Discurso do Presidente Lula: lançamento da pedra fundamental da Usina de Biodiesel BSBios

 

Passo Fundo-RS, 20 de junho de 2006

Meu caro Germano Rigotto, governador do estado do Rio Grande do Sul. Minha querida companheira Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil. Meu querido companheiro Guilherme Cassel, ministro do Desenvolvimento Agrário - não é interino, é ministro, não é ministro interino. Meus caros companheiros ex-ministros e ex-governador do estado, Olívio Dutra. Meu caro Miguel Rossetto. Meus companheiros deputados federais, Beto Albuquerque, Adão Pretto, Henrique Fontana, Marco Maia, Orlando Desconsi, Paulo Pimenta, Tarcísio Zimmermann. Meus companheiros. Senhor Airton Dipp, nosso querido Dipp, prefeito de Passo Fundo. Meu caro Antônio Roso, presidente da BSBios. Minha querida companheira Maria das Graças Foster, presidente da Petrobras Distribuidora. Meus amigos deputados estaduais. Meu caro Luiz Roberto Ponte, secretário estadual de Desenvolvimento do estado. Meus companheiros prefeitos aqui presentes. Professor Luiz Getúlio Soares, Magnífico Reitor da Universidade Federal de Passo Fundo. E vereador Waldir Mendes, presidente da Câmara de Vereadores, em nome de quem eu quero cumprimentar todos os vereadores aqui presentes

Eu penso que, primeiro, é importante que a gente agradeça à BSBios e seus empresários, que são dois empresários da região, pela decisão corajosa de acreditar no Programa do Biodiesel e acreditar que é possível, entrando num mercado muito recente e muito novo, fazer a sua indústria, que já nasce como a maior da América Latina, se transformar não apenas numa indústria capaz de produzir para atender o mercado interno, mas para exportar, porque o biodiesel é um combustível que não interessa apenas ao Brasil, mas interessa ao mundo, que tem que cumprir o Protocolo de Quioto, portanto, tem que poluir menos o Planeta. E ninguém, no mundo, tem capacidade de competir com o Brasil em se tratando de combustível renovável.

A segunda coisa que eu queria dizer para vocês é o seguinte: o estado do Rio Grande do Sul, eu, desde a primeira vez que vim aqui, em 1975, recém-eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, e aqui encontrava o recém-eleito presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, o companheiro Olívio Dutra, eu voltei para São Paulo com a impressão de que eu tinha visitado um estado diferenciado.

Este estado é um estado que teve o privilégio de ter acesso à escola acima da média dos outros estados brasileiros. Este estado é um estado em que o povo aprendeu a comer primeiro do que a média do povo brasileiro, a gente vê pela bochecha das crianças, andando pelo estado do Rio Grande do Sul. Este é um estado em que a educação fez a diferença. Este é um estado que teve figuras políticas importantes e, se a gente quiser lembrar a mais importante delas, a gente vai lembrar do Getúlio Vargas, mas poderemos lembrar do Brizola, do João Goulart. É um estado que teve um grau de politização acima da média do país. Portanto, é um estado que também teve uma industrialização muito importante, em momentos em que o Brasil ainda estava capengando. É um estado que teve uma agricultura muito forte, é um estado que teve uma pecuária muito forte. Mais recentemente, teve a indústria automobilística adentrando esse território.

Mas, muitas vezes, as coisas não acontecem sempre do jeito que a gente gostaria que acontecesse. Eu, durante muito tempo na minha vida, jamais imaginei ouvir falar em seca no Rio Grande do Sul e, de uns tempos para cá, tem dado algumas secas que não são normais que aconteçam num estado extraordinário como este. E a seca tem prejudicado uma parte da fonte de geração de riquezas deste estado e, por que não dizer, do Brasil. Deste estado, por conta da agricultura, e do Brasil, por conta que este estado é um dos maiores produtores de máquinas e implementos agrícolas do país. Ora, na medida em que a gente tem a combinação de seca no nosso país, na medida em que a gente tem uma combinação de superprodução de determinados grãos no mercado mundial, nós sofremos um problema de baixa de preço, e aí muita gente perde.

