Discurso do presidente Lula: Casa Cor da Rua e lançamento do selo "Amigo do Catador"

 

São Paulo - SP, 23 de dezembro de 2003

Meu querido Júlio Lancelloti,

Nosso querido Dom Cláudio Humes, nosso bispo da Diocese de São Paulo,

Minha querida companheira Marta Suplicy,

Marisa, minha esposa,

Marinho, presidente da CUT, que está aqui preocupado com o emprego como ninguém,

Nosso querido senador Suplicy,

Meu companheiro Luiz Favre,

Aldair Desposati,

Meu companheiro Antônio. O Antônio é o italiano, acho, mais conhecido aqui, no Brasil; pelo menos junto aos catadores, aqui, ele é muito conhecido.

Primeiro, eu quero dizer que fiquei emocionado com o que ouvi lá dentro da Casa Cor da Rua. Segundo, eu fiquei emocionado com os discursos dos companheiros, que são catadores nas ruas desse Brasil afora. Terceiro, eu compreendo perfeitamente bem a situação que vive o povo brasileiro, hoje, e, certamente, a grande maioria das pessoas que, hoje, saem de um Estado qualquer para virem para um grande centro urbano, não têm as mesmas condições que nós tivemos há 50 anos, porque a situação era totalmente outra.

Mas é importante saber que também o mundo do trabalho mudou muito. E eu acho extraordinário vocês começarem dando passos para transformar a função de catador de qualquer coisa, na rua, em uma profissão digna, como qualquer outra profissão que tem neste mundo.

Muitas vezes, o preconceito se volta contra um catador quando ele agacha, numas dessas avenidas chiques, para pegar uma latinha de cerveja que está jogada no chão quando, na verdade, o preconceito deveria ser contra aquele que estava no carro e jogou a latinha no meio da rua e não contra o catador.

Eu tive a oportunidade de visitar um lixão, já faz uns 15 anos, na Baixada Fluminense, em Nova Iguaçu. E foi o primeiro choque que eu tive, de ver uma criança disputando as coisas com os urubus, no meio do lixão.

Depois, tive contato, pela segunda vez, em Guaratinguetá, quando eu vinha da caravana, em que um prefeito mandou soterrar o lixão, para eu não ver o lixão. Mesmo assim, estavam lá homens, mulheres e crianças.

Depois que eu ganhei as eleições, uma televisão fez uma propaganda, uma matéria em que aparecia um catador de lixo, no Rio de Janeiro, comendo um pedaço de melancia que ele catou no lixo. E ele dizia para o repórter: "Talvez seja esse o último pedaço de melancia do lixo que eu vou comer, porque o Lula foi eleito presidente da República e vai ajudar a resolver esse problema".

Eu lembro que eu disse aos meus companheiros do governo que era preciso a gente começar a tomar uma atitude para que as pessoas que vivessem de catar o lixo, no lixão, pudessem se organizar em cooperativas, que a gente pudesse formá-los, que a gente pudesse reeducá-los e fazer com que elas ganhassem, condignamente, a sua vida, sem passar nenhum constrangimento.

Mas as coisas nunca acontecem no tempo e na rapidez que a gente precisa que as coisas aconteçam. Às vezes as coisas demoram muito mais do que a vontade, apenas de você determinar que faça.

Em setembro, criamos o Comitê Interministerial, que envolve seis ministros, envolve a Caixa Econômica Federal, envolve, inclusive, o BNDES, para que a gente possa discutir uma solução, dar dignidade às pessoas que vivem nessa situação. Porque é verdade o que o Érico falou lá dentro, ou seja, a verdade nua e crua é que ninguém, ninguém na face da Terra gosta de viver de favores de quem quer que seja. Todo ser humano, nasceu para viver às custas do seu trabalho. Ele tem o maior orgulho quando trabalha e recebe no final do mês um salário, e com aquele salário pode levar as coisas para a sua casa. Não tem nada que dê mais orgulho para um ser humano do que isso. As pessoas podem até aceitar um favor hoje, outro amanhã, ganhar uma cesta básica, ganhar alguma coisa, mas isto tem limite, isto tem muito limite.

Queremos dizer para vocês que, juntos, nós vamos encontrar uma solução para tornar a vida de vocês uma vida digna, uma vida respeitada, e que a sociedade compreenda que a função de vocês é uma função altamente digna e uma função que faz um bem muito grande para o nosso país e para a nossa sociedade. As pessoas precisam compreender isto.

