Palácio do Planalto, 01 de abril de 2005
Meu caro companheiro Tabaré Vásquez, presidente da República Oriental do Uruguai. Delegação do Uruguai e delegação brasileira. Ministros uruguaios e ministros brasileiros
Há exatamente um mês, tive o prazer de estar em Montevidéu participando da cerimônia de posse do presidente Tabaré Vázquez. Testemunhei nas ruas de Montevidéu e no dia seguinte, em Paysandú, o fervor popular que expressava a grande esperança de transformação que o povo uruguaio deposita em seu governo.
Sua eleição, amigo e companheiro Tabaré, é um marco histórico, não apenas para o Uruguai. Sua vitória demonstra que nossa região caminha na direção da renovação política, que escolhemos um modelo de crescimento econômico com inclusão social.
Estamos honrados com sua visita, sobretudo porque sabemos que é a primeira viagem que realiza ao exterior na condição de Chefe de Estado de seu país. Somos extremamente sensíveis a este sinal que o novo governo uruguaio emite.
Queremos que a aliança entre o Brasil e o Uruguai, uma aliança histórica, esteja mais do que nunca fundada na defesa intransigente da democracia, na proteção dos direitos humanos, na busca do crescimento sustentado, no compromisso de combater a fome e a pobreza e na integração de nosso Continente. Com esses princípios em mente, estamos decididos a dar uma nova qualidade às relações entre o Brasil e o Uruguai.
O Uruguai, de forma pioneira, no começo do século passado, ensinou aos demais países da América do Sul o caminho das políticas sociais, especialmente o valor da educação e a difusão da cultura.
Apesar das duras crises que golpearam o país, os uruguaios puderam preservar índices de desenvolvimento humano invejáveis em nossa região. Mas estava represado na sociedade um desejo avassalador de mudança.
O presidente Tabaré Vázquez encarnou o anseio de seu povo de retomar as rédeas do seu destino, resgatando o legado histórico deixado por Artigas.
Como afirmei há um mês no Uruguai, tive o privilégio de acompanhar a trajetória política de Tabaré Vázquez. Sei de seu compromisso pessoal com a construção de uma sociedade justa, desenvolvida e democrática. Sei também que o novo Presidente do Uruguai está firmemente engajado no fortalecimento do Mercosul e no processo de integração sul-americana. Essa sintonia evidente entre nossos governos abre grandes perspectivas para as relações entre nossos dois países.
Querido companheiro, Presidente do Uruguai
O Brasil certamente tem muito a aprender com o Uruguai e, como economia maior, tem também muito a oferecer.
Sabemos do empenho do seu governo na área social e queremos conhecer melhor e apoiar o Plano Nacional de Emergência Social implementado desde a primeira hora do seu mandato.
Estamos dispostos a compartilhar com o Uruguai a experiência brasileira em programas como o Fome Zero, o crédito vinculado, a habitação popular e o apoio à microempresa.
Esperamos poder acelerar os entendimentos para a realização das obras de infra-estrutura em nossa fronteira comum, sem as quais nossa integração nunca estará completa.
Vamos levar adiante a construção da segunda ponte sobre o rio Jaguarão, recuperar a ponte Mauá e acelerar a integração energética entre nossos países.
É auspiciosa a assinatura do memorando de entendimento entre nossos Ministérios de Minas e Energia, que cria uma Comissão Binacional nas áreas de energia, geologia e mineração. É vital para o desenvolvimento de nossa região traçar estratégias coordenadas para o aproveitamento dos nossos recursos energéticos.
Ainda recentemente, demos um exemplo claro da visão solidária que temos a esse respeito: apesar da forte estiagem no sul do Brasil, temos feito o possível e o impossível para manter o suprimento de energia elétrica ao nosso querido Uruguai.
Outra frente de cooperação é a do desenvolvimento científico e tecnológico. Acabamos de assinar um acordo que prevê a transferência de conhecimentos brasileiros para a instalação de uma Agência Uruguaia de Cooperação Internacional.
Queremos ampliar nossa associação na área da pesquisa agrícola, por meio da Embrapa, com ênfase em projetos que tenham impacto sobre a agricultura familiar. Estamos também dando início à cooperação na área de Comunicação Social, envolvendo a Radiobrás e os órgãos de comunicação do governo do Uruguai.
Esse é apenas o princípio de uma cooperação estratégica entre nossos países, que se fará sempre no benefício direto de nossas sociedades.
