Brasília-DF, 29 de dezembro de 2004
Meu caro Márcio Fortes, ministro interino do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Meu caro companheiro Luiz Dulci, ministro de Estado, chefe da Secretaria Geral da Presidência da República. Minha companheira Marisa. Meu caro General-de-Exército Francisco Roberto Albuquerque, comandante do Exército
Senhores generais MuxFeldt. General Castro. General Catão. General Ésper. General Minati. Meu caro general Reis, coordenador do programa Soldado-Cidadão. Senhores oficiais, praças. Caros soldados cidadãos. Meus amigos. Minhas amigas.
Fotógrafos, jornalistas e todos que estão aqui presentes.
Para mim era extremamente importante ver com os meus olhos o resultado de um trabalho que se iniciou no mês de agosto deste ano, portanto, há muito pouco tempo. E esta é uma experiência que pode resultar em muitas outras experiências bem-sucedidas para um segmento da sociedade brasileira que me preocupa, enquanto Presidente da República, mas me preocupa enquanto pai de cinco filhos.
Ou seja, como não frustrar a expectativa, os sonhos e a esperança de uma juventude que, ao longo de muitos e muitos anos, foi tratada como se fosse um segmento de segunda classe ou de segunda categoria? E quando pensamos neste projeto Soldado-Cidadão era por que nós queríamos combinar três coisas que eu acho necessárias na formação de um ser humano: o aprendizado, o amor à sua pátria e a disciplina. Coisas sem as quais a gente não consegue formar um bom cidadão. Poderemos formar profissionais em muitas áreas, mas formar um cidadão na concepção maior da palavra, nós entendemos que era preciso fazer esta experiência nas Forças Armadas Brasileiras.
Nas Forças Armadas que há mais de 15 anos não tinham 100 mil novos recrutas no seu contingente. A crise econômica tinha batido forte às portas das Forças Armadas também. E nós entendemos que era preciso, num primeiro momento, dar chance a um conjunto de jovens brasileiros, das mais diferentes camadas sociais, mas a maioria das camadas mais pobres das periferias dos grandes centros urbanos brasileiros, e através do Exército brasileiro, dar a eles uma chance. Primeiro, de se formarem enquanto cidadãos; segundo, de terem a chance de servir ao nosso Exército; terceiro, terem a chance de, aqui, aprender algo que a gente não aprende nas ruas; aprender algo que a gente não aprende nas noites; aprender algo que, muitas vezes, não temos a chance de aprender, sequer, dentro das nossas casas em função, muitas vezes, do processo de degradação da estrutura social no país e, sobretudo, da estrutura familiar do país.
E, quando vim com a minha esposa visitar estes jovens, aqui, em Brasília, e pude ter acesso a alguma coisa que vocês estão aprendendo, eu disse ao general Albuquerque e quero dizer para vocês: valeu a experiência por estes poucos meses. Eu fico imaginando, quando todos nós: Forças Armadas brasileiras, empresários brasileiros, governos brasileiros, centros de ensinos como Sesi, Senac, Senai e tantas outras instituições no Brasil afora, que podem através de um projeto como este, ajudar a fazer com que os nossos jovens, ao saírem da sua infância, não percam o sonho que vão construir nos primeiros anos de adolescência com a frustração, quando atingirem a idade adulta e precisarem de um emprego, precisarem de uma universidade, que não conseguirão obter.
Nós fizemos duas coisas importantes este ano para a juventude brasileira, duas marcantes, três na verdade, porque uma vai ser votada hoje no Congresso Nacional, que é um projeto específico para a juventude, onde nós vamos tentar cuidar de recuperar alguns milhares de jovens brasileiros que terminaram o ensino fundamental, desistiram da escola antes de completarem o segundo grau, estão com 18, 19, 20 anos e não têm perspectivas de voltarem a estudar, não têm perspectivas de trabalharem. Nós aprovamos uma verba no Orçamento. O Ministro Secretário Geral da Presidência da República está cuidando disso, para que a gente possa ter uma política de incentivo desse jovem para completar o segundo grau e, quem sabe, dentro do segundo grau, aprender uma profissão e ter a possibilidade de entrar no mercado de trabalho. Esta é uma coisa importante.
A outra coisa importante que também foi aprovada este ano e já começa a funcionar no ano que vem para a juventude brasileira é o ProUni. O ProUni é um acordo que o governo fez com as universidades particulares e as universidades filantrópicas, em que elas deixam de pagar alguns tributos para o governo e este dinheiro será transformado em bolsa de estudo para os jovens brasileiros que estudarem em escolas públicas. Uma parte para os jovens negros e uma parte para os jovens indígenas.
Nós tivemos a felicidade do Programa ter mais sucesso do que nós imaginávamos. Já temos garantidos para o governo, 112 mil novas vagas nas universidades brasileiras. Com o Enem que fizemos do dia 6 ao dia 17 de dezembro, 64 mil jovens já poderão entrar na universidade no ano que vem, totalmente gratuita. Eu vou participar de um ato em São Paulo com milhares de jovens, inclusive com a comunidade negra e com os indígenas. Ainda temos mais 47 mil vagas e estamos fazendo uma peneira nos Enems que foram feitos nos anos anteriores para ver se a gente consegue completar todas as vagas colocadas à disposição do governo.
