apenas a intenção política do Estado brasileiro, mas a vontade dos estudantes e da juventude brasileira. Certamente, essa Olimpíada do Conhecimento, eu tive a oportunidade de participar no ano passado, em Belo Horizonte, é uma demonstração de que essa meninada, depois que terminar a Olimpíada, poderá não ganhar nada mais do que um prêmio mas, certamente, quando entrarem no Senai, a sala que eles freqüentarem não vai caber o tamanho do orgulho de terem participado, de terem sido reconhecidos. E, sendo premiados ou não, não importa, o que importa é que vocês acreditaram em vocês, foram à luta e o resultado pertence à capacidade de estudo de vocês e pertence um pouco a Deus, que nós pedimos para nos ajudar todo santo dia.

Mais importante ainda, Paulo, é uma coisa que está acontecendo no nosso Brasil. Eu tenho conversado muito com o Paulo Skaf sobre a situação do Brasil e eu fico vendo como é que um país como o nosso pode fazer milagres. Aqui em São Paulo, o estudante Gabriel Tavares Bujokas, de apenas 17 anos, conquistou a medalha de ouro na Olimpíada internacional de Matemática realizada no México, em julho passado. Veja que, na Matemática, o nosso jovem de 17 anos teve uma performance melhor do que a nossa seleção sub-17, que perdeu para o México. Nós ganhamos uma medalha de ouro.

Eu tenho certeza que o que estamos fazendo vai permitir que outras olimpíadas aconteçam, que novos jovens possam se inscrever e, quem sabe, a gente volte daqui a alguns anos, e tenha, não 700, mas mil, dois mil, três mil alunos participando desta Olimpíada do Conhecimento, que é uma coisa extraordinária.

Mas, Paulo, nós temos uma preocupação e temos algumas políticas públicas envolvendo, hoje, 988 mil jovens. Nós temos o PróJovem, que é um programa feito em convênio com as prefeituras das capitais, em que a gente vai na periferia, e a todos os jovens de 17 a 24 anos que não terminaram o segundo grau, a gente está pagando uma bolsa de 120 reais; tem que ter convênio com a prefeitura, ele presta um serviço comunitário e volta a estudar, aprendendo uma profissão. Nós pretendemos atingir 200 mil jovens ainda até o final deste ano.

Nós temos a escola que os empresários também têm participado, que é a escola de fábrica. Estamos com 11 mil jovens também, de 15 a 18 anos, jovens que também não terminaram o ensino fundamental.Nós estamos, em parceria com os empresários brasileiros, colocando os meninos para aprender dentro da própria fábrica, com a empresa dando o local, e a gente paga também uma mensalidade de 120 reais, que é uma ajuda de custo para que o jovem se sinta motivado a fazer esse estudo.

Mas o mais importante Programa, Paulo, que você acompanhou, foi o ProUni. Vocês sabem que nós temos 54 universidades federais, é preciso construir outras tantas e nem sempre se tem o dinheiro para construir. Nós fizemos uma parceria com as universidades privadas, fizemos isenções de impostos, e o equivalente à isenção nós transformamos em vaga para os alunos. O sucesso foi tão extraordinário que este ano, só no começo do ano, 116 mil novas vagas foram abertas nas universidades brasileiras. E nós pretendemos, nos próximos três anos, chegar com o ProUni a 470 mil vagas. Ao mesmo tempo, nós estamos fazendo quatro universidades federais novas, estamos fazendo 32 extensões de universidades federais, sobretudo para o interior do nosso país, para regiões mais pobres, e estamos fazendo 32 escolas técnicas, uma a mais por cada região, para que a gente possa acreditar, cada vez mais, que o Brasil um dia deixará de ser um grande exportador de matéria-prima, de produtos in natura, e será um exportador de inteligência, um exportador de conhecimento. Quando o Brasil chegar nesse nível, pode ficar certo que nós estaremos competindo em igualdade de condições com as economias e os países mais desenvolvidos do mundo.

