Discurso do Presidente Lula: encontro com representantes da comunidade brasileira Nagóia-Japão

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Nagóia-Japão, 28 de maio de 2005

Nós, com essa visita que fizemos ao Japão, demos um passo muito importante para que as relações Brasil-Japão sejam alavancadas e a gente possa construir uma relação mais forte com o Japão.

Essa relação a ser construída, mais forte do que hoje, ela passa por uma grande relação política, cultural e comercial. E ela passa por discutir com o governo japonês e com o primeiro-ministro, com a Câmara Japão-Brasil, com a Câmara de Deputados, com os brasileiros que estão aqui e os deputados japoneses, para que a gente consiga fazer com que o povo brasileiro, que está aqui, tenha o mesmo tratamento que os japoneses têm no Brasil, que já estão lá há muito tempo.

Lógico que esse é um processo que demanda acordos políticos. O Ministério da Educação vai ter que vir muitas vezes ao Japão, o Ministro da Educação do Japão vai ter que ir muitas vezes ao Brasil, passa pelo fato de o Ministro da Saúde do Brasil vir aqui e o Ministro da Saúde do Japão ir ao Brasil, os técnicos visitarem, conhecerem a realidade para que a gente vá construindo a possibilidade de os brasileiros que estão no Japão terem cidadania total, como têm os japoneses que estão no Brasil. Esse é um desejo, esse é um compromisso do governo, de trabalhar, o governo do Brasil e o governo do Japão, para que a gente possa atingir essa plenitude de tratamento entre os dois povos.

Vocês sabem que em 2008 completam 100 anos da imigração japonesa para o Brasil. Aliás, está aqui a nossa querida Tizuka Yamasaki, que acaba de lançar o Gaijin II. É a saga do povo japonês do começo do século passado, mas também termina com a saga do povo brasileiro, já aqui no Japão. É um filme belíssimo, deve estar nos cinemas aqui, de Nagóia. Quem quiser assistir vá, leve um lenço, porque certamente vai chorar no cinema. Mas compensa ir ver.

Eu queria só dizer a vocês o seguinte: nós tivemos reuniões com as comissões que o nosso Consulado, que o nosso Cônsul nos apresentou, nós temos uma demanda dos problemas que vocês estão passando aqui, essa demanda eu vou levar para o Brasil e os ministros de cada área, junto com o Embaixador do Japão no Brasil, o Embaixador brasileiro no Japão, o nosso Cônsul, e com os ministros do Japão, nós vamos tratar de encaminhar soluções para todos esses problemas que hoje ainda perturbam a vida do povo brasileiro, sobretudo na questão da educação e na questão da saúde.

A questão da saúde não é um problema do Japão, é um problema do mundo. Nenhum país aceita que médico de outro país faça atendimento naquele país. No Brasil, hoje, nós temos problemas com os jovens que se formaram em Cuba, voltaram para o Brasil e não podem exercer a profissão de médico. Nós temos problemas de médicos italianos que vão para o Brasil para trabalhar de graça e não podem exercer a profissão. Então, esse é um problema delicado, que passa por um profundo acordo entre os governos, mas sobretudo entre as entidades que representam os médicos no Japão e no Brasil. O ideal é que a gente possa criar condições de ter médicos brasileiros aqui, atendendo à comunidade brasileira em todo o Japão. Esse é o ideal. Vamos ver que tipo de convênio podemos fazer, porque o primeiro-ministro Koizume demonstrou total boa vontade, quem participou da reunião ficou encantado com a disposição do Primeiro-Ministro Japonês, de tentar a fundo esse entrosamento entre o Brasil e o Japão, de forma mais forte, de forma mais positiva.

