Palácio do Itamaraty, 20 de abril de 2004
Meu querido companheiro embaixador Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores,
Meu querido companheiro, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral das Relações Exteriores,
Meu caro embaixador João Almino de Souza Filho, diretor do Instituto Rio Branco,
Minha querida Suzana Moraes,
Embaixadores acreditados junto ao meu Governo,
Senhor ministro Rubem Antonio Corrêa Barbosa, Paraninfo da turma de 2001,
Meu companheiro Marco Aurélio Garcia, assessor especial de política internacional. Muita gente pergunta porque o Presidente tem que ter um assessor especial de política internacional, se ele tem o Itamaraty todo como assessor. Não sei se vocês estão lembrados, no começo se tentou até cizânia entre o Itamaraty e Marco Aurélio Garcia. E eu sempre disse que quem adquiriu a experiência política tentando organizar a Secretaria Internacional do PT durante dez anos e militando com a Esquerda do mundo inteiro nos últimos 15 anos, não poderia, em momento algum, deixar de prestar esses serviços ao governo brasileiro. E, por isso, o Marco Aurélio tem um papel extremamente importante na nossa relação internacional, institucional, colaborando com o companheiro Celso. E a não institucional, fazendo a militância que o Brasil tanto precisa com os setores da sociedade civil, da América Latina e do mundo.
Minhas queridas e queridos formandos da turma 2001,
Senhores e senhoras familiares dos nossos formandos,
Senhoras e senhoras diplomatas,
Eu vou começar pelo fim. Eu costumo sempre fazer um "improvisosinho". Mas eu lembro que um dia desses eu chamei o Celso Amorim para conversar, porque eu, toda vez que uma pessoa começa a crescer muito na política, fico com a preocupação de que esse crescimento possa causar ciúmes nos pares que fazem política internacional por esse mundo afora. E eu chamei o Celso e disse a ele: Companheiro Celso, eu acho que, como o Brasil está numa posição muito importante no cenário mundial, é preciso que a gente tenha todo o cuidado para ter o máximo de humildade e de generosidade. Porque, senão, os demônios começam a despertar nas pessoas que fazem política junto conosco e um pouco de ciúmes pode atrapalhar uma belíssima política internacional.
E eu dizia para o Celso: eu sei que você tem muita experiência, é diplomata já há 40 anos, já foi ministro no governo do nosso querido Itamar Franco, mas agora Celso, você não é nem mais diplomata, nem mais um ministro. Você agora é o ministro. E por que "o ministro"? É porque o Brasil ganhou muito mais importância no cenário mundial. É porque o Brasil ganhou muito mais respeitabilidade.
E vocês todos, que se formaram hoje, irão notar isso quando estiverem começando o trabalho de vocês no exterior. E para que a gente ganhe essa respeitabilidade, é preciso que um país do tamanho do Brasil seja cada vez mais generoso com os seus parceiros. E que o Brasil tente todas as vezes que tiver que estabelecer uma ação diplomática, levar em conta a necessidade de juntar parceiros para que a nossa política não seja uma política solitária e, muitas vezes, mal interpretada.
Vocês estão lembrados que depois daquele discurso que fiz aqui, no ano passado, eu penso que nós cumprimos, do ponto de vista da política internacional, mais do que imaginávamos que poderíamos cumprir; que conseguimos mais intento do que imaginávamos que poderíamos conseguir.
Muita gente pode medir isso apenas pelo volume do crescimento da nossas exportações ou do nosso superávit comercial, mas eu acho que, embora isso seja relevante, não é o principal. O principal é o grau de referência que o nosso país passou a ser junto aos nossos parceiros, seja na América do Sul, na África, no Oriente Médio, e em países importantes como China, Índia, África do Sul, e como a Rússia, que têm, sistematicamente, nos informado que querem estabelecer com o Brasil uma parceria estratégica.
Eu me lembro da nossa embaixadora na Índia. Quando eu fui me despedir dela, ela me falou: "Agora eu acho que as coisas vão melhorar aqui na Índia." E passado um tempo ela veio para o Brasil e me falou: "Presidente, o senhor não sabe como eu fiquei importante na Índia depois da sua visita." Um pouco por isso, porque diplomacia tem que ser feita de forma prazerosa. Isso é como um jogador que entra em campo. Todo mundo respeita um jogador que sua a camisa. Ninguém respeita um jogador que faz corpo mole, por melhor que ele seja.
Então, eu penso que suar a camisa em defesa das coisas que nós acreditamos e das políticas definidas pelo Governo, é o que vai tornar a profissão de vocês, muitas vezes distantes da família, muitas vezes solitários, uma coisa prazerosa. É saber que vocês estão fazendo algo porque gostam e porque acreditam. Se não for assim, não vale a pena nem essa nem outra profissão, porque ninguém consegue trabalhar bem contra a sua vontade ou contra os seus próprios prazeres.
