Hotel Blue Tree Towers - Brasília-DF, 27 de junho de 2003
Meu querido companheiro Aloizio Mercadante, líder do Governo no Senado. Meu querido companheiro Tião Viana, líder do PT no Senado. Queridas senadoras que estão aqui, Ana Júlia, e o senador Eurípedes Camargo. Meu querido companheiro Suplicy, Companheiro Jorge Bittar. Companheiro Nelson Pellegrini, líder do PT na Câmara. Minha querida companheira Trindade. Meu querido, se Deus quiser, futuro governador de Brasília, Geraldo Magela. Meu querido companheiro Edmilson Rodrigues, prefeito de Belém. Meu querido companheiro João Paulo Lima, prefeito de Recife. Minha querida companheira Marta Suplicy, prefeita de São Paulo. Meu querido companheiro Fernando Pimentel, prefeito de Belo Horizonte. Meu querido companheiro Pedro Wilson, prefeito de Goiânia. Meu querido companheiro Verle, prefeito de Porto Alegre. Meu querido companheiro João Henrique, prefeito de Macapá. Meu querido companheiro Carlão. Companheiro Vacareza. Ministros e ministras presentes neste ato. Companheiros vereadores. Eu estou vendo aqui um companheiro portador de deficiência física. Estou vendo o Arnaldo Godoy sentado, tentando me olhar, mas ele não pode me ver porque ele é cego. Eu estou aqui à tua esquerda, viu, Arnaldo! Agora, você está olhando para mim. Meu querido companheiro, que é nosso vereador em Belo Horizonte, em nome de quem eu quero cumprimentar todos os vereadores, de todas as cidades brasileiras, que estão presentes neste ato. Quero cumprimentar todos os nossos deputados estaduais, os nossos secretários de Governo, lamentando que o Luizinho esteja sentado - como ele é baixinho, ele não consegue botar o pé no chão - mas o companheiro Luizinho tem sido um gigante na Câmara. Minha querida companheira Maria José, da região de Teófilo Otoni. Clara Chaves, outra querida companheira. Meus companheiros e companheiras.
Eu tenho dito a todos os públicos, em todas as oportunidades, que eu nunca estive tão tranqüilo na minha vida, e nunca estive tão dotado da certeza de que nós vamos cumprir, não cada coisa que nós colocamos no nosso programa, mas cada coisa que foi a razão da nossa entrada na vida política do nosso país.
E vamos cumprir com as coisas em que nós acreditamos, do jeito que é possível fazer. Sem pressa, sem afobamento e sem atabalhoamento. Eu disse, no Congresso da CUT que, se o ser humano tivesse consciência de que o seu corpo é mais leve do que a água, e se ele tivesse equilíbrio psicológico, ele nunca morreria afogado. Ele só morre afogado porque fica nervoso, não controla a respiração, começa a se bater demais, vai ficando cansado, abrindo a boca e gritando socorro para quem não está ouvindo. Dali a pouco, morre. Na política, também é assim. Na política, nós temos que ter cuidado. Na política, nós temos que saber que não estamos sozinhos, que tem gente do nosso lado, mas tem gente contra a gente. Tem gente querendo que a gente acerte, mas tem gente querendo que gente erre. E, por isso, a cautela, o controle psicológico e a ação de cada passo medido e contado no tempo certo são para obtermos sucesso, para cada um de nós fazer as coisas certas.
Isso vale até para o casamento. Tem gente que, na primeira briga, já se separa; tem gente, como eu, que tem paciência; quando a parceira tem razão, não custa nada pedir desculpas e dizer: você tem razão, eu errei, vamos para outra. E assim eu já estou chegando aos 30 anos de casado.
Tem gente que se apavora, e como eu não estou presidente por acaso, eu estou presidente porque eu queria ser presidente da República, porque vocês queriam que eu fosse presidente da República, e eu estou presidente da República porque uma grande parcela da sociedade, ao longo do tempo, foi acreditando nas coisas que nós íamos dizendo para ela.
Eu queria provar a muita gente no país e no mundo que a mazela da coisa chamada "experiência" não é a principalidade, como diria o Genoíno, para você fazer um belo Governo. Eu venho aprendendo a governar desde 1982, quando a gente elegeu uma única prefeitura, a prefeitura de Diadema, no estado de São Paulo.