Querido companheiro e amigo Tabaré Vasquez
Ao tratar das relações entre Brasil e Uruguai, não posso deixar de mencionar nossa zona de fronteira, onde convivem irmanados mais de 700 mil cidadãos brasileiros e uruguaios.
A cooperação que temos desenvolvido ao abrigo da Nova Agenda de Cooperação e Desenvolvimento Fronteiriço é um modelo de associação com amplo impacto social.
Instituímos na nossa franja de fronteira comum, praticamente uma cidadania binacional, que pode ser vista como o embrião da cidadania do Mercosul que tanto queremos construir.
Estou seguro de que nossos governos vão aprofundar ainda mais os programas de integração fronteiriça em matéria de cooperação policial e judicial, na área da educação, da saúde, do meio ambiente e do saneamento.
O acordo que assinamos hoje sobre os Institutos Binacionais Fronteiriços é prova de nossa determinação. Criaremos, na zona de fronteira, institutos de ensino binacionais de nível técnico, com professores e alunos brasileiros e uruguaios.
Querido amigo
Sei que o Uruguai é um parceiro fundamental na construção do Mercosul e da Comunidade Sul-Americana de Nações.
A integração regional que queremos, e nisso sei que estamos totalmente afinados, é uma integração que amplia mercados, gera investimentos, traz prosperidade aos nossos países e se traduz em benefícios concretos para nossas populações.
Quando falamos que queremos a integração de nossas cadeias produtivas, estamos pensando em ganhar escala de produção, mas, sobretudo, estamos pensando em gerar postos de trabalho e riqueza nos nossos países.
Queremos uma nova divisão do trabalho na região, equânime, sem hegemonismos.
Como muitos sabem, no dia seguinte à posse do presidente Tabaré, fomos juntos à cidade de Paysandú, no interior do Uruguai. Lá, inauguramos uma maltaria construída com investimentos brasileiros. Essa fábrica é um exemplo do tipo de integração que desejamos.
Pude perceber ali o entusiasmo dos trabalhadores locais e sua certeza de que, juntos, podemos encontrar soluções para o nosso desenvolvimento.
Esse é o Mercosul vibrante que desejamos, legitimado pela vontade das populações locais. É por isso também que temos insistido na necessidade do reforço institucional do nosso bloco regional e na criação de um Parlamento do Mercosul eleito pelo voto direto.
Conheço as posições do companheiro Tabaré nesse particular e sei que seremos aliados também nessa aspiração. Não tenho dúvidas de que o Brasil e o Uruguai, daqui por diante, atuarão de forma cada vez mais coordenada nos foros internacionais, e aproveito a ocasião para saudar o ingresso do Uruguai no G-20, garantindo que o Mercosul se apresente com voz única nas negociações comerciais multilaterais.
Atuaremos em favor dos interesses dos países em desenvolvimento e, em particular, dos países da nossa região.
Brasil e Uruguai têm uma longa tradição de cooperação e convivência pacífica. Nossos países desfrutam de elevado grau de convergência em temas da mais alta relevância.
Enfim, amigo Tabaré, temos uma vastíssima agenda de projetos e iniciativas que vai exigir de nossos dois governos muita determinação, muita coordenação e muito trabalho.
Vamos aprofundar nosso diálogo político. Estamos reativando canais de coordenação entre nossas Chancelarias e criando também um mecanismo de consultas regulares sobre temas comerciais. Estamos decididos a ampliar nosso comércio e incentivar investimentos. Vamos consolidar uma cooperação estratégica em áreas vitais para nossos países nos setores energético e de desenvolvimento científico e tecnológico. Fico muito feliz por já termos começado, neste curto espaço de tempo, a dinamizar a cooperação entre o Brasil e o Uruguai.
Faço votos de sorte ao presidente Tabaré e a todos os companheiros membros do seu governo, dentre os quais vejo tantos amigos e companheiros de velhas lutas. Desejo felicidade para esse povo magnífico ao qual nós, brasileiros, estamos unidos pelos laços da mais profunda simpatia e amizade.
Tenha certeza, meu querido presidente Tabaré, que as palavras que acabo de proferir agora são mais do que palavras. Eu pretendo transformar cada palavra dita no meu discurso em gestos práticos para que possamos, definitivamente, concretizar um sonho que alimentamos há tantos anos, de uma sólida e verdadeira integração na nossa querida América do Sul.
Muito obrigado.
fonte: www.info.planalto.gov.br