Por isso, é uma especial satisfação poder participar, pela segunda vez, dessa celebração do Dia do Diplomata. Repete-se aqui uma tradição de grande importância para o serviço público brasileiro. Ingressa, hoje, no Itamaraty, mais uma geração de jovens diplomatas.
Renova-se uma instituição reconhecida pela excelência dos seus quadros e pela dedicação à sua missão de conduzir a política externa - um dos pilares do nosso governo - elemento constitutivo de qualquer projeto de desenvolvimento nacional.
Senhoras e senhores, vivemos hoje sob o signo de uma globalização instável e incerta. O quadro internacional nos desafia e obriga a mudar o modelo que produziu vulnerabilidade externa, incerteza, pobreza e estagnação.
É nesse mundo marcado por desigualdades econômicas e sociais, tecnológicas e militares, que queremos construir um país soberano, mais justo e solidário, mais eficiente e próspero. Um Brasil para todos.
Quando me dirigi aos formandos no ano passado, lembrei que nós, brasileiros, muitas vezes não nos damos valor. Por essa razão, nosso país deixou de ter, em muitas ocasiões, a projeção internacional que merece.
Mas afirmei, também, que era decisão firme do meu Governo, utilizar todo o potencial de nossa política externa para fazer do Brasil um país mais respeitado, capaz de defender seus interesses internacionalmente.
Senhoras e senhores, o diálogo tem sido a marca do meu Governo. Isso também se aplica, sobretudo, à nossa política externa. Por meio da negociação e do entendimento, estamos construindo consensos para mudar as relações de força no plano internacional e estabelecer o que chamei de nova geografia econômica-comercial.
Não basta assistir à distância e de forma subordinada aos acontecimentos mundiais, queremos que a nossa voz seja cada vez mais ouvida e respeitada. Estamos dando passos largos nessa direção.
Nossos parceiros reconhecem que o Brasil assumiu o seu peso e sua importância na comunidade das nações. Esse é também o reconhecimento da seriedade de nossos propósitos, da firmeza de nossas posições e da consistência de nossas ações.
Junto com os nossos parceiros, estamos empreendendo uma efetiva reconstrução do Mercosul, correspondente aos sonhos e esperanças que estiveram em seu nascimento. Continuaremos ativamente a aprofundar nossa integração e a convocar outros países para juntarem-se a nós.
Com o acordo de livre comércio recentemente assinado com a Comunidade Andina, o Mercosul passa a ser cada vez mais o indutor desse processo em escala sul-americana. Todos compreendem e desejam a integração.
Foi essa a mensagem que recolhi das visitas que fizeram a Brasília, os presidentes da América do Sul, ainda no primeiro ano de meu Governo. Estamos ultimando projetos de infra-estrutura, de comunicações e transporte que serão as fundações de uma parceria continental.
São essas as iniciativas que tenho levado a governos e empresários dos países ricos ao convidá-los a acreditar e a investir no futuro de nossa região, mas precisamos fortalecer a nossa união política, social e cultural.
A união solidária entre os países em desenvolvimento deve também prevalecer nas estratégicas negociações em curso na Organização Mundial do Comércio. Ao mesmo tempo em que continuamos enriquecendo nossas relações com os países desenvolvidos, estamos determinados a aprofundar e ampliar a cooperação sul-sul.
A atuação decisiva do Brasil, na constituição do G-20, confirma a capacidade de liderança que estamos demonstrando. Esperamos que a nova dinâmica alcançada nas discussões da rodada de Doha inaugure posições de comércio mais justas, que preservem a capacidade de definir e controlar nosso modelo de desenvolvimento.
Também na Alca, buscamos equilibrar o processo negociador e tornar viável sua conclusão em tempo hábil. Para tanto, o acordo deve corresponder efetivamente ao interesse de todos, abrindo mercados e sem impor restrições indevidas à capacidade de cada país decidir soberanamente sobre suas políticas industriais, tecnológicas, sociais e ambientais.
É com o mesmo ânimo que nos empenhamos para concluir, ainda este ano, um acordo comercial abrangente do Mercosul com a União Européia. Estamos identificando com criatividade, oportunidades e parcerias ainda inexploradas. É esse o sentido do foro trilateral que estabelecemos com a África do Sul e com a Índia.
É essa a mensagem que fundamenta a parceria estratégica que vou aprofundar durante a minha próxima viagem à China. Com esse mesmo espírito é que vou receber o presidente Putin ainda este ano em Brasília.
