Discurso do Presidente Lula: visita a áreas atingidas pela seca na região Sul

 

Erechim-RS, 16 de março de 2005

Meu querido companheiro governador do estado do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto. Meu querido companheiro Miguel Rossetto, ministro do Desenvolvimento Agrário. Meu querido companheiro Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional. Meu querido companheiro José Fritsch, secretário especial de Aqüicultura e Pesca. Deputado Iradir Pietroski, presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, em nome do qual cumprimento os demais deputados estaduais aqui presentes. Dom Jerônimo, bispo de Erechim. Deputados federais Adão Pretto, Beto Albuquerque, Henrique Fontana, Marco Maia, Maria do Rosário, Orlando Desconsi e Paulo Pimenta. Meu caro Eloi João Zanella, prefeito de Erechim, em nome do qual saúdo todos os prefeitos das outras cidades, que estão aqui. Meu caro companheiro Tortelli, coordenador-geral da Fetraf-Sul. Companheiros trabalhadores. Companheiros representantes da agricultura familiar. Senhores empresários da agricultura. Senhores secretários de Estado. Vereadores. Meus companheiros e minhas companheiras de Erechim.

Eu, se pudesse, toda vez que eu participasse de um ato aqui, no Rio Grande do Sul, eu começaria todos os meus atos, se soubesse cantar, cantando. Ou eu cantaria "Céu, Sol, Sul" ou eu cantaria "Querência Amada".

Eu tenho um companheiro, aqui, chamado Luan - não sei se o Luan está aqui - esse Luan está metido a cantor. Ele até me disse que vai ao Programa do Raul Gil, na próxima semana, fazer um teste.

Mas eu me lembro que num comício que fiz em Porto Alegre, durante a campanha passada, eu tive o prazer de estar com o Luan e com o Zezé de Camargo e Luciano num palanque, e ele cantou. Naquela época, nós tínhamos uma música bonita, chamada "Meu País", que falava muito da agricultura, uma música de Zezé de Camargo e Luciano.

Então eu queria, Luan, ver se você vai mesmo ter sucesso no Programa do Raul Gil. Eu queria saber se você é capaz... esse povo aqui, acho que todos os gaúchos sabem cantar "Querência Amada", mulheres e homens. Então eu queria, Luan, que você cantasse "Querência Amada" e o povo vai lhe acompanhar, aqui, porque a gente está num comício em que se está discutindo muitos problemas e, de vez em quando, é preciso distensionar a alma, a cabeça, o coração, para a gente ficar mais leve.

Então, nada melhor do que a gente ouvir "Querência Amada" com o nosso querido Luan.

(Luan canta "Querência Amada")

Espero que o Raul Gil tenha ouvido o Luan cantar.

Mas, meus queridos e minhas queridas, companheiros e companheiras do Rio Grande do Sul: é uma alegria voltar ao Rio Grande do Sul, lamentando voltar aqui para discutir um assunto que eu conheço há muitos anos. Nós, nordestinos, não sabíamos que tinha seca no Rio Grande do Sul. E quando se apresentou essa questão da seca, eu fui procurado pelas entidades que representam a agricultura familiar aqui. Certamente, o Roberto Rodrigues foi procurado pelos empresários do estado do Rio Grande do Sul, foi procurado pelos movimentos Fetraf, Contag, MAB, Via Campesina, por vários deputados e deputadas, no dia 3 de março. No dia 11, o companheiro Miguel Rossetto já tinha as notícias para anunciar ao povo do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e do Paraná.

Eu dizia agora há pouco, em Santa Catarina, que o mais incrível que aconteceu no Brasil, nesses anos todos, é que não se estabeleceu uma política de crédito agrícola para garantir que o agricultor brasileiro não fosse vítima das intempéries, que o agricultor tivesse a certeza do plantio e, mesmo não tendo a certeza da colheita, por uma eventual mudança na temperatura, que ele tivesse certeza de que as suas dívidas seriam negociadas, tivesse certeza de que o seguro cobriria uma parte da dívida, e tivesse ainda mais certeza de que teria uma ajuda para que pudesse, assim que melhorasse a situação, voltar a plantar, voltar a produzir e a vida seguir num ritmo normal.

