Palavras do presidente Lula na missa de celebração de Natal da Presidência da República

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Palácio do Planalto, 20 de dezembro de 2004

O Beto tocou num assunto que eu queria tocar, sem aprofundá-lo, porque não é essa a minha intenção, apenas dizer o seguinte: a fome não é uma coisa medida em pesquisa. Quem sente a fome é quem passa fome; e nem todo mundo que passa fome reconhece que passa fome.

Pode colocar o Ibope, pode colocar o Datafolha, pode colocar o Vox Populi, pode colocar todos os institutos de pesquisa para fazer uma pesquisa para saber se as pessoas estão com fome e, possivelmente, o resultado seja negativo, ou seja, dizendo que todo mundo, no Brasil, come e come bem.

Porque não é todo ser humano que reconhece que passa fome. As pessoas têm vergonha. As pessoas não sentem orgulho de dizer: "Eu passo fome" ou "eu não comi as calorias e as proteínas necessárias".

Por que que nós resolvemos dar dinheiro e não cesta básica? Porque, no Brasil, nós não temos problemas de alimento. Nós produzimos, per capita, alimento para sustentar toda a sociedade brasileira. E nós entendemos que o que falta é poder de compra de uma grande parcela da sociedade.

Eu, Beto, acho que essas coisas o tempo vai se encarregando de ir burilando e de ir mostrando quem está certo ou quem está errado. O dado concreto, que você pode ter certeza, é que nada vai fazer - a não ser quando acabar isso - o dia que eu tiver certeza que todas as crianças estão tomando café de manhã, almoçando e jantando, não precisa ter programa Fome Zero mais, não precisa.

Agora, os dados com que nós trabalhamos e a realidade de quem visita grande parte do Norte do país, grande parte do Nordeste do país, grande parte da periferia das grandes regiões metropolitanas deste país... porque a miséria não está apenas no semi-árido nordestino ou no Vale do Jequitinhonha, não. Ela está na periferia de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Salvador, do Ceará, de Recife. É só andar pela periferia, que a gente vai ver o que acontece com as pessoas.

Então, nós vamos continuar, Beto, pode ter a certeza que nós vamos continuar com o mesmo vigor, com a mesma força, tentando cumprir a meta que nós estabelecemos, de atender às 11 milhões e 400 mil famílias que, segundo o próprio IBGE, não têm condições de comer as calorias e as proteínas necessárias. Quando atingirmos esse número, aí nós vamos ver se precisamos dar mais ou se precisamos diminuir.

Eu penso que como a economia está vivendo um momento bom, nós vamos crescer bem este ano e as perspectivas de crescimento para o ano que vem são muito melhores. Nós já geramos, só este ano, quase 2 milhões de empregos com carteira profissional assinada. E todo mundo sabe que isso gera uma outra enormidade de empregos indiretos na economia informal.

E nós achamos que é isso. Nós não temos nenhum interesse em ficar dando Bolsa Família a vida inteira. Deus queira que, um dia, ninguém precise mais de Bolsa Família, ninguém precise mais do cartão do programa Fome Zero, que todas as pessoas estejam trabalhando e comendo às custas do seu trabalho. É esse o Brasil que nós sonhamos em construir, e é esse o Brasil que nós vamos construir.

A segunda coisa é a saída do Frei Beto. A minha relação de amizade com o Frei Beto é muito antiga, é mais antiga do que a idade que nós temos. Eu conheci o Beto em João Monlevade, Minas Gerais, em 1979. Eu fui para João Monlevade, para uma festa em que os trabalhadores metalúrgicos estavam homenageando o companheiro João Paulo Pires Vasconcelos, que era o presidente do Sindicato, dando um fusquinha de presente para ele. E eu fui um dos convidados.

Eu cheguei lá e me falaram: "O Frei Beto está aí". E eu fiquei olhando, no salão do Sindicato, para ver se eu via uma figura vestida de frei mesmo. Normalmente, aqueles capuchos marrons, com uma cordona no pescoço. Eu olhava, olhava e não via. Eu falava: "Acho que Frei Beto não veio".

E, de repente, levanta esse "meio quilo" aqui, lá do meio das pessoas, e me apresentam: "Esse é o Frei Beto". Aí, Gilberto Carvalho, como o cara é entrão, na semana seguinte já estava dormindo em casa. E, de lá para cá, a gente cravou - a palavra correta é essa - nós cravamos uma relação de amizade que perpassa qualquer coisa que vocês possam imaginar. É uma relação muito forte, é uma relação de companheiro, de irmão.

E o Beto, ao me procurar para deixar a vida de funcionário público, eu falei: "Olha, tudo bem, desde que você continue sendo funcionário informal". E eu não tenho dúvida nenhuma de que os três companheiros que eu trouxe para trabalhar como meus assessores, o Oded Grajew, o Ricardo Kotscho e o Frei Beto são três companheiros que, esteja onde eu estiver, sendo Presidente ou não, estando numa situação boa ou não, eu posso dizer para vocês que esses três companheiros, a nossa relação de amizade é tão forte que nós estaremos juntos, independentemente de eu ser Presidente, independentemente de qualquer coisa.