Aquele tempo, sim, era duro. Era duro porque o PT, naquele tempo, não tinha a experiência que nós temos. O PT era mais novo, todos nós éramos mais exigentes, eu diria até, mais inconscientes do que somos hoje, e queríamos, a partir da cidade de Diadema, fazer o socialismo.
A gente foi aprendendo que o prefeito tinha limitações de tal ordem que ele não podia fazer, muitas vezes, nem 10% daquilo que era o sonho da militância. Eu morava em São Bernardo do Campo, e aqui, se tiver vereador de Diadema, eu peço o testemunho: as pessoas eram muito radicalizadas, e às vezes, às duas horas da manhã, chegava uma turma partidária do prefeito Gilson na minha casa, alguns até pulavam o muro, com um gravador para ouvir os conselhos que eu dava; aí, quando a turma favorável ao Gilson ia embora, chegava a turma contra o Gilson e eu ficava, às vezes, até às 3, 4 horas da manhã, tentando pacificar.
Às vezes eu ia para Diadema, às vezes ia um outro companheiro do PT, e às vezes era briga, "pau puro," naquelas reuniões, porque as pessoas não tinham experiência e achavam que o prefeito podia tudo, achavam que o prefeito tinha obrigação de fazer tudo, tinha que resolver o problema de salário, da água, do asfalto, quando o prefeito tinha uma limitação enorme, como tem até hoje.
Mas isso foi um processo de aprendizado. Depois vieram outras prefeituras, vieram os governos dos Estados. Quem é que não se lembra da nossa experiência no Espírito Santo? Quem é que se lembra quantas horas nós passamos acordados, para tentar encontrar uma solução política para o problema do Espírito Santo? Sem discutir se quem estava errado era o governador ou os deputados ou se quem estava certa era a oposição, que batia muito na gente, o dado concreto é que nós utilizamos aquilo como experiência e essas experiências me davam a certeza de que, quando chegássemos à Presidência da República, nós iríamos fazer um governo inesquecível neste país.
E sabíamos das limitações. Vocês não pensem que eu fiquei chorando aquilo que foi deixado de herança para nós, porque entendíamos que não tínhamos tempo de ficar chorando as coisas que não aconteceram, tínhamos que pensar no que fazer. Afinal de contas, um mandato é de apenas quatro anos, e não tínhamos tempo de ficar culpando quem passou antes de nós, tínhamos que começar a dizer o que iríamos fazer a partir de nós.
A primeira coisa era montar um time. E o time foi montado. Mas também era preciso montar um Ministério, que no Brasil, companheiro João Paulo, é como convocar a Seleção Brasileira. Como são muitos jogadores, há sempre alguém que vai ficar de fora. Mas sempre será assim. Sempre. Quando se tem que escolher o Papa, um monte de gente fica de fora. Quando se tem que escolher os cardeais, um monte de gente fica de fora. Na política também é assim. Montamos o time. Criamos as coisas que, ao longo do tempo, nós entendíamos que deveríamos criar.
Criamos o Ministério das Cidades, que era um sonho e uma reivindicação do movimento que lutava, neste país, por habitação e saneamento básico. Criamos o Ministério da Pesca, porque nunca admitimos que um país que tinha 8 milhões de quilômetros de costa não tivesse um Ministério da Pesca. Reforçamos a Secretaria da Mulher, com a companheira Emília. Criamos a Secretaria da Igualdade Racial, com a companheira Matilde. Criamos o Ministério da Promoção e Assistência Social, com a companheira Benedita. Criamos o Ministério da Segurança Alimentar, que era para termos um órgão específico para cuidar da fome. Criamos o Ministério do Turismo. Tem muita gente que pensa que aumentou muito o número de Ministérios. Não aumentou muito. Nós fizemos apenas o necessário.
Eu era muito pequeno e minha mãe falava: meu filho, cachorro de muitos donos morre de fome, porque todo mundo pensa que alguém pôs comida e ninguém pôs. Não adiantaria colocarmos num ministério 300 funções, que um homem só não daria conta de resolvê-las. A fome é tão importante que, se os estudiosos deste país soubessem que falar da fome daria a repercussão internacional que deu o nosso programa, eles teriam falado antes de mim. Ou não teriam falado? Teriam.