Em terceiro, este projeto Soldado-Cidadão é um sonho que eu trouxe para o governo e consegui, com a compreensão das Forças Armadas, começar a executá-lo. Na verdade, é um processo de aprendizado de todos nós, dos nossos jovens que estão tendo uma experiência nova. Mas eu não tenho dúvida nenhuma que uma experiência rica, às vezes, pode ser rígida, mas a gente vai dar valor à rigidez deste momento. Quando a gente casar e tiver filhos é que vai perceber o quanto foi bom ter tido a oportunidade e a chance que vocês estão tendo, aqui, nesta extraordinária idéia do Soldado-Cidadão.
E também, com o objetivo de fazer com que vocês saiam daqui, não apenas formados enquanto homens, para ajudar a cuidar das suas famílias, mas para que saiam mais preparados para adentrarem no mercado de trabalho e para que possam, a partir daí, construir o futuro. Lógico que isso aqui é apenas uma iniciação, mas eu tenho certeza que nestes poucos meses que os nossos queridos meninos estão aqui, eles já aprenderam mais do que muitos anos na ociosidade... até pela falta de estrutura da nossa família, de dar a nós essa oportunidade. Nem todo pai, nem toda mãe tem a condição econômica de dar ao filho a educação adequada, alimentação adequada e, sobretudo, a disciplina adequada.
Eu, que na véspera de Natal fui com a minha mulher passar o final de tarde com os catadores de papéis de São Paulo, numa organização extraordinária, onde homens que tinham tudo para se transformarem em párias da sociedade, estão recuperados como cidadãos pela organização. E fomos lá porque o governo fez um convênio para financiar a criação de cooperativas dos catadores de papéis e os depoimentos que nós ouvimos demonstraram que não tem cidadão perdido definitivamente. Na hora que aparece uma oportunidade, o ser humano se recupera e vai para a frente.
Agora, estou aqui, na véspera do Ano Novo, com uma significativa representação da nossa juventude. Meninos que, possivelmente, não trabalhavam antes de virem para cá, e não trabalhavam, não porque não queriam, não trabalhavam porque não tinham emprego. Meninos que, possivelmente, já tinham desistido do estudo porque mesmo passando no vestibular não conseguiram pagar 800, 900 reais por mês numa universidade. Nós estamos dando um processo de iniciação para essa juventude.
Eu saio daqui realizado por duas coisas, Albuquerque. Primeiro, pelo prazer dos oficiais-generais e de todos os oficiais das Forças Armadas, pelo prazer que vocês estão tendo no cumprimento desta função. Segundo, pela expectativa do que vocês podem produzir.
Este ano, mais de 10 empresas multinacionais, nas mais diferentes regiões deste Planeta, em discursos proferidos publicamente, elogiaram o povo brasileiro e, sobretudo, elogiaram a classe trabalhadora brasileira, porque empresas como a Mercedes-Benz, como a Ericson, ou seja, em pesquisas feitas no mundo inteiro, a melhor qualidade das peças produzidas e a maior capacidade produtiva são dos trabalhadores brasileiros.
A Ford da Bahia está formando jovens para trabalhar em 900 horas e eles produzem com mais eficácia do que se produz nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo. E me dizia o general Catão da qualidade do aprendizado de vocês, da criatividade de vocês. Eu não tenho dúvida nenhuma que esta é uma pequena chance, é apenas o início de um processo que nós colocamos em andamento. E com a criatividade da juventude brasileira, com essa criatividade fértil, com esse jeito de ser do povo brasileiro, eu não tenho dúvida que vocês, jovens, não perderão uma oportunidade. Nós não terminamos os nossos compromissos aqui não, nós temos que nos preocupar com os passos que vocês vão dar depois que deixarem o Exército brasileiro, daqui a alguns meses, e temos que comprometer não apenas nós do governo, mas temos que comprometer a sociedade brasileira, para permitir que vocês, que tiveram uma iniciação profissional, possam ter a oportunidade de um emprego mais fixo para construírem as suas vidas.
Com estas palavras, eu quero agradecer ao Exército brasileiro por este extraordinário trabalho. Para mim foi muito importante que a imprensa viesse assistir, porque não é apenas a formação profissional, para mim é a questão da disciplina, do respeito hierárquico, da referência, do amor à pátria, do amor aos valores deste país.
Eu acho que nós não iremos construir a sociedade dos nossos sonhos se as pessoas não aprenderem a gostar do Brasil. E é por isso que nós falamos tanto na auto-estima; é por isso que nós falamos tanto no bem-querer deste país e, sobretudo, vocês soldados que terminaram o hino de vocês cantando um refrão, aqui, que eu acho que é a marca para qualquer ser humano, ou seja: "a paz, queremos com fervor, a guerra só nos causa dor, porém, se a pátria amada for um dia ultrajada, lutaremos sem temor". É esse o lema que precisa predominar na nossa cabeça se nós quisermos construir uma nação forte, soberana, respeitada e com homens e mulheres bem formados e, sobretudo, com homens e mulheres bem mais brasileiros do que gerações anteriores.
Meus parabéns, muito obrigado, e feliz Ano Novo para todos vocês, sobretudo, para a juventude, que transmitam um abraço aos seus pais, aos seus irmãos, aos seus parentes e digam que a gente pode não fazer tudo que a gente quer fazer, mas nós vamos fazer o que for possível para que a juventude brasileira não deixe nunca de sonhar e para que ela possa transformar esse seu sonho em realidade.
Feliz 2005 para todos vocês.
