Discurso do Presidente Lula: lançamento do Sistema Financeiro Inclusivo Caixa "Viver em Comum-Unidade"

 

São Paulo-SP, 06 de junho de 2005

Meus queridos e queridas companheiras e companheiros de São Paulo. Meu querido companheiro Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal
Minha querida companheira Marisa. Meu caro companheiro José Mentor, deputado federal. Meu caro dom Emílio Pignoli, bispo de Diocese de Campo Limpo. Meu querido companheiro Paulo Okamotto, diretor presidente do Sebrae, instituição que tanto tem ajudado na formação de empreendedores por este país afora. Meu caro deputado estadual Sebastião de Almeida. Senhor Walter Marques, prefeito de Embu-Guaçu. Senhor Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc de São Paulo
Senhor Artur Fernandes, diretor comercial da Singer no Brasil. Minha querida companheira Solange, que está segurando a sua máquina, aí, como se estivesse segurando um filho no colo. Minhas queridas costureiras e costureiros que participam do sistema inclusivo da Caixa "Viver em Comum-Unidade". Funcionárias e funcionários da Caixa Econômica Federal. Funcionárias e funcionários do Sesc. Meus companheiros e companheiras jornalistas. Meus amigos e minhas amigas

Eu, na verdade, vou ler o meu discurso para não fugir muito à regra, mas eu queria dizer uma coisa para vocês. Este pequeno ato que estamos fazendo, aqui, sob a coordenação da Caixa Econômica Federal, é uma demonstração de algumas coisas que já poderiam ter acontecido no Brasil há muito tempo atrás, mas não aconteceram e, por isso, a gente vai sempre trabalhando com muitos anos de atraso para fazer as coisas que se, tivessem sido feitas há dez anos, certamente a situação de vocês seria infinitamente melhor e nós poderíamos, hoje, estar aqui discutindo um novo passo, porque é exatamente esse o papel de um banco público.

Um banco público não tem que ter prejuízo, não tem que ser deficitário. No final do ano, na hora de fazer o balanço, ele tem que demonstrar um certo lucro. Mas o que a Caixa Econômica Federal está provando é que é possível ter lucro com uma forte política de inclusão social, fazendo com que uma grande parcela da sociedade, que nunca teve apoio de nenhum banco no Brasil, possa agora ter acesso a empréstimos em condições muito mais favoráveis, inclusive para pessoas que nunca tiveram uma conta no banco ou pessoas que nunca nem conseguiram entrar na agência de um banco.

O que nós estamos fazendo aqui é apenas a confirmação, primeiro, do que dom Emílio disse: a comunidade se reunindo e se unindo em torno da construção de um projeto que possa permitir que, em meio às dificuldades com que vive cada ser humano neste país, e cada mulher, muitas vezes, com as dificuldades dos seus afazeres particulares, possa encontrar um jeito de levar uma renda para casa, ajudar no orçamento familiar e ainda ter perto de si os seus filhos, sendo tratados com o carinho que só uma mãe pode tratar. Ninguém conseguirá tratar um filho como aquela que o pôs no mundo.

Esse projeto da Caixa Econômica permite a possibilidade de vocês terem acesso a um bem material pequeno, bonito, moderno. Eu me lembro que a máquina Singer da minha mãe era uma caixa deste tamanho, com gavetão, e você tinha que toda hora estar colocando a correia, porque a correia saía e não costurava. E a gente vê o que é a tecnologia, a gente vê a lágrima nos olhos da companheira Solange, e muita gente, às vezes, não dá importância para um pequeno gesto. Muita gente fala: mas financiar uma maquininha! É uma maquininha para quem não precisa dela para ganhar o pão de cada dia. Para quem precisa dela para ganhar o pão de cada dia, não é uma maquininha, é uma "maquinona" que pode ajudar a vida de cada um desses brasileiros e brasileiras que precisam desse pequeno instrumento para sobreviver.

