Discurso do Presidente Lula: visita a áreas atingidas pela seca na região Sul

 

Coronel Freitas-SC, 16 de março de 2005

Meu querido amigo e companheiro, governador do estado de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira. Meu amigo Germano Rigotto, governador do estado do Rio Grande do Sul. Meu companheiro e amigo Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional. Meu querido companheiro Miguel Rossetto, ministro do Desenvolvimento Agrário. Meu querido companheiro José Fritsch, secretário especial da Aqüicultura e Pesca. Nossa querida senadora Ideli Salvatti. Meus queridos companheiros deputados Valdir Colatto, Jorge Boeira, Cláudio Vignati, Luci Choinacki, Adão Pretto, Henrique Fontana, Orlando Desconsi, Maria do Rosário, Beto Albuquerque, Paulo Pimenta. Meu querido amigo Milton Mendes, presidente da Eletrosul. Meu querido deputado Marco Maia, que está aqui, e não colocaram o nome dele na minha nominata

Meus queridos representantes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul. Da Fetraf, o companheiro Tortelli. O companheiro Valmir. Meu caro prefeito Lenoir Pelizza, prefeito de Coronel Freitas. Meus amigos e amigas, prefeitos e prefeitas da região. Vereadores aqui presentes, vereadoras. Secretários e secretárias de Estado e do estado de Santa Catarina. Meu caro Saretta, nosso prefeito de Concórdia. Meus amigos e minhas amigas.

A alegria de estar aqui, no meio de vocês, é muito maior do que as medidas anunciadas pelo nosso governo no último dia 11, pelo ministro Miguel Rossetto. E eu estou aqui, apesar de já ter chovido na região, porque no dia 3 de março, quando fiz a reunião com os movimentos sociais e com os deputados, eu assumi o compromisso de que na semana seguinte nós anunciaríamos as propostas e na outra semana eu viria à região, independentemente se chovesse ou não.

Estou aqui para dizer para vocês que nestes momentos de crise, em que Deus muitas vezes nos chama a atenção, ao invés de ficarmos apenas reclamando dos acontecimentos, é preciso que a nossa sabedoria permita que a gente, com muita tranqüilidade, discuta os próximos anos das nossas vidas e das nossas famílias.

Para um pernambucano que, em 1952, saiu de Garanhuns fugindo da seca e que durante esses anos acompanhava, pela imprensa brasileira, o infortúnio da seca no Nordeste, era difícil acreditar que um dia eu viria ao Sul do país discutir a questão da seca, era muito difícil. Para nós, nordestinos, é humanamente impossível imaginar que o Sul, região considerada a mais rica do país tivesse, no começo do século XXI, os mesmos problemas que nós temos, já detectados há mais de 300 anos.

E é muito importante que a gente atente para a rapidez com que o movimento social - com a participação de sindicatos representados pela Fetraf-Sul, da Via Campesina, do MAB e de todas as entidades reunidas no Palácio do Planalto - para a rapidez com que as medidas foram tomadas e anunciadas para vocês. Isso, porque nós estamos acumulando experiências, tanto para enfrentar a seca, quanto para enfrentar a cheia.

Vejam vocês, no dia em que eu estava reunido com o movimento do Sul do país para discutir a seca, meia hora depois que terminei de discutir a seca de uma região que eu pensava que não tinha seca, eu me reuni com a prefeita de Teófilo Otoni, em Minas Gerais, uma região seca, para discutir as enchentes que estavam acontecendo em Teófilo Otoni. E eu pensei: mas Deus é sábio mesmo. De vez em quando Deus nos dá um puxão de orelha para que a gente utilize mais a nossa cabeça, a nossa inteligência e para que force a gente a pensar no nosso futuro com muito mais sabedoria e com muito mais garantia.

Nenhuma cidade brasileira pode deixar de pensar no seu desenvolvimento regional, criando as condições para não ficar dependendo apenas de uma atividade econômica. É preciso que a gente utilize com sabedoria a multifuncionalidade da nossa cabeça para que a gente tenha várias formas de produção numa cidade e que não fique dependendo apenas de uma, porque quando a gente depende apenas de uma forma de produção e acontece um infortúnio, todos perdem.