Quero terminar dizendo a vocês que, queira Deus, vocês tenham a sorte que eu tive, porque foi de um curso de torneiro mecânico, no tempo em que ser torneiro era ser um artista porque nós fazíamos tudo, tudo éramos nós que fazíamos: a ferramenta, os cálculos para fazer uma rosca, a mudança das engrenagens; a esfera, nós fazíamos com a mão; então, eu achava que nós éramos artistas. Era um negócio muito... era um artesanato muito importante. Hoje não, hoje a modernidade levou a máquinas sofisticadas. Eu fui, agora, na Nuclep, e fui ligar um torno vertical, um torno em que a placa era quase do tamanho deste palco aqui, mas você não tem que fazer nada, você aperta um botão lá, coloca um programa e vai a ferramenta comer ferro lá até a peça ficar boa.

Quando me formei no Senai, Paulo, eu fui trabalhar na fábrica de parafusos Marte, na Vila Carioca. Eu estudei na Escola Rodrigues Alves, a saudosa Escola Rodrigues Alves. E eu fui trabalhar na fábrica de parafusos Marte. Quando eu tirei meu diploma, acho que com 17 anos e alguma coisa, e eu cheguei na fábrica para trabalhar, tinha um senhor já de uns 60 anos, da minha idade hoje - naquele tempo eu era jovem e achava que 60 anos era ser velho - e esse cidadão ganhava, na época, o equivalente a 300 reais, 300 cruzados, cruzeiros, não sei que moeda, e eu ganhava um pouquinho. Mas acontece que eu estava recém saído do Senai, com uma força física imensa para fazer o que tinha que ser feito, e eu terminava produzindo mais que o senhor. E eu me achei no direito de chamar o Sr. Miguel Serrano, que era o dono da fábrica de parafusos e dizer: "olhe, eu estou trabalhando muito, eu preciso ganhar mais". E ele falou assim para mim "não, você não vai ganhar mais não, porque você deve a mim o fato de ter mandado para o Senai, então você tem que pagar um pouco". Eu falei: "peraí, que estória é essa?" Foi a primeira vez que eu pedi as contas na vida, com quatro anos e meio de fábrica, pedi as contas, fui embora, fui trabalhar na Metalúrgica Independência, ganhando o dobro do que eu ganhava na fábrica de parafusos Marte. Depois, fui trabalhar na Frismolducar, que hoje está em São Bernardo do Campo; depois teve a crise do desemprego em 1965, em que muita gente ficou anos e anos desempregada; depois, fui trabalhar na Villares, e na Villares eu fui para o Sindicato; do Sindicato, virei Presidente da República.

Estou dizendo isso porque o caminho que eu percorri, obviamente que isso é como corrida de carro, nem todo mundo consegue ser um Ayrton Senna, tem um monte lá, mas Senna, ele batalhou para chegar lá. Então, eu queria dizer para vocês o seguinte: olha, não existe nenhuma razão, por mais que vocês tenham dificuldades, por mais que vocês tenham problemas dentro de casa, não existe nenhuma razão para que a juventude brasileira não acredite que é possível construir um amanhã melhor e que é possível vocês conquistarem um mundo melhor do que aquele que vocês receberam dos seus pais. Vocês não podem desistir nunca, vocês não podem desanimar nunca e, sobretudo, vocês têm que ter, no pai e na mãe, a referência, porque se a família não estiver unida, acreditando, discutindo o problema, se ela estiver desagregada, tudo será muito difícil na vida de cada um.

Por isso, Paulo, quero dizer para você do meu orgulho de estar aqui. Eu digo para a Marisa, sempre, os meus filhos não fizeram Senai, os meus filhos saíram do colegial, foram direto para a universidade. Mas eu falo sempre para a Marisa que eu me arrependo de não ter colocado os meus filhos, com 14 anos, no Senai, porque não adianta estar fazendo o colegial, aí quer trabalhar: "ô tio me arruma um emprego, tio". Vocês não falam tio para os mais velhos? "Tio, me arruma um emprego". Aí, o que sabe fazer? Nada. Se tiver uma profissão, vocês podem ficar certos de que muitas portas se abrirão para vocês. Se tiver dez pessoas procurando emprego, e tiver uma que tenha uma profissão, pode ficar certo de que você será chamado.

Por isso, eu quero que Deus dê a vocês, primeiro, a disposição de lutar sempre e de estudar cada vez mais. Segundo, que Deus dê a vocês o que ele deu a mim. E certamente, se vocês acreditarem que vocês são capazes, vocês sairão do Senai e o mundo será pequeno diante da grandeza da vontade de vocês.

Que Deus abençoe todos vocês, que sejam felizes para sempre.

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