Palavras do presidente Lula da Silva no encerramento da reunião sobre Biodiesel

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Palácio do Planalto, 31 de julho de 2006

Primeiro, nós ainda temos muito o que pesquisar para que o Programa possa atingir uma das suas finalidades, além do combustível, além da geração de empregos, ou seja, gerar outras possibilidades de melhorar a vida de uma parcela das pessoas mais pobres do País. Por exemplo, nós precisamos resolver o problema, qual dessas oleaginosas, se é a mamona, se a gente vai conseguir manusear corretamente a glicerina para a gente poder pesquisar e, quem sabe, encontrar o gene que produz a glicerina, tirá-lo para a gente poder produzir ração animal.

Para um programa, Manuel, para a agricultura familiar, se nós pudéssemos combinar a produção da oleaginosa e o resultado da torta, se a gente pudesse fazer ração animal para ele poder criar a sua vaquinha, a sua cabrita, seria a melhor coisa que nós poderíamos fazer. Nós vamos ter que fazer com que os nossos institutos de pesquisa, tanto os públicos quanto os privados, trabalhem nisso rapidamente para a gente poder melhorar essa situação da parte mais necessitada que está envolvida no Programa.

A segunda coisa que eu acho extremamente importante é que nós temos que construir aqui uma tríplice aliança, duas vezes. Primeiro, uma tríplice aliança entre trabalhadores, governo e os empresários que estão fazendo o processo de biodiesel, estão trabalhando a transesterificação - eu passei três meses para aprender a falar essa palavra sem gaguejar. E o segundo momento que nós temos que fazer é o momento de outra tríplice aliança, entre o governo, a indústria automotiva brasileira e os consumidores. Então, vocês percebem que nós temos que, de um lado, cuidar para que não haja distorção no sistema produtivo e não haja distorção no sistema de consumo, porque nós temos aí, praticamente, 31 anos do álcool para a gente não permitir que se repitam erros que foram cometidos em outros momentos e que agora, me parece, estamos consertando.

Então, nós queremos que o Programa do Biodiesel... Primeiro, ninguém se assuste ali com o tamanho da Petrobras, porque a Petrobras sabe que tem que participar, mas ela sabe que tem que incentivar a iniciativa privada a participar, porque o nosso negócio não é ter uma outra Petrobras do mesmo tamanho fazendo tudo. Nós queremos partilhar um pouco a possibilidade da riqueza que isso pode produzir dentro do território nacional e, sobretudo, nessa combinação, pequenas empresas com agrupamentos de trabalhadores organizados e cooperativas individuais e com as grandes empresas brasileiras. E a Petrobras nessa é o carro chefe. Então, nós vamos cuidar para que não se repitam erros que nós já tivemos, aqui, no próprio Brasil.

A terceira coisa que eu acho fundamental termos em conta é que como o Brasil está dividido no meio pela Linha do Equador, nós temos possibilidades de produção em várias regiões, com tempo de colheita diferente, com tempo de plantio diferente. Se a gente tiver o bom zoneamento, a gente poderá cuidar disso com carinho, levando em conta que ninguém precisa adentrar a Amazônia, fazer qualquer derrubada para plantar um pé de mamona, levando em conta que nós temos que aproveitar, se possível, 100% das áreas que já temos degradadas neste País, para que a gente possa produzir coisas que não nos levem a, daqui a pouco, estar produzindo o biocombustível e os nossos concorrentes internacionais dizendo, lá fora: "não compre o biocombustível do Brasil porque eles desmataram a Amazônia para plantar biodiesel." Ninguém vai tirar uma castanheira de 300 anos para colocar um pé de mamona. Não é necessário. Esse juízo é que nós temos que ter consciência que nós estamos construindo juntos.

Esse projeto não nasceu sozinho, a maioria de vocês participou da construção desse projeto: trabalhadores, empresários, cientistas, pesquisadores, Ministérios, todo mundo participou junto nesse projeto. Então, nós temos que continuar trabalhando para que a gente tenha como resultado final da cadeia produtiva, quando estivermos cumprindo as nossas metas, que a gente tenha uma harmonia e não seja o resultado de um problema: "ah, tal trabalhador foi mais esperto em tal lugar, quis ganhar mais e não deu certo, o empresário foi mais esperto, quis ganhar mais, a Petrobras não está pagando o preço justo, não sei quem". Tudo isso nós temos que resolver em harmonia, numa reunião como esta, para que esse seja o Programa do equilíbrio sustentável do século XXI.

Ou seja, daqui nós poderemos dar exemplos para o mundo. Eu acho que esse Programa vai ultrapassar o Oceano Atlântico, ele vai chegar aos países africanos e vai dar, no século XXI, a possibilidade dos países africanos ganharem algum dinheirinho vendendo o biocombustível para os mais ricos. E esse Programa vai atravessar a nossa fronteira seca aqui, vai perpassar para a América Latina, para a América Central e alguns países pobres vão poder sobreviver, até porque esses países têm TLC com os Estados Unidos, Tratado de Livre Comércio, alguns empresários brasileiros podem colocar o biodiesel nos Estados Unidos via América Central.

Tem toda uma engenharia de oportunidades, que nem o governo tem que tentar ser mais esperto que todo mundo e ficar com uma fatia ou o empresário ficar com uma fatia para ele. Nós temos que partilhar essa nova...é um combustível novo, do século XXI, nós estamos começando o século, o mundo clama por paz, por harmonia, nós queremos acabar com a fome. Então, eu acho que é o projeto ideal para que a gente despolua o Planeta e encha o estômago das pessoas de comida, de oportunidades.

