Primeiro pronunciamento do presidente Lula na celebração do Natal de Jesus - Encontro com Moradores de Rua

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São Paulo-SP, 23 de dezembro de 2004

Meu querido padre Júlio. Meu querido companheiro de tantas lutas, dom Cláudio Hummes. Minha querida companheira Marisa. Meu caro Patrus. Nossa querida prefeita Marta. Aloízio Mercadante. Eu vi chegar o Suplicy, que eu não sei onde está, mas ele chegou, está aqui atrás. Meu caro Eduardo. Minha querida Aldaíza, que me convidou para conhecer o Projeto Boracea. Meus companheiros e companheiras. Querido Filippi, prefeito de Diadema. Meus companheiros e companheiras, homens, mulheres e crianças que da rua tiram a sua condição de vida.

Eu me lembro que a minha primeira reação, padre Júlio, quando soube da notícia, foi dizer ao jornalista que me fez a pergunta que era difícil a gente crer que tivesse, no mundo, ser humano com uma mente tão insana, tão maldosa, capaz de matar pessoas que estavam dormindo e com pouca possibilidade de se defenderem.

Logo em seguida, liguei para o ministro Márcio Thomaz Bastos para dizer para ele que era preciso que fizéssemos o esforço que fosse necessário para que a gente desvendasse os responsáveis pela barbárie que aconteceu com sete pessoas aqui, em São Paulo e, depois, em outros estados da Federação.

Eu penso, padre Júlio, que o que fica de tudo isso é que nós que nascemos e fomos postos no mundo para sermos perfeitos somos, às vezes, mais imperfeitos do que aqueles que nasceram para não serem perfeitos.

Há muito tempo eu venho dizendo que há um processo de desagregação na estrutura da sociedade brasileira, a começar pela família, que pode resultar em muitas coisas ruins que a gente não esperava que acontecessem.

Muita gente, às vezes, acha que isso está ligado apenas à questão de as pessoas serem pobres. E eu sou daqueles que acham que a pobreza não leva à violência, a pobreza não leva a pessoa a ser ladrão, a ser marginal. Eu fico sempre pensando que se fosse a pobreza, na minha família não tinha escapado ninguém, porque eu morei na Vila Carioca durante muito tempo. Morei num quarto e cozinha, com 13 pessoas morando dentro da casa, numa situação de pobreza como muitos ainda vivem hoje, e todos conseguiram sobreviver, casar e construir família, aprender uma profissão e trabalhar. Por quê? Porque tinha uma estrutura maior que, muitas vezes, a gente despreza, que é a estrutura da família, que é o apego, o aconchego do pai, da mãe, do irmão, do tio. Ou seja, coisa que está ficando difícil nos dias de hoje.

Quando eu vejo uma reportagem de uma menina se prostituindo, aparece, de vez em quando, alguém e fala: "Ah, é por causa da miséria". A miséria explica apenas uma parte, mas a outra parte, podem ficar certos, está ligada à desestruturação de parte da família brasileira.

Eu me lembro que a gente passava fome e ninguém imaginava roubar um pedaço de pão, porque tinha uma mãe que dizia para a gente que não era possível roubar.

E nós percebemos que isso tem se espalhado pelo Brasil. Tem dezenas de fatores que podem contribuir para que aconteça um ato insano como esse, da morte de pessoas. Como esse, agora, em Brasília, em que um jardineiro da casa mata uma menina de 19 anos.

É impensável a gente saber quantas pessoas anônimas trabalham dentro de casas de família, cuidam de crianças e a gente não sabe o que pode acontecer, como também a gente não sabe o que vai acontecer quando a gente sai à rua.

Hoje, nem dentro de casa se tem mais sossego. Esses dias, aqui em São Paulo, pegaram o nosso companheiro, que mora ali perto da USP, ficaram cinco horas dentro do bloco de apartamentos em que ele mora e roubaram os 11 apartamentos, com todas as famílias dentro.

Nós vivemos um momento - e eu quero encerrar esta primeira parte dizendo isso, Padre Júlio - em que todos nós estávamos preparados para enfrentar a questão do crime do chamado ladrão comum, do assassino comum. Nós não estávamos preparados para enfrentar o crime organizado, que é uma indústria nacional e multinacional.

O crime organizado tem seu braço político, tem seu braço no Poder Judiciário, tem seu braço na indústria, tem seu braço em tudo quanto é lugar. Então, é uma coisa muito sofisticada, é preciso todo um reaprendizado, e é uma tarefa a que o doutor Márcio Thomaz Bastos está se dedicando a construir as bases, para que a gente possa enfrentar com muito maior evidência, com muito mais força.

Eu quero dizer para os companheiros que eu nunca catei papel na rua. Eu vendia tapioca, laranja, amendoim e, de vez em quando, tomava um cascudo do meu irmão porque eu tinha vergonha de gritar. Mas era um tempo bom. Era um tempo em que a gente saía para a rua, não tinha bandido; era um tempo em que não tinha violência, que não tinha atropelamento. Era um outro momento, que não é o momento que vocês vivem hoje.

Eu estou convencido de que o que aconteceu com sete pessoas aqui, em São Paulo, mais três em Pernambuco, em Belo Horizonte, é apenas uma luz que nos mostra que temos que continuar fazendo muito mais.

E podem ficar certos, não é questão da lei, não é apenas questão da polícia. Nós precisamos recuperar, no Brasil, duas palavras que são sagradas: fraternidade e solidariedade. Nós temos que recuperar essas duas palavras e, aí, não adianta o Congresso votar uma lei dizendo: "Todo mundo é obrigado a ter ações de fraternidade" ou "Todo mundo é obrigado a fazer ações de solidariedade". Isso não existe em lei. Isso existe numa política de convencimento, de conversar, com a cabeça das pessoas, com o coração das pessoas.

Eu quero que vocês saibam que quando acontece uma coisa dessas, ou quando morrem os fiscais do Ministério do Trabalho que foram fiscalizar o trabalho escravo, é como se a gente estivesse perdendo um companheiro de longos e longos anos, um companheiro de longa data, porque é sempre uma pessoa boa, é sempre uma pessoa de bem que morre nessas coisas, não são os que praticam a maldade.

Por isso, padre Júlio, eu sei do seu trabalho, eu sei da sua dedicação, sei do trabalho da Igreja aqui, em São Paulo, uma coisa histórica que está enraizada, incrustada. O que eu posso dizer, meu querido padre Júlio, é o seguinte: como ser humano, muito menos como Presidente, mas como ser humano - porque estou Presidente, mas amanhã poderei não ser Presidente - eu sinto isso como se fosse na própria pele. E eu estou convencido de que nós precisamos encontrar um jeito de fazer homens e mulheres serem mais fraternos, mais irmãos, mais companheiros, nos bons e nos maus momentos.

Eu acho que é possível isso. É só a gente acreditar. E, para mostrar que é possível, Júlio, quando um companheiro como o Antônio sai da Itália e vem para o Brasil prestar solidariedade aqui, o tanto de vezes que ele vem. Porque esse Antônio, Aloízio, vem aqui pelo menos umas 30 vezes por ano. Ele faz campanha na Itália, faz campanha, arruma dinheiro, vende coisas do Movimento e vem trazer aqui.

Quando a gente consegue mexer com o coração de um italiano com uma cara dura como a do Antônio, por que a gente não pode mexer com o coração de milhões e milhões de homens e mulheres?

Então, meu caro, eu quero que você saiba que eu sou não o Presidente da República, eu sou soldado, para que a gente possa enfrentar essa situação.

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