Vila Mocambinho - Teresina-PI, 04 de fevereiro de 2004
Vim aqui para ver com os meus próprios olhos uma coisa que conheço de perto.
Tenho muita experiência de viver em enchente. Quando saí de Santos e fui para São Paulo, fui morar em um bairro chamado Vila Carioca, e qualquer chuva que caía enchia a Vila Carioca de água. Depois, pensei que tinha melhorado de vida, fui morar em um bairro na divisa de São Caetano com São Paulo, chamado Ponte Preta, vizinho de uma vila chamada Vila São José, em São Caetano. Eu achei que tinha melhorado de vida. Mudei para lá no mês de junho. No mês de dezembro, peguei um "toró d'água", e entrou mais de um metro de água dentro da minha casa.
Naquele bairro, tomei três enchentes nas costas. Tinha que levantar à meia-noite, para tirar a mãe, para tirar fogão, colchão, cama. E, como eu tinha 20 anos de idade, a enchente não fazia a gente sofrer muito, porque a gente ia para um salão. Enquanto a minha mãe estava sofrendo, eu estava arrumando um jeito de fazer alguma coisa para a juventude se divertir.
Depois, meu irmão veio a Pernambuco, foi a um bingo e ganhou um jipe. E aquele jipe, de sócio com um primo meu, deu para a gente dar entrada numa casa na Vila São José, em São Caetano, na rua Padre Mororó, que nunca enchia d'água. Aí, compramos a casa, fizemos uma pequena reforma e nos mudamos. No primeiro ano em que a gente estava lá, em janeiro, entrou um metro e meio de água dentro da casa. Aí, fui morar no pé do morro e nunca mais tomei enchente.
Estou dizendo isso só para lembrar para vocês que não sou um estranho à situação que vocês estão vivendo. Em todos os lugares que morei, e que teve enchente, a casa em que morei estava abaixo do nível do rio, ou seja, quando o rio enchia, a casa estava abaixo. E, se eu morei abaixo do rio, toda vez que chovia, eu tinha que ter em conta que, se o rio enchesse demais e vazasse, ia encher a minha casa de água. E por que eu morava na beira do rio? Porque eu não tinha dinheiro para morar em outro lugar.
A situação de vocês é a mesma. Fui ver, agora, um lugar em que moram muitos de vocês. Na verdade, vocês estão morando dentro de uma piscina. Qualquer ser humano que chega ali vai perceber que, se chover, quem mora ali vai ter problemas. E alguns companheiros com mais fé e com mais possibilidades construíram as suas casas de alvenaria. E, quando a gente constrói uma casa de alvenaria, é porque a gente quer ficar, definitivamente.
Agora, o que acontece de verdade? O que acontece é que nós pegamos uma chuva exagerada em todo o nordeste brasileiro, em São Paulo e no Rio de Janeiro, vocês estão vendo pela televisão. Ou seja, neste mês de janeiro e nesse começo de fevereiro, provavelmente tenha chovido mais do que todo o ano passado. E, se chove muito, o rio enche, a água é jogada para onde tem que ser jogada, e quem estiver do lado leva o prejuízo.
Eu resolvi fazer essa visita - nós fomos a Juazeiro, na Bahia, fomos a Petrolina e estou vindo aqui - primeiro, para dizer que vocês, como outros tantos milhões de brasileiros, são vítimas do descaso que o poder público, historicamente, tem com o povo pobre do nosso país. Na medida em que vocês não podem comprar um terreno numa área boa, na medida em que vocês não podem pagar o aluguel de uma área boa, o pobre vai sendo escorraçado ou para a beira de um morro, que desbarranca e ele perde a família, ou para a beira de um córrego que, quando enche, inunda a sua casa.
Isso acontece aqui, em Teresina, acontece em São Paulo - vocês viram nesta semana -, acontece em Belo Horizonte, acontece no Rio de Janeiro, em Recife, em Salvador, em São Luís, em Timon, em qualquer lugar deste país. Por quê? Porque o poder público nunca tratou com a decência necessária a parte pobre da população. E os problemas se acumularam de tal ordem que não tem milagre para que, num toque de mágica, a gente possa resolver os problemas. E vocês sabem disso.