Porque, se isso fosse significante, por que não fizeram antes? Por que não foi feito há 20 anos, há 15 anos? Quem sabe, hoje, a gente estivesse competindo com a China e a gente estivesse exportando muito mais roupa do que os chineses conseguem exportar. É que nunca se levou muito a sério a organização da sociedade, nunca se levou muito a sério as cooperativas, nunca se levou muito a sério o trabalho comunitário neste país.

Eu digo sempre, toda vez que um governo tem dificuldade de fazer alguma coisa, na hora que ele pára para ouvir a sabedoria da consciência popular, a tendência natural é ele acertar muito mais do que errar. E é isso que estamos fazendo aqui, permitindo que um conjunto de homens e mulheres, que faz da costura o seu meio de vida, tenha acesso a uma máquina, em que a Singer está dando sua cooperação, colocando a máquina no mercado um pouco mais barata, e a Caixa Econômica está dando a sua contribuição, fazendo com que as pessoas tenham o dinheiro para comprar essa máquina a um custo de juros muito menor do que aquele que a gente encontraria num mercado, numa loja, ou se a gente fosse numa financeira para financiar essa máquina.

Vocês vão ter uma máquina por 500 reais, me parece. Essa máquina, vocês vão pagar 2% de juros, portanto, vão pagar uma média de 50 reais por mês, quem sabe 50 ou 50 e poucos, e esse bem pode produzir para vocês uma renda que, possivelmente, dê para vocês sustentarem ou melhorarem o orçamento familiar.

Agora, isso não está sendo feito apenas na Caixa. Vamos entender uma coisa. Por que os juros no Brasil são tão altos? Meu caro Mentor, o juro no Brasil é alto porque normalmente as pessoas honestas pagam pelos desonestos, ou seja, quando se vai calcular a taxa de juros no Brasil, coloca-se uma quantidade de pessoas que não vai pagar, então, os bancos já dão, de barato, que um determinado número de pessoas não vai pagar e, aí, os honestos que pagam têm que pagar os juros daqueles que vão dar o cano. É a coisa mais absurda do mundo. Ao invés da gente ser beneficiado por ser bons pagadores, nós somos prejudicados.

Uma vez, discutindo com a Febraban, Jorge Mattoso, eu ouvi do então presidente da Febraban, Gabriel, que se eles tivessem garantias, eles poderiam emprestar a juros mais barato. E aí nós começamos a discutir com o movimento sindical o crédito consignado. O crédito consignado nada mais é do que o trabalhador dar a sua folha de pagamento, ou o aposentado dar o seu contracheque como garantia de que todo mês o banco vai receber aquilo que emprestou. Não tem possibilidade de "calote". Pode ser que tenha um ou outro caso, mas diminui substancialmente qualquer possibilidade de prejuízo.

É por isso que nós conseguimos fazer acordos de até 1.7% para os aposentados, é por isso que nós conseguimos fazer 1.75%, é por isso que nós conseguimos fazer empréstimos em 24 meses, 12 meses, 36 meses, porque a gente está conseguindo baratear o custo do dinheiro, sobretudo no que diz respeito ao microcrédito.

Todo mundo sabe a dificuldade de ter acesso ao empréstimo bancário. Primeiro, para abrir uma conta num banco, antes da Caixa criar esse programa de inclusão, o cidadão nem entrava num banco, se entrasse para pegar R$ 100, o banco pedia tanto para ele abrir a conta que ficava mais barato ele não abrir a conta, então não abria. Agora não, agora ele pode abrir a sua conta, mesmo que não tenha dinheiro, e ganha direito a um crédito.

Nós ainda precisamos aperfeiçoar mais porque eu ainda acho 2 % muito caro. Mas é preciso que a gente trabalhe para baratear um pouco mais e tornar, definitivamente, o crédito uma coisa muito acessível ao povo brasileiro. Durante a campanha vocês me ouviram dizer que a poupança interna brasileira era por volta de 17% do PIB. Hoje, meu querido Jorge Mattoso, já estamos com 23,5% de poupança interna, o que é um número excepcional para o padrão histórico do Brasil.

