Surubim-PE, 11 de fevereiro de 2005
Meu caro Mendonça Filho, governador em exercício do estado de Pernambuco. Meu querido companheiro Tarso Genro, ministro da Educação. Meu querido companheiro Humberto Costa, ministro da Saúde. Meu querido companheiro Eduardo Campos, ministro da Ciência e Tecnologia. Meu querido companheiro Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional. Meu querido companheiro Jaques Wagner, secretário especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Meu caro Flávio Nóbrega, prefeito de Surubim. Meu querido companheiro João Paulo, prefeito de Recife. Meus queridos prefeitos, Luiz Heráclio, de Limoeiro; Eliseu João de Souza, de Santa Maria do Cambucá; Gilmar Alves Assunção, de Frei Miguelinho; João Barbosa Neto, de Casinhas; Joaquim Neto de Andrade Silva, de Gravatá; Luis Antonio de Araújo, de Salgadinho; Marcone Lima Borba, de Bezerros; Mário da Mota Limeira Filho, de Riacho das Almas; Miguel Gomes de Freitas, de Passira; Romero Leal Ferreira, de Vertentes; Gonçalves de Lima, de Cumaru; e a nossa companheira prefeita Welita Walquíria, de Vertente do Lerio, é a única prefeita mulher aqui presente
Meus queridos deputados Gonzaga Patriota, Maurício Rands, prefeito Lira, do Bom Jardim. Eu só posso ler os nomes que estão aqui, se não tem aqui... Meu caro Gonzaga Patriota, (inaudível) Maurício Rands, Paulo Rubem, Fernando Ferro, deputados federais,
Meu querido companheiro Eudoro Valter de Santana, diretor-geral do Dnocs. Meus queridos moradores da região de Surubim. Meus amigos e minhas amigas. Mulheres, homens, crianças do meu Brasil.
Primeiro, a alegria de estar numa região nordestina num dia de chuva. Alguém que vem de São Paulo ou do Rio de Janeiro, ou alguém que vem de uma capital do Sul não tem noção do que significa uma nuvem de chuva para nós, que nascemos aqui. E num dia gostosamente chuvoso, a gente vai inaugurar uma obra da magnitude da adutora de Jucazinho, nesta querida Surubim. Surubim, que já foi uma região próspera, grande produtora de algodão e que, depois do bicudo, sofreu a amargura do descenso na pirâmide do desenvolvimento do nosso país.
Mas nós estamos aqui hoje, para cumprir uma sinalização. A todos os ministros que assumiram no meu governo eu disse uma única coisa: montem os seus Ministérios, escolham as pessoas que vocês entenderem que são da confiança de vocês, mas as pessoas têm que ter duas condições básicas para serem contratadas: têm que ter competência e têm que ser honestas para poder fazer o trabalho. E por favor, não comecem nenhuma obra nova antes de a gente concluir o que está para ser feito no Brasil, porque ao longo de muitos e muitos anos uma das deficiências do Brasil, dos estados e dos municípios era exatamente essa: um prefeito, um governador ou um presidente da República tomava posse e, se tivesse uma obra em andamento, do seu adversário, ele paralisava aquela obra e ia começar uma dele. Ele não conseguia terminar a obra dele, o outro que entrava também não dava continuidade, e começava outra obra.
Às vezes, nós chegamos num estado ou numa cidade, tem três, quatro obras paralisadas e, muitas vezes, o administrador fazendo uma obra nova, porque no Brasil se criou a cultura de que é preciso deixar a cara do governante na obra. E isso faz com que, muitas vezes, a gente tenha lido na imprensa brasileira o cemitério de obras paralisadas no nosso país.
E o que disse ao companheiro Ciro Gomes, eu disse ao companheiro Humberto Costa, quando assumiu a Saúde: "Eu não quero um hospital novo, sem antes a gente estar fazendo funcionar todos aqueles que já existem no país", porque nós sabemos que o problema da saúde, no Brasil, não é a construção de um ou dois hospitais novos. Muitas vezes, é o atendimento das pessoas, muitas vezes o carinho com que a gente trata a pessoa, na recepção de um hospital, vale mais do que a própria consulta.
Então, essas coisas é que nós estamos colocando em prática, quebrando velhos tabus, quebrando velhos hábitos, quebrando costumes históricos. E vocês sabem que é muito difícil. Toda vez que a gente quer fazer uma coisa nova tem sempre muita gente... Tem gente que inaugura uma obra sem nenhuma responsabilidade. Vai lá, inaugura a obra, faz uma placa, se não funcionou não tem problema, não vai voltar mais lá. Deixa para lá, o povo foi lá, ouviu o discurso, aplaudiu, já votou, teve eleição mesmo, acabou, daqui a quatro anos é outra conversa. Vocês já viram isso aqui também? Isso, a gente vê no Brasil inteiro.