Vocês receberam aqui, em Nagóia, há um mês, o Presidente do Sebrae que, num acordo com o Banco Interamericano, vai investir 3 milhões de dólares no programa para dar formação de empreendedorismo aos brasileiros que estão aqui no Japão, para tentar dar a eles um mínimo de iniciação de empreendedor, para que eles possam cuidar melhor das coisas que estão fazendo aqui ou para que eles possam se preparar melhor quando quiserem voltar ao Brasil, e isso o Consulado já tem informado, o projeto já está pronto e nós vamos começar a preparar os brasileiros para que eles possam estar melhor preparados para o retorno à sua terra natal ou para até continuar trabalhando aqui no Japão.

Por último, dizer para vocês que meu desejo mesmo é que um dia todos vocês possam regressar ao Brasil com a possibilidade de ter emprego, com a possibilidade de levar a vida com a dignidade que todos nós precisamos levar. Eu sei que a maioria que sai do Brasil, sai para trabalhar, sai em busca de oportunidades, sai na tentativa de construir fora do Brasil aquilo que não pode construir no Brasil. Sei das dificuldades dos nossos adolescentes que estão aqui, que não terminaram o ensino do segundo grau no Brasil, que não falam japonês e que têm dificuldade para entrar numa escola particular porque não podem pagar. Nós vamos ter que encontrar uma solução porque não nos interessa que nenhum jovem brasileiro se vá da escola porque não tem condições de pagar essa escola.

Nós vamos tentar encontrar um jeito de fazer um convênio com o governo do Japão para ver o que cada país pode fazer para dar um atendimento a esses adolescentes, e também cuidar para que as nossas crianças, que estão aqui, tenham a melhor formação possível. Mesmo aquelas que não podem estudar nas escolas particulares, nós vamos ter que cuidar para que aquela criança tenha qualidade de educação, e eu acho que isso nós vamos alcançar a partir dessa visita que fizemos ao Japão.

Quero dizer a vocês que regresso ao Brasil convencido de que a relação do Brasil com o Japão e do Japão com o Brasil vai melhorar substancialmente, vai melhorar do ponto de vista do comércio. Acho que o Brasil vai comprar mais e vai vender mais, vai melhorar do ponto de vista do turismo. Eu acho que os japoneses... vejam aqui, os japoneses cantando música nordestina, os japoneses cantando "Luar do Sertão", ora, se com tanta facilidade eles aprenderam a cantar essas duas músicas que são dois símbolos brasileiros, muito mais fácil será para eles quando estiverem no Brasil, na rota do Rio para o Japão, para que possam conhecer as belezas que o Brasil pode oferecer aos turistas japoneses.

Um povo japonês que aprende capoeira e que aprende a cantar com a facilidade que já cantaram aqui, tem muito a ver da sua relação com o povo brasileiro. O que fica demonstrado, com esse show aqui, é que quando há disposição e vontade, não tem idioma, não tem cultura que não permita que a gente não aprenda as coisas do país em que a gente está vivendo.

O Japão não é um país estranho, o Japão está dentro do Brasil há 100 anos, a nossa relação já existe há 100 anos, e eu acho que a partir de agora ela vai melhorar substancialmente para o benefício dos brasileiros, aqui, e para o benefício dos japoneses lá no Brasil.

Quero me despedir de vocês dizendo, do fundo do coração, porque eu não poderia vir a Tóquio e de Tóquio ir embora, sem passar em Nagóia para apertar a mão, se não de todo mundo, do conjunto muito grande de pessoas aqui. E é importante que eu esteja com deputados, com ministros, com governadores, para que eles percebam que vocês, mesmo aqueles que estão fazendo um baita sacrifício, são vencedores. Vieram para cá, não abaixaram a cabeça, levantaram a cabeça e estão trabalhando como sempre trabalharam no Brasil. E, se Deus quiser, daqui construirão a possibilidade de ter um retorno que lhes permita uma vida muito melhor.

Eu quero, do fundo do coração, dar um beijo em cada criança, em cada mulher, em cada homem, e dizer que se eu pudesse transmitir, daqui, eu transmitiria um abraço e um beijo para os familiares de vocês que estão no Brasil.

Muito obrigado, que Deus os abençoe, boa sorte, nós vamos fazer a nossa parte.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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