A agricultura é cíclica, ela tem períodos de extraordinários ganhos e tem períodos de prejuízos. O café, quem não se lembra do que aconteceu com o café durante muito tempo? Eu, por exemplo, quando ganhei a Presidência da República, o café estava 37 dólares a saca. Hoje, a saca já chegou a 130 dólares ou chegou a 97 dólares, numa demonstração de que eu sou otimista com relação ao estado do Rio Grande do Sul, Rigotto, muito otimista. Eu acho que essa crise que o estado está vivendo é uma crise temporária. Não é possível que um estado que tem a mão-de-obra qualificada que tem o Rio Grande do Sul, a capacidade produtiva que tem o Rio Grande do Sul, ora, deixou de vender máquinas porque, na medida em que tem uma crise na agricultura, os agricultores não renovam as suas máquinas? Mas essa crise também não pode durar a vida inteira, essa crise vai terminar.

Ainda esta semana eu tomei um susto, porque me disseram que tinha um problema aqui no Rio Grande do Sul, de energia, porque os lagos estão vazios, passou muito tempo sem chover. E nós assumimos um compromisso de não permitir que tivesse mais "apagão" aqui e em nenhum lugar do Brasil. Porque, graças à competência da ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, e do nosso atual ministro, Silas Rondeau, nós estamos concluindo, em sete anos, tudo o que foi feito em 122 anos, em linhas de transmissões, nós estamos fazendo 22% em apenas 7 anos, tentando interligar todo o sistema brasileiro. Porque, se tiver problema de energia aqui, nós vamos ter que transportar energia de outros lugares do Brasil para trazer para cá, para a gente não permitir que este estado sofra mais um problema, além da seca que já sofreu, além dos problemas em alguns setores da indústria. Como Deus, segundo a música do nosso querido Luan, é gaúcho, as nuvens estão se preparando para chover e encher os nossos lagos, melhorar a nossa produção agrícola. E dizer, Rigotto, que, se Deus quiser, o ano que vem o Rio Grande do Sul não terá nenhuma urucubaca de chuva, de sol, ou seja, vai ser um estado que vai crescer de forma extraordinária.

A segunda coisa que eu acho importante a gente ter em conta, estes dias eu fui a São Paulo e os trabalhadores metalúrgicos da GM me procuraram para me entregar uma carta, porque a GM estava mandando embora mil metalúrgicos em São José dos Campos. Mas, ao mesmo tempo, ela anunciava que ia contratar mil e 300 em Gravataí. Ora, eu, como presidente do Brasil, não posso ficar brigando para a empresa manter aqueles empregados ali, se ela vai levar outros empregados para outra parte do Brasil. Mas eu entendo e acho normal que o dirigente sindical da região, que o prefeito, brigue para o empregado ficar no seu estado. Para mim, se estiver gerando emprego, no Chuí ou Oiapoque, dentro do Brasil, já está ótimo. Agora, sempre é uma preocupação. Esses dias tivemos problema com a indústria automobilística, discutimos para ver qual a solução que nós tentamos encontrar para ajudar a resolver. E a nós preocupa a questão da indústria de máquinas no estado do Rio Grande do Sul. Nós já orientamos o nosso Ministro do Desenvolvimento e Comércio Exterior, a nossa companheira Dilma Rousseff, o Ministro da Fazenda, para que a gente estude uma forma, junto à Camex, junto ao nosso setor exportador, para ver se a gente cria mecanismos próprios de exportação e facilidade em vender essas máquinas para os países vizinhos que precisam que nós... comprar a nossa máquina e que nós, muitas vezes, não vendemos porque os mecanismos de financiamento são complicados, da nossa parte e da parte deles.

Mas tudo o que eu quero e que tenho obsessão, na vida, é que o trabalhador tenha trabalho, porque tendo trabalho ele tem salário, tendo salário ele leva as coisas para casa e tem dignidade, vai ser respeitado pela família, vai respeitar a família e o país vai ficar muito melhor. Eu acho que os companheiros do Rio Grande do Sul precisam compreender que isso é uma crise momentânea. Se tem um estado, no país, que tem estrutura, estrutura intelectual, estrutura profissional, para dar um salto de qualidade e sair disso, é o Rio Grande do Sul.

Portanto, é importante que a gente não permita que a depressão caia sobre ninguém. De vez em quando tem pessoas que não se conformam mesmo com nada, reclamam, mas isso faz parte da vida. Você está vendo um negócio, está cheio de time querendo que o time ganhasse de 1 a 0 ou ganhasse no pênalti, e já estaria feliz. O Brasil já ganhou duas partidas e os brasileiros ainda estão reclamando de que a seleção não está jogando tudo o que sabe, porque nós temos muita expectativa e, muitas vezes, queremos mais do que o limite da força humana pode fazer naquele determinado momento.