Mas, no Brasil, nem sempre as coisas andaram como deveriam andar. Na medida em que o Brasil vai atingindo um padrão de respeitabilidade maior nesse mundo globalizado, nós precisamos saber que, quanto mais o Brasil precisar competir com outros países do mundo, até com tecnologia mais avançada que a nossa, nós precisamos tomar mais cuidados, criar mais mecanismos de proteção, criar mais mecanismos de conhecimentos para os nossos agricultores, para que a gente seja cada vez mais competitivo, para que a gente possa se inserir no mundo colocando os nossos produtos e garantindo, para isso, a certeza de ter mais dinheiro, de ter mais reserva, e de poder transformar esse ganho em renda para o trabalhador brasileiro.

Para isso, nós fizemos um esforço imenso nesses dois anos de governo para fazer uma integração na América do Sul. E eu me lembro, meu querido governador Rigotto, que hoje, aqui no Rio Grande do Sul, tem muita gente que começa a questionar se o Mercosul é importante ou não. Porque, na medida em que o Rio Grande do Sul produz arroz e outros países também produzem, na medida em que o Rio Grande do Sul produz trigo e outros países produzem, as pessoas têm uma preocupação de que os produtos dos países vizinhos do Mercosul possam entrar no nosso país, criando dificuldade para o nosso produto. Se a gente for pensar assim, não existe relação comercial que tenha facilidade. O Mercosul é importante, eu já dizia isso em 1995, não apenas como integração comercial, mas como integração política e cultural de um Continente que tem tudo para se ajudar e que tem tudo para crescer coletivamente, e crescer junto.

Então, quando aqui no Rio Grande do Sul os empresários se queixam dos produtos argentinos e uruguaios, na Argentina eles se queixam dos produtos industriais de São Paulo, que ocupam quase 70% em várias áreas do mercado argentino.

Ora, o que nós precisamos - é para isso que somos políticos, é para isso que fomos eleitos, e é para isso que conhecemos gente mais inteligente que nós neste país e no mundo - é criar as condições para que o fato de o Brasil importar um produto de um país não signifique prejudicar o produto produzido aqui. Para isso, nós temos que criar medidas e políticas compensatórias para garantir o preço ao nosso produtor.

Eu, agora, fui à Guiana. A Guiana é um país muito pequeno, um país de 700 mil habitantes. Todo o sonho deles era poder vender 10 mil toneladas de arroz para nós; há mais de cinco anos quase implorando para o governo brasileiro comprar porque, como é um país muito pequeno, tem pouca chance de competir; e tem uma fronteira muito extensa com o Brasil se o Brasil não ajudar, esse país pode cair nos braços de alguém para fazer política contra nós mesmos, brasileiros. Eu não tive dúvida de que o Brasil teria que assumir o compromisso de comprar as dez mil toneladas de arroz da Guiana e isso não pode significar um milésimo ou centavo de prejuízo ao produtor que produz aqui no Brasil, que sustenta sua família e que garante o alimento para o nosso país.

Entretanto - e o Ciro Gomes tem experiência disso - muitas vezes, a importação é necessária para equilibrar o preço de determinados produtos que sobem de forma exagerada, causando prejuízo ao consumo do nosso povo.

Hoje, eu poderia dizer, aqui em Erechim, que nós conseguimos, na América do Sul, um feito inusitado: as exportações brasileiras para os países da América do Sul cresceram 80% nesses últimos dois anos. Significa que o Brasil está colocando muito mais produtos em outros países do que colocava dois anos atrás, significa entrada de dinheiro, significa aumento das nossas reservas, significa mais facilidades para o povo trabalhador brasileiro. Muita gente dizia, Rigotto, que era impossível ganhar uma briga na Organização Mundial do Comércio; nós fomos pagar para ver; fizemos a primeira briga com os Estados Unidos na questão do algodão e ganhamos, para pôr fim ao subsídio do algodão que eles colocavam, dificultando o comércio dos países da América do Sul e, sobretudo, da África.

Fizemos uma briga contra a Europa, na questão do açúcar. Muita gente dizia que não íamos ganhar, e ganhamos a briga com a União Européia sobre o açúcar brasileiro.

E a mais recente, Rigotto, é que na Europa eles não consideravam o frango salgado como carne, e criaram muitos problemas para comprar o nosso frango; ganhamos essa briga na OMC, também.