Então, é preciso criar alternativas e foi por isso que nós, no ano passado, criamos o seguro-agrícola. Eu fiquei imaginando: nós temos apenas dois anos de governo, Dirceu, mas o problema da seca no Brasil, a atividade econômica vinda da agricultura é uma coisa milenar na humanidade, é uma coisa secular no Brasil e nós temos tanto uma agricultura familiar forte como temos uma agricultura empresarial muito forte e eu comecei a pensar, discutindo com o Rossetto e com outros companheiros, até pela experiência das andanças que fizemos aqui, nas Caravanas da Cidadania.

A agricultura é uma atividade econômica que depende de duas coisas básicas: ela depende do tempo ou depende de muito investimento em tecnologia. Se não há investimento em tecnologia, se não há um processo de irrigação, se não há outros mecanismos de tecnologia, o que acontece? A pessoa depende apenas das intempéries, do sol e da chuva. Ora, se há uma atividade em que nós dependemos muito da chuva ou do sol e não está em nosso poder garantir se vai chover ou se vai fazer sol, eu me pergunto: porque há 20, 30 ou 40 anos as elites políticas que governaram este Brasil, até agora, não pensaram em criar um seguro-agrícola?

Um seguro-agrícola que garanta ao produtor a certeza de que com qualquer tempo ele pode perder a safra, mas não vai perder a condição de sustentar a si e a sua família e não vai perder a oportunidade de, na próxima safra, já ter um recurso para que comece a atividade econômica o mais rápido possível, porque antes do seguro-agrícola era uma negociação interminável para a rolagem da dívida e os pequenos, sempre com menos possibilidades de renegociar. Às vezes, tinham como única solução abandonar a sua propriedade no campo e irem definhar na periferia de uma grande cidade, às vezes, vivendo em condições subumanas e voltando, com o tempo, a ser um sem-terra, brigando para conquistar um pedaço de terra que ele tinha e abandonou por causa da falta de apoio para a agricultura familiar deste país.

Eu sei que nós estamos longe, ainda, de completar as realizações que todos nós sonhamos. Um sonho que não foi construído pessoalmente por mim e por nenhum de vocês, foi construído pelo acúmulo da experiência dos movimentos sociais neste país. Eu me lembro, meu caro Tortelli, que quando eu tomei posse eu disse ao companheiro Miguel Rossetto: não se preocupe com a quantidade de pessoas que você tem que assentar, nós temos que assentar o máximo possível, mas o modelo de reforma agrária que nós queremos não será medido apenas pela quantidade de pessoas que foram assentadas, será medido também pela quantidade de gente a quem levarmos assistência técnica, financiamento, seguro-agrícola, garantia de preço mínimo, luz e outras condições para que a juventude, sobretudo do interior, sinta prazer em trabalhar no campo, em trabalhar a sua terra e a terra do seu pai.

Foi por isso que, pela primeira vez na história do Brasil, nós incluímos no Pronaf o Pronaf Mulher, para garantir que a companheira casada, e o seu companheiro possam fazer dois financiamentos, ao invés de um único financiamento. O marido pode pegar um financiamento para plantar qualquer coisa: milho, batatinha, soja. Mas a mulher, independentemente do marido, também tem o direito de ir ao banco e fazer um financiamento para plantar uma outra roça.

Essa foi a grande revelação do ano passado, que ainda não tem o sucesso que nós gostaríamos que tivesse porque não há o hábito, neste país, de fazer políticas que favoreçam a questão do gênero, sobretudo, a questão da mulher brasileira.

Depois, no mesmo Programa, nós incluímos o Pronaf Jovem, para garantir que o jovem de 18, de 19, ou de 20 anos pudesse fazer um financiamento, independentemente do financiamento do pai ou da mãe, para que ele sentisse o prazer de ter a sua própria roça, sem ficar dependendo ou vivendo às custas do sacrifício do pai ou da mãe. Essa é uma conquista da juventude deste país e, sobretudo, da juventude desta região que, na Caravana da Cidadania, colocava para mim a necessidade de ter políticas especiais para convencer a juventude a trabalhar no campo e a viver do campo, sem ir para a grande cidade, às vezes, à procura de uma chance de sobrevivência.