Não deixarei cair no esquecimento nossa dívida histórica com os patrícios africanos. Estarei retornando à África ainda este ano para passar a presidência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Trata-se de uma oportunidade para reafirmar o especial compromisso do Brasil com essas nações irmãs. Mas também expresso uma visão de nossa política externa que identifica no continente africano, um território cheio de oportunidades para a cooperação econômica e política.
Na visita inédita que fiz ao mundo árabe, lancei as bases de uma associação que também tem raízes históricas e culturais antigas. Na primeira Cúpula da América do Sul e Países Árabes que o Brasil sediará em dezembro próximo, vamos sedimentar uma parceria inovadora e ousada entre as duas regiões.
Senhoras e senhores, o Brasil anunciou sua disposição de integrar a missão das Nações Unidas para restabelecer a paz no Haiti. Mas a responsabilidade da comunidade internacional não pára por aí. O ministro Celso Amorim, quando representante permanente em Nova York, já defendia uma coordenação mais estreita entre o Conselho de Segurança e os órgãos da ONU envolvidos na reconstrução física e na recuperação das instituições políticas e sociais dos países.
O nosso oferecimento para comandar essa missão estará condicionado ao efetivo engajamento da comunidade internacional com a reconstrução do Haiti. Nossa missão só terá sentido se estiver em estreita sintonia com os países da região.
As tragédias que o Oriente Médio e o Iraque vivem, hoje, reforçam a minha convicção sobre a relevância de uma ordem internacional baseada no direito internacional, no multilateralismo e nas Nações Unidas.
Continuaremos a defender com vigor uma reforma ampla e profunda da Organização, de modo a torná-la mais representativa e mais eficaz. A candidatura do Brasil a um assento permanente no Conselho de Segurança parte dessa convicção. Os recentes e importantes endossos na nossa postulação atestam a legitimidade e força do nosso pleito.
A democratização das relações internacionais que defendemos só será plena em um mundo mais solidário. Essa é a mensagem que tenho levado aos principais fóruns internacionais.
Continuarei a convidar os líderes mundiais a engajarem-se num mutirão para cumprir as metas do milênio, começando pelo combate à fome.
A resposta generosa a meu apelo é motivo de alegria e otimismo. Combater a fome e a pobreza, ainda é o melhor remédio ao desafio de enfrentar o clima de frustração e desesperanças que nutrem a violência e o terrorismo.
Na mesma direção está o meu apelo aos principais chefes de Estado do mundo para que o Fundo Monetário Internacional revide procedimentos obsoletos, que só prejudicam os o países em desenvolvimento.
Minhas caras e caros formandos, cada vez mais a política externa ganha espaço no imaginário do cidadão brasileiro. A diplomacia do Brasil democrático deve espelhar a realidade de nossa sociedade, com suas demandas e possibilidades, com suas riquezas e carências.
Somos uma Nação que conseguiu recuperar a confiança e a credibilidade e que reiniciou a retomada do crescimento.
O Itamaraty se distingue por renovar-se permanentemente. Vem ampliando o diálogo com todas as forças e instituições da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo adquire crescente capacidade técnica para defender nossos direitos e criar oportunidades para o país e seus empresários no exterior.
Para fazer frente a essa necessidade de contínua atualização, adotamos medidas para dotar o Ministério de meios e de uma estrutura administrativa que responda às demandas da nossa ação externa, cada vez mais intensa. Ainda falta muito, mas já fizemos um pouco.
Congratulo-me, por isso, com as medidas que o ministro Celso Amorim e o secretário-geral Samuel Pinheiro Guimarães promoveram para aprimorar as condições de trabalho da Chancelaria. A política externa é como um espelho. Um espelho que reflete a imagem e a auto-estima de um país. Mas é também um espelho quando se reflete o futuro, aquilo que a Nação fará de si mesma.
A política externa do meu Governo espelha e espelhará, cada vez mais, o Brasil confiante e solidário que queremos construir.
Cabe ao diplomata ser o intérprete dessa vontade de mudança e renovação.
Esta é a mensagem de esperança e desafio que quero deixar a vocês. Por isso desejo-lhes toda felicidade na carreira que, hoje, vocês estão iniciando, que sirvam de exemplo para vocês todos, os que honraram e honram a Casa de Rio Branco. Vocês, hoje, não são apenas mais um grupo de diplomatas formados aqui no nosso país; vocês agora serão "os diplomatas", porque serão muito mais exigidos do que outros que se formaram antes de vocês.
Boa sorte, felicidades, e que Deus abençoe cada um de vocês.
fonte: www.info.planalto.gov.br