Aliás, eu me lembro de uma vez, eu morava num lugar, em São Paulo, chamado Parque Bristol, um lugar muito pobre, já perto de São Bernardo do Campo. Era uma barreira desgraçada, daquela que você levantava para ir trabalhar de manhã, carregava 10 quilos de barro vermelho na sola de cada sapato. Eu andava com uma galocha embrulhada num jornal e, quando chegava na padaria, tirava o sapato cheio de barro, ou melhor, tirava a galocha, embrulhava a galocha num jornal, botava embaixo do braço, entrava no ônibus, ia trabalhar, lá eu lavava a minha galocha e voltava limpa.
Por que eu estou contando isso? Porque, uma vez, era eleição, em 1968, Ciro Gomes, se não me falha a memória, ou 1972. Eu me lembro que era um sábado à tarde, eu estava sentado perto de um campo de futebol e veio um caminhão da prefeitura, trazendo poste, fechando aqui de meio fio, trazendo guia, sarjeta, poste e cano, e jogando por tudo quanto é rua, e "não-sei-das-quantas"... Eu sei até o nome do candidato, não vou nem falar quem é. Mas eu sei, é vivo, até tenho uma boa relação com ele, hoje. Foi lá, encheu o Parque Bristol de poste, de cano d'água, de guia de sarjeta. E dali a um mês e pouco teve a eleição, e o cara ganhou as eleições. Eu me lembro como se fosse hoje: uma semana depois recolheram tudo que colocaram na rua e nós ficamos "chupando o dedo" mais seis anos, para que viesse uma coisa para lá.
Então, no Brasil isso acontece. Isso acontece, às vezes, pela pressão de um prefeito, que fala para o presidente: "Não, tem que inaugurar porque tem eleição, Presidente. Inaugura que o resto eu tomo conta". Tem pressão de governador, tem pressão de deputado, tem pressão do povo, ou seja, o que não falta é "demoniozinho" para pedir para você fazer uma coisa precipitada e errada.
Agora, quando você chega à Presidência da República, o grau de responsabilidade que você tem é de tal magnitude que às vezes é melhor você parar, contar até 10, pensar e fazer, do que você fazer de forma precipitada, porque um presidente da República não tem estado. Eu tenho que gostar do Acre o tanto que eu gosto de São Paulo, o tanto que eu gosto de Pernambuco, o tanto que eu gosto do Amazonas, o tanto que eu gosto do Ceará, o tanto que eu gosto da Bahia. Primeiro, o presidente não tem estado; segundo, o presidente não tem cidade. Eu sou de Caetés, sou de Garanhuns, sou de São Paulo, sou de São Bernardo, sou de Santos. Para mim, toda cidade é cidade brasileira.
Então, nós temos que fazer as coisas sem olhar se quem está lá é nosso amigo ou nosso adversário. Nós temos que saber se o povo precisa ou não precisa das coisas que nós estamos fazendo.
E por isso eu estou aqui hoje, porque tenho um compromisso, esse compromisso que me fez escolher o Ciro Gomes ministro da Integração. E por que o Ciro Gomes na Integração? Porque, embora seja um paulista de Pindamonhangaba, tem toda a sua experiência política no estado do Ceará, em Sobral. Depois, tem a sua experiência administrativa, como prefeito, como deputado e como governador e, depois, conhece o Nordeste. E como eu tinha na cabeça algumas grandes obras para o Nordeste, eu precisava ter alguém que conhecesse o Nordeste como ministro da Integração. Mas, sobretudo, não alguém do Nordeste, alguém que tivesse competência, fosse desaforado para enfrentar as contrariedades e, sobretudo, desaforado para moralizar a máquina administrativa de um Ministério que, segundo a imprensa, era utilizado apenas para distribuir emendas no Orçamento. Então, este é o meu companheiro Ciro Gomes.
E o Ciro Gomes trabalha com a seguinte convicção: no Nordeste brasileiro não tem medidas paliativas. Ou nós assumimos a responsabilidade de transformar o Nordeste brasileiro daqui a 15, 20 ou 30 anos numa região altamente desenvolvida, ou daqui a 30 anos a gente vai estar jogando a culpa na indústria da seca, a gente vai estar jogando a culpa no estado de São Paulo, a gente vai estar jogando a culpa num monte de coisas: por que o Nordeste continua pobre? O Nordeste continua pobre porque o Nordeste nunca foi tratado como uma região prioritária para o desenvolvimento, sempre ficou por conta dos coronéis da política local. Nunca houve um projeto deste do governo federal, e por isso nós assumimos essa responsabilidade de dizer, aqui, a vocês: nós estamos saindo daqui e indo para Caruaru. Vamos inaugurar a adutora. Aqui, já descerramos a placa e daqui vamos para Caruaru. Lá, nós vamos inaugurar uma grande obra de tratamento odontológico, um grande centro de saúde bucal para, inclusive, tratar o câncer na boca das pessoas. Você sabe que dente não era olhado como doença, porque só quem tem dor de dente é pobre, rico não tem. Rico tem dentista do dia em que nasce ao dia em que morre. Quando nasce, para não deixar ficar torto; quando morre, para tirar os ouros da boca. E nós nascemos sem dentes e morremos sem dentes.