E nós culminamos todo esse trabalho pensando na agricultura familiar, com o anúncio dessas medidas que foram colocadas aqui. Mas ainda é pouco. É pouco e nós precisamos agora, de forma estruturante, pensar que políticas vamos ter para que a gente não seja mais vítima de uma seca ou de uma enchente. Que a gente tenha mecanismos que, mesmo quando tiver seca, ao invés de reclamar de Deus ou de quem quer que seja, a gente se conforme que o ser humano ainda não aprendeu a enfrentar essas situações e que o Estado brasileiro, envolvendo os três entes federativos: governo federal, governos estaduais e prefeituras, crie mecanismos para dar à família brasileira a tranqüilidade necessária para que ela possa atravessar os momentos difíceis que a natureza causa a todos nós.

E falo isso de coração, porque determinei ao meu companheiro Ciro Gomes que estudasse profundamente a questão da seca do meu querido Nordeste e que a gente resolvesse, de uma vez por todas, fazer a chamada transposição das águas do rio São Francisco, para levar água de beber para mais de 12 milhões de famílias que, às vezes, têm que carregar na cabeça uma lata d'água de um açude por 18 léguas, água que nenhum ser humano, se pudesse escolher, teria coragem de beber. E, se Deus quiser, este ano, ainda no primeiro semestre, vamos licitar obras e começar uma obra que D. Pedro, em 1846, sonhou fazer e não conseguiu. Eu acho que no século XXI nós precisamos garantir que o povo pobre deste país não fique subordinado a muitos mercenários que, através de caminhão-pipa, vendem água para tirar o pouco de recurso que o pobre ainda tem neste país.

Só não tem preocupação com isso quem não sabe o que é a seca, só não tem preocupação com isso quem não sabe o que é ver seu único animal, a cabrinha ou a vaquinha que dá o leite para o seu filho, morrer de sede na porta da sua casa; só não tem preocupação com isso, muitas vezes, quem mora em apartamentos confortáveis com ar-condicionado, tomando água engarrafada todo dia e não se preocupa que os seus irmãos estejam morrendo de sede no Sul ou no Nordeste deste país.

Nós temos consciência de que o exercício do mandato é muito temporário e o governante não pode nunca deixar de ser ele mesmo para se transformar no personagem governante porque, se assim o fizer, quando terminar o seu mandato, ele vai olhar para a frente, para trás e para os lados e vai se perguntar: "Onde estão todos aqueles meus companheiros que batiam nas minhas costas? Onde estão todos aqueles companheiros que eu pensei que estavam comigo quando eu estava no poder?" E ele vai perceber que o povo nunca está com o governante, o povo está com o homem, o povo está, não com o presidente da República ou com o governador, ele está com o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, ou com o governador Luiz Henrique, pelo seu comportamento, pelo seu compromisso, pela sua história e pelas coisas que ele pretende realizar.

É por isso que eu vim aqui. Tinha gente que dizia: "Lula, não vai lá, você vai lá e está tendo a seca, você vai encontrar um clima pesado contra você". Eu só sou presidente da República por causa de vocês. Só. Se um dia, por mais grave que seja um problema, por mais desgraças que estejam acontecendo nas nossas vidas, eu não tiver coragem de me encontrar com o meu povo, é porque eu estou fazendo alguma coisa errada.

Mas, enquanto eu tiver consciência de que estou fazendo as coisas que acredito, mais do que isso, fazendo as coisas que eu posso, para dizer "não" ou para dizer "sim", para anunciar pouco ou para anunciar muito, ou até para anunciar nada, podem ter certeza, meus companheiros trabalhadores de Santa Catarina, do estado do Paraná que estão aqui, e do Rio Grande do Sul, que eu estarei junto com vocês nos bons e nos maus momentos, pedindo a Deus que nos dê mais melhores momentos do que maus momentos.

Muito obrigado, boa sorte a vocês e até outro dia, se Deus quiser.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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