Discurso do presidente Lula na entrega do Prêmio da Universidade de Notre Dame

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Palácio Itamaraty, 05 de janeiro de 2004

Meu caro presidente Fernando Henrique Cardoso,

Meu caro reverendo Malloy, presidente da Universidade de Notre Dame,

Meu querido companheiro Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores,

Dona Ruth,

Dona Marisa,

Ministros de Estado aqui presentes, do governo Fernando Henrique Cardoso e do meu governo,

Senadores,

Deputados,

Embaixadores,

Embaixadoras,

Meus amigos e minhas amigas,

Eu vou começar sendo muito breve, com uma frase que termina um texto que eu ia ler, mas que não vou ler, porque o ambiente, aqui, está para o improviso. Parabéns ao Brasil por este admirável exemplo de civilidade e participação cidadã.

Possivelmente, para quem não acompanha a política brasileira, o que está acontecendo hoje, aqui, é uma coisa corriqueira, que deveria acontecer em todos os momentos da nossa História e em todos os momentos da História de outros países.

Entretanto, não é assim que as coisas se deram, ao longo da História do Brasil e em vários outros países. Muitas vezes, as pessoas confundem o calor de uma disputa política com as questões pessoais. Não são raros os exemplos no mundo e, sobretudo, na América do Sul, na América Latina, em que muitos presidentes não participam sequer da posse do presidente eleito. Aqui, no Brasil, já tivemos exemplos, e vários.

E o que aconteceu nessas eleições de 2002 foi a demonstração da maturidade política do Brasil, a demonstração de que não é possível a gente confundir uma disputa política com problemas pessoais. Foi uma demonstração do amadurecimento dos eleitores brasileiros, do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso e do meu governo recém-eleito.

A verdade é que a transição, feita da forma que foi feita, foi uma espécie de aviso ao mundo, que duvidava da nossa competência de exercer a democracia.

Eu acredito que se o presidente Fernando Henrique Cardoso tivesse que escolher algumas pessoas que trabalharam de forma incansável para que a transição tivesse um bom resultado, ele, quem sabe, escolheria, da parte dele, o Pedro Parente e o Pedro Malan. E eu, da minha parte, escolheria o Gushiken e o Palocci, que foram os coordenadores.

E em nenhum momento dessa transição houve, a qualquer pedido do governo recém-eleito, qualquer impedimento do governo que estava exercendo o Poder, de cerceamento das informações que nós precisávamos ter, para tomarmos posse. Se mais informações não tivemos foi porque não pedimos, ou porque não tínhamos conhecimento da necessidade de pedir algumas informações.

Eu estou dizendo isso porque este ato de hoje, embora pequeno, é um ato, para mim, simbólico. É um ato que representa a certeza de que dois homens, ou duas mulheres, podem ser adversários políticos, podem ser adversários eleitorais, mas não perdem a noção do respeito que um ser humano tem que ter pelo outro, não perde a noção de que não se faz política com ataques pessoais e muito menos de interesse da vida privada de quem quer que seja, porque as divergências são políticas, não são pessoais.

E penso que, até sem querer, o Brasil dá um bom exemplo ao mundo. Acho que dois presidentes da República que disputam, não uma eleição - foram três, das quais perdi duas - e continuam com uma relação de respeito e de amizade não é pouca coisa, num Brasil pouco habituado a fazer com que os dirigentes conversem entre si. Quem conhece a política nacional sabe perfeitamente bem que estou falando que políticas eleitorais no Brasil, em muitos lugares, se transformam numa verdadeira guerra, em que vale buscar informações dos tataranetos das pessoas, para poder fazer ataques pessoais.

Acho que demos uma lição pequena, mas uma lição para fortalecer a democracia brasileira. Podemos divergir sobre times de futebol - e não divergimos -, podemos divergir sobre noções da democracia - e, certamente, não divergimos - podemos divergir sobre noções de políticas econômicas, podemos discutir, divergir sobre candidatos a prefeito, sobre candidatos a governador. Mas dois homens que atingem a idade da maturidade política não podem, nem no seu discurso, sendo oposição ou situação, e muito menos na sua prática política, deixar de entender que a razão da disputa e a eleição da vitória dependem única e exclusivamente do respeito que temos que ter pelo povo que participa do processo eleitoral do nosso país.

Por isso, eu queria dizer ao presidente Fernando Henrique Cardoso e aos convidados aqui hoje que muito me orgulho de ter participado deste momento histórico da vida política brasileira. Efetivamente, o processo de transição feito aqui no Brasil é um exemplo histórico que marcará para sempre as eleições brasileiras e as posses no Brasil.

Espero que, quando tiver que passar o bastão a um outro presidente eleito, a gente consiga aperfeiçoar a transição, que a gente consiga modernizar e fazer alguma coisa ainda mais civilizada do que a que foi feita, para que, daqui para a frente, ninguém, ninguém mais deixe de entender que a democracia não pertence ao indivíduo. A democracia foi uma conquista da sociedade brasileira, com muito sofrimento, com muitas derrotas, com muitas perdas, inclusive de vidas de pessoas. E cabe a nós, que estamos vivendo este momento histórico no Brasil, passarmos esses ensinamentos para a futura geração que irá fazer política no Brasil.

Quero agradecer à Universidade de Notre Dame pelo prêmio. Possivelmente, eu teria que repartir esse prêmio, além do Fome Zero, com os meus companheiros ministros, que se dedicaram e que em nenhum momento da transição tiveram a intenção de criar qualquer problema para o ministro que estava exercendo o poder, até porque nós sabíamos que o que estava em jogo não era a nossa posse. O que estava em jogo era a credibilidade que o Brasil não poderia perder no mundo político.

Por isso, muito obrigado à Universidade, muito obrigado pela presença de vocês. E parabéns, presidente Fernando Henrique Cardoso! Espero continuar esse processo histórico, para fortalecer a democracia brasileira.

Muito obrigado.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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