Então, essa política de saúde bucal é uma coisa que eu dou a maior importância, porque nós conhecemos no Brasil meninas e meninos de 20 anos de idade, 18 anos de idade, que já não têm dentes na boca. E se não têm dentes na boca, não podem sorrir. E se não sorrir, sabe, a alegria de um brasileiro que não sorri, que não pode viver de boca aberta, cantarolando as suas riquezas...
E vamos também inaugurar, fazer um protocolo com a Universidade Federal de Recife, de Pernambuco, para levar uma extensão da Universidade Federal para Caruaru, para que a Universidade Federal possa se estender pelo estado. Já fizemos um acordo de levar a Universidade Rural para Garanhuns e vamos levar, agora, a Federal para Caruaru. Nós estamos levando a possibilidade dos jovens das cidades pobres, das cidades mais pobres e menores, poderem ter acesso à universidade numa região mais próxima deles, para não terem que ir a Recife apenas para estudar.
E, também, nós temos três grandes coisas para o Nordeste brasileiro, que é um sonho que nós vamos ter que concretizar. Primeiro, a questão das águas do rio São Francisco. Eu sei da importância disso, pelo menos para atender à necessidade de beber água de pelo menos 10 milhões de irmãos nordestinos. E nós não temos direito de ver uma parte da água do rio São Francisco ser despejada no oceano, se misturar com a água salgada, sem que a gente possa tirar um tiquinho dela, uma cuia d'água, para poder levar para 10 milhões de famílias beberem. Portanto, nós vamos fazer.
E essa é uma obra que eu tenho o prazer de ir, junto com o Ciro Gomes, dar o pontapé inicial. E eu espero que a gente vença todas as barreiras que temos pela frente, e não é barreira do Ibama, não, é barreira de alguns governadores, é barreira muitas vezes do poder Judiciário; não é barreira do Ibama não, porque o Ciro tem trabalhado muito junto com o Ministério do Meio Ambiente.
Então, o projeto da água é uma coisa maravilhosa que eu sonho que poderá dar maior sustança ao povo do Nordeste, porque, embora as pessoas não saibam, eu sei o que é ir pegar água num açude, num pote, e deixar a água assentar, porque a gente não tinha cultura nem para ferver nem para coar. A gente tomava daquela água e depois as canelinhas ficavam dessa grossura, o barrigão dessa grossura, a gente pensava que era saúde. E não era saúde e não foram poucas as vezes em que eu, com sete anos de idade, tinha que ir com a minha irmã buscar pote d'água. Então, eu sei o que é a gente andar 12 léguas, 16 léguas para trazer um pote d'água na cabeça. E, às vezes, não sabe se é água, se são fezes de animais, se é caramujo, se é urina, e é daquela água que tem que beber.
Então, quem está no "bem bom", não sabe o sacrifício. Quem está no "bem-bom", não sabe o que é isso. Como nós não temos dinheiro para comprar água "Perrier", para beber, água boa, então nós bebemos. Queremos tratar a água do rio Capiberibe, torná-la saudável para que as nossas crianças possam beber, ficar barrigudinhos, mas de saúde, não de verminose como a gente era antigamente.
Uma outra obra importante para o Nordeste, que eu sonho que vai ser o grande projeto do Nordeste, é o projeto de Biodiesel, sobretudo da mamona, para as pessoas do semi-árido nordestino. A Petrobrás e todos os ministros sabem que este projeto do Biodiesel pode ser, inclusive, uma das grandes fontes de desenvolvimento do Nordeste. Nós vamos incentivar o pequeno a produzir mamona. Da mamona vamos fazer o óleo, a BR vai buscar o óleo, vai refinar, a palavra que eles vão utilizar é muito chique que nem eu consigo... (inaudível), mas eles vão fazer o óleo bem refinado para a gente começar a colocar 2% nos ônibus, caminhões e tratores. Se Deus quiser, logo, logo a indústria automobilística vai estar produzindo carro à diesel e, aí, quando um sertanejo estiver vendo passar um carro, ele vai falar: "puxa vida, eu que passei fome a vida inteira, agora aquele carro está andando com óleo produzido de mamona da minha terra" ou quem sabe do dendê, ou quem sabe do girassol ou da soja. O dado concreto é que este é um grande projeto e ele é voltado, sobretudo, para o Nordeste e, dentro do Nordeste, é voltado para priorizar a agricultura familiar.