Então, eu acho que é apenas a gente acreditar sempre, todo santo dia, que as coisas podem melhorar, e certamente vão melhorar. Se o Luan, que eu conheci falando rouco, parecia um meninozinho que tinha uma voz bem rouquinha, está com a voz afinada, daqui a pouco ele estará cantando em qualquer lugar deste país. Se deu esse show hoje, significa que todos nós poderemos vencer na vida, também, e o Rio Grande do Sul, mais que todos nós. Eu estava dizendo para o Luan que ele está melhorando a cada dia. Na primeira vez que ele foi no Raul Gil, eu achei que esse moleque ia ser um grande apresentador de televisão, porque ele falava mais do que o Raul Gil. Mas, agora, ele está se comportando e está aprendendo a cantar, com uma ajudazinha do Dipp, aí, acho que esse menino vai longe, e também na hora que as fãs começarem a comprar o seu disco, viu, Luan? Você precisa vender disco e fazer um showzinho, está bem?

Bem, mas não foi isso que eu vim fazer aqui. Eu vim falar com vocês da minha alegria, muita alegria. O que está acontecendo no Brasil, neste momento, é uma coisa que eu esperei há muito tempo e que, possivelmente, nem todo mundo compreenda, num primeiro momento. Quando nós começamos a discutir o biodiesel, em 2003, o biodiesel foi criado, foi projetado, foi inventado pela primeira vez pelo professor Expedito Parente, da Universidade Federal de Fortaleza. Depois ficou, de 75 até 2003, sendo um projeto, assim, sabe aquele negócio que brasileiro costuma falar: "não, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo", mas nunca tinham tomado a decisão de transformar o biodiesel em uma fonte energética alternativa para este país.

Eu pedi para a Dilma coordenar um grupo, ela coordenou um grupo com mais de 60 empresários, trabalhadores, técnicos em ciência e tecnologia e, em 2004, terminaram o projeto. Nós começamos a fazer o marco regulatório, fazer todas as leis possíveis que tinham que ser feitas, o Congresso Nacional prestou um serviço extraordinário, porque aprovou. E nós estamos, há pouco tempo, produzindo biodiesel. O biodiesel, ele vai ter para o Brasil um efeito, na minha opinião, Governador, maior do que teve o Proálcool. O Proálcool também surgiu de uma crise, muita gente pensa que se inventou o Proálcool porque se inventou. Não. No tempo em que se inventou o Proálcool, a cana-de-açúcar tinha chegado a 1.200 dólares a tonelada no mercado internacional. Aí, como de hábito, todo mundo planta cana-de-açúcar. No ano seguinte, ela baixou para menos de 200 dólares. E, aí, qual era a pergunta: "o que se vai fazer com os canaviais?" E, aí, então, introduziu-se a questão do Proálcool que, num primeiro momento, teve muito subsídio do governo. Todos nós, aqui, da nossa geração, em algum momento fomos contra o Proálcool. Todos nós fomos contra, porque dizíamos que ajudava só usineiro e não sei das quantas.

E, hoje, o que que nós estamos vendo? O Proálcool é responsável pela geração de quase 2 milhões de empregos neste país, está exportando mais de 2 bilhões, faz parte do componente energético de combustível para o nosso país. E hoje nós estamos quase que convencendo o mundo inteiro de que o etanol pode ser uma alternativa extraordinária para que os carros transitem pelo mundo afora. Então, o que nós queremos é que o biodiesel se transforme nessa coisa que foi o Proálcool ou um pouco maior.

E o biodiesel, depois que começou a ser plantado no Brasil, tem sempre as pessoas céticas. Eu sempre sonhei que o biodiesel viria resolver um problema crônico nosso, sobretudo na agricultura familiar, para gerar empregos nas regiões mais empobrecidas do país, mas também para a chamada agricultura empresarial. Porque na hora em que a gente começar a produzir biodiesel em escala, começar, ao invés de dois, colocar 10, 15 ou 20% de óleo vegetal junto ao biodiesel, a gente vai então ter uma necessidade de produção excepcional, e haja mamona, haja soja, haja canola, haja dendê, haja caroço de algodão, haja girassol, haja gordura animal, porque pode também, da gordura animal, produzir o biodiesel. Ou seja, nós vamos precisar de muito, não apenas para atender o mercado interno, mas para vender lá fora. O mundo hoje sabe que o Brasil é ponta de lança em política energética renovável, o mundo sabe que o Brasil saiu na frente.