Nós falamos da fome, não porque nós sabíamos, teoricamente, que há fome, mas porque já passamos fome e convivemos com gente que passa fome até hoje. Então, a fome deveria ser colocada na ordem do dia. E era preciso um ministério específico para cuidar disso. É demorado? É. Eu digo sempre e vou dizer para os vereadores: a coisa mais simples que se planta, que é um pé de feijão, temos que esperar 90 dias para colher. E, muitas vezes, nós somos afobados. Muitas vezes queremos colher antes de plantar. E não dá.
Temos que dar tempo às coisas que queremos fazer. Alguém tem dúvida de que o companheiro Humberto Costa será melhor ministro da Saúde do que foram os que passaram antes dele? Alguém tem dúvida de que o Ricardo Berzoini será melhor ministro da Previdência do que os que passaram antes dele? Alguém tem dúvida se um Waldir Pires vai combater, de verdade, a corrupção neste país? Alguém tem dúvida de que o Olívio Dutra vai ser melhor ministro das Cidades do que os secretários de Desenvolvimento Urbano que nós tivemos? Alguém tem dúvida de que a Benedita pode cuidar de política social melhor do que os que passaram antes dela? Alguém tem dúvida de que a Marina vai ser melhor ministra do Meio Ambiente do que outros que já houve? Alguém tem dúvida, meus companheiros e companheiras, de que o companheiro José Graziano entende de fome?
Essas dúvidas precisam sair da cabeça de vocês, para que vocês comecem a perceber. O companheiro Fritsch é de uma cidade que não tem nem praia, e foi escolhido ministro da Pesca, porque não é preciso morar perto do mar, é preciso acreditar na proposta de que nós precisamos ter o Ministério da Pesca e construí-lo.
Eu estou orgulhoso do meu time. Orgulhoso. Inclusive dos que não são do PT, como o companheiro Ciro Gomes, o companheiro Mares Guia, o companheiro Roberto Rodrigues, o companheiro Gilberto Gil, o companheiro Luiz Furlan, o companheiro Miro Teixeira, companheiros que não eram nossos. A Dilma é do PT, ou seja, o time está preparado.
Agora, vocês têm que convir, alguns ministérios começaram agora, somente agora é que conseguiram montar a sua estrutura, porque a primeira medida que eu tomei foi pedir à Casa Civil para cortar funcionários em todos os ministérios; e nós criamos um monte de ministérios com a mesma estrutura de funcionários que havia antes de tomarmos posse.
Aí é preciso um milagre da multiplicação dos pães, porque é fácil montar um ministério e contratar logo "um milhão" de pessoas de fora, mas ficar esperando que alguém ceda um funcionário para o ministério do Fritsch, que todo dia liga para o José Dirceu, que todo dia fala comigo, liga para o Gilberto Carvalho...
Somente agora é que ficou pronta a estrutura do Ministério da Cultura, e não pensem que demorou, é porque é preciso fazer a combinação de moralizar a máquina administrativa, combater a corrupção, olhar as deficiências e tentar fazer alguma coisa melhor. Isso não é fácil, mas como sabemos que o nosso mandato e o nosso projeto têm muito tempo pela frente, então teve que mudar para uma coisa sólida, e eu não tenho dúvida e por isso eu disse, companheiro Genoíno, que esperem o mês de julho. Eu citei a frase que vocês iriam assistir ao espetáculo do crescimento, porque acredito que as coisas que foram plantadas começarão a brotar agora e em poucos meses. Este ano, o que nós plantamos já estará dando frutos que nós queremos colher para alimentar a nossa gente.
Essa convicção me fortalece todo santo dia, essa convicção me dá a certeza de que nós vamos fazer aquilo que assumimos o compromisso de fazer. Até porque eu digo sempre: eu tenho que fazer e não posso errar, porque qualquer pessoa neste mundo velho de guerra pode ganhar as eleições, não fazer o que prometeu e depois ninguém lembrar, porque a pessoa desaparece e fica por isso mesmo. Eu, não.
A maior conquista que eu tenho na minha vida não é a de ser presidente da República, é ter conquistado o direito de andar de cabeça erguida, de olhar na cara de cada um de vocês e ter a certeza de que estou falando e fazendo aquilo que historicamente nós defendemos, e isso eu não posso perder.
Somente nós poderemos fazer as reformas. Quando eu dizia, durante a campanha, que somente nós sabíamos fazer as reformas, é porque eu tinha convicção. Ninguém tem que ter vergonha de fazer as reformas necessárias. Não queremos tirar direitos de ninguém, queremos aumentar o direito de quem não tem direito neste país, de quem está excluído.