Eu não tenho dúvida nenhuma de que na hora que eu precisar do Beto, ou a dona Marisa precisar do Beto para pedir um serviço qualquer, aqui em Brasília, na China ou na Indochina, o Frei Beto não perguntará se vai de classe econômica, se vai a pé, se vai de ônibus, ele vai dizer: "Eu vou cumprir essa tarefa".

Por isso, o Beto apenas deixa o espaço físico aqui do Palácio, mas continuará dentro do espaço físico do coração das pessoas, no espaço físico da geografia brasileira, e continuará fazendo aquilo que ele sempre fez: tentar trabalhar muito, para ver se a gente consegue diminuir as desigualdades no nosso país.

Por último, eu queria agradecer a vocês. Eu tenho comentado muito com o Gilberto, comento com outros companheiros aí fora. Eu penso que todo mundo que veio para a máquina pública tem motivo de se orgulhar dos servidores públicos brasileiros. Obviamente que eu não posso falar por todos, mas posso falar pelas pessoas com quem convivo aqui dentro do Palácio.

Eu acho que as pessoas são mais abnegadas do que em qualquer outro setor da atividade econômica deste país. Se bem que a iniciativa privada tem a fama de que lá se trabalha muito e se ganha pouco e, aqui, nós temos a fama de que se ganha muito e se trabalha pouco, quando é exatamente o contrário.

Aqui se trabalha muito, se formam profissionais da mais alta competência, a quem se paga tão pouco que, às vezes, eles vão embora trabalhar na iniciativa privada para ganhar três ou quatro vezes o que ganham aqui.

Então, eu acho que um país que tem servidores públicos da qualidade dos que nós temos no Brasil, com contenciosos históricos que não são fáceis de recuperar em poucos anos, porque são dívidas de três décadas que vêm se acumulando na vida de vocês, e que nós achamos que pelo menos a construção da base, para que a gente possa recuperar isso, nós estamos fazendo.

Eu só queria lembrar a vocês uma coisa inédita: desde que no Brasil foi proclamada a República, este foi o primeiro ano, na história da República, em que houve um acordo entre o governo e os servidores públicos brasileiros. Todos os sindicatos, com exceção dos companheiros da Andes, e muitos aqui sabem porquê, assinaram um acordo coletivo com o governo. Isso nunca aconteceu, desde que Marechal Deodoro proclamou a República do Brasil.

Por quê? Porque nós criamos uma mesa de negociação, com sete ministros negociando, contratamos um companheiro que é especialista em negociação, que foi do Dieese durante 25 anos, e permitiu - porque esse é o desejo - tentar estabelecer um novo padrão de relação entre o governo e o setor público, entre o Estado e a sociedade.

Porque, no frigir dos ovos, nós somos passageiros aqui. Muito mais do que vocês, que prestaram concurso e têm um trabalho estável. Eu sempre faço a comparação de que nós somos o trem e o Estado é a estação do trem, ou seja, ela está sempre lá e nós é que passamos. Vem um, vai outro, um trem amarelo, outro trem verde.

O dado concreto é que se a nossa relação for bem construída, eu acho que ganha o Brasil, ganha o povo brasileiro, ganha o governo que por aqui passar e ganha o setor público, porque quanto mais felizes nós estivermos, mais trabalharemos com prazer, e o trabalho com prazer não tem preço, o trabalho com prazer não são dez a mais ou dez a menos, quando você se levanta para trabalhar prazerosamente, para fazer uma coisa que você quer fazer, que você gosta de fazer, não porque você tem obrigação. Esse é um desejo nosso, de construir, com as imperfeições que temos como seres humanos.

Por isso eu queria desejar a vocês um Feliz Natal. Que vocês possam, com os seus familiares, ter o Natal que vocês sonharam ter. E quando eu digo "o Natal que a gente sonha ter", não é o Natal da gula. Lá em casa, às vezes, nós passamos dois dias preparando comida, preparando comida e, quando chega no dia de comer sobra 90% da comida, porque as pessoas já beliscaram tanto que não querem mais comer.

Eu falo de um Natal prazeroso, de vocês estarem com aquelas pessoas que vocês amam, com aquelas pessoas que vocês gostam de verdade, e que todos estejam felizes, que todos estejam com saúde.

Então, quero desejar um Feliz Natal e um Feliz Ano Novo. Que a gente não se esqueça, nunca, da propaganda de auto-estima feita pela entidade de publicidade. Nós temos que, todo dia, levantar de manhã, olhar no espelho, pentear o cabelo, lavar o rosto, achar se a gente está mais ou menos bonito, fazer o que tiver que fazer, mas a gente tem que dizer todo dia: "Nós somos brasileiros. Nós não desistimos nunca. E vamos transformar este país, definitivamente, numa grande e próspera nação".

Feliz 2005 para todos vocês.

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