Pois bem, por que nós viemos aqui? Viemos, primeiro, para dizer a vocês que vamos fazer o que estiver ao nosso alcance para minimizar o sofrimento de vocês e para tentar criar as condições para que, no ano que vem, quando chover outra vez, vocês não sejam vítimas de uma enchente. Porque quem mora num lugar que dá enchente pode ter certeza: a primeira é de um metro de água, a segunda, de um metro e dez, a terceira, de um metro e vinte. Ou seja, nunca mais pára de encher. Pode o prefeito fazer a canalização, mas se o local estiver num lugar abaixo do nível da água, é fadado a sofrer.
Então, queremos ajudar a resolver isso. O que nós fizemos no primeiro momento? Está aqui, comigo, o ministro Ciro Gomes, que é o ministro da Integração, responsável pela articulação do atendimento às pessoas que são vítimas das enchentes. Está aqui o companheiro Waldir Pires. Está o Ministro da Agricultura, que eu trouxe para ver os prejuízos na fruticultura, lá em Juazeiro e em Petrolina. Está aqui o companheiro Humberto Costa, que é o nosso ministro da Saúde. Nós estamos tomando algumas medidas que são emergenciais.
O que é medida emergencial? Primeiro, antes de falar, eu queria agradecer essa juventude que está aqui, trabalhando como voluntário e com solidariedade. Segundo, Roberto Rodrigues, Waldir, Ciro, Humberto Costa, tem uma mulher aqui com a barriga demonstrando que, daqui a um mês, vai ter um filho. E para mostrar o que é a solidariedade, quando os companheiros da Prefeitura ou do Governo do Estado vieram distribuir colchão, essa mulher disse: "Eu não preciso de colchão, porque já tenho o meu aqui. Pode dar para outra pessoa que está precisando mais do que eu." Ou seja, ela, por estar grávida de oito meses, poderia ser mais exigente do que as outras. Entretanto, ela deu uma demonstração extraordinária de que, mais do que ninguém, entende o sofrimento das outras pessoas.
Mas nós tomamos algumas medidas. A primeira é a seguinte: o que não pode faltar para uma pessoa que está desabrigada? Primeiro, não pode faltar um abrigo, pois as pessoas não podem ficar na rua. As pessoas têm que ter um lugar, uma escola, algum local para ficarem. Isso é emergencial. A segunda coisa que fizemos é não permitir que ninguém fique isolado, não permitir que haja isolamento de comunidades ou de cidades. A terceira coisa é não permitir que falte comida. A quarta coisa é não permitir que falte remédio para quem precisa de remédio ou para quem precisa de médico.
Essas medidas nós tomamos como medidas emergenciais, porque sabemos que a solução definitiva é uma solução estrutural, que leva mais tempo. Vejam, nós temos no Brasil 117 mil pessoas que foram atingidas pelas águas. São 117 mil pessoas; 2.600 casas destruídas e 9.700 casas danificadas. Esses números são para dizer a vocês o seguinte: em muitas cidades as pessoas, na verdade, não tinham casas, tinham umas taperinhas, juntadas com barro, onde estavam morando, veio a água e destruiu tudo. Um outro que tinha uma casinha um pouco melhor, a água só conseguiu abalar as estruturas, estragar a casa.
O que nós vamos fazer? Nós estamos com um compromisso de, junto com os governadores dos estados atingidos, junto com os prefeitos das cidades atingidas, fazer um plano de recuperação das casas, com a possibilidade de construir aquelas que precisam ser construídas, porque foram destruídas.
É importante lembrar que nós não vamos construir as casas no mesmo local. Portanto, as prefeituras e os estados vão ter que ver um outro terreno, para que a gente possa construir a casa num outro local, onde as pessoas não possam mais ser vítimas de enchentes. Seria irresponsabilidade nossa chegar no mesmo lugar que vocês estão, fazer um consertozinho e falar: "Entre para dentro", e vocês entrassem. E, daqui a três meses, o problema se repetisse, porque a chuva não acabou no nordeste, na verdade, no mês de março e no mês de abril, ainda chove muito aqui, portanto, a gente ainda pode ter muita chuva.