Ao querer que um professor universitário se aposente com 60 anos, não estamos querendo penalizá-lo, pelo contrário, estamos querendo manter na universidade a inteligência brasileira que a sociedade financiou. Queremos valorizar o profissional, queremos que ele, no auge da sua capacidade intelectual, continue dando aula da mesma forma que nós não queremos penalizar um juiz ou qualquer outra pessoa.
Agora, o que não é justo é um cortador de cana ter que se aposentar depois dos 60 anos, e um outro profissional se aposentar com 53 anos. Nós queremos apenas fazer justiça. Não estamos diminuindo o salário de ninguém. Estamos apenas pedindo: companheiro, quando você se aposentar, não pegue aumento de salário. Se um aposentado federal paga 11% de imposto quando está na ativa e, quando ele sai, deixa de pagar e recebe o salário integral, significa que obteve 11% de aumento. Então nós estamos pedindo: companheiro, deixe esses 11% para a gente poder contribuir para que o seu filho ou o seu neto, amanhã, tenha o direito de se aposentar. Não estamos fazendo nenhum mal, não estamos querendo privatizar a Previdência.
Agora, nós temos que acreditar. O que nós não podemos é aceitar que uma minoria determine as condições de vida da maioria do nosso povo. Afinal de contas, hoje, nós somos uma sociedade de maioria excluída, que não está no mundo do trabalho, que não está no mundo da Previdência, que não está, inclusive, no mundo da saúde, companheiro Humberto Costa. E nós precisamos trabalhar para que essa gente possa vir a participar do processo distributivo do Estado brasileiro.
Eu sei que muita gente tem afinidade, é ligado, como eu, às corporações. Eu sei. Eu sei que é difícil, às vezes, o companheiro falar: "os meus amigos são do sindicato tal". Eu não estou falando isso agora. Quem me conhece sabe que já faz, aproximadamente, oito anos que eu estou fazendo o seguinte discurso para o movimento sindical: vocês precisam deixar de ser corporativos, de pensar apenas no aumento de salário e começar a pensar no tipo de Brasil que nós queremos construir. O sindicato precisa ser mais aberto, o sindicato precisa pensar naqueles que não estão no mercado de trabalho, naqueles que não estão na escola. Não há tempo para defendermos apenas o pão da gente. O que nós queremos é repartir o pouco que temos até termos condições para criar o muito que nós precisamos.
Isso não acontece por milagre, isso acontece por gestos, isso acontece por ações. E por mais perfeitas que sejam as ações, elas não acontecem no dia que a gente quer. Quem é vereador, prefeito, deputado, sabe o que eu estou falando. É fácil fazer um discurso. Mas tente transformar o seu discurso em coisa prática para ver o quanto demora, porque não depende só de você, depende da estrutura de poder, de concorrência, de aprovação de lei, depende de uma série de coisas. E vocês, que são vereadores, sabem perfeitamente bem o papel importante que vocês podem jogar na construção desse projeto, que não é um projeto do Lula ou do Genoíno, é um projeto partidário.
Nós, agora, no mês de julho, companheiro Genoíno, estamos preparando uma data - eu não tenho a data definida - em que vamos fazer uma apresentação dos seis meses de Governo: o que foi feito em cada ministério, quais políticas já estão feitas, que já estão produzindo. E eu não tenho dúvida de afirmar, antecipadamente, o resultado: que nesses seis meses, nós já fizemos muito mais do que qualquer Governo fez. Não tenho dúvida disso. E eu quero fazer para que cada um de vocês tenha nas mãos, no dia-a-dia de vocês, as coisas que já foram feitas.
Eu me lembro, quando tomamos posse, da dúvida que havia no país, se iríamos conseguir tocar a economia ou não. É importante lembrar que muita gente que escreve hoje contra a política econômica, não teve coragem de escrever em dezembro. Sabe por quê? Porque em dezembro a perspectiva inflacionária era de 40%. Não são os 7,5% que nós já conseguimos, agora, ou da previsão de 5,5% para o ano que vem. E foi preciso coragem, muita coragem, porque o mais fácil seria blefarmos para a sociedade. Mas eu sempre trato as decisões que tomo com se eu estivesse fazendo alguma coisa para o meu filho. Eu não quero tratar nenhum brasileiro de forma diferente; às vezes, temos que dizer "não" para um filho da gente, porque isso faz mais bem para o futuro dele do que não dizermos nada. Às vezes, o bom é aquele que diz "não", não é o que diz "sim".