Um outro grande projeto que nós temos para o Nordeste é a duplicação que o Ciro Gomes falou, da BR 101. Eu penso que mais ou menos no mês de março, ou no começo de abril, nós vamos dar a ordem de serviço, primeiro no estado do Rio Grande do Norte, depois Paraíba, depois Pernambuco, até Palmares, me parece que vem, e ainda falta o projeto executivo para a gente fazer na Bahia, Alagoas e Sergipe. Aí a gente vai ter uma rodovia duplicada, ligando, praticamente, grande parte do litoral nordestino, gerando desenvolvimento, gerando empregos, gerando renda e fazendo com que o povo possa transitar sem perigo de morte, sem perigo de um desastre de carro por todo o Nordeste brasileiro. Esta é outra obra que eu considero extraordinária para o Nordeste brasileiro.
Então, essas três obras serão marcantes para o desenvolvimento do Nordeste brasileiro, não apenas para Pernambuco, mas para todo o Nordeste, que precisa ter uma chance. Já teve em outros momentos. A Sudene, quando foi criada pelo Celso Furtado, em 1959, se transformou no grande cérebro do desenvolvimento do Nordeste. O que aconteceu? Durante muito tempo ela funcionou bem, mas depois de um certo tempo, a Sudene foi abocanhada por muitos, que a gente poderia dizer bandidos da política brasileira, que desvirtuaram o papel da Sudene. E no outro mandato, o presidente resolveu acabar com a Sudene, para acabar com a corrupção. Ou seja, não poderia prejudicar a Sudene para acabar com a corrupção; prendesse os corruptos, se soubesse quem eram, seria mais fácil do que acabar com a Sudene.
Nós e o ministro Ciro Gomes já mandamos para o Congresso a reestruturação da Sudene e da Sudam. Obviamente que precisa de dinheiro, e estamos numa peleja boa com os governadores, agora, para ver se a gente consegue colocar um pouco de dinheiro na Sudene e na Sudam para que elas sejam, definitivamente, as duas instituições, as grandes produtoras de projetos de desenvolvimento para o Nordeste brasileiro.
E enquanto isso, meus companheiros, a gente vai andando por este país, fazendo as obras que têm que ser feitas. E hoje, particularmente, é um dia em que eu estou feliz, duplamente feliz, não só porque eu estou em Surubim, inaugurando uma obra e porque vou a Caruaru anunciar coisas importantes, mas porque hoje de manhã eu me levantei para ver os jornais e fiquei feliz, sabem por quê? As manchetes estavam assim: "Indústria cresce mais do que nos últimos 18 anos". Ou seja, a indústria brasileira cresceu em 2004, só cresceu, antes, em 1986, numa demonstração que nós encontramos o caminho.
Daqui para a frente, gente, não tem choro e nem vela. A economia, este ano, vai ser muito melhor, nós vamos crescer mais, não existe lugar para o pessimismo. Ao invés de a gente se levantar de manhã e ficar dizendo: "Puxa vida, eu vi na televisão, as coisas vão dar errado", e tal, ao invés de ficar choramingando, levante a cabeça e fale: "o que que eu posso fazer pelo meu país hoje? O que que eu posso fazer pela minha cidade?". E levantar a cabeça para as coisas darem certo neste país.
O país está ocupando um papel muito importante. Quem viaja o mundo sabe que este país nunca foi tão respeitado como é hoje, nunca houve tanta esperança como existe hoje. E nós sabemos que cumprir ou transformar essa esperança em sonho não é do dia para a noite. Se fosse do dia para a noite, outros já teriam feito.
Fazer esse sonho se tornar realidade é um trabalho que tem que ser feito com muita perseverança, enfrentando adversidades, não baixando a cabeça nunca, não achando que a coisa está ruim nunca. Não tem nada que esteja ruim que a gente não possa melhorar. É só a gente acreditar.
Então, vejam, esta água que está aí começou há 11 anos, não começou comigo não. Mas faz 11 anos que vocês, todo dia, se levantam e falam: "Quando é que vem alguém inaugurar? Quando é que vem alguém dizer?". Finalmente, vocês agora podem dizer: "vamos beber água boa, tratada". Vamos ter a barriga razoável e não muito grande, mas vai ser de saúde e não de doença como tínhamos no tempo em que eu era criança, no estado de Pernambuco.
Que Deus abençoe vocês e que vocês possam ajudar este país a continuar crescendo e gerando muito mais riqueza do que já gerou até hoje.
Sorte!