Então, nós vamos ter que esperar as coisas serenarem. Vamos ter que esperar, para começar a fazer o levantamento, o cadastramento para, numa escala de prioridades, ir fazendo para aquelas pessoas que mais estão necessitadas e estão sofrendo mais com isso.
Amanhã nós vamos ter uma reunião com o ministro Ciro Gomes. O Prefeito e o Governador vão me entregar o relatório. Vamos ter uma reunião com o Ministro das Cidades. Possivelmente ele venha aqui. Amanhã, vem o Ministro dos Transportes, para ver quais são as cidades que estão isoladas. Vamos fazer as coisas direitinho, para não repetir erros do passado. Não vamos fazer como aquele cara que tem um carro todo furado, com a porta toda bichada. Ele quer vender, passa uma massinha na porta, pinta o carro, vende, engana um coitado, que compra o carro pensando que comprou um carro novo. Quando dá três quilômetros, percebe que o carro estava cheio de plástico, cheio de massa e que não prestava. Nós não vamos fazer isso.
Eu gosto de dizer para vocês que quero terminar o meu mandato e poder andar de cabeça erguida, olhar na cara de cada um de vocês e dizer: não fiz mais porque não pude, mas fiz o que pude e não fui desonesto com o povo que me elegeu neste país.
Uma coisa que está nos preocupando e que é emergencial: Teresina tem uma parte que está praticamente subordinada, como segurança, a um dique, que protege uma parte da cidade do rio Poti e do rio Parnaíba. Esse dique já começou a ter um probleminha, ali na frente. A nossa prioridade, agora - e amanhã vamos discutir isso - é discutir como reforçar esse dique. Já tem projeto. Nós vamos ter que discutir como fazer, para evitar que as comportas da barragem Boa Esperança, que já está chegando no limite, tenham que ser abertas. Eles estão segurando a água, mas a água está chegando no limite e, se chegar no limite, eles não podem deixar a barragem estourar e vão ter que soltar a água. E, se soltar a água, vai encher mais o rio; enchendo mais o rio, vai encher mais Teresina. Então, vamos tentar priorizar esse dique. E parece que o projeto não custa muito caro. Vamos tentar, o ministro Ciro Gomes, junto com o Ministro das Cidades, vai tentar ver isso.
A partir de amanhã, vamos começar a ver essa questão das obras emergenciais que temos que fazer. Mas o remédio, a comida e a questão do isolamento, nós já começamos a providenciar. E outra coisa: água potável, como a que estou bebendo aqui. Me entregaram um copo d'água aí, e senti que a água não está bem tratada. Vou levar até para fazer um teste da água. Essa aqui é boa. Essa aqui é do Ceará, do Ciro Gomes. É do Piauí essa água mineral.
Nós vamos garantir que não falte água potável, que não falte comida, que não falte remédio para as pessoas. E estamos pedindo para o Ministro da Educação ver o que ele pode fazer, Wellington, junto com os governadores e prefeitos, para que o ano letivo das crianças não se atrase muito. Vai ter que haver muita conversa, para ver para que locais a gente pode levar as pessoas, para dar um mínimo de tranqüilidade para elas viverem, porque sei que as pessoas estão, aqui, dormindo amontoadas. Isso não é coisa digna para nenhum ser humano.
Mas eu queria que vocês soubessem de uma coisa: talvez, a gente não consiga fazer tudo com a pressa que vocês têm. Mas, certamente, iremos fazer com a pressa que jamais alguém fez pelo povo pobre e pelo povo desamparado do nosso país.
Então, eu quero agradecer. Baixinha, meus parabéns pela sua grandeza moral, espiritual e pela sua solidariedade. Eu quero que vocês levem em conta que o Prefeito e o Governador vão "fazer das tripas coração" para garantir que vocês vivam com o máximo de dignidade possível, numa situação como esta. Nós vamos tratar do dique, vamos tratar de começar a fazer um levantamento das casas, o cadastramento das pessoas. E, se Deus quiser, vocês vão morar mais dignamente do que vocês moraram até hoje.
Muito obrigado.
fonte: www.info.planalto.gov.br