Eu me lembro como se fosse hoje, que no ano passado eu recebi o Primeiro-Ministro do Japão. O Brasil estava tentando vender manga para o Japão há 28 anos, e o Japão não comprava a manga por conta do tal "bicho da mosca" que dá na manga. Mal sabia o Primeiro-Ministro do Japão que nós já tínhamos tecnologia suficiente para enfrentar esse mal que prejudicava uma fruta nossa. Pois bem, levei o Primeiro-Ministro japonês para almoçar; acabamos de almoçar, oferecemos para ele uma bandeja de manga, de sobremesa, para ele saber a qualidade da manga brasileira. Não sei se foi isso que causou efeito, mas, em janeiro deste ano o Japão recebeu a primeira carga de manga brasileira.

Estou indo para o Japão em maio. O Japão tem problema com a carne brasileira, o Japão não compra a nossa carne, ou compra menos do que deveria comprar. O embaixador brasileiro em Tóquio já sabe: tem que preparar uma churrasqueira na Embaixada. E eu vou convidar as autoridades japonesas para comerem um belo churrasco; vamos fazer uma costela, não queimada como vocês faziam para mim quando eu vinha aqui, mas uma costela de qualidade, uma picanha de qualidade, para ver se, depois disso, os japoneses vão deixar de encomendar a carne brasileira. Também vamos para lá na perspectiva de mostrar que se eles quiserem utilizar álcool no carro, não tem país do mundo que possa fazer parceria com eles para a produção de etanol como tem o Brasil. E esse comportamento que estamos tendo é que está fazendo com que o Brasil deixe de ser visto como um país menor, de uma região subdesenvolvida do planeta Terra, para ser um país que tem um povo que merece respeito, que tem um Presidente que não fala inglês, mas a dignidade de um homem não é medida pela língua que ele fala, mas pelo caráter do seu comportamento e pela crença que ele tem no país que governa, pela crença que ele tem no seu povo.

E eu fico me lembrando, Rigotto, quantos analistas de comércio exterior deste país imaginavam: "o Brasil não vai conseguir nada; o Brasil está tendo déficit comercial". Este mês eu tive o prazer, a alegria... eu estava no avião e recebi um telefonema do ministro Furlan: "Presidente, no dia 2 de março nós alcançamos o montante de 100 bilhões de dólares na nossa relação comercial, criando um superávit de 36 bilhões de dólares." Esse é um fato inédito na história comercial do nosso país. E se vocês acompanharem, mesmo com o dólar estando a R$ 2,70, mês a mês nós estamos batendo recorde atrás de recorde nas nossas exportações.

Sabe qual foi o milagre, Rigotto? Foi não ficar esperando os compradores virem aqui, no Brasil, conhecer o que a gente faz; foi viajar, ir lá para mostrar o que nós somos, o que nós podemos e o que nós temos.

Eu me lembro que fui criticado quando fui fazer a viagem para o Mundo Árabe. Eu fui visitar o Líbano. A última autoridade brasileira a visitar o Líbano tinha sido em 1847. Quando fui à Líbia, a imprensa brasileira me criticou: "aonde vai esse Presidente, encontrar com o Kadafi?". Na semana seguinte, o Tony Blair foi se encontrar com o Kadafi e a imprensa inteira elogiou o comportamento do Tony Blair, que estava se encontrando com o Kadafi. Eu fui criticado por encontrá-lo, uma semana antes.

Na verdade, isso significa que no Brasil nós ainda temos a cabeça de algumas pessoas colonizadas, que acham que o Brasil só tem que olhar para os Estados Unidos, ou que o Brasil só tem que olhar para a União Européia. E o Brasil tem que olhar para o mundo como um sujeito da história, como um país que pode proporcionar mudança no comportamento político.

Eu disse uma vez, na África, que se a gente se unir, a gente pode mudar a geografia comercial do mundo. E, hoje, passados apenas dois anos de governo, nós temos uma aliança estratégica com a China, com a Índia, com a África do Sul, com todos os países da América do Sul. E isso está permitindo que a gente tenha uma força maior para negociar os interesses dos nossos trabalhadores, dos nossos empresários e do nosso país, em todos os fóruns internacionais.

Eu digo sempre: respeito é bom, eu dou e gosto de receber, porque nenhum interlocutor respeita o interlocutor que não se respeita. E é por isso que a única coisa que eu exijo é que o Brasil seja tratado com o respeito que ele merece, porque este país não deve nada a nenhum outro país, sobretudo pela qualidade, afinal de contas nós já sabemos que o melhor do Brasil é o povo brasileiro. E, por isso, é um patrimônio do qual nós não vamos abrir mão nunca.