E por que isso? Porque nós conseguimos fazer com que o dinheiro voltasse a circular. Sabe quantas pessoas pegaram dinheiro emprestado no ano passado? Trabalhadores que pegavam dinheiro para pagar a sua dívida anterior? Trabalhador que estava pagando 9% de juros, 8% de juros ou estava pagando muito mais em agiota? A média de dinheiro emprestado, que eles tomaram no banco, uma média de 2.500 reais, para quê? Para poder pagar dívida anterior, zerar, limpar o seu nome, porque tem uma coisa que eles precisam aprender a saber. A coisa mais sagrada que uma mulher pobre tem, que um pobre tem, é o seu nome, então, quando a gente toma um dinheiro emprestado, a gente faz questão de pagar, porque a gente quer andar de cabeça erguida, a gente quer andar de cara limpa, a gente quer andar de nariz empinado de orgulho do nosso comportamento.

Por isso, este ato aqui é uma coisa em que a quantidade de dinheiro em jogo não é muita, mas o simbolismo vale bilhões e bilhões de reais. Nós estamos, Dom Emílio, apenas dando um pontapé inicial que pode se transformar numa coisa gigantesca na medida em que a Caixa Econômica vá aperfeiçoando, na medida em que o Sebrae, Paulo, coloque toda a sua estrutura de conhecimento para ajudar as pessoas que querem aprender, uma coisa mais evoluída ainda, porque a partir dessa máquina o próximo passo da Solange, daqui a dois anos, se Deus ajudar, não será comprar mais uma máquina dessas, será comprar uma melhor, uma que produza mais, uma mais moderna, porque o sonho de todo mundo é crescer na vida, o sonho de todo mundo é viver melhor, o sonho de todo mundo é ganhar mais.

Afinal de contas, o que permeia a cabeça de vocês? É que vocês querem garantir para os filhos e para os netos de vocês, um mundo muito melhor do que aquele que vocês receberam dos seus pais, do que aqueles que vocês receberam dos seus avós.

É por isso que esse programa é importante, porque é a primeira oportunidade, é o primeiro passo, é a primeira chance, e todos nós sabemos que quando uma pessoa de valor moral, quando uma pessoa de valor ético, quando uma pessoa responsável por cuidar da sua família, tem uma chance como esta, que está sendo construída aqui, certamente, vocês passarão a ser motivo de orgulho para a Caixa Econômica, que vai fazer o financiamento; motivo de orgulho para o Sebrae, que tem que apostar mais e mais no aperfeiçoamento de vocês; motivo de orgulho para a Singer, que percebe que pode vender a máquina um pouquinho mais barata e ainda ganhar dinheiro com isso, e motivo de orgulho para mim, como companheiro de vocês, sabendo que estão bem melhor do que estavam antes desse financiamento.

Por isso eu quero, do fundo do coração, dizer companheiro Jorge, que esse gesto pode se repetir pelo Brasil inteiro, dizer que a Caixa Econômica pode dar uma contribuição extraordinária para que a gente possa ajudar nossas comunidades a fazer aquilo que querem fazer e aquilo que sabem fazer.

Eu quero, do fundo do coração, dizer a vocês que embarco daqui a pouco para Brasília com a certeza de que as costureiras de São Paulo, que vieram neste ato, estão dando um passo extraordinário para provar que o microempreendimento, que a atividade profissional realizada dentro de casa, pode ser uma das soluções para a geração de oportunidade de trabalho que muitas vezes o chamado mercado não permite criar.

Por isso, companheiro Jorge, meus parabéns à Caixa Econômica Federal, a toda a sua Diretoria; meus parabéns à Singer, meus parabéns ao dom Emílio, meus parabéns ao Sesc. Solange, querida, representando todas as costureiras aqui, que Deus abençoe vocês e que vocês possam vencer na vida.

Um grande abraço.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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