Eu acho que nós precisamos ter em conta que somente essa vontade de trabalhar em harmonia... está aqui a Agência Nacional de Petróleo, nós precisamos cuidar disso, Haroldo, como a gente cuida de um filho. Eu digo sempre isso porque quem de nós, aqui, que não ficou como um tonto, sentado no sofá querendo que o filho falasse o seu nome e o filho não falava, e a qualquer barulho que o filho fazia, falava: "falou papai, falou mamãe". Mentira, nem tinha falado ainda. Quantos de nós não ficamos sentados numa cadeira pedindo para a criança dar um passinho, e a criança se levantava, quebrava a cara no chão e a gente achava bonito e falava: "andou". Ele deu meio passo e a gente falava: "deu dez passos".

Aqui nós estamos dando os primeiros passos, a gente está percebendo o quê? Que essa criança está sólida, está pisando em chão firme, já aprendeu a falar uma palavra mágica que é... o Brasil virou dono de uma tecnologia extraordinária, saímos na frente e podemos, com isso, colocar o Brasil no lugar de destaque no cenário internacional. Muita gente não acreditava, mas depois de patenteado o H-Bio, a gente pode até cobrar royalties, nós que pagamos a vida inteira, a gente agora pode cobrar royalties, um pouco, nos nossos negócios, porque agora o brasileiro, que sempre falou que os outros é que tinham knowhow, agora vai dizer: nós temos knowhow e, portanto, nós poderemos cobrar royalties pelos nossos conhecimentos.

Então, o Programa é isso, eu continuo achando que é a grande alternativa de combustível para o século XXI. Acho que o mundo não terá saída, será irreversível, vão aumentar o preço do petróleo, podem fazer o que quiser, mas nós sabemos que o petróleo um dia vai ter um fim mas, isso aqui, todo ano pode ter um começo. A mamona dá em 180 dias, a soja a cada quatro meses pode ter uma colheita, o girassol também. Então, a gente pode, a cada mês, renovar a nossa matriz de petróleo, dependendo do estado, dependendo da região, se é abaixo ou acima da Linha do Equador, se é no Nordeste, no Sudeste, Centro-Oeste, ou seja, nós temos uma diversidade territorial extraordinária para que a gente possa se apresentar ao mundo como um país que pode garantir biocombustível para muita gente utilizar.

Obviamente que a nossa indústria automobilística vai perdendo o medo e vai acabando com esse negócio de demorar até 2008, 2010, esse negócio todo. A gente, eu posso dizer para vocês, o seguinte: nós podemos antecipar tudo que está aí, podemos antecipar tudo. Nós não precisamos ficar até 2013 esperando para colocar B5. Entretanto, nós não podemos fazer... como nós estamos falando em trabalhar em harmonia, e isso pode ser feito por decreto presidencial, nós queremos fazer isso em harmonia. Nós não queremos atropelar o processo, porque senão a gente vai com muita sede ao pote, e nunca faz bem quando a gente vai com muita sede ao pote. Nós vamos dar os passos. Se for preciso apertar um pouco, vamos apertar, mas trabalhando conjuntamente. As coisas decididas como nós estamos aqui, decididas assim, é possível fazer, vamos fazer, porque senão começam os aventureiros a fazer por conta própria. Daqui a pouco começa gente a não precisar mais fazer todos os testes para ver a qualidade do óleo, daqui a pouco começa gente a querer vender em mercado paralelo, daqui a pouco tem gente contrabandeando.

Nós sabemos que pode acontecer de tudo. E nós tivermos essa tríplice aliança entre governo, empresários consumidores, trabalhadores, que já virou uma sêxtupla aliança, já tem seis setores envolvidos aí. E a Petrobras assumir a responsabilidade, porque vejam que os números da Petrobras são muito grandes perto de nós, muito. Então, se a Petrobras, com a seriedade que está trabalhando, a Agência Nacional de Petróleo, com a seriedade que está trabalhando, continuarem nesse nível, nós vamos ter muitos empresários entrando no setor, a Dedine vai ganhar muito dinheiro produzindo máquinas para a transesterificação, o povo vai respirar um ar muito melhor, a gente não vai preocupar nenhum ambientalista deste País, a gente não vai deixar de produzir alimentos neste País. Eu vi uma vez um professor não sei de onde dizer: "é, porque vai deixar de produzir alimento." Como coisa que um ser humano que pode plantar um pé de feijão, um pé da mamona, ele vai plantar mamona ao invés do pé de feijão. Ele só vai plantar mamona se ele perceber que tem outro lugar para comprar o feijão, se não tiver ele vai plantar o feijão primeiro e comer.

Então, esses cuidados nós temos que ter. Todos nós, aqui, temos experiência de que a pressa é inimiga da perfeição. Todo cuidado é pouco. Agora, eu digo cuidado com muita ousadia. Essa criança já está andando, já falou papai e mamãe, já falou Brasil, então, nós, agora, estamos no caminho só de permitir que, com solidez, a gente vai dar mais alimento para essa criança, mais vitamina C, mais vitamina B, ter mais crédito para ajudar a financiar quem está querendo começar. O governo não tem os olhos gordos para cobrar muito imposto, se for preciso reduzir, reduzir um pouco mais. O que nós queremos, sobretudo, é que os empresários tenham possibilidade de investir, que os trabalhadores tenham possibilidade de ganhar um pouco de dinheiro na sua vida e que os consumidores tenham um produto de qualidade a um preço justo no posto de gasolina.

No mais, meus companheiros, muito obrigado a todos vocês pelo que fizeram até agora e boa sorte.

fonte: www.info.planalto.gov.br

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