Eu estou aqui para discutir a questão da estiagem. Agora há pouco, um monte de pessoas abriu o guarda-chuva, e eu fiquei pensando: "Como é que a televisão vai mostrar isso?" Vai ser muito engraçado eu estar em Erechim discutindo a seca e as pessoas com o guarda-chuva aberto!

E, aí, eu me lembrei que eu não estou aqui para discutir a seca, porque choveu este final de semana aqui. Eu estou aqui para anunciar as políticas que o governo federal tomou para enfrentar a crise que a seca causou aos produtores do estado do Rio Grande do Sul.

E o Roberto Rodrigues não veio aqui fazer um discurso porque está fazendo um debate no Senado. Hoje à tarde, o Conselho Monetário Nacional está decidindo toda a política de apoio à agricultura empresarial, também pelos prejuízos que tiveram com a seca, neste estado e em outras regiões do país, inclusive discutindo política de adiamento do pagamento para o ano que vem. Ou seja, vão ter várias medidas que, certamente, hoje à tarde vocês vão saber pela imprensa ou, amanhã, o ministro Roberto Rodrigues vai anunciar.

O dado concreto é que nós, embora saibamos que os pequenos sofrem mais, porque têm menos patrimônio, têm menos reservas, nós somos governo de todos os brasileiros, portanto, pode ser pequeno, médio ou grande, se for brasileiro, se estiver produzindo, merece o nosso respeito, a nossa consideração e o apoio do governo.

Eu venho a esta cidade em um momento, eu diria, de gratidão, até. Eu já vim muitas vezes à Erechim. Aliás, eu já andei muito no Rio Grande do Sul. E eu, quando estou aqui no meio de vocês, é como se eu estivesse sentado com a minha família, numa mesa, brincando, comendo ou fazendo qualquer coisa, porque, Rigotto, nesta região aqui e no estado do Rio Grande do Sul eu ganhei todas as eleições presidenciais que eu disputei, todas. E isso me obriga moralmente, me obriga eticamente, em qualquer que seja a circunstância, a estar presente nos bons e nos maus momentos deste estado, que é o mais politizado do Brasil, que tem uma história de rebeldia fantástica, mas também tem uma história de construção extraordinária. É só a gente ver aquela casa que simboliza a imigração, ou seja, um estado que já naquele tempo construiu uma casa dessa magnitude para receber as pessoas que vinham para cá, só poderia ser um estado que tinha um futuro extremamente garantido.

O Rio Grande do Sul é a demonstração da grandeza e da alma do povo brasileiro, porque aqui chegaram alemães, italianos, poloneses, negros, pernambucanos, paraibanos, cearenses, e aqui todos são tratados como gaúchos de primeira hora, sem preconceito, sem discriminação.

Quero dizer para vocês que é um orgulho para mim ter um companheiro como o Rossetto no Ministério, tratando de uma área muito complicada, uma área que, normalmente, se apresenta com muito mais conflito do que com solução. O que nós víamos neste país era, de um lado o governo fazendo um sacrifício imenso para assentar 10 mil pessoas, 15 mil pessoas, 100 mil pessoas, 200 mil pessoas e, no ano seguinte, a gente pegava o relatório e ouvia dizer: 300 mil pessoas deixaram o campo no nosso país. E por que é que deixavam o campo? Deixavam o campo porque não tinha uma política agrícola de respeito, sobretudo, ao pequeno produtor. Está aqui o nosso querido companheiro do Banco do Brasil e ele sabe perfeitamente bem, caro Rigotto, que nem no Banco do Brasil, que era um banco famoso por cuidar da agricultura familiar, na maioria dos estados, os funcionários estavam preparados para atender o pequeno agricultor. O Pronaf era quase uma especialidade do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e de uma parte do Paraná. Não chegava ao Ceará, do Ciro Gomes, não chegava ao meu Pernambuco, não chegava a quase nenhum estado do Nordeste e do Norte; quando chegava, era uma "merrequinha".

Nós, agora, temos o compromisso de chegar a 1 milhão e 800 mil contratos. Nós, agora, aprovamos o Pronaf Mulher, para que a mulher do trabalhador - como essa companheira que veio aqui com o seu marido me entregar a cesta - possa ter direito de ir ao banco e fazer um crédito. Aprovamos, também, o Pronaf Jovem, para que o jovem que queira produzir alguma coisa não fique dependendo do pai ou da mãe, que ele possa fazer o seu financiamento.