Nós fizemos isso com a certeza de que teríamos o controle da situação. Vocês estão lembrados de que, em dezembro, este país não tinha um dólar de crédito internacional para financiar nossas exportações? Pois bem, em seis meses nós conquistamos uma credibilidade que, possivelmente, na história do Brasil, nenhum Governo teve, em seis meses.
Conseguimos fazer pela América do Sul o que não tinha sido feito em 100 anos. Hoje, quando falamos em integração na América do Sul, cada presidente da República, de cada país da América do Sul, sabe que "integração" não pode ser apenas uma palavra solta no seu discurso, porque nós falamos com facilidade na integração da América do Sul, da América Latina, mas integração não é só palavra, integração é estrada, é ponte, é ferrovia, é aeroporto, são portos, isso é integração.
Hoje, tem gente da América do Sul que tem que ir para Miami, se quiser vir para o Brasil fazer negócio; já faz negócio em Miami, não precisa vir ao Brasil.
O Brasil não tem um vôo de empresa brasileira para a África. Como é que nós podemos falar em integração? E, vejam a vergonha: Cabo Verde, que só tem 500 mil habitantes, tem um vôo semanal para o Brasil, e nós não temos para lá.
A África do Sul tem vôo para cá, mas nós não temos para lá. Como é que nós queremos falar em integração, João Paulo, se nós não cuidarmos concretamente da integração física deste nosso continente?
Muitos de vocês aqui participaram da polêmica se eu deveria ir ou não a Davos. Eu me lembro que teve gente que falou: "olhe, cuidado, você vai a um fórum social em Porto Alegre dizer que vai a Davos, você vai ser vaiado". Acontece que, na minha vida, eu nunca tive preocupação com vaia, isso nunca me abalou, até porque eu acho que as pessoas têm o direito de gostar e de não gostar, é um direito normal das pessoas.
Mas porque eu fui a Davos? E fui a Porto Alegre avisar que eu ia. Porque eu tinha consciência de que era uma oportunidade ímpar para o Brasil se apresentar, onde os "megas" se apresentam todo ano, e dizer: "olhe, tem gente nova no pedaço". E fui lá com muito orgulho, foi a única vez em Davos que alguém falou em português, a única vez.
Eu acho que poucas vezes o português foi tão entendido como em Davos, porque a palavra universal não é o inglês, o francês, o russo ou o português, a palavra universal é o sentimento, é o caráter, é a força da palavra e do assunto que você está discutindo. Fomos lá para colocar a fome na ordem do dia, e foi colocada.
Depois eu fui convidado para ir a Evian, e foi a primeira vez que um presidente, que não é do G-8, participou do G-8. E nós fomos lá com muita tranqüilidade, para dizer: "nós existimos, nós somos um país com problemas sociais, mas nós não queremos tratar com vocês de forma subordinada, nós nos respeitamos, temos auto-estima". E fui dizer também para os outros governantes: nós precisamos parar de pedir as coisas para os ricos, todo dia: "olhem, quero um subsídio de vocês, quero um subsídio não sei das quantas." Eles não vão dar. Nós temos que criar alternativas. E qual é a alternativa? É o Brasil ter ousadia, é o Brasil fazer política internacional com mais competência, é o Brasil viajar por esse mundo dizendo: "olhem, o Brasil tem crianças de rua, sim, o Brasil tem carnaval, sim, o Brasil tem futebol, sim, o Brasil tem prostituição infantil, sim, mas o Brasil tem agricultura, tem trabalhador, tem tecnologia e nós temos coisas para vender para vocês, e queremos vender".
Vejam, não foi pouca coisa o que nós fizemos. Se alguém tem dúvidas, procure no seu estado, na sua capital, um especialista de política internacional.
