A noite de Taras
Tradução e adaptação, do poema de Taras Shevchenko,
para o português, de Shchoma Mykola Opanasovych (Mykola Szoma)
Sentado na encruzilhada
kobzar a kobza dedilhava;
ao seu redor,
jovens aos centos,
os sons deliciavam.
O kobzar tocava,
cantarolava
lindas frases, dizia --
de como no passado
a história se tecia...
-- Como a luta dos cosacos
com os moscovitas e
com os polacos se fazia...
Pela manhã, aos domingos,
reunia-se a comuna
pra levar o corpo
do bravo cossaco
à sua morada finda
-- na verde ravina.
O kobzar tocava tanto
que até fazia rir
a própria desventura...
"Era outrora a hetmanshchyna,
que não terá mais a volta!..
"
Tras-Lyman nuvens levantam,
mais outras dos campos,
Ukrayina entristeceu-se --
esta a sua sina!
Entristeceu-se e chora,
como criança pequena,
ninguém a consola...
Se os cossacos morrem,
morre a glória, morre a pátria,
não há como defender-se.
Nascem filhos sem batismo
-- filhos dos cossacos,
de donzelas que amaram
sem serem casadas;
sem bênçãos dos popes
também sepultaram,
porque da fé sua abdicaram.
Nem a igreja mais frequentam!
Como gralhas, campos cobrem,
"lyakhy" -- uniatas: tomam tudo,
não há como defender-se deles!
Se levanta o Nalyvaiko --
não bastou Kravchyna!...
Responeu Pavlyuha --
e no esforço perdeu-se!
Respondeu Taras Tryasylo
com amargas lágrimas:
"
Triste minha Ucrayina,
pelos lyakhy espesinhada!
Ukrayina, Ukrayina!
MInha mãe, querida!
Quando de ti eu me lembro,
o meu coração chora...
Onde foram parar os cossacos,
com seus casacões vermelhos?
Onde está da liberdade a sina?
Os bunchukes e os hetmanos?
Onde estarão... Já queimados?
Ou, talvez, já afogadas foram,
pelas águas azuis dos mares
as tuas montanhas altas e,
e as sepulturas-cova?..
Se calam os montes,
o mar esbraveja,
sepulturas tristes jazem, e
sobre os filhos dos cossacos
os poloneses prevalecem.
Espumeie o mar revolto,
calem-se os montes,
varra os campos... ó, vento bravo!
Chorem os filhos dos cossacos,
esta é, de todos, a triste sorte!.."
Responde Taras Tryasylo
para salvar a fé pura,
gavião-pombo também se apresenta,
e, aos "lyakhy", dão-se conhecidos!
Recomenda, senhor Tryasylo:
"Basta já de vida triste!
Vamos todos, irmãos-senhores,
batalhar contra os polacos!"
Já passaram-se três dias,
e três noites se passaram
que, as forças do sr. Tryasylo,
dos polacos aos danos deitaram.
Do Lyman até Trubaylo
campos vermelhos apenas restaram.
Já cansado -- esgotou-se,
o cossaco triste fraquejou
e o perverso Konetspolski
de repente se alegrou:
reuniu a shlyakhta toda
e feliz banqueteou!..
Reuniu seus camaradas,
quis Taras aconselhar-se:
"Otomanos-companheiros,
meus irmãos e filhos!
Dêem-me um conselho.
Que faremos nós agora?
O inimigo banqueteia, por
sobre a nossa estupidez".
"Pois que banqueteie --
desejemos-lhe a saúde!
Que os malditos se divirtam
até que o sol se esconda...
E a noite, mãe conselheira,
nos dará a sorte".
Escondeu-se o sol
por trás dos montes.
As estrelas já brilhavam.
Como nuvens, os cossacos,
aos polacos então cercavam.
Quando a lua prateava
os canhões bramiram --
e acordaram do seu sono
os fidalgos e suas senhoras...
Correr aonde iam nestas horas!
Acordaram do seu sono;
mas, não reagiram.
O sol novamente aparecia e,
no horizonte, dos fidalgos e
suas senhoras, sombras refletia.
Como serpente vermelha
o Alta espalhou a notícia -
que os corvos promovessem
uma festa de comes
à base da polaca delícia.
As aves rapinas
de pronto atenderam
e do sono dos adomecidos,
sossego tiraram --
seus olhos roubaram.
Os cossacos reunidos
a Deus graças deram.
Grasnaram seu canto:
as aves partiram;
e, do inimigo os olhos,
os cossacos não viram.
Então cantaram a noite toda
festejando a vitória. Triste e
dorida noite -- a noite de glória!
Ao Taras e aos cossacos, enfim
-- a sorte e a vitória sorriram...
Junto ao rio, em campo aberto,
silhuetas nas tumbas prosperam
-- do sangue cossaco derramado
o carmesim pigmento,
no verde dos arbustos, clausuram.
Canta o corvo sobre a tumba
mas, agora sente a fome...
O cossaco também chora,
saudade sente da sua vitória!
Houve antanho, quando havia
batalhas de glória --
houve antanho mil vitórias!..
Quando a pátria existia
e não se temia a morte,
viver era mais penoso --
mas o cossaco era forte!
Aquelas glórias do passado
jamais apagaremos
do nosso memorial obnublado!.."
O kobzar emudeceu
e cessou o canto
- triste ficou:
As suas mãos
não mais tocam.
E, ao redor,
meninos e raparigas
as lágrimas enchugam.
Perambulando pelos caminhos
e, vez em quando,
tocar a kobza ele queria
para espantar a sua sorte fria!..
De novo, a moçada dançar queria
e ele, sem nada mais, só dizia:
"Pois que assim seja!
Cuidem de si -- eu cuidarei.
Às máguas minhas eu fim darei.
Talvez, encontre a minha amada
junto ao cálice que ainda resta-me
-- eu beberei!"
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Esclarecimentos:
A "Noite de Taras" é um poema homenagem, ao heróico
episódio, de luta do povo ucraniano contra a shlyakhta
(nobreza) polonesa. A batalha se deu junto ao rio Trubaylo
em 1630 (localidade de Pereyaslav). O exércio polonês, sob
o comando de Stanislav Konetspolski, foi destroçado pelos
cossacos comandados por Taras Fedorovych (Taras Tryasylo).
Daí o nome do poema: "A noite de Taras".
Nalyvaiko - Otomano dos cossacos. Foi assassinado pelos
poloneses em 1597.
Kravchyna - Era o nome com que os cossacos se designavam
nos tempos do otomano Nalyvaiko.
Pavlyuha - Pavlo But, o cabeça do levante cossaco contra os
poloneses em 1637. Foi executado pelos nobres (shlyakhta) da
Polônia em Varsóvia.
Trubaylo é o nome popular do rio Trubizh, afluente
da margem esquerda do rio Dnipro. Alta é o nome
do afluente do rio Trubaylo. O rio Trubizh tem uma
extensão de 113 km e forma uma bacia de 4.700
km2.