Mas, o mais importante, meu caro Tortelli, é a assistência técnica. Não adianta nada colocar um homem ou uma mulher no campo e não dar a eles condições de trabalharem: ora financiamento, ora garantia do preço, ora assistência técnica, conhecimento, porque com conhecimento o produtor vai produzir produtos de melhor qualidade; vai ter melhor preço pelo seu produto; vai ganhar mais dinheiro; pode até comprar mais terras; vai melhorar as condições da sua casa; não vai precisar matar um porco e colocar uma lata de banha para pôr a carne do porco lá dentro; vai poder comprar uma geladeirazinha; vai poder ter uma televisão; vai poder comprar uma roupinha para o marido e para mulher, para os dois irem mais bonitos à cidade, no final de semana. O nosso sonho é que aqueles que já estão no campo tenham condições de tirar do campo o sustento da sua família e ainda ajudar para que outras famílias possam, em função do seu trabalho, ganhar dinheiro trabalhando no campo. Esse não é um compromisso de um Presidente, é um compromisso de vida, de quem acredita piamente que o Brasil é um dos poucos países do mundo que pode, definitivamente, garantir o sustento de alimentos, se não de toda, pelo menos de uma boa parte da humanidade, porque o povo que nós temos, o sol que nós temos e a terra que nós temos me permitem dizer para vocês que Deus é brasileiro. Se ele não é brasileiro, certamente ficou muito tempo aqui no Brasil, deve ter passado pelo Rio Grande do Sul, deve ter passado um pouquinho por Garanhuns, um pouquinho pelo Ceará, porque este país é abençoado por Deus: a gente não tem vulcão, não tem furacão, não tem nada; tem, de vez em quando, umas mudanças, intempéries, que trazem uns prejuízos.

Mas eu estou olhando a cara do povo, aqui. O Ciro Gomes, que é paulista de Pindamonhangaba, mas que mora no Ceará há muito tempo, sabe, Rigotto, que são muito diferentes os efeitos da seca, aqui, dos efeitos da seca na minha terra. Na minha terra os efeitos da seca já causam problemas há 300 anos. Em 1952, Tortelli, eu saí de Garanhuns com sete anos de idade, num pau-de-arara, por causa da seca, e até hoje nós ficamos com políticas compensatórias, de dar um carro-pipa ali, de fazer um açudezinho acolá. É por isso que eu disse ao companheiro Ciro Gomes: nós vamos resolver um problema que Dom Pedro queria resolver em 1846, que era levar um pouco da água do rio São Francisco para que a gente pudesse atender o pessoal do semi-árido; são 12 milhões de famílias, pessoas que carregam uma lata d'água de 20 litros por 15, 16 léguas de distância; pessoas que viam a única vaquinha ou a única cabrinha, que dá leite para as crianças, morrer de fome na porta de sua casa. Vamos fazer Ciro, vamos enfrentar.

E graças a Deus, com a inteligência do companheiro Ciro, com a vontade de brigar que ele tem, nós, hoje, estamos com o projeto pronto e, se Deus quiser, até o meio do ano vamos começar. Tem gente que é contra; a Bahia fala: "não pode porque o rio é meu e não pode tirar água daqui". Outro fala: "não pode porque o rio é meu." Mas a água que se joga no oceano, são milhões de litros, e nós queremos apenas 63 metros cúbicos de água para levar para aquele povo. E eu fico pensando assim: será que as pessoas que são contra sabem o que é a seca?

Eu me lembro, Ciro, que quando eu era pequeno - pequeno eu sou - quando eu era jovem eu ia buscar água num açude que tinha a uns dois quilômetros de minha casa, e era um poço, não era como esses açudes bonitos que tem hoje, não, era um açude em que a gente chegava e lá estava o cavalo bebendo, urinando e defecando dentro da água; estava a vaca bebendo, urinando e defecando; estavam os cabritos tomando banho; os cavalos tomando banho; e era daquela água que a gente pegava para beber, colocava num pote, deixava assentar, ficava com um palmo de terra e com caramujo dentro, e a gente ficava tirando por cima para beber. Quando eu cheguei em São Paulo, Ciro, só tinha barriga, "deste tamanho", canelinha fina, e eu pensava que era saúde; era verme mesmo, era doença por não ter água tratada, por não ter acesso ao mínimo de higiene, porque não tinha nenhuma formação.

Hoje, graças a Deus, nós temos condições de dizer que vamos mudar essa situação. Não vamos mudar amanhã, porque não é possível. Milagre, só Deus. Nós fazemos aquilo que a tecnologia e o dinheiro permitem que nós façamos.