Hoje, eu estarei viajando para Medellin. Era para ter embarcado ao meio-dia, já são meio-dia e meia. É a primeira vez, na história da Comunidade Andina, que um presidente estrangeiro é convidado. Sabem o que significa isso? Confiança, porque nós estabelecemos uma política de confiança com os nossos parceiros da América do Sul. Vamos estabelecer uma política de confiança com a América Latina, vamos estabelecer uma política de confiança com a África. Em agosto, eu estarei indo à África. Em dezembro, eu estarei indo ao Oriente Médio estabelecer uma política de confiança com os países árabes. Depois, nós vamos à China, à Índia, à Rússia, à Argélia. E nós vamos dizer: nós só iremos ter os países ricos cedendo àquilo que a gente quer, quando construirmos uma força própria.
E aí eu me lembro do primeiro boletim que eu fiz no sindicato, Ricardo. Eu fazia um boletim em que eu mostrava o João Ferrador com uma varinha só, e um texto, que dizia: uma varinha só é fácil de quebrar. Aí, eu mostrava um feixe e um texto que dizia: mas um feixe é impossível de quebrar. Os países em vias de desenvolvimento têm que se formar num feixe para que possamos estabelecer políticas de complementaridade entre nós e os outros perceberem que nós não estamos mendigando, nós queremos fazer negócio, nós queremos fazer parcerias. E nisso nós já estamos adiantados. E vamos continuar fazendo.
Aqui vai ter debate sobre a Previdência e eu estou "doido" para debater Previdência, mas o Presidente não pode se meter em tudo. É porque eu estou ouvindo uns discursos contra, e por isso eu adoraria participar dos debates. Para mim, quanto mais radical, melhor. Adoro. Adoro fazer esse debate. Mas eu sei que o Ricardo Berzoini e outros ministros virão aqui debater. O que nós fizemos esta semana e vamos fazer na semana que vem, foi muita coisa neste país.
Foram 4 bilhões de reais que nós liberamos para o microcrédito e para as cooperativas. Neste país, meu companheiro Waldir Pires, as pessoas de vez em quando invertem a discussão. É lógico que a taxa de juros é alta. Quem é que não sabe, 26% na taxa Selic. Agora, não é esse juro que está matando o povo. Esse juro está dificultando o papel do Estado de investir, mas é engraçado que eu nunca tenha visto as pessoas fazerem um discurso questionando por que essas empresas que fazem propaganda para as pessoas pegarem dinheiro emprestado cobram 333% de juros ao ano.
Eu nunca vi ninguém fazer discurso questionando porque um companheiro que vai comprar um liquidificador para pagar em 12 meses, paga 116% de juros ao ano. Ou seja, porque esse juro é o juro real de economia. Quando criamos esse investimento que fizemos essa semana, e vamos criar, na próxima semana, a cooperativa de crédito para a agricultura, estamos oferecendo alternativas para que uma mulher que queira comprar uma televisão não tenha que ir numa dessas empresas de crédito pagar 200% ao ano. Ela vai à Caixa tomar os 600 reais emprestados e pagar 2% de juros ao mês, o que é muito mais barato.
Nós não temos ainda todo o dinheiro que precisamos, mas estamos andando no caminho que precisa ser feito. Nós achamos que é preciso reduzir os juros, por isso estamos controlando a inflação, para baixar os juros. Por isso estamos fazendo essas cooperativas, para fazer com que o sistema financeiro baixe os juros ou ganhe dinheiro investindo em outra coisa e não apenas comprando títulos do Governo.
Eu só quero que vocês, quando voltarem para as suas cidades, voltem de cabeça erguida, dizendo: olha, nós temos "uns bichinhos" naquele Governo que sabem o que querem. E que sabem como fazer as coisas para dar certo. E podem ficar certos de que cada um de nós, aqui, desses "meninos" e "meninas" que estão no Governo, cada um de nós sabe o que quer, porque o nosso compromisso não é eleitoral, o nosso compromisso é histórico. O nosso compromisso é com a história deste país.
Eu quero terminar dizendo para vocês, companheiros, que eu não quero passar para a história do Brasil e não quero ser lembrado como presidente apenas porque no salão de honra do Palácio do Planalto vai ter uma fotografia de um velhinho de cabelo branco: esse foi presidente. Eu não quero passar para a história por essa fotografia. Eu quero passar para a história pelas obras que nós fomos capazes de fazer neste país, pela mudança de relação entre Estado e sociedade. E para isso, podem ficar certos, eu tenho as pernas curtas, mas os passos são largos.
Muito obrigado, meus companheiros, e boa sorte!
fonte: www.info.planalto.gov.br
