Bogotá, 14 de dezembro de 2005
Eu tenho, Presidente, muito orgulho, um orgulho profundo das coisas que estamos fazendo e das coisas que estamos colhendo.
Ontem eu saí do Brasil e tinha acertado com o meu ministro da Fazenda que nós iríamos fazer mais um gesto da nossa seriedade no trato das questões econômicas e das finanças brasileiras. No ano passado, sem que ninguém soubesse, sem nenhum alarde, sem nenhum barulho, o Brasil não assinou um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional. Não precisávamos assinar acordo. Estávamos com uma situação boa, tanto na nossa balança comercial quanto na nossa reserva.
E ontem tomamos uma outra decisão importante: devolver ao FMI um dinheiro que o governo anterior ao meu tinha tomado emprestado, e que nós não precisávamos dele. Decidimos, então, devolver ao Fundo Monetário Internacional 14 bilhões de dólares que estavam previstos ser devolvidos em 2007, ou seja, não tínhamos por que ficar com o dinheiro, pagando interesses, sem necessitar utilizar o dinheiro porque as nossas reservas, hoje, são da ordem de 51 bilhões de dólares.
Então, eu saí do Brasil com esta boa notícia. Chego na Colômbia, desço no aeroporto, chego no hotel, tenho uma boa notícia. Primeiro, que uma parte da guerrilha colombiana está fazendo negociações com o governo colombiano para tentar fazer uma política de paz. E, ao mesmo tempo, soube do seu pronunciamento, aceitando uma proposta da França, da Suíça e de outros países, de uma negociação com as FARC. Eu sei que Vossa Excelência já disse que está disposto a aceitar a proposta e, de acordo com a proposta negociada, as FARC ainda não responderam, mas certamente a sua posição é sábia porque, como presidente da República, tem mais responsabilidade, representa a totalidade do povo colombiano e, se tem uma coisa que o povo de qualquer país precisa, é de paz. De paz para estudar, de paz para trabalhar, de paz para progredir na vida.
E, ainda hoje, tive uma notícia boa, porque o fuso horário, com uma diferença de três horas, me permitiu assistir a um jogo de futebol de um time brasileiro com um time da Arábia Saudita, para disputar a Copa Toyota. Embora não seja o meu clube de futebol, é o clube do meu neto e do meu Ministro da Justiça, então eu torci para que o São Paulo ganhasse da Arábia Saudita.
E, com base nessas três notícias boas, nós começamos o nosso dia de trabalho. E, para mim foi gratificante poder estar, pela primeira vez, em uma visita de Estado à Colômbia, visitando o Palácio do governo colombiano, visitando a Prefeitura de Bogotá, governada por um grande amigo meu, do movimento sindical colombiano e, muito mais ainda, pelos acordos que nós fizemos. Não vou repetir o que Vossa Excelência já disse, mas quero reafirmar a determinação do Brasil de trabalhar de forma incansável para que a integração física entre a América do Sul se transforme em realidade. E, como maior economia do Continente, como país mais industrializado do Continente, como maior do Continente, como país mais industrializado do Continente, como maior PIB do Continente, o Brasil tem mais responsabilidade. E, portanto, o Brasil precisa fazer mais gestos. Porque para nós as estradas, as pontes, as ferrovias, as rodovias, as usinas hidrelétricas e o sistema de telecomunicações que construímos na América do Sul, integrando um ou mais países da América do Sul se reverterão em benefício para quem receber o benefício, para quem investiu na obra e para todos que participam da América do Sul.
Presidente Uribe, faz pouco tempo, quando tomei posse na Presidência da República, que comecei a falar da integração da América do Sul, algumas pessoas mais céticas, ou com a cabeça mais colonizada, estranhavam como é que nós iríamos nos aproximar da América do Sul. E os Estados Unidos, que queriam a Alca a qualquer preço? E a União Européia, que era grande parceiro?
Nós fizemos, nesses três anos, a mais intensa política internacional que o Brasil já teve com todos os continentes. As nossas exportações para a América do Sul cresceram 87%. Hoje, o conjunto da América do Sul representa mais na balança comercial do Brasil do que os Estados Unidos, individualmente, e a União Européia, ou seja, porque nós acreditamos em nós, porque acreditamos que tinha possibilidade de construirmos novas parcerias.