E é importante, meu caro Rigotto, que a gente esteja atento para o que está acontecendo no Sul do país, porque já é a terceira seca em poucos anos, a sétima em dez anos. Então, nós vamos agora, ter que ser mais espertos, prefeitos, vereadores, governadores, deputados, presidente da República, deputados federais, sindicatos de trabalhadores, Igreja, a gente não tem mais que ficar um culpando o outro: o vereador culpa o prefeito, que culpa o governador, que culpa o presidente, que culpa não sei quem.

Nós não podemos ficar transferindo responsabilidades. A seca é um problema a ser enfrentado por todos nós. Nós temos que criar alternativas de produção. Nós temos que pensar o desenvolvimento das regiões e, ao mesmo tempo, temos que criar as condições para que, no próximo ano, ou daqui a um ano, mesmo que não chova, a gente não tenha mais os efeitos perversos que a seca causa nas famílias mais pobres, criando as condições agora.

É por isso que eu vim aqui, exatamente quando começou a chover. Habitualmente, no Brasil, quando vocês vão a Brasília reivindicar alguma coisa... Muitas vezes, na história deste país, se anunciou alguma coisa para os pobres e aí veio a chuva, esqueceram-se das promessas, passaram-se dez anos e aquilo que foi prometido não foi atendido.

Eu vim aqui para dizer: nós não estamos prometendo, nós já fizemos uma grande parcela porque o dinheiro para este ano já foi liberado; o seguro-agrícola é uma das armas mais importantes para se prevenir dos infortúnios, das intempéries e, ao mesmo tempo, em parceria com o governo do estado, porque o meu companheiro Tortelli é "bom de bico". Você viu que ele me desafiou, pensando que eu aceito qualquer desafio assim, sem contar até dez. Ele desafiou tanto o governo federal quanto o governo estadual a encontrar a solução.

Eu só te falo uma coisa, meu companheiro: nós vamos estudar com carinho. Se der para fazer, nós vamos fazer. Mas, se não der para fazer, com a mesma relação de amizade que nós temos há 20 anos, eu não tenho nenhuma preocupação de voltar numa praça como esta e dizer: "essa coisa não deu para atender", porque, sabe de uma coisa, meu caro Tortelli? A relação do governante com a sociedade tem que ser igual à relação que ele tem com a coisa que ele mais ama na vida, que são os seus filhos. Ele não tem que mentir, ele não pode mentir, ele não deve mentir. Eu prefiro vir e dizer: "não posso fazer", do que contar uma mentira para você, você contar uma mentira para eles, e eles contarem uma mentira para outros; fica todo mundo mentiroso e não acontece nada.

A coisa com que eu tenho mais preocupação é quando um pai diz para um filho: "eu não posso te dar um presente hoje, depois eu vou te dar". É melhor dizer que não pode dar e acabou; quando puder, dê.

Eu só quero que vocês saibam que a minha preocupação com a agricultura, neste país, não é uma coisa eventual, é um compromisso de um homem que acredita que este país deve dar graças a Deus de ainda ter 20% da sua população vivendo no campo; que este país deve dar graças a Deus de ter um povo com vontade de trabalhar no campo, como tem o povo deste país. E deveríamos dar sempre graças a Deus de ter um estado que foi capaz de produzir a alma humana que o estado do Rio Grande do Sul produziu.

Portanto, meus companheiros e companheiras, vocês podem ter certeza de uma coisa: não tenham medo, não tenham nenhuma preocupação, Tortelli. E isso vale para a Contag, para o MAB, para a Via Campesina, para a Igreja, para o meu companheiro Rigotto. Não tenham nenhuma preocupação. O dia que precisar que o Presidente venha aqui porque tem uma situação difícil e porque tem gente fazendo muito protesto, podem ficar certos, podem me chamar, porque eu só sou presidente da República porque um dia esse povo acreditou que era possível eleger um torneiro mecânico para chegar lá. Se esse torneiro mecânico, se, por conta de situações adversas eu, um dia, tiver medo de me encontrar com o meu povo para discutir os seus problemas, é porque eu estou cometendo algum erro nesta vida.

E eu quero dizer para vocês uma coisa: eu nunca me importei de perder três eleições. A única coisa que eu não quero perder é o respeito que eu tenho por vocês e o respeito que eu sei que vocês têm por mim.

Muito obrigado, meus companheiros. Até outro dia, se Deus quiser.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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