E depois do biodiesel, nós inventamos mais uma coisa, meu caro Olívio, a Petrobras conseguiu criar uma coisa chamada H-bio, que não precisa passar pelo processo de transesterificação pelo qual passa o biodiesel, vai direto na refinaria, refina e já sai o óleo de qualidade. E isso significa que nós nos tornamos pioneiros nisso, patenteado pela Petrobras.

E eu dizia que nós vamos resolver o problema do produtor de soja no Brasil, por quê? Porque na hora em que o preço no mercado internacional tiver baixo, a gente carrega um pouco mais no biodiesel, no H-bio, como disse a Graça, no biorrefino, ou outro nome qualquer que queira inventar, mas com muita seriedade. Porque nós precisamos garantir ao mercado interno, porque na hora em que a gente disser que vai ter aquele combustível, nós temos que garantir que tenha no posto de gasolina. Então isso, Rigotto, significa uma revolução. É uma revolução que, possivelmente, eu que já tenho 60 anos, não vá ver o seu resultado final. Mas, certamente, os meus filhos, os meus netos, os seus filhos, certamente o Luan, vão ver o significado do que vai acontecer com a questão do H-bio, do biodiesel ou do biorrefino que a Graça falou aqui, porque vai ser uma revolução para a agricultura e para a indústria brasileira e para o mundo. O mundo vai ter que ser curvar diante do Brasil quando se tratar, não apenas de futebol ou de carnaval, mas quando se tratar de energia renovável, combustível renovável, porque nós somos extremamente competitivos. Então, eu estou alegre por isso, porque é um filho que nós geramos, a gente está vendo esse moleque ganhar corpo, ficar com a bochechinha rosada, forte, sem nenhum problema de doença.

E quando eu venho aqui neste estado e vejo se instalar uma fábrica, que a gente já poderia estar inaugurando, se não fosse a burocracia de financiamento, já recebi as reclamações aqui, vamos tomar sérias providências, quando o governo quer ser duro com a sua burocracia eu dou para a Dilma resolver, porque ela consegue ser mais dura do que eu, menos política do que eu e mais administradora. Então, nós vamos resolver esse problema, porque este é um programa que o governo convenceu a Petrobras a adotar, porque a Petrobras gosta mesmo é de petróleo, isto é um intruso na vida da Petrobras. E nós convencemos a Petrobras a adotar, nós falamos para Petrobras que não basta ter um filho único, precisa ter dois ou três. Então, ela agora está trabalhando mais na questão do gás, ela agora está trabalhando na questão do H-bio e assim nós vamos fazer com que o Brasil seja o país mais importante do século XXI. Em se tratando de combustível renovável e de energia renovável, ninguém conseguirá competir com o Brasil.

Então eu quero, Rigotto, dar os parabéns a você, como governador, ao estado do Rio Grande do Sul. Quero dizer aos empresários que eu fico gratificado em saber que vocês estão acreditando no projeto e, sobretudo, quero parabenizar os produtores, sejam eles grandes, pequenos ou médios, porque nesta casa chamada Brasil há comida para todos, há espaço para todos. Embora eu diga sempre que a gente tem que privilegiar os mais pobres, não significa que a gente não saiba que aquele que produz mais, aquele que tem mais tecnologia, tem que ter o espaço de sobrevivência. Afinal de contas, não é pelo fato de ele ter mais tecnologia que ele tem que ser prejudicado, ele precisa ser premiado porque investiu em tecnologia. É este país de todos que nós queremos concluir, por isso eu disse que estamos vivendo um momento excepcional e por isso eu disse que estou feliz. Eu sei que tem gente nervosa pelo Brasil afora, tem gente que está brava, não tem problema. Eu, nesta altura, estou fazendo política como o Ronaldinho gaúcho joga bola, com alegria, até porque eu estou nisso porque eu quero, não estou nisso porque fui empurrado. E nós vamos fazer e queremos apresentar resultados. E o resultado dessa pedra fundamental, daqui a um ano, será uma fábrica gerando emprego, gerando produção agrícola, gerando combustível novo, e isso é tudo que o povo brasileiro precisa: paz, tranqüilidade, muita democracia, emprego, educação, distribuição de renda e cultura. Se nós conseguirmos oferecer isso, nós poderemos morrer, que o nosso lugar no céu está garantido.

Muito obrigado a todos vocês e boa sorte ao povo gaúcho e aos empresários.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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