Acabou o tempo em que o empresário colombiano tinha medo do Brasil, que a Argentina tinha preocupação com o Brasil e o Brasil com a Argentina, que a Bolívia via o Brasil como imperialista, que o Equador preferia se aliar a não sei quem, ao invés de se aproximar da Colômbia.
Nós estamos descobrindo que nós queremos relações com o mundo inteiro, não queremos preterir os Estados Unidos, que são um grande parceiro da Colômbia e um grande parceiro do Brasil, não queremos preterir a União Européia, não queremos preterir o Japão. Mas nós queremos dizer ao mundo: quanto mais parceiros tivermos, quanto maior for a nossa relação comercial, mais independência vamos ter e melhores acordos vamos fazer.
E é o que está acontecendo hoje na América do Sul: estamos fortalecendo o Mercosul, já há a união entre CAN e Mercosul, já decidimos fazer o Parlamento do Mercosul. E, se Deus quiser, nós logo teremos o Parlamento da América do Sul. Já estamos construindo, a passos largos, a Comunidade Sul-Americana de Nações. E vamos continuar investindo na ação política, na América do Sul e no mundo inteiro. Porque, hoje, no mundo globalizado, temos brigas, quem não lutar vai ficar atrás.
Nós estamos vendo, agora, em Hong Kong. Nós estamos percebendo que os países ricos, por mais que falem em solidariedade, por mais que falem em humanismo, por mais que falem em comércio justo, naquilo que interessa aos países como Colômbia e como o Brasil, ou países como países africanos, que é uma participação maior no mercado interno deles, com a nossa agricultura, eles não permitem, não pelo valor econômico, pelo valor político.
Então, eu aprendi que nós não podemos esperar, nós temos que criar alternativas. E é isso que estamos fazendo hoje, aqui, com a Colômbia. Além dos projetos ditos pelo companheiro Uribe, nós já temos sinais importantes de empresas brasileiras aqui, na Colômbia. A Avianca foi comprada por uma empresa brasileira, por empresários brasileiros. O Grupo Gerdau, que é um grande grupo siderúrgico, está comprando planta de siderurgia aqui, está investindo 150 milhões de dólares. A Companhia Energética Santa Elisa está fazendo investimentos aqui, no setor de etanol. Nós vamos financiar as carreteras, que a Colômbia tanto precisa, porque isso também significa exportação de serviços, exportação de produtos e possibilidade de crescimento mútuo dos países.
Hoje, na nossa relação comercial, presidente Uribe, o Brasil tem um saldo, favorável ao Brasil, de 1 bilhão de dólares. Eu acho que o Brasil precisa vender mais para a Colômbia, mas eu digo todo dia: nós precisamos comprar mais da Colômbia, porque se não comprarmos mais da Colômbia, a Colômbia não terá mais dinheiro para comprar do Brasil, e o Brasil não terá mais dinheiro para comprar da Colômbia.
Então, a nós, espero que Vossa Excelência saiba que na minha cabeça o comércio internacional justo é aquele bem equilibrado: eu compro 10, vendo 11; eu compro 10, vendo 9 e mantenho a balança de pagamento equilibrada. Um déficit muito forte não é bom, e um superávit muito forte não é bom. O equilíbrio é a arma do sucesso de uma boa política comercial.
Por isso, meu querido presidente Uribe, saio daqui convencido de que em nenhum momento da nossa história estivemos tão próximos. Em nenhum momento da nossa história estivemos tão certos de que estamos construindo a Colômbia e o Brasil para as novas gerações. Cuidando das nossas fronteiras, com os militares brasileiros e militares colombianos; cuidando do narcotráfico com a nossa Polícia Federal e a Polícia Federal colombiana; cuidando do desenvolvimento, com os nossos empresários e empresários colombianos; cuidando da infra-estrutura do Estado brasileiro e do Estado colombiano.
No Brasil, decidimos adotar a língua espanhola como segunda língua. Não estamos exigindo que nenhum país adote, de imediato, a língua portuguesa. Mas nós achamos que ainda estaremos vivos para ouvir qualquer colombiano falar um pouquinho de português, e os portugueses e brasileiros "hablarem um poquito de español".
Por isso, presidente Uribe, de coração, essa viagem faltava na minha vida, pela beleza de Bogotá, pelo carinho de Bogotá e pela certeza de que mais que um Presidente da Colômbia, Vossa Excelência é Presidente, amigo e companheiro do Brasil.
Muito obrigado.