Eu estava dizendo para o companheiro Marinho: nós vamos ter que transformar o ano que vem num ano em que a gente vai envolver a sociedade brasileira, o que tiver de especialistas, neste país, para a gente discutir a geração de empregos no Brasil. Não basta a economia crescer, porque com os avanços tecnológicos, no mundo de hoje, muitas vezes uma empresa aumenta a sua produtividade, aumenta a sua rentabilidade e não gera um posto de trabalho, às vezes manda embora ainda mais trabalhadores. Nós vamos ter que envolver o movimento sindical, vamos ter que envolver os especialistas deste país, vamos ter que envolver vocês, que mais do que ninguém precisam de uma solução definitiva. E nós vamos começar, o ano que vem, a fazer com que a gente gere os empregos que este país tanto precisa.

Eu disse, no começo do meu governo, que o emprego seria uma obsessão. Em 2004 não só a economia vai crescer, mas nós vamos ter que procurar outras formas de geração de empregos. E vocês estão dando o exemplo de como é possível pegar um grupo de catadores, organizá-lo em cooperativas, dar um mínimo de formação, dar as condições para que essas pessoas possam, inclusive, industrializar aquilo que recolheram e ganhar dinheiro, e ainda pagar até um salário para um companheiro que está em situação pior do que a gente.

E eu acho, Júlio, que é uma coisa que nós não podemos esquecer. Eu vou visitar, agora, um abrigo que a Marta tem aqui, em São Paulo, já era para eu ter visitado há uns seis meses, não foi possível. Eu tinha assumido um compromisso com o Júlio que viria aqui; era para eu ter vindo ontem, mas não deu para eu vir, então eu estou hoje, aqui. E eu quero, já, assumir o compromisso - o Gilberto Carvalho, que está aí, papelzinho e caneta - e que, anotem, no dia 23 de dezembro do próximo ano, eu estarei aqui outra vez com vocês. E por que eu quero vir aqui? É para que a gente comece a acompanhar as coisas que a gente diz que vai fazer. Porque a gente coloca as coisas num papel, aprova a lei, aprova aquilo, mas até a coisa começar a funcionar demora muito.

Então, eu acho que a gente tem que vir aqui, para saber que vai ter que fazer as coisas que já estão previstas para ser feitas, na Comissão Interministerial. E a gente tem que chegar aqui, o ano que vem, e a coisa estar bem avançada, já funcionando corretamente.

Eu queria dizer para vocês da gratidão de estar aqui com vocês. Gratidão, porque eu não acredito que um governante seja capaz de governar um país apenas se a sua cabeça funcionar como uma calculadora. O ser humano é motivado por emoções, e eu acho que a gente tem que vir aqui para sentir, na pele, como é que vive uma boa parte do povo brasileiro, que quer ser respeitada, que quer ter dignidade, que quer que o governo faça o melhor para ela.

Eu quero dizer para vocês que foi um presente de Natal esse convite que vocês me fizeram, para vir aqui. Eu estou realizado. Posso dizer para vocês que um presidente da República ganha muitos presentes. Engraçado, não é? O primeiro presente que eu ganhei, na vida, foi com 18 anos de idade. Aos 18 anos, eu tinha vontade de ganhar uma bicicleta, não ganhei; ganhei uma bola daquelas que não eram de câmara, mas de borracha.

Hoje, um presidente da República ganha muito presente. Mas eu quero dizer para vocês, meu caro Júlio, meus companheiros Roberto, Erik, meus companheiros da Comissão, meus companheiros catadores que, se eu tivesse que escolher qual o presente que me deu mais alegria, eu diria para vocês: "Foi a visita que eu fiz aos catadores, no Glicério, aqui em São Paulo".

Que Deus abençoe cada um de vocês. Meu companheiro Júlio Lancelloti, pode contar que nós seremos parceiros nessa empreitada. A Comissão Nacional não pode "dar moleza", tem que cobrar do governo, porque, se não cobrar, a gente vai deixando para lá, vai deixando para lá... precisa cobrar, para que a gente possa fazer aquilo que é o sonho e a grande reivindicação de vocês.

Muito obrigado e que Deus abençoe a cada um